Sobre Aliens E Irmãos
11 I - Décimo II - Sobre Apostas e Ligações
Notas iniciais

Com algum esforço, a senhora esticou-se um tanto mais para alcançar a prateleira mais alta. Se fosse mais nova, poderia levantar-se na ponta dos pés, mas já não era capaz de tal proeza. E isto era para que aprendesse: aquela casa precisava de uma organização urgente, adaptada àquilo que um dia afetava iria afetar a todos ― o avanço da idade.
Apanhou uma das cinco embalagens de que precisava, e prestes a levar adiante o processo, foi interrompida por um rapaz atrás de si mesma. Sem dificuldade, pegou os quatro pacotes restantes e envolveu-os com um dos braços enquanto o outro fechava a porta do armário. Sabia muito bem quem havia feito isso, mesmo antes de virar-se para ele. O neto a fitava com um largo sorriso no rosto maculado por uma única e pequena cicatriz.
― Hinata, ‘ocê “num” precisa “fazê” isso ― reclamou a mulher, com o sotaque carregado do local. ― Eu ‘inda tenho pernas p’ra “alcançá”.
― As minhas são mais longas, vó.
Shintani não deixara de sorrir, mesmo com a bronca. Afinal, sentira saudade até mesmo delas durante o tempo no qual não os visitara. Faziam alguns meses, e mesmo que os telefonemas fossem semanais, não supriam a vontade que só o contato, a presença física eram capazes de suprir.
E não conseguia permanecer irritada com ele muito mais tempo. Ainda era capaz de sentir o abraço que o moreno dera em si mesma e no avô tão logo os viu ― longo, apertado, cheio de afeto. Não importa o quanto seu garoto (que já era um homem) crescesse ou amadurecesse, a essência bondosa e animada ainda estava intacta.
― Oh, menino sem jeito ― resmungou, resignada.
― “Deixa” ele, Fumiko ― aconselhou o marido logo que adentrara no cômodo. Apontou para trás: ― Ele deve ‘tá se exibindo p’ra namorada.
― O quê?! ― indignou-se o rapaz; as bochechas rapidamente adquirindo um aspecto avermelhado.
Das costas do senhor, surgiu Suzuna, cujo olhar curioso fez com que ele se constrangesse mais. Na verdade, os avós se surpreenderam com a pequena: Hinata não apenas viera com os centímetros extras desde a última vez, mas com a namorada que diferia do que imaginavam. Nunca iriam pensar que ele escolheria alguém tão diferente de si mesmo em muitos aspectos: uma garota alguns anos mais nova, tranquila, analítica.
E que gostava de deixá-lo desconcertado, embora disto eles ainda não soubessem. Quando deixaram ambos a sós, a Ayuzawa mais nova fitou-o fixamente com satisfação. Para a maior parte das pessoas, algumas das ações da colegial eram incompreensíveis, mas aos poucos ele aprendera a identificá-las. Queria lhe dizer alguma coisa, e murmurou para que só ele ouvisse:
― Já disse que adoro seus avós, You-kun?
― Algumas vezes ― concordou, um pouco mal-humorado com a diversão dela.
No entanto, nem mesmo ele estava preparado para as artimanhas da baixinha sortuda. Porque a verdadeira intenção de Suzuna não era apenas comentar aquilo: com destreza, estendeu-se na ponta dos pés e o alcançou num beijo breve, embora urgente. E o pré-vestibulando mal conseguiu reagir apropriadamente, pois o lábio inferior foi mordido e ela afastou-se. Com um sorriso de canto, sussurrou ao deixar a sala:
― Desprevenido.
Como de costume, corou com o gesto de maneira automática. Principalmente porque ela o fizera com as madeixas ainda soltas. Desde que emprestara as presilhas para Makoto na estação, o cabelo de comprimento médio permaneceu livre, um pouco desalinhado até ― e isto de alguma maneira a deixava muito mais linda que o habitual. Ora, ora, estava rendido. Completamente rendido.
No entanto, não havia tempo a se perder. Sabia que a namorada foi à cozinha ajudar no preparo da refeição, e fez o mesmo ao dirigir-se até onde o avô se preparava para abastecer o pequeno armazém com o estoque de sacos de adubo, sementes e mudas.
Esforçou-se mais que o normal, apanhando tudo que era mais pesado e carregando-os com rapidez, para que restassem as poucas cargas mais leves restantes para o senhor fazendeiro. Contudo, Shintani Yoshimasa não era bobo e, ao perceber o que o neto fazia, deu-lhe um forte tapa na nuca ― o rapaz encolheu-se com a dor. Ainda agachado, observou tudo o que haviam transportado, em pouco mais de uma hora. A luz solar tornava-se alaranjada no horizonte. Suspirou, relaxado:
― Até que deu tempo.
― “Ocê” me parece muito feliz, Hinata ― comentou o avô, improvisando o espaço livre de uma prateleira mais baixa como banco. Encarou o moreno: ― Conseguiu o que queria quando saiu daqui?
Sabia sobre o que ele dizia: quase três anos atrás, deixara de morar com os únicos parentes vivos para dedicar-se à procura de um amor de infância. Realmente encontrara Ayuzawa Misaki, mas esta já estava apaixonada por outra pessoa, o que lhe rendeu a primeira (e, enquanto durou, sofrida) desilusão amorosa. Aquele era um assunto difícil, para não dizer complicado. Afagou os próprios cabelos, embaraçado, e foi sincero ao resumir:
― Não exatamente... Na verdade, aconteceu comigo muito mais do que eu esperava.
― E isso tem a ver com aquela pequenininha?
Ora, por que achou que isto escaparia do olhar atento do homem de cabelos grisalhos? Ergueu-se sobre as pernas, inclinando as costas contra o grande portão, e enquanto falava as íris castanhas permaneceram desfocadas ― como se estivessem concentradas em organizar todos os fatos e pensamentos até ali.
― Eu... ‘tava enganado quanto ao que eu sentia em relação a Misaki-chan. ― Complementou, mais baixo: ― Mas olhando hoje eu até que agradeço por não ser correspondido. ― Enfim olhou para aquele que considerou um pai durante anos: ― E a Suzuna-chan me apoiou bastante nessa época, sabia?
― Ou seja ― bufou Yoshimasa. ― Meu neto é um tapado que nem percebe quando uma garota gosta dele.
― E-Ei! ― Enrubesceu, porém não havia como negar. Disse quase para si mesmo, com um leve sorriso nos lábios: ― É, eu realmente fui um tapado. Um tapado muito sortudo.
Influenciado pela sinceridade do neto, o senhor Shintani expeliu sua risada característica: uma mescla de tosse e gargalhada, cujo som diminuía conforme ria cada vez mais, até sumir por completo e reiniciar quando recuperava o fôlego. Mesmo que de início incomodado com a zombaria, logo o rapaz uniu-se ao avô, rindo dos próprios erros. Como sentira saudades de tudo aquilo!
Principalmente daquilo que demorara anos para compreender o extenso valor: os conselhos de alguém cuja vivência e experiência poderiam lhe ensinar muito. Quando os risos abrandaram-se até cessar, o mais velho disse-lhe uma sentença simples, porém séria e cheia de significado. Carregada de boas intenções, porque embora quisesse o bem estar do garoto, era nas mãos dele que estava o poder de conduzir a própria vida.
Pouco tempo depois, ouviram o chamado estridente de Fumiko anunciando o jantar. Aos resmungos, acompanhou um Hinata faminto. Isto também havia se mantido intacto, lamentou. Percebera como a esposa alegrara-se com tanta gente reunida à mesa ― o contraste com a ausência do casal mais novo era nítido.
Surpreendeu-se quando a senhora elogiara os dotes culinários de Suzuna, pois a dona de casa era conhecida por ser orgulhosa quanto à própria cozinha, frequentemente recusando quem quer que fosse ajudá-la. No entanto, chegou a alegar (de maneira bem humorada) que o neto a escolhera por ser uma ótima cozinheira, e o que naquelas terras eles costumavam chamar de “cara de paisagem” converteu-se num sorriso de canto no rosto da pequena Ayuzawa, enquanto assistia o namorado negar tão absurda ideia.
― Quero saber quando vou ver meus bisnetos ― questionou, sem receios, durante a refeição.
Assistiu Hinata arregalar os olhos, e então empalidecer, engasgar, ruborizar para então protestar que ainda era muito cedo, já que a garota ainda tinha 16 anos e cursava o segundo ano do colegial. Esta, contudo, adquiriu um exótico brilho no olhar, antes de afirmar que desejava três crianças cujos nomes eles deveriam decidir juntos.
Conforme notou, mesmo com a aparente serenidade, a morena divertia-se com a falta de jeito de Shintani ao lidar sobre o assunto, e ele exasperava-se cada vez mais enquanto a calma dela parecia apenas crescer. Internamente, o avô sorriu ― afinal, não deixava de ser um “velho rabugento”, como sempre lhe denominava a mulher.
A relação do jovem casal era, apesar de todas as falhas, afetuosa e recíproca: Suzuna nunca foi uma substituta, como temera quando o neto lhe contou sobre o namoro. De algum modo, conseguira preencher por inteiro o coração do rapaz. E só tinha a agradecê-la por fazer dele tão feliz.
Lembrou-se do que dissera, tão pouco tempo antes: “Proteja essa sorte, Hinata.” Torcia para que ele nunca quebrasse essa promessa.
***
Estava exausto. Entretanto, também estava faminto ― e hoje, segundo bem lembrava, era seu dia de preparar o jantar. Ou seja, não havia como conciliar os desejos, e se não quisesse relaxar do dia estressante com o estômago roncando, o melhor era preparar algo para comer. Ou melhor, comerem. Porque sempre cozinhava para duas pessoas.
― Cheguei ― anunciou o ruivo ao cruzar o vestíbulo. Do alto da escada, surgiu a cabeça da irmã, cujas longas madeixas estavam presas de modo caprichoso: ― Hey, está de saída?
― Hoje é a maldita festa, esqueceu? ― respondeu Yukari, enquanto descia. ― Nós fomos convidados.
Vestia um roupão qualquer, apesar do penteado e maquiagem impecáveis. Deveria estar se arrumando quando chegara, pensou. E esquecera-se completamente do tal evento social para o qual os gêmeos receberam o convite, até porque haviam se desligado da família Mirikamo. Assim como da própria mãe. Como sempre, pensar nela lhe fazia mal, e Hiyoru preferiu ser indiferente.
― Bem, tanto faz. ― Deu de ombros. ― Recusei o convite mesmo.
― Yoru, você-
― Eu não quero que você fique por minha causa ― interrompeu, sério. ― Você precisa disso, não é? Então vá, oras.
Desagradável, o silêncio estabeleceu-se entre eles. Afinal, há poucos anos prometeram a si mesmos nunca mais envolver-se naquele mundo sujo da nobreza, depois do que acontecera. No entanto, o que estava em jogo era uma chance para que a garota pudesse levar adiante o sonho de ser uma grande violinista. Queria desesperadamente aquela bolsa, já que a faculdade era muito cara para que pagasse sozinha ― e de maneira alguma aceitaria o dinheiro da família ou da mãe.
Mas o preço a se pagar era alto: ver-se de novo envolvida no meio que mais desprezava, ao redor de pessoas que achava repugnantes. Mais que isso: reconhecer entre elas alguns rostos. Rostos dos quais queria esquecer, assim como do inferno em que estes transformaram sua vida e de seu irmão. Controlada como era, era capaz de domar a própria raiva e frustração ao evitá-los, mas a sensação de que traía Hiyoru somente permanecia e se alastrava como uma doença.
― Pare de fazer essa cara complicada. ― Com um peteleco na testa, puxou-a de volta para a realidade. ― Isso irrita.
Após um pequeno sobressalto, riu da forma simples com que o rapaz quase idêntico a ela lidava com os problemas. Sentiu-se boba, até, por pensar que ele poderia julgá-la. Ele, dentre todas as pessoas. Onde estava com a cabeça?
Apesar do horário restrito, já que Igarashi iria buscá-la dentro de uma hora, interrompeu quaisquer preparativos para comer ― estava também faminta depois de dedicar grande parte da manhã e da tarde fazendo suas tarefas. Ambos moravam com o pai, e este passava grande parte do tempo em congressos e reuniões. Ou seja, basicamente viviam sozinhos, e dividiam entre si as obrigações da casa. Como o garoto cozinhava muito bem, na maior parte das vezes ficava responsável pelas refeições.
Adorava assisti-lo cozinhar, na verdade. Zombar do avental que dera de presente para ele no aniversário retrasado era divertido: o tecido rosado, com babados infantis e um laço espalhafatoso, era um ótimo alvo para provocação. E como de costume, Hiyoru rebatia de modo rabugento, concentrado no preparo da comida. Imaginava que devia fazer o mesmo com o presidente, e o pensamento foi convertido em palavras:
― Como foi?
― Como foi o quê?
― Com o Kanou ― disse como se fosse óbvio. ― Você saiu para ensinar ele, não é?
― “Ensinar” não se aplica nesse caso se ele não quer aprender ― replicou ele, aplicando mais força que o necessário para homogeneizar a mistura. Nenhuma das memórias era lá muito agradável.
― Difícil de lidar? ― riu Yukari, pois já sabia do acordo entre o irmão e o colega do Seika.
― Pare de rir, desgraçada ― reclamou, mal humorado. ― Você não sabe o que é lidar com um cara que é capaz de se arrepiar se uma garota olha para ele fixamente.
Era inacreditável! Como Kanou conseguira viver tanto tempo daquela maneira? Mais parecia ter desenvolvido alguma bizarra alergia às pessoas do sexo feminino, de tão exageradas que eram suas reações. Para não dizer ridículas: todas as tentativas de aproximação, conversa e contato visual com uma mulher foram inúteis e capazes de tirá-lo do sério. Qual era o problema com ele?
― E porque faz isso se te estressa tanto? ― indagou a ruiva, com um sorriso sugestivo. Encarou-a mal humorado:
― Se sabe a resposta, por que pergunta?
Não precisava que ninguém lhe dissesse que era bonzinho demais: ele mesmo sabia. Odiava a sensação de impotência, e por isto desenvolvera alguma compaixão pelos que se viam desamparados e estavam dispostos a mudar. Afinal, para ele valiam muito mais do que os que se diziam fortes, mas cujas reclamações eram infinitas. E, mesmo com todos os problemas, o presidente do Seika parecia alguém por quem sentia que o esforço não seria desperdiçado ― enxergava muito potencial naquele introspectivo moreno de óculos e capuz.
Hiyoru era um ótimo garoto, mesmo que não admitisse, pensou a irmã. Não era como muitos a propagandear as próprias qualidades para alimentar o reconhecimento dos outros. O conhecia bem: o ruivo era impulsivo, movido por ações e não por palavras. Talvez, o indivíduo mais admirável que conhecera, embora nunca fosse lhe dizer diretamente para que o ego dele não o tornasse insuportável. Preferiu provocá-lo mais, ao cantarolar:
― Ou talvez seja por outro motivo?
― Eu sei o que está pensando e é melhor parar ― interceptou, ríspido, enquanto levava o jantar de ambos para a mesa. Retirou o avental e, num gesto breve, agradeceram pela refeição.
― Você deveria dar uma chance a ele ― incentivou, antes de uma mordida. Ah, como ele era capaz de cozinhar algo tão simples e delicioso? ― Kanou parece ser um cara legal.
― O mundo não funciona assim, Yuka-chan.
― O quê? ― Indignou-se levemente com a descrença dele. ― Você acha que ele é um hétero com medo de mulheres?
― Pouco provável. ― Interrompeu-se para mastigar. ― Mas nós estamos bem assim. ― Bufou com o rumo da conversa, desviando os olhos verdes. ― E nem sinto nada por ele.
― Que graça. ― Yukari sorriu maliciosamente. ― Como é romântico.
― Comparado a você, qualquer um é romântico dos mais bregas.
Com a réplica ácida, o sorriso da gêmea tornou-se mais amplo, como se não discordasse do que fora dito. Era verdade: não dedicava qualquer atenção ao amor, paixão eterna ou qualquer um de seus sinônimos e derivados. No entanto, não era cética com relação a relacionamentos estáveis ou aos casais apaixonados ― apenas indiferente. Portanto, não via qualquer problema em se envolver com alguém sem quaisquer sentimentos envolvidos, e insistiu:
― Podia chamá-lo para sair.
― E dizer o quê? ― Preparou-se para a atuação, simulando uma fajuta voz sedutora: ― ‘Hey, eu nunca te disse, mas eu gosto mesmo é de homem. Quer transar no corredor?’
Com a espontaneidade de Hiyoru, riu antes de ironizar: ― Você é bem direto, hein?
― Me conhece há dezessete anos, já deveria saber ― revidou ele, revirando os olhos.
Um dos aspectos que mais gostavam naquela casa, apesar do tamanho humilde, era sem dúvidas a duplicação de certos mobiliários, adequados a um casal de gêmeos. Duas camas de solteiro no quarto, dois lavatórios no banheiro social, duas pias na cozinha. Assim, logo ao terminarem, lavaram juntos a louça, cada um em seu respectivo espaço. Geralmente competiam para definir quem o fazia com mais rapidez, mas desta vez somente se entretiveram com brincadeiras sem propósito.
― Hey, Yoru ― chamou ela quando estavam prestes a acabar.
― O que é?
― Você já transou no corredor? ― perguntou, sem qualquer pudor. E, antes que o rapaz atirasse um prato em sua direção, deixou a cozinha às gargalhadas.
― Morre, Yukari ― Da escada, ouviu ele queixar-se, embora fosse perceptível que estava rindo também.
Suspirou enquanto subia. Sabia que estava sendo inconveniente insistindo tanto assim. Contudo, era impossível evitar, assim como era impossível não ficar preocupada. Conhecia o idiota como ninguém para saber que não estava perfeitamente bem ― poderia ter superado tudo o que se passara, mas algo mudara dentro dele.
E não iria descansar enquanto ele não provasse que estava errada. Como irmã, já fizera tudo ao alcance, mas havia os âmbitos nos quais era incapaz de agir, e isto a frustrava tanto! Por isto estava tentando ajudar, da maneira que sabia. Começar um novo romance não seria a solução de todos os problemas, mas acreditava que era um sinal de que tudo estava voltando à normalidade. Porque nunca vira como algo anormal a homossexualidade do outro.
Não demorou muito para se vestir: era apenas uma peça, e os saltos estavam no vestíbulo do térreo. Olhou-se rapidamente no espelho, ajeitando o penteado e conferindo a maneira com que o tecido se ajustara bem ao corpo esguio, antes de descer novamente. Num vislumbre, percebeu que Hiyoru estava entretido em algum jogo na sala, porém mal apareceu e atraiu de imediato a atenção dos orbes idênticos aos seus.
― O que tem assim de tão espantoso? ― surpreendeu-se.
― Foi Taiga quem te deu esse vestido?
Sempre achara engraçada a forma com que o irmão chamava Igarashi. Taiga. Os nomes tinham o mesmo significado (tigre), ainda que a versão do gêmeo fosse, à falta de palavra melhor, mais fofa. E apesar de entender porque ele lhe perguntara aquilo, respondeu como se quisesse que ele prosseguisse o raciocínio:
― Sim, não tenho mais nenhum ― Tinha queimado ela mesma todos os que possuía num incidente do qual não gostava de lembrar.
― Esse cara realmente quer te comer. ― Gargalhou, relaxado no sofá.
Bem, a roupa não era indecente. Alcançava os joelhos, e o decote do tomara-que-caia não era nada extravagante. Porém, era desta maneira que transmitia sensualidade: apertava-se aos contornos dos seios e da cintura de Yukari, deixando muito para a imaginação. Após o laço largo que fazia a transição para o quadril, o tecido soltava-se das curvas das coxas, num contraste ao topo mais justo.
Combinado ao corpo bem desenvolvido da colegial, era capaz de impressionar. Além disso, a cor negra diferia-se do tom cremoso da pele, assim como das madeixas rubras e vivas. Como esperado, Tora fizera uma ótima escolha, ainda que esta deixasse ainda mais explícitas as suas intenções. E isto não mudava nem um pouco a repugnância que sentia por ele. Na verdade, apenas crescia com o tempo.
― Nossa, Yoru, obrigada por dizer o óbvio ― agradeceu, sarcástica.
De súbito, uma ideia surgiu na cabecinha ruiva do garoto. Como não pensara nisso antes? Propôs, com um sorriso largo e travesso nos lábios:
― Ei, ei, vamos apostar.
― Mais jogos? ― zombou a irmã.
― Qual é, faz tempo que não apostamos. ― Provocou, ciente de que iria atraí-la: ― Estou com saudades de ganhar.
― Pretensioso ― insultou ela, crispando os olhos. Bingo.
― O que posso fazer, não? ― brincou, para em seguida tratar dos termos do acordo: ― Aposto que você vai acabar gostando dele antes que ele desista desse seu gênio péssimo.
Ainda que não quisesse admitir, sentia-se emocionalmente envolvido naquela causa. Afinal, Yukari sempre se mantivera (ou ao menos aparentava estar) quase intocada pelos sentimentos de qualquer rapaz. Fosse a noção impassível que tinha sobre amor, ou algum trauma que desenvolvera, nunca gostara de verdade de alguém. E queria muito vê-la verdadeiramente apaixonada uma vez na vida. Além disso, a sensação de ganhar era sempre ótima.
― Você está me subestimando descaradamente ― ultrajou-se a garota. ― Como sempre.
― O que foi, onee-chan? ― Reclinou-se contra o sofá, apoiando a cabeça sobre os braços dobrados atrás da nuca. ― Medo de perder?
Existiam poucas coisas no mundo que Mirikamo Yukari odiava mais do que ser chamada de onee-chan por alguém que nascera apenas cinco minutos depois dela. Como ser subestimada descaradamente. Ao unir as duas circunstâncias, o mais novo conseguira de imediato que ela aceitasse os termos:
― Um mês de todas as tarefas domésticas para quem perder ― desafiou ela, irritada.
― Três meses e eu aceito.
Alargou o sorriso ao aumentar o risco. Se era para apostar, que fosse algo de verdade. Além disso, trapaças eram vetadas entre os dois ― fosse alguma habilidade sobrenatural de gêmeos ou somente coincidência, o outro sempre descobria. Por alguns segundos, a ruiva pareceu examinar todos estes fatores, mas acabou cedendo:
― Certo, certo. ― Como se no momento exato, a campainha soou. ― Pode atender? Vou procurar meu celular.
Enquanto repetia o gesto de subir os degraus pela enésima vez naquele dia, Hiyoru foi abrir a porta. Estava curioso, na verdade, pois já sabia quem o esperava por detrás dela. Para Igarashi, no entanto, foi uma surpresa quem o recepcionou daquela vez.
Desde o início soubera que Yukari tinha um irmão gêmeo, embora nunca tivesse o visto. E confirmou, enfim, que apesar da diferença de sexo, eram idênticos em quase todos os aspectos. Numa medição aproximada, deveriam ter a mesma altura, ainda que os corpos diferissem por motivos óbvios. As feições, contudo, carregavam muitas semelhanças: a mesma textura acetinada da pele, o mesmo tom das íris, até o mesmo semblante insolente. O que mais os diferia era o comprimento dos fios, pois apesar da cor equivalente, os dele se desenvolvessem mais curtos e rebeldes, enquanto os da garota desciam quase comportados até a cintura. As franjas eram parecidas, até.
Mas já estava preparado para imprevistos, e acima de tudo, para apresentações repentinas. Afinal, transmitir a melhor impressão possível era uma de suas especialidades, mesmo que isto fosse uma mentira bem contada para que atingisse seus objetivos.
― Você deve ser o irmão de Mirikamo-san. ― Compôs o melhor sorriso.
― Ah, então é isso que ela quis dizer que você atuava de forma irritante.
Até mesmo o tom ao desmascará-lo era idêntico, mesmo que as vozes não o fossem. Então a personalidade deles também tinha muitas semelhanças. Sentia-se à frente da versão masculina da acompanhante, tal a absurda igualdade. E, de alguma forma, Hiyoru parecia avaliá-lo ― o que era algo estranho, já que era normalmente ele a fazer isso. Aqueles irmãos eram igualmente excêntricos.
― Então já conheceu o Yoru, Igarashi.
Ambos voltaram-se na direção de quem dissera, e encontraram Yukari pronta, já de sandálias calçadas. Como bem observou o loiro, o vestido ficara ainda melhor sobre o corpo dela. E as longas madeixas, presas de modo displicente, deixavam cair alguns fios aqui e ali, mas o pescoço permanecia desobstruído, assim como os ombros. Estava linda, elegante, gostosa ― quaisquer que fossem os elogios, poderiam ser aplicados.
― Ele é realmente seu irmão ― concordou, sarcástico.
Riram com o comentário previsível: sempre diziam isto ao conhecê-los. Desta vez, o ruivo estava despreocupado. Já conseguira o que queria, e relaxou ao afastar-se da porta para abrir caminho para a gêmea. Enquanto esta passava por si mesmo, disse para o “casal”:
― Nah, divirtam-se. ― Sussurrou só para ela: ― Você perde. E feio.
Foi este o resultado de sua avaliação como irmão: ela não iria resistir. Não a um homem mais velho, lindo, abusado, cuja personalidade cafajeste eventualmente seria capaz de repeli-la e atraí-la de forma simultânea. Ignorou-a quando o fuzilou com os olhos, tamanha a euforia. Três meses sem cozinhar, que folga!
***
Sentiu como se fosse a primeira vez que erguesse o rosto desde que entrara na sala. Assustou-se, até ― o sol no horizonte denunciava o fim da tarde, e segundo se lembrava, chegara ali logo pela manhã. Como o dia passou tão rápido?
Ao menos adiantara-se bastante: basicamente, todos os figurinos estavam prontos. Restava a Aoi somente guardá-las no armário do clube até o dia do evento, já que não confiava no próprio lar. Desde a última briga que teve com o pai, no qual quase teve metade das roupas rasgadas por ele, passara a costurar no colégio. É claro, não podia ajeitá-las à noite como costumava fazer, e o processo foi bem mais lento que o previsto, mas todas permaneceram a salvo. E estavam prontas, enfim!
Suspirou, aliviado e orgulhoso ao fitar o fruto de seu próprio trabalho estendido em vários cabides. A sensação de dever cumprido só não ultrapassava a satisfação que teria quando todas as maids vestissem suas respectivas fantasias. Afinal, quando finalmente comprovava o quanto o seu esforço se convertera em algo que realçava a beleza de cada uma delas, reconhecia cada vez mais que o caminho que escolhera trilhar nada tinha de estranho ou incorreto.
Contudo, também estava exausto. O que mais queria era voltar para a própria cama e mergulhar-se nela- Oh, droga! Lembrou-se subitamente da prova que teria dali a alguns dias enquanto trancava a porta do clube de sorteios com o chaveiro emprestado por Suzuna. Apressado, foi até a biblioteca procurar algum material de estudo, pois se as notas caíssem em qualquer uma das disciplinas os pais teriam motivos para afastá-lo do Maid Latte. A primeira promessa feita à família era que nada iria afetar seu desempenho.
Após informar-se com a bibliotecária, passou a procurar pelo livro que atenderia suas exigências. E, enquanto buscava por um título em específico, avistou não muito longe dali uma silhueta conhecida. O que fazia Handanryoku Shouki ali, numa tarde de sábado não saberia dizer. Não conseguia acreditar que ele viera ali somente para ler sossegado. Afinal, poderia muito bem fazê-lo em casa, não?
“Foco, Aoi, foco!” exigiu de si mesmo, voltando a atenção para as lombadas dos livros. Gastar tempo com um idiota era inútil, e felizmente ele nem pareceu percebê-lo. Segunda Guerra Mundial, Era Meiji, Crise Econômica da década de 80... Porcaria, por organizavam os títulos segundo o sobrenome do autor e não sobre o tema?
Quando a frustração pareceu atingir limites críticos, foi em direção à estante seguinte para talvez encontrar o volume ali. No percurso, notou que o rapaz de cabelos negros não estava mais sentado onde o vira de início. Possivelmente, havia deixado a biblioteca e voltado para casa, como alguém normal, mas um instinto no fundo de sua mente dizia que ele ainda estava ali ― e não era nem um pouco normal.
Discretamente, passou a caçá-lo entre o labirinto de páginas, afastando-se da posição em que estava. No que acreditava ser de maneira sutil, procurou-o entre os corredores de livros, ou melhor dizendo, o habitat daquele espécime bizarro de ser humano. Ao perceber que deturpara completamente o sentido da visita à biblioteca por alguém que nem lhe dava atenção, suspirou, prestes a voltar para onde estava. No entanto, não percebeu que havia outra pessoa atrás de si mesmo, e esbarrou no peito dela.
Bem mais de dez centímetros acima de sua linha de visão, estava Shouki. Recordou-se então do que tanto o irritara nele: a maldita expressão impassível e desinteressada, como se nada no mundo valesse do seu tempo ou de sua atenção. E nem poderia chamá-lo de arrogante, pois não transmitia absolutamente nada!
― Não sabia que era bisbilhoteiro, Hyoudou ― comentou, fitando-o por alguns segundos.
― Eu não sou...! ― Enrubesceu com o constrangimento de ter sido apanhado e a raiva de si mesmo por ter feito algo tão estúpido. Desconversou: ― Deixe de ser pretensioso, não é como se eu estivesse te procurando, idiota.
― Vse ravno.
Argh! Como se não bastasse tudo, ainda dar-lhe as costas e dizer aquelas sentenças incompreensíveis? Não sabia dizer ao certo, mas talvez a insistência fosse apenas uma reação inflamada a tanta indiferença. Aproveitou-se do fato de que ele viera ali à procura de um livro qualquer para interrogá-lo:
― Por que você ignora as pessoas? Agir educadamente é complicado demais para você?
― Também não é lá muito educado forçar alguém que não está minimamente interessado em conversar ― rebateu o mais velho, simplesmente.
― Eu agradeceria se você parasse de me tratar como idiota ― resmungou Aoi, cruzando os braços.
― Mas não estou fazendo isso.
― Claro que está! ― vociferou, controlando o tom de voz porque tinha consciência de onde estava.
― Não, Hyoudou ― discordou Shouki, ainda que olhasse para a estante à frente e não para o interlocutor. ― A diferença é que você está agindo como idiota e eu estou te tratando à altura.
― Por que estou perdendo meu tempo falando com você? ― murmurou para si mesmo o mais baixo.
― Também queria saber ― declarou, insensível. De repente, algo na última prateleira o atraiu e ele apanhou um dos livros, entregando-o ao costureiro: ― Você estava procurando por este aqui, não?
Incrédulo, Aoi fitou a capa familiar e o título que o próprio professor recomendara como complemento de estudo. Como ele poderia saber? Quer dizer, nada havia de sobrenatural: mesmo de turmas distintas, ambos cursavam as mesmas matérias e a prova de história deveria ser na mesma semana para os dois. O que não deixava de ser impressionante. Num gesto involuntário, agradeceu ainda pasmo.
― Não precisa se fingir de educado se é óbvio que nem quer falar comigo ― interceptou o estudante que viera da Rússia.
Olhou incrédulo para aquela abominação bilíngue e apática. Como poderia existir alguém que não aceitava um mero ‘obrigado’? E por que, no final das contas, estava gastando minutos preciosos de sua vida com aquele desperdício em forma de gente? Apertou os punhos, e a passos duros, saiu dali. Tão insuportável!
Ainda que não tenha assistido quando o menor deixou a biblioteca emburrado, Shouki suspirou quando ele partiu, levemente incomodado. Era o primeiro a insistir tanto ― a maior parte das pessoas se afastava naturalmente com seu comportamento, e as restantes desistiam após algumas tentativas ineficazes.
Afinal, para que criar laços se deixaria o Japão logo que se formasse? Era tudo somente um meio de conquistar a droga do diploma, pois a promessa dizia respeito apenas à formatura. Amigos não faziam parte, e sinceramente não lhe faziam falta. Teria de suportar mais daquilo durante um ano e alguns meses e estaria livre para voltar para onde queria estar.
Em seu bolso, o celular vibrou, o que o deixou alerta. Só duas pessoas tinham seu número, e uma ligação de qualquer uma delas significava emergência. Olhou para o número desconhecido indicado na tela e saiu para o corredor, vazio naquele dia e horário em específico. Ótimo, porque odiava uma plateia curiosa.
― Ichihara? ― atendeu, numa suposição.
― Sentiu saudades, moleque?
Ouviu a voz familiar daquele homem com quem perdera contato durante meses. Era o acordo entre eles: seria Ichihara Kyoshiro a entrar em contato. O inverso era basicamente impossível, já que ele sempre mudava o número e as configurações de seus aparelhos para que não pudessem rastreá-lo desta forma. Mais impressionante era perceber que nenhum dos dois mudara nem uma vírgula ― mais parecia que aquele meio tempo de separação nunca existira.
― Tantas quanto você ― repeliu o sarcasmo, apático como de costume. ― Diga logo o que quer.
― Tão frio, Sho-chan. ―A risada ácida foi transmitida pelo telefone. ― Os japoneses já estão te afetando?
― Você também é japonês, que eu saiba.
― Prefiro ser classificado como “sem nacionalidade”.
Sem nacionalidade, sem endereço fixo, sem passado. Ichihara era muito bom no que fazia. Poderia cobrar caro por seu serviço, ou provocar as pessoas erradas com a língua afiada, mas o talento era excepcional, sem dúvidas.
― Nu i chto...? ― Assim como com Aoi, murmurou desinteressado. Mas havia uma diferença primordial: o outro compreendia o idioma russo.
― Estou no Japão.
Através de um ruído de isqueiro e da distorção da frase, reconheceu que ele estava fumando durante a ligação. Porém, isto não era importante: ele viera ali em busca de quê? Sabia o suficiente sobre o homem para prever que ele não lhe diria nada sobre suas motivações; teria de interrogá-lo indiretamente se quisesse encontrar alguma informação.
― Zhdat’. Desde quando?
― Faz pouco tempo. ― Uma longa tragada. ― Cheguei ontem, mas estava resolvendo alguns problemas.
― Problemas? ― Pela palavra queria dizer o quê? Um assassinato? Sequestro? Resgate?
― Fique atento às notícias neste final de semana, Sho-chan ― aconselhou Ichihara, desviando o assunto completamente. Riu da ingenuidade do rapaz: era mais de duas décadas mais velho, e não iria deixar-se levar pelas artimanhas de um moleque que mal conhecera o mundo. ― Tenho certeza que alguma delas vai chamar sua atenção.
Então ele estava afundado até o pescoço em alguma merda, supôs Shouki com os dados precários. Novidade? Nenhuma. E bem o conhecia para saber que iria se safar de qualquer que fosse a acusação ― afinal, não lhe chamavam de ardiloso, sórdido e sádico sem justificativas. Somente não entendia por que entrar em contato sem qualquer motivação mais séria.
― Esse foi o único motivo pelo qual você me ligou?
― Tsc, esses meses me fizeram esquecer o quão irritante é esse seu jeito. ― Outra tragada. ― Vou te passar meu endereço. Venha aqui porque tenho mais informações que vão te interessar.
De imediato, compreendera que aquilo poderia ser muito benéfico: nunca negaria qualquer notícia que fosse sobre os próprios pais, porque era este basicamente seu único interesse. No entanto, eram tão escassas que o intervalo entre uma e outra descoberta durava meses, quando não um ano inteiro. Não desperdiçaria mesmo aquela chance. Mas disfarçou a euforia:
― Isso é só uma desculpa porque você já é um velho solitário que desesperadamente quer companhia, não é? ― presumiu, irônico, ainda que tenha dito no mesmo timbre inflexível de sempre. Durante alguns segundos, o homem aquietou-se. Sabia que estava puto.
― Pelo seu bem vou ignorar essa, moleque ― ameaçou, e quase podia vislumbrar o sorriso ameaçador de Ichihara quando o fazia. ― E outra coisa: não se esqueça da Eva. Ela é capaz de arrancar suas bolasse ficar sem notícias.
― Ya znayu ― concordou, embora não soubesse bem o que dizer para aquela mulher. Além disso, por vontade própria, estaria com eles na Rússia, e não ali.
― Te vejo no próximo domingo, Sho-chan ― despediu-se, provavelmente para procurar mais cigarros.
― Até, Ichihara.
Distraído, desligou o telefone. Ainda que exteriormente nada expressasse, poderia dizer que estava ansioso. E até aliviado. Porque enfim surgira a salvação para aqueles monótonos dias agindo como um colegial normal.
“Memories consume
Like opening the wound
I'm picking me apart again
You all assume
I'm safe here in my room
Unless I try to start again”
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