Sobre Aliens E Irmãos
7 I - Sétimo - Sobre Recusas e Festas
Notas iniciais

Apesar de aparentemente calmo exteriormente, em seu interno Aoi ardia em fúria. Contudo, apesar da natureza honesta e mal-humorada, conteve para si mesmo a irritação. Afinal, foi ele a buscar por tudo aquilo. E tudo por causa de um pedido simples. Não era mais simples aquele idiota ter aceitado?!
Céus, a cólera reacendera as chamas. Era necessário contê-las, ou passaria o restante do dia importunando-se. Era tudo culpa dele! Respirou fundo algumas vezes, somente para perceber que seria impossível voltar a atenção para o quadro negro e o conteúdo lecionado. Frustrado, afundou os dedos em meio aos fios escuros para atenuar a raiva.
Alguns metros à frente, Suzuna acompanhava a aula a seu modo. Era uma aluna mediana, o suficiente para não atrair qualquer atenção dos extremos. Como sempre impassível, fazia anotações conforme a professora avançava com a matéria. Em uma folha avulsa, no entanto, rabiscou uma sentença que em nada se relacionava com a disciplina.
Dissimuladamente, deixou cair a borracha no corredor entre as carteiras. Com a oportunidade, mirou no alvo ― a mesa na fileira à direita, logo duas atrás da sua. Com um impulso experiente, atirou a bolinha de papel e virou-se despreocupada, como se nada houvesse feito.
Já Aoi fitou o objeto recém jogado sobre o caderno com espanto. Antes concentrado em problemas próprios, não percebera quem o arremessara, embora uma suposição tenha se originado. E mostrou-se certeira. Fitou a folha, na qual duas frases indicavam preocupação:
“O que houve? Parece incomodado.”
Voltou os olhos para a garota, alternando-os com a superfície escrita, perplexo. Como ela poderia saber? Não pensou que ela estivera atenta ao seu comportamento desde que entrou na sala, em um evidente estado de ira. Mas preferiu não devanear muito sobre as capacidades da pequena, já que deveria respondê-la.
O primeiro desafio foi resumir em poucas palavras. E isto o obrigava a recordar do acontecido na biblioteca, poucas horas atrás...
****
Com a postura empertigada, aproximou-se do aluno estirado sobre a cadeira. Pensou se seria adequado esboçar algum sorriso simpático, mas isto não era um costume. Afinal, para quê fingir cordialidade quando era na verdade ranzinza? Mentiras não lhe agradavam, muito menos estas disfarçadas de boas intenções.
Foi com o semblante sério que chegou à mesa. Deixou que a própria presença anunciasse a aproximação, mirando o ainda alheio interlocutor. Era moreno, assim como ele mesmo, ainda que os fios do rapaz fossem negros como piche. Contudo, enquanto suas madeixas sempre estavam perfeitamente alinhadas, as dele se mantinham numa revolta que não saberia dizer ser fruto do descaso ou de horas de preparo. Fixos à página, os olhos eram também de um tom noturno. Não só os olhos, mas o rosto como um todo explicitava uma perspicácia incomum e um mistério envolvente.
Apesar de recostado, era obviamente alto. Muito alto. Ou alto o suficiente para mostrar-se ameaçador quando de pé. Entre os dedos longos, um volume de capa dura com caracteres estranhos. Talvez russo, não saberia dizer. Porém, já estava cansado de esperar por uma resposta, e resolveu chamar sua atenção, pigarreando ruidosamente.
Enquanto lia, a expressão do aluno novo mantinha um mínimo interesse e concentração, tranquila. Ao fitá-lo, no entanto, converteu-se num tédio que chegava a dar sono. Mal parecia disposto a responder-lhe, mas ao perceber que permanecera ali, indagou com a voz entediada e arrastada, apesar de melodiosa:
― Chego ty khochesh¹?
Ótimo, ele lhe respondera em outra língua! Não era possível que desconhecesse o idioma japonês, estudando em um colégio do país, mas deveria duvidar de tudo. Respirou fundo antes de começar, já que o disse com pausas e o timbre alto e claro para que o estrangeiro reconhecesse bem cada vocábulo (ainda que duvidasse que aquele rapaz evidentemente japonês não soubesse uma palavra sequer do próprio idioma):
― Sou Hyoudou Aoi, e faço parte do Clube de Sorteios. Você deve saber que aqui no Japão os alunos são estimulados a participar deste tipo de atividade extracurricular-
― Nu i chto? ― interrompeu o outro, logo voltando os orbes para as folhas amareladas do livro em mãos.
Como detestava ser interrompido! Principalmente quando ele persistia em usar do russo (tinha quase certeza de que era isto o que o que ele dizia), quando estava na droga de outro país! Além disso, percebeu como ele se desinteressara pelo que falara, e isto era indício de que entendera cada palavra. Ele podia afastar aos colegas fingindo falar outra língua, mas Aoi era tenaz ― não seria ignorado de forma alguma!
― Eu sei que você compreendeu o que eu disse ― revelou, tentando ao máximo manter a calma. ― Não pode me responder em japonês também?
― Pochemu?
― Você é idiota? ― indignou-se, controlando apenas o volume da voz. Aquele bastardo não merecia sua educação!
― Por que não diz logo o que quer e vai embora?
Se não estivesse tão zangado, iria comemorar a resposta com termos compreensíveis. Como presumira, ele sabia falar japonês (e muito bem, por sinal, para alguém que vivera sabe-se lá quantos anos no exterior). Todavia, a insistência de pouco servira ― Shouki mantinha a atenção voltada para o enredo. Cruzou os braços, impaciente. Não havia mais tempo para perder:
― Não está óbvio? Estou te pedindo para que entre no clube.
― Assim como está óbvio que não estou interessado ― refutou o outro, impassível, passando uma das páginas. Como conseguia concentrar-se na leitura?! Só poderia estar fingindo!
― Você já está em algum clube? ― Duvidava muito, mas não fazia mal perguntar.
― Não.
Responder em monossílabos? Como era insuportável! Somente as limitações da biblioteca o impediam de bradar a plenos pulmões para ao menos tentar atrair aqueles olhos apáticos. Porém, agradecia àquela imposição ― seria humilhante deixar transparecer o quanto se afetara com aquela pequena discussão, quando o rapaz nem parecia notar sua existência (ou fazia questão de ignorá-la).
― Então por que não aceita? ― indagou, como um último recurso. Reprimiu a si mesmo para não soar como súplica.
― Você não me parece ser imbecil, Hyoudou ― indicou, num timbre monótono. Desta vez, no entanto, fitou o menor minimamente. Parecia incomodado com tanta atenção desagradável. ― Não consegue entender que eu não quero?
― Você pode fazer lá tudo o que pode fazer aqui ― argumentou ele, como o fazia com a tia.
― Ya ne volnuyet. ― Ah, se ele começasse de novo com aquelas frases em russo! ― Se eu posso fazer aqui, para que me dar ao trabalho de entrar nesse clube?
Impossível. Impossível de lidar! De alguma maneira, sabia que não seria possível convencê-lo. Shouki permaneceria inflexível, e apenas levaria ao extremo a própria fúria. De nada adiantava expor-se a este estresse, mas o instinto persistente o levaria a uma nova tentativa. Isto se o sinal a soar não o acordasse de devaneios ingênuos.
Bem, havia tentado enquanto pôde. Contudo, mentalmente repugnava aquela comodidade. Se não havia conseguido, gastara o tempo à toa. Sem a conquista de um novo membro, era apenas um fracassado a retornar para a sala. Desanimado com o panorama deprimente, chamou pelo maior (e errou a pronúncia, inconscientemente):
― Ei, Handaryoku-san.
― Chto eto takoye? ― Shouki voltara a mirar o volume gasto. Nem se preocupara em corrigir o erro, já que sabia que o sobrenome materno era difícil.
“Enfie essas palavras desconhecidas pela própria goela!” Apesar dos pensamentos nada gentis, Aoi manteve a compostura. “Estou numa biblioteca, estou numa biblioteca.” E também não daria ao outro o gosto de vê-lo verdadeiramente zangado, apesar de senti-lo internamente. O orgulho era maior do que a exasperação, afinal. Mas cuspiu as palavras, rude:
― O horário da aula começou.
De maneira impressionante, o rapaz não fez a mínima menção de que iria levantar-se e partir para a aula. Continuava naquela degradante posição, esparramado e provavelmente confortável. Na verdade, percebeu o quase-alfaiate, a própria presença dele era uma ofensa à qualquer um. Ninguém mentira ao designá-lo mal-educado, arrogante e desinteressado ― estavam todos corretos! E para corroborar suas impressões, ele murmurou, no mesmo tom irritante e apático:
― Eu tenho ouvidos também.
― Espere... ― Elaborou mentalmente os motivos. ― Você vai matar aula?
― Sua velocidade de raciocínio é sempre assim, tão impressionante? ― zombou ele, embora a ironia se desfigurasse com a voz sem qualquer emoção.
― Seja irresponsável, então!
Marchou, mal-humorado, afastando-se quanto possível daquela criatura desprezível. Não iria ficar ali ouvindo um garoto grosseiro e seu sarcasmo estranho e indiferente. Não iria manchar o histórico escolar, no qual alguns deslizes (devido ao hobby de costureiro) ainda deveriam ser compensados. Se possível, nunca mais olharia para aquele retardado! Porque, como se para zangá-lo mais, ele despediu-se (ou julgava ser uma despedida), num volume moderado da voz:
― Do svidaniya.
De uma coisa ele tinha certeza: odiava russo, com todas as forças.
****
“Tentei recrutar uma pessoa para o clube. Ela recusou.”
Aquele era uma síntese exagerada dos fatos, mas ao menos era compreensível. Quando satisfeito com a sentença escrita na própria folha da garota, Aoi amassou o papel para arremessá-lo de volta a ela. Nunca antes havia trocado bilhetes e mensagens em sala de aula, e não sabia bem a força e técnica necessárias para atirar a bolinha, que acabou batendo na cabeça da pequena.
Enrubesceu com o erro grotesco, enquanto amaldiçoava-se pela própria inexperiência, pois atraíra a atenção de todos os estudantes naquela parte da sala. Droga, era tão difícil para ele fazer aquilo a que outras pessoas já estavam tão acostumadas, como interagir discretamente durante uma aula.
Inicialmente pega de surpresa, Suzuna apanhou a esfera disforme e amarrotada e leu muito rapidamente o que fora escrito, tratando de desfazer-se discretamente da evidência da distração em sala. Com isto, o moreno achou que a “conversa” havia encerrado, e voltou a tentar (sem sucesso) manter-se atento à aula. Contudo, no bolso, o celular vibrou, num anúncio silencioso de que o diálogo perduraria por outros meios.
“Ah, isso é bem comum. Não se ganham todas as batalhas.” Aoi reconheceu entre os caracteres uma espécie de “rostinho” que expressava uma alegria excessiva. “Você logo esquece.”
Provavelmente ela optara pelas mensagens virtuais, já que as habilidades com bolinhas de papel não eram dignas de nota. Ao menos o aparelho ele conseguia disfarçar debaixo da carteira, ou entre as folhas avulsas sobre a mesa. Comemorou o fato de que sempre o mantinha no perfil silencioso, e a respondeu tão velozmente quanto os dedos permitiram ao digitar no teclado minúsculo:
“É difícil esquecer um imbecil que refuta tudo com sarcasmo e frases num idioma desconhecido.”
“Você tentou convencer o aluno novo? Aquele da Rússia?”
Todos deveriam conhecê-lo, era óbvio. Tantos defeitos acumulados numa só pessoa atraíam a atenção de pessoas normais, deveria ser a resposta. Ou havia algo de exótico num apático que viera de outro país, a escarnecer de qualquer um que tentasse se aproximar.
“Esse mesmo. O de sobrenome difícil.”
“... Ele pode ser difícil de lidar.”
“Difícil? Aquele cara é impossível!” Enviou outra mensagem simultânea, curioso: “Espere, você já tentou?”
“Tentei, mas não consegui e desisti.” Mais uma vez, ela usou daquelas expressões caricaturais. Desta vez, manifestava sonolência, como um retrato da própria preguiça. “Números não me interessam.”
Ao ler que ela já tentara convencê-lo, mas não insistiu, cresceu em si mesmo a raiva. Podia até mesmo imaginá-lo a recusar terminantemente. Contudo, também sabia que Suzuna deve ter dado pouca importância ao insucesso. Deveria ter sido um diálogo bizarro, entre duas pessoas naturalmente impassíveis.
Não era isto que ela transparecia no momento, entretanto. À própria maneira, através das mensagens de texto, Suzuna mais parecia eufórica com algo que ele não sabia dizer ao certo. E mesmo que a presidente do clube fosse bem humorada constantemente, apesar do semblante indiferente, o estado atual de nada se relacionava com o habitual. Deixou evidente a suposição, numa afirmação e não pergunta:
“Está animada.”
“Vou visitar os avós do You-kun nesse final de semana.” Usou do primeiro emoticon, o mais animado. “Ser apresentada como namorada, essas formalidades.”
“Você não está nervosa sobre o que vestir? Como se portar? A etiqueta?!”
“Não.”
Estava perplexo. Era tão negligente quanto a irmã mais velha?! Alguém como ele, desde sempre tão atento à aparência e vestimentas adequadas, não conseguia acreditar em tanto descaso. Se não estivesse ocupado com as roupas para o Maid-Latte (as quais felizmente já estavam na etapa final), faria questão de costurar para ela uma roupa sublime. Ficaria para outra ocasião, porém. Digitou, simplesmente, como uma censura:
“Sua louca.”
Aquelas Ayuzawa não tinham noção do próprio potencial? Como eram desleixadas! De tão incrédulo, passou a rabiscar na folha mais próxima um modelo do que julgava ser o vestido ideal para que a pequena visitasse os “sogros”. Era de um comprimento razoável ― quase alcançava os joelhos ― e deixava que os tornozelos magros e delicados da menor se expusessem, livres.
Para cobrir o busto, o tecido (de um material leve, definiu ele ao puxar setas do esboço) era mais justo, e cobria os ombros com mangas curtas. Logo abaixo, na cintura, um laço singelo foi acrescentado, e a ele seguia-se a saia solta e suave, para finalizar a peça graciosa. Indicou também que a cor seria algo próximo do azulado (pois julgava combinar com o jeito tranquilo da garota), com detalhes em branco. Tão concentrado em sua criação, não notou alguém logo atrás de si mesmo.
― Belo desenho ― elogiou Suzuna, num timbre impressionado, embora apático.
― Argh! ―assustou-se ele, cobrindo os rabiscos com as mãos. Logo arrependeu-se da ação precipitada: não era para ela que elaborara a roupa? Recuperou a compostura, afirmando orgulhoso: ― Espero que não envergonhe um costureiro com... o que lá você escolher.
― Entendido! ― afirmou ela, prestando uma simulada continência. Era um gesto estranho, mas aos poucos ele se acostumara às bizarrices da líder do clube. Desejou, sinceramente:
― Boa sorte, Suzuna-san.
― Aoi-kun. ― A mais nova remexeu entre a bolsa escolar, à procura de algum objeto. Retirou então uma chave que ele bem conhecia. Aquela que abria a porta da sala do clube. Num gesto simples, ela entregou-a a ele. ― Você pode vir aqui costurar quando quiser. Mas tome conta dela, viu? Este chaveiro foi o brinde que ganhei no meu primeiro sorteio.
Da maneira com que ela era sobrenaturalmente sortuda, provavelmente fora o primeiro sorteio de que participara, vencendo-o desde sempre. O chaveiro em si não tinha nada de significativo ― era um pequeno mascote, em forma de coelhinho branco ou algo parecido, e uma grande pedra avermelhada contrastava com a superfície branca restante². Contudo, era até... bonitinho descobrir que ela mantinha uma mania como essa: usar o primeiro prêmio na chave de um clube de sorteios.
O que o invadira com mais intensidade, entretanto, foi a gratidão. Agradeceu repetidas vezes, radiante. Afinal, não teria de se enfurnar no quarto e ouvir o pai reclamar do “comportamento efeminado”, “tendências homossexuais” e outros comentários preconceituosos durante o fim de semana. Era a melhor notícia que poderia receber!
Mais parecia uma criança animada quando estava feliz, pensou Suzuna, atentando no contraste com a anterior expressão carrancuda. Ansiava, contudo, por outro sorriso ― um tanto ingênuo e excessivamente alegre, nos lábios de um certo moreno que trabalhava numa loja de conveniências.
****
Misaki não conseguia acreditar na situação (ou não queria, na verdade). À frente, todos aguardavam uma resposta: Usui estava de pé, com um maldito sorriso nos lábios, muito próximo da entrada da cozinha mínima do apartamento; Kuruari mantinha os olhos azuis fixos em um livro de Medicina, quieto como sempre; Kitaru recostara-se no estofado, sem forças para manter a energia habitual; já Hanamaki a fuzilava com o olhar de uma mulher faminta.
― Nem pensar! ― repetiu, pois de maneira alguma iria aceitar o que estavam lhe exigindo.
― Misaki teimosa ― murmurou o loito, o único que estava se divertindo naquele ambiente. Insuportável!
― Cale a boca, seu idiota! ― gritou, impaciente. Por um momento até ignorou os restantes colegas de apartamento. Prossegui, num tom mais baixo, embora zangado: ― Não vou me humilhar assim.
― Ah, começou... ― lamentou Takahagi, estirado no sofá de tanta fome.
Tanto o casal quanto suas brigas não lhe importavam (achava-os até divertidos), mas a questão no momento era mais complexa e urgente. Não havia nada de instantâneo ou simples para cozinhar em toda casa, o que os obrigava a utilizar os escassos ingredientes e improvisar algum prato. Nenhum dos três mais antigos moradores se garantia na culinária, e não deixariam nas mãos de alguém como Ayuzawa, já cientes da desastrosa falta de habilidade.
Restava a Takumi cozinhar para eles ― mais importante, cozinhar para cinco universitários que haviam acabado de passar pela primeira semana de testes e entregas do semestre, e portanto estavam na carga máxima de estresse. E a única exigência para que ele o fizesse foi algo simples: todos deveriam pedir “por favor”. Ainda que estranhando a boa vontade do loiro, três deles o fizeram imediatamente. Afinal, era algo tão fácil!
Para a ex-presidente do Conselho Estudantil, no entanto, aquilo se mostrou um cruel teste. Estava mais para uma provocação ridícula, na verdade. Não aceitaria, de jeito nenhum! E assim se desenrolou tanta complicação. Apesar do clima tenso, Dojimo permanecia no silêncio da leitura, alheio à discussão, assim como às exigências do corpo a implorar por comida. Myoko, ao contrário, revirou os olhos cinzentos. Como dito pelo rapaz, a namorada era uma teimosa. Uma estúpida teimosa.
― Não vou ficar implorando por-
― Ayu-chan, minha querida. ― interrompeu a loira, num medonho timbre “amigável”. Pronunciou as palavras calma e lentamente, para que ela compreendesse de fato o que dizia: ― Se ele não cozinhar para nós, eu simplesmente vou te obrigar a pagar um jantar de luxo para nós cinco. Ok?
E Misaki arrepiou-se por imediato, tanto pela ameaça quanto pelo que ela acarretava: gastar tanto dinheiro em uma única refeição para todos aniquilaria as economias que juntara para comprar os livros recomendados pelos professores. Não, seria obrigada a ceder... a ele. Droga, por que o idiota não cozinhava sem qualquer imposição, como uma pessoa normal? Por que tinha que cobrar... aquilo...?
Para apressá-la, o próprio estômago reclamou por alimento. Argh! Não havia escolha, mas isto não significava que deveria ser gentil, e portanto tratou de deixar claro:
― Eu te odeio ― cuspiu, ao que o cretino esboçou um sorriso de familiaridade. Inspirou levemente para ganhar tempo e disposição, e gaguejou em seguida: ― P... Por favor... Takumi.
― Já que Misa-chan pediu com tanta vontade ― provocou ele, antes de seguir para a cozinha.
Sentiu o rosto avermelhar e baixou-o ao chão. Contudo, não sentia vergonha ― era apenas raiva. Maldito alien pervertido estúpido e idiota que gostava de humilhá-la... Uma sucessão de xingamentos foi surgindo em sua mente, progressivamente mais ofensivos. Era vaga a percepção de Hanamaki, a perguntar-lhe se por acaso sentia dor ao pedir qualquer coisa ao namorado, ou de Kitaru a aliviar-se depois de “tanto drama”.
Não era a primeira vez que ele lhe provocara naquele dia. Primeiro a desafiara no trem, sussurrando em seu ouvido que seria capaz de agarrá-la ali mesmo. Perplexa, refutou que estavam rodeados de pessoas, apenas para ouvi-lo abafar gargalhadas com uma das mãos. Como detestou quando ele a chamou de pervertida! Em seguida, passou a importuná-la com mensagens constrangedoras.
“Ei, presidente. Como descobri que trens te excitam, vou tentar acertar outros lugares. Responda-me, responda-me.”
Tantos erros em tão poucas linhas. E aquela detestável maneira irritante de “falar”... ele estava inspirado na tarefa de tirá-la do sério. Mas não poderia negar que era criativo. Apesar de não responder a nenhuma das perguntas, as sugestões eram tão... exóticas. Era um pervertido, não podia esquecer. No entanto, tanta provocação não deveria ser injustificada. Surgira num dia só, de modo inexplicável.
Substituiu a fúria que sentia por outra, muito mais pungente. Provavelmente aquele idiota estava lhe escondendo alguma coisa. Estava parcialmente enganada, na verdade. Usui estava apenas esperando uma oportunidade para que estivessem a sós. E tão logo terminaram o jantar, no quarto que compartilhavam, ela lhe questionou sobre tanta implicância. Até mesmo perguntou se algo estava errado, embora a carranca emburrada não deixasse o rosto.
Com um suspiro cansado, sentado à beira da cama e apoiando-se sobre os joelhos, ele lhe contou sobre o “convite” que recebera para mais uma daquelas festas nas quais os abastados distraiam-se de seus negócios e vidas fúteis. Nada haveria de mais, apenas tédio, como de costume, se a ligação não fosse feita pelo próprio meio-irmão, que viria ao Japão por “motivos pessoais”. Gerard estaria também na maldita festa (cuja presença de Takumi era obrigatória), e deixou claro para o mais novo que viria para tratar com ele “assuntos emergenciais”.
Ser arrastado para os Walker novamente era a suposição mais coerente.
Enquanto o namorado falava, a morena permaneceu quieta, a apertar os punhos conforme a raiva crescia. Desta vez, a irritação para com ele era secundária ― o que eles queriam importunando tanto o rapaz quando ele deixava claro (ou até mesmo explícito) que não se interessava nem um pouco por ingressar naquele estilo de vida? Eram imbecis, por acaso?
Ficara óbvio porque ele implicara tanto naquele dia em específico. Era esta a sua fuga: distrair-se do que o zangava provocando-a, porque sabia que as reações seriam apreciáveis. Não entendia o que Usui via de tão divertido em deixá-la possessa, mas aquela mania de disfarçar o que o incomodava agindo de forma irritante e provocativa era extremamente desagradável. Seria muito mais simples dizer a ela o que se passava de uma vez.
É, ao contrário de suas esperançosas expectativas, a natureza um tanto fechada de Usui não havia mudado por completo. Ao menos havia dito quando o confrontou, e isto era um avanço enorme se levasse em conta o quão difícil foi ouvi-lo falar sobre a própria história, que envolvia a infidelidade da mãe britânica e o caso com um japonês. Contaminou-se com o nervosismo, e para acalmar a ele (assim como a si mesma), abraçou-o desajeitadamente. Enquanto ele estava sentado, ela, de pé, aninhou sua cabeça entre os braços e o busto.
― Vai ficar tudo bem ― afirmou, num tom estranho, embora confiante. ― Eu vou estar lá, então não precisa se preocupar.
Embora inicialmente surpreso (os orbes esverdeados arregalaram-se um tanto), o loiro deixou-se contagiar pelo otimismo da namorada. Deixou-se aproveitar a situação, afinal não era sempre que ela se permitiria acolhê-lo daquela maneira. Como era possível conseguir transmitir tranquilidade num gesto tão simples? Era realmente uma mulher incrível.
― É claro que vai ― concordou, com um sorriso discreto. Nada parecia impossível ao lado dela. Acrescentou, olhando para os olhos amarelados: ― E vai ficar linda de vestido.
― Eles são tão... agarrados ― reclamou ela, em uma careta. Ainda estavam abraçados.
― E é por isso que eu os adoro.
― Porque é um maldito pervertido. ― Suspirou com a mudança brusca de rumo. Complementou, contrariada: ― E aqueles saltos são pouco práticos.
― Misaki, não vai lutar aikidô com eles ― lembrou ele, num timbre divertido.
― É, é só uma roupa ― tranquilizou a si mesma, pensando que o que vestiria era o menor dos problemas para aquela noite.
― E a melhor parte é me livrar dela, de qualquer forma.
Antes que ele completasse a frase, Ayuzawa sentiu mãos grandes e quentes a acariciar as laterais da cintura e do quadril, subindo e descendo num ritmo hipnótico. Estremeceu brevemente, tanto com o toque quanto com a voz sedutora tão próxima de seu ouvido. Sentiu as pernas fraquejarem enquanto se esforçava para controlar a própria respiração.
O que esperava dele, afinal? Obviamente estava pensando nas vantagens que o uso do vestido traria ― uma peça muito mais prática de se arrancar. Somava isto ao movimento instigante sobre o tecido, que roçava sobre a pele cada vez mais sensível enquanto deslizava. Uma das mãos ergueu-se por entre as costas, arrepiando-a por todo o percurso até alcançar a nuca, afagando-a enquanto dedos ousados se intrometiam por entre a blusa. Enquanto isso, o hálito aquecido do rapaz alcançava a orelha, e os dentes friccionaram brevemente sobre ela.
Com o choque da sensação do contato diretamente sobre a epiderme, a morena reprimiu um gemido baixo, enquanto enterrava as unhas entre o couro cabeludo do namorado. Já ele, ao ouvi-la, foi instintivo: achava que podia provocá-lo com aqueles sons deliciosos sem uma reação? Apanhou-a num ímpeto e jogou-a sobre o colchão ao seu lado, assumindo o topo enquanto posicionava os joelhos de modo a envolvê-la.
― Já me convenceu, Takumi ― ofegou Misaki, um tanto desorientada.
― Ainda não parece ― sussurrou ele, muito próximo, com aquele sorriso atrevido que a enlouquecia.
Não demorou a apanhá-la num beijo sedento, feroz de imediato. Assim como foi a resposta da universitária: instantânea e afoita, tratando de enroscar a língua à dele de todas as formas possíveis. Não deixaria que ele a devorasse sozinho, e tornou mais intenso o contato dos lábios, assim como esfregou um dos joelhos na ereção do namorado, que crescia com as carícias.
Com um grunhido rouco (e muito excitante, por sinal), Usui desceu os lábios por entre o corpo dela, enquanto os dedos se ocupavam de retirar aqueles trajes incômodos que ela vestia. Traçava um rastro úmido e quente que avançou sobre a barriga feminina, exposta porque metade da blusa já havia sido erguida. Quando ele estava prestes a abrir o zíper da calça, também marcou a cintura com um chupão sôfrego, e a morena tombou para trás a cabeça, prestes a fechar os olhos.
Por entre o vão, enxergou Myoko de ponta-cabeça, com uma expressão de desagrado e ligeiro embaraço.
― Pelo menos fechem essa porta! ― Ouviram a voz protestar, ao mesmo tempo em que o ruído surto do baque da porta ecoou pelo quarto.
Sentou-se imediatamente, desacreditada diante do que ocorrera. Tão constrangedor...! Imaginara o que a colega de apartamento vira enquanto estavam... Argh! Não, era impossível pensar naquilo. Deveria esquecer, sim! Agir como se aquilo não houvesse acontecido, com naturalidade... Como se fosse possível! Como iria encará-la dali em diante? Como conseguiria impedir-se de baixar os olhos e denunciar tudo...! Ah, era impossível!
Enquanto raciocinava, não percebeu as caretas e distorções que o próprio rosto criava diante das possibilidades vergonhosas, e até mesmo agarrou os cabelos, inconsciente, quando o pânico diante da incerteza do que faria a tomou por completo. Desesperada daquela maneira, ruborizada com o constrangimento e perplexa com a perda do controle, ela mais lembrava a si mesma na época do colégio. Certos aspectos nunca mudariam, então. Com esta perspectiva, somada ao comportamento hilário que ela apresentava, as gargalhadas de Takumi surgiram involuntárias.
― Cale essa boca ― gritou, impaciente. ― A situação já está-
Interrompeu a si mesma. Ele estava sempre a distraindo do que era de fato importante, droga. Havia uma família de ricos esnobes a enfrentar, um futuro a se decidir, e estavam ambos ali, completamente alheios a isso. Deveria ser uma das habilidades do alien: despreocupá-la de todas as perturbações. Se por um lado aquilo era agradável, por outro era insuportavelmente inconveniente. Mal sabia que proporcionava o mesmo à Usui.
― Nós só vamos a essa festa idiota e resolver estes problemas de uma vez. ― Encerrou o assunto, decidida.
Como ela era esperançosa. E como estava completamente enganada.
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