Sobre Aliens E Irmãos

8 I - Oitavo - Sobre Desavenças e Insinuações


Notas iniciais
Demora absurda, eu sei x.x Nas notas finais farei uma proposta, espero que leiam~~ Agradeço aos comentários de bettie, Nhljulie, Frenchie e Patrícia Skylark, muito obrigada! E também a todos que favoritaram~~ Bem, a capa desse capítulo difere das restantes porque quem aparece são os gêmeos. Obviamente são fan art de personagens de animes que existem, mas são a "imagem" mais próxima do que imagino para os dois. Boa leitura!

Uma pausa. As portas se abrem, uma multidão preenche o espaço. O movimento se inicia uma vez mais. Lentamente, mesmo que de forma gradual, adquirindo velocidade. Até que desacelera, e o ciclo se reinicia. Uma pausa...

Para muitos, uma viagem de trem poderia significar algo, acima de tudo, cotidiano. Alguns ouvem música, outros tagarelam ou reclamam da rotina. Ou trocam alguns beijos furtivos. Ou simplesmente apreciam a paisagem pela janela. Para todos, no entanto, aquela era uma das atividades mais banais.

Mas não para Mirikamo Hiyoru. Para ele aquele é um ambiente estranho. Um monstro locomotivo, cuja função é apenas gerar no corpo uma náusea insistente e aborrecedora de tão intensa. Para que tantas paradas, caramba?! A cabeça iria explodir!

― Isso é o que ganha por ser tão teimoso ― ralhou a irmã, fitando-o de esguelha ao seu lado.

Em resposta, resmungou de modo ininteligível, irritado, enquanto tentava apoiar a cabeça no suporte vertical no qual se amparava de pé. Com isto, revolvia muito mais os já rebeldes fios rubros. Contudo, estava pouco se lixando para o cabelo. Se não estivesse tão enjoado, iria rebatê-la: odiava quando ela manifestava a preocupação de maneira tão evidente. Tudo bem, era o mais novo, mas por apenas cinco malditos minutos!

E apenas porque tinha aquela estúpida fraqueza em transportes públicos ― todos os dias, era ela ao sacrificar-se para caminhar consigo. E diante dos protestos, era sempre a mesma resposta: “Não me custa nada”, dito daquela maneira presunçosa como somente ela seria capaz de enunciar. Seria injusto se não a retribuísse quando o trajeto a pé fora vetado a ela, já que o ensaio fora adiantado em uma hora. Até mesmo carregava nos ombros a bolsa na qual estava contido o violino, Maurice. Faria o mesmo, desta vez, ao levá-la de trem até lá. Yukari podia ser quantos minutos fossem mais velha: o instinto protetor sempre falaria mais alto.

― Se continuar sendo chata assim ― resmungou, mal-humorado. Partiu para as ameaças: ― Da próxima vez que essa porta abrir vou te atirar lá fora.

― É mais fácil cambalear e cair você mesmo ― refutou a ruiva, e no divertimento inegável nas palavras e no pequeno sorriso desafiador ele encontrou familiaridade. Era melhor assim, até porque ambos viviam a provocar um ao outro.

― E o que está olhando, hein? ― reclamou também, ao voltar-se para a outra pessoa ao lado

― ... Não me parecia alguém que se enjoa em transportes públicos, Hiyoru-san.

Kanou, mesmo que inconscientemente, deixava claro o desconforto diante do ruivo marrento, principalmente ao ajeitar o capuz para que ele o encobrisse com maior extensão. Era curioso por natureza, e estranhou a feição quase doente de tão desanimada do vice-presidente que no geral era tão explosivo. E não foi difícil relacioná-la ao movimento do trem: a cada mudança de rumo ou de velocidade, o rapaz grunhia insatisfeito, apertando com mais força a barra metálica e pressionando a cabeça contra ela ― como se a dor deste contato pudesse encobrir a dor de cabeça.

Que escolha eu tenho, me d-

Ao falar tão alto, a dor de cabeça do gêmeo mais novo voltou mais veemente, e ele interrompeu-se para lamentar e baixar os olhos para o chão. Aquela viagem não acabava nunca? Impaciente, fitou a janela com ódio a arder os orbes verdes, mas nada conseguiu dizer, porque a náusea cresceu quando uniu o efeito do trem a desacelerar e o gesto de levantar a cabeça repentinamente. Droga, preferia estar enfrentando todo o longo percurso com as próprias pernas! Seria melhor que passar por todo aquele ridículo.

― Nunca mais entro num desses ― murmurou para si mesmo, frustrado. Até mesmo crianças aproveitavam a viagem, e lá estava ele em estado precário. Humilhante.

― Como pretende chegar ao trabalho daqui a alguns anos? ― indagou o presidente, involuntário. Já era um costume trazer à tona interrogações que a maioria deliberadamente não queria responder, para saciar as próprias dúvidas. Como o fez, meses atrás, ao questionar Usui sobre o motivo que o levou a arrastar a relação com Ayuzawa Misaki indefinidamente por tanto tempo.

― ... ― Hiyoru não sabia como responder, e em vez de se estressar e piorar a dor de cabeça, riu sem humor nenhum. ― Não sei, quase vomitar minhas tripas não é a melhor opção.

Realmente parecia capaz de fazê-lo, pois o rosto adquiria uma coloração pálida cada vez mais doentia. Consciente disso, a outra vice-presidente agiu num impulso; tanto fazia se ele iria ficar zangado mais tarde, afinal, era mesmo a mais irritante das irmãs mais velhas. Quando as portas se abriram, três estações antes da qual desceriam, a colegial de madeixas cor de fogo apanhou o pulso do gêmeo e deixou o trem.

― Sua louca! ― exclamou ele, tão logo pisaram na estação. ― Assim vai se atrasar para o ensaio! ― prosseguiu, incrédulo, ainda que aparentasse estar bem melhor sobre o chão firme, sem balanço.

― É melhor que te ver vomitar as tripas lá dentro ― replicou, sem nenhuma dúvida, ignorando os olhos verdes a fuzilá-la. ― Agora tenho que correr. ― Sorriu para alguém atrás do rapaz, partindo sem demora ao ajeitar os ombros para melhor ajustá-los ao peso do violino: ― Cuide bem dele, Kanou!

Enquanto o ruivo notou Soutarou atrás de si ao levantar a cabeça para vislumbrar o rosto do míope, este permaneceu estático, contraindo o rosto numa careta estranha. Por que tanta confusão justamente na estação em que ele descia? Não que a presença de qualquer um dos gêmeos fosse desagradável ― eram inconvenientes, apenas ―, mas de qualquer forma isto fugia do cotidiano e o incomodava de alguma maneira.

Já Hiyoru contraía os olhos, quase furioso ao avistar a garota a andar apressada para fora da estação. Quem era o teimoso, hã? E nem tinha o direito de reclamar: numa situação semelhante, faria o mesmo por ela. Droga de encruzilhada, droga de irmã gêmea com comportamento absurdamente idêntico em alguns aspectos. Como em inúmeras vezes, no entanto, despreocupou-se num suspiro exausto. Nada podia fazer, afinal.

― Hey, Kanou-chan ― chamou, descontraído, ao que o outro reagiu. Sorriu para ele, com tal intensidade que cerrou as pálpebras, exibindo toda uma fileira de dentes. ― Tem alguma coisa para fazer agora?

― Hã? ― O mais alto estava surpreso com a mudança de humores repentina. Não era ele reclamando no trem?

Sabia bem o que havia de ligeiramente perturbador naqueles dois: eram ambos imprevisíveis, volúveis ao extremo. Para alguém como Soutarou, quase que obcecado por definições e explicações racionais, nada daquilo fazia sentido. Era sempre surpreendido por eles, mesmo que fossem as pessoas com as quais passava mais tempo durante o dia.

― Eu ouvi um 'não estou ocupado'? ― gracejou, arqueando uma das sobrancelhas.

― ... Não pode decidir por si mesmo o que os outros vão fazer ― exasperou-se o moreno, com o rumo do diálogo.

― Por que não posso? ― perguntou ele em fingimento, quase que de maneira inocente. Como se um Mirikamo pudesse ser inocente.

E esta era a razão pela qual estava em uma papelaria, assistindo o menor muito concentrado em um terrível dilema entre dois pacotes de folhas. Não que quisesse estar lá ― apenas não tinha justificativas para não estar lá. Não tinha nada a fazer naquele fim de tarde, e já era costumeiro deixar-se levar pelas decisões alheias. Foi assim a primeira candidatura para presidente, não podia esquecer. Porém, diante da dúvida incompreensível do menor, indagou receoso:

― Não são iguais?

Como se acostumado àquele tipo de pergunta, o ruivo revirou os olhos e bufou. Estendeu um dos pacotes para frente e descreveu-o, num tom monótono de quem explica algo a alunos difíceis: ― Este tem pequena gramatura e trabalha melhor com nanquim. ― Inverteu os braços e passou a referir-se ao outro, frisando o vocábulo mas: ― Mas este aqui é melhor para aquarela, porque é mais espesso e tem textura. ― E voltou a examiná-los com cuidado excessivo, como se a indecisão houvesse crescido ao listar os benefícios de cada um.

― Parece entender bem do assunto.

Mais uma vez, Hiyoru interrompeu a análise para encará-lo diante do comentário um tanto quanto espantado: ― Ah, eu desenho nas horas vagas. ― indicou, displicente. Ainda divagou: ― Não é algo profissional, mas eu até que gosto do que faço. ― Logo o encarou, cético: ― E não me olhe com tanta surpresa, não sou eu capaz de hipnotizar as pessoas.

― Está superestimando minha habilidade ― murmurou Soutarou, um tanto quanto desconfortável.

Além de todas as limitações do procedimento, evitava ao máximo a utilização. Porque eram vergonhosas as lembranças de quando, de maneira covarde, usou da hipnose para tentar se livrar do corpo discente feminino do Seika ― e terríveis as memórias da punição severa de Ayuzawa Misaki. Como o sucessor, nunca ao menos tentou dominar a mente de nenhum aluno, mesmo quando em ocasiões críticas. Podia não gostar pessoalmente dela, mas a respeitava como ótima antecessora.

― Não pode fazer com que as pessoas te obedeçam num estalar de dedos? ― confundiu-se o Mirikamo, estreitando os olhos.

― Não é tão simples ― respondeu o mais novo, sem jeito. Desviou o rosto para o chão, com uma careta de desagrado. ― E não seria justo.

Um discreto sorriso foi esboçado nos lábios do ruivo. “É, ser vice-presidente desse cara não é tão ruim.”, pensou consigo mesmo. E já percebia a si mesmo mais próximo do colega veterano ― Yukari estava certa quando dizia que se afeiçoava muito facilmente aos outros. Principalmente porque detestava a solidão, por motivos próprios. Não queria relembrá-los, e voltou a consciência ao local.

No momento em que uma dupla de garotas passou pelos dois no corredor de produtos. Como um ser humano normal, Hiyoru afastou-se educadamente para não desobstruir o caminho destas. No entanto, o movimento de Kanou, que deveria ser semelhante, mostrou-se robótico e difícil; o nervosismo estava estampado na face contraída e no corpo arrepiado.

“Ora, que droga. São só garotas.” Apesar de perceber e incomodar-se, nada disse, apesar de converter as feições em uma carranca ao avançar até o caixa. Decidira levar ambos os pacotes; gastar tanto tempo num dilema o irritou e era mais simples comprar os dois. Ao lá chegar, passou pela burocrática interação social entre cliente e atendente, uma jovem animada que respondia a todos com um belo sorriso.

Controlou muito mais a própria raiva quando esta mulher, de maneira muito simpática, perguntou à Soutarou se este também queria ser atendido, já que estava ao lado do rapaz de madeixas rubras. Mas não estava furioso com ela, e sim com o retardado que gaguejou ao simplesmente negar! Quase era possível sentir uma veia a saltar da testa quando deixaram a loja, e quando do lado de fora, explodiu. Não de forma convencional: o disse num timbre misto entre o desinteressado e o ligeiramente possesso:

― Você é muito esquisito. ― Zangou-se mais quando o maior apenas o fitou, pasmo. Bufou: ― Quer dizer, olhe para você! Parece ameaçador com todo o tamanho e esse capuz, mas é mais inofensivo que uma mosca. Se comporta de maneira retardada perto de garotas quando elas não fizeram nada a você. Não sabe interagir com ninguém decentemente. ― Cruzou os braços. ―É ridículo.

Diante de tantas críticas, Kanou ficou perplexo. Não apenas porque eram verdadeiras, mas também porque foram ditas na calçada de uma rua movimentada, por um garoto que o fitava zangado enquanto carregava uma sacola de compras. Não sabia dizer se era errado ater-se a estes detalhes, porém eles tornavam mais surreal (e constrangedora) a situação. E havia algo que o incomodara profundamente:

― Eu pareço... ameaçador? ― lamentou, ao olhar para as próprias mãos em desespero.

― Não é essa a questão! ― irritou-se o ruivo, levando ao rosto uma das mãos. ― Droga, como pode ser tão introvertido assim? É o presidente de uma maldita escola! Tanto nervosismo não passa nenhuma credibilidade!

Tudo o que dissera somente fez crescer o nervosismo do presidente, cuja auto-estima parecia abalada o suficiente para que ele nada respondesse. Porcaria, quando furioso não media as próprias palavras e sempre dizia bem mais que o necessário. Tinha que se controlar ou acabaria piorando aquilo que tentava mudar. Assim, quando chegaram a um banco em uma praça próxima, estava mais calmo para prosseguir. Mirou em uma colegial qualquer que passava com um grupo de amigas:

― Diga: você acha aquela garota ameaçadora?

― Hiyoru-san, não aponte para as pessoas ― atentou o moreno, embaraçado. Ao percebê-los, as meninas os olharam de modo estranho antes de sair o mais apressadamente de suas vistas.

“Convenções idiotas estragando tudo!” gritou Hiyoru, mentalmente. Mas conter-se não era tão difícil; já estava acostumado. Já havia lidado com garotos muito mais problemáticos ― Kanou era tão simples que nem chegava a ser um desafio. Criou uma suposição:

― Ok, imagine uma hipotética garota dócil e educada. ― Sentado, apoiou os cotovelos sobre os joelhos para melhor observar a reação do rapaz ao lado. ― Ela parece assustadora para você?

― Não, mas ela me parece... ― Durante alguns segundos, Soutarou pareceu deliberar até encontrar a palavra correta: ― Frágil.

― Espera! ― Endireitou-se de súbito, franzindo o cenho, descrente. ― Você se incomoda com a fragilidade delas?!

Durante meia hora, o hipnotizador lhe contou sobre o início do problema com mulheres: desde a separação dos pais, ocasionada pela violência que a mãe sofria e que lhe fez assinar os papéis do divórcio, até a distorcida visão de mundo que o pai lhe dera ao afirmar que todo o sexo feminino era frágil e facilmente quebradiço. Quando enfim encerrou ao dizer que se afastava para não feri-las, Hiyoru pareceu absorto em pensamentos próprios.

― Parece que a origem de todos os problemas são familiares ― surrurrou para si mesmo, e a voz soava amarga. Isto chamou a atenção de Kanou.

― O que quer dizer?

― Meus pais também são divorciados ― expeliu, simplesmente. Ainda levantou-se de súbito, apontando para o moreno. ― Mas isso não vem ao caso. A anomalia aqui é você.

― Eu não sou-

― Ah, droga. ― Interrompeu, pois já estava se arrependendo antes de dizê-lo. Preferiu a imprudência, todavia: ― Está me ouvindo? Eu vou te ajudar a vencer esse trauma.

Deixaria para mais tarde os lamentos pela decisão tomada no calor do momento: a questão era que não deixaria de ajudar alguém que sofria com a exclusão, mesmo que fosse causada por iniciativa própria. Tinha que deixar de ser tão bonzinho, reclamou de si mesmo, mas já havia prometido, de qualquer forma.

― Mas como... ― A indagação de Soutarou morreu nos lábios diante da confusão, mas era previsível: como um homem poderia ajudá-lo?

― Você podia começar agradecendo. ― Revirou os olhos.

― Obrigado, Hiyoru-san.

Não, não! ― Ódio tomou as íris esverdeadas. ― Completamente errado! ― Estendeu o dedo indicador para cima. ― Primeira lição: não seja tão formal com quem já conhece. Só afasta as pessoas.

― Isso não é educação? ― arriscou o mais novo, aturdido.

― Quer viver para sempre com medo da atendente da loja? ― ameaçou, com um sorriso maligno, ao que o outro contorceu-se. Há, como imaginava: o medo era a melhor tática. Aproveitou-se dele para tentar alcançar algum avanço: ― Então vamos lá: tente me chamar de Yoru.

― Hiyoru-san... ― exasperou-se Kanou. O que isto tinha a ver com a fobia?

Yo-ru!

― ... ― Aparentemente, o tom taxativo não surtira efeito e ele permanecera quieto.

― Ok, tente tirar o sufixo ― cedeu, suspirando cansado.

― ... Hiyoru.

― Ótimo, diga de novo.

― Hiyoru ― repetiu, maquinalmente.

― Mais uma vez!

― Qual é a utilidade de... ― Deixou de reclamar quando viu a expressão irada do menor. Com receio, novamente falou: ― Hiyoru.

― Bom... ― Pôs a mão no queixo, examinando-o: ― Não é exatamente o melhor, mas já é um começo. ― Tentou usar do medo outra vez, com um sorriso sádico capaz de assustar um adulto de pulso fraco: ― Agora volte na loja e diga “olá” para a atendente.

― Impossível ― negou o presidente, sem qualquer dúvida, enquanto estremecia dos pés à cabeça. Nada era mais ameaçador do que uma mulher sorridente. Tão pequenas e frágeis...

Ao repetir o gesto de levar a palma ao rosto, o ruivo sentiu o peso do arrependimento a desanimá-lo. Não iria desistir, mas não havia como negar: faltavam muitos passos. Todo um longo caminho pela frente...

****

Ainda bem que estava sozinha. Era este o único consolo. Afinal, se Hiyoru estivesse ali diria “eu te avisei” com um insuportável ar de quem sempre acerta. Era um fato: ela chegara com vinte minutos de atraso. E este seria um segredo só seu.

Como não começara o ensaio com a pontualidade exigida pelo instrutor muito rígido, este dissera-lhe que não poderia praticar com o restante dos aprendizes naquele dia. Foi ainda obrigada a ouvir alguns cochichos e zombarias dos jovens, devido ao uniforme que denunciava o colégio desprestigiado. Aquele era um curso de música de elite, que nunca a deixava esquecer o quanto os nobres eram nojentos com toda a pretensão superior. Estavam julgando-a irresponsável apenas porque não pagava altíssimas prestações pela própria educação.

Nenhum deles sequer sabia que sim, já estudara na melhor instituição de outra cidade, e usufruíra de todos os benefícios ― assim como arcara com todos os prejuízos. Também desconheciam o motivo pelo qual mudara de escola, depois de passar pelo pior ano de sua vida; o suficiente para mudar-se e recusar terminantemente o Miyabigaoka como opção. Foi por este motivo que, há pouco mais de um ano, havia se transferido com o irmão para o Seika.

Mas não estava ali para remoer-se em lembranças tristes. Se não podia ensaiar com todos, bem, iria ensaiar sozinha. Procurou por uma sala vazia e ali, por horas, praticou aquilo que era seu combustível: a música. Porque podia esquecer todos os problemas quando concentrava-se no som agudo do violino. Ou melhor, canalizava tudo o que sentia, para transmitir todos os conflitos ao instrumento. A pressão, a mágoa, a tensão: tudo eram notas.

“Não conhece a herdeira dos Mirikamo? Aos oito anos já é mais talentosa que muitos violinistas amadores com o dobro da idade! Não é o orgulho da família?”

Apoiando o peso do pé nas duas pernas, mantinha o corpo ereto e o busto levemente reclinado para frente, como lhe fora ensinado. Apoiava o violino acima da clavícula esquerda, próximo do ombro esquerdo.

“Que filha maravilhosa! Seguiu os passos da mãe e herdou o talento! Que futuro brilhante!”

Sabia como funcionava o processo de execução do som, mas preferia pensar que ele nascia do esforço e emoções. Era sua ingenuidade poética, ou assim gostava de nomeá-la.

“Mas e o outro? Ouvi dizer que é um estorvo. Nem para tocar piano! É um garoto rebelde; deve ter herdado o sangue sujo do pai.”

Friccionava as quatro cordas com intercalada intensidade e suavidade, apreciando o timbre agudo e estridente nascido do contato da madeira do arco sobre as cordas retesadas. Mi, Lá, Ré, Sol.

“Foi ela que decidiu se casar com um novo-rico.”

O vibrato de braço¹ transmitia o drama do trecho da música, que apenas refletia um conflito interno. Por que o mundo era tão injusto e cretino? Por que só dava valor a quem podia oferecer algo em troca? “As pessoas valem o quanto tem ou o quanto podem.” Haviam lhe dito uma certa vez, e isto nunca lhe pareceu tão errado, e ao mesmo tempo tão verdadeiro.

― Não mentiram quando disseram que era um gênio ― ouviu tão logo encerrou a sequência de ensaio.

Relaxou ao avistá-lo sobre a soleira da porta. Como de costume, vestia o elegante terno que destacava o bom porte. Recostado no batente, Igarashi a fitava com a pretensiosa expressão de alguém que avalia um profissional. Como se por acaso entendesse de música. Talvez nem fosse este o rumo dos pensamentos, mas o rosto assim o exprimia. Na verdade, era o que mais detestava no rapaz: aquela feição irritante de detentor de todo o conhecimento, de todo o poder. Insuportável. Mas não daria a ele o prazer de vê-la irritada:

― Que surpresa agradável ― ironizou a ruiva, num tom leve. ― Como vai, chefinho?

― Minha presença te desagrada tanto assim? ― indagou Tora, presunçoso diante da resposta previsível.

― É claro que não, eu adoro bastardos prepotentes e desprezíveis. ― Oh, aquele jogo já estava cansativo. Logo tirou as dúvidas: ― Tem tempo livre para gastar com plebeus, Igarashi? Não deveria, sei lá... Estar transando com alguma garota por aí?

A primeira resposta do loiro foi uma risada seca diante da ousadia da colegial. Esta havia levantado para guardar o instrumento no estojo: afrouxava as cordas, de costas, quando ele riu, e mesmo que não pudesse vê-lo era fácil mentalizar seu semblante.

― Um tanto difícil. Ela diz que sou um bastardo prepotente e desprezível.

Arqueou as sobrancelhas, surpresa. Tora tinha boas respostas, não podia negar. Poderia até dizer que toda aquela pose e autoridade displicentes eram sexys, mas, antes de tudo, as achava repugnantes. Nunca se deixaria submeter de novo, principalmente a um rapaz tão arrogante e mimado. Aproveitou-se da posição, já que ele não poderia visualizar as reações, e quando voltou-se para trás mantinha uma calculada expressão desinteressada.

― Parabéns. ― Comemorou quando viu a expressão aturdida do outro. Explicou então: ― Achava que era apenas previsível. Estava quase desapontada.

Com isto lhe respondia que não, não pretendia dividir lençóis com ele. Além da negativa, a maneira com que o disse era uma afronta ao rapaz; feria-lhe o orgulho, a ponto de gerar nele um sorriso irritado que antes julgava ser obra apenas de Gerard Walker e o irmão inconveniente. Ela poderia ter corado, o xingado, ou simplesmente aceitado, como uma garota normal. Mas Yukari nada tinha de previsível. Difícil de lidar, embora interessante; no momento, era preferível sanar as dúvidas:

― Algum motivo para não estar no salão principal? Ou é uma espécie de autodidata antissocial e eu não sabia?

― Desavenças, professores rigorosos... ― indicou, displicentemente, enquanto passava a flanela pela superfície do violino. Mirou-o de soslaio: ― Já estou acostumada. Mas você não me veio aqui para ouvir meu ensaio. ― Respingou de sarcasmo: ― Além da proposta tentadora, o que o excelentíssimo líder veio pedir a mim?

Estava óbvio que pretendia encurtar a conversa, e no gesto deixava claro que não queria gastar mais do que o tempo necessário com ele. Não porque ela fosse de fácil leitura, mas sim porque o deixava ler apenas o que queria mostrar. Ou somente o que não queria esconder.

Embora exibissem máscaras semelhantes quando lidavam com a elite (simulados bons modos, educação e simpatia), ela ainda possuía muitas mais. Como a que expunha quando estava com ele: a de uma obstinação ferrenha, mesmo que bem-humorada, de nunca deixar-se submeter. Com ironia e cinismo, repudiava qualquer investida. Como se a função deste disfarce não fosse, como para Tora, um artifício social, e sim uma barreira que impedisse a qualquer um de penetrá-la.

Em impressionante velocidade, Yukari tornava-se mais e mais interessante; como um enigma que implorava para ser solucionado, e cujas peças pareciam nunca encaixar-se, tornando mais complicado (e estimulante) o desafio.

Mas haviam exigências mais urgentes. E, de qualquer forma, tinha que respondê-la. Num gesto simples, retirou dos bolsos e lhe estendeu um convite. Estava em seu nome. Aos poucos, a expressão escarnecedora foi substituída por uma, mais amarga:

― Dessa vez fui pessoalmente convidada? ― Soltou um ruído irritado com a boca, e os orbes verdes congelaram com a frieza. ― Que honra.

― Os Walker sempre fazem questão de fazer grandes eventos ― explicou o loiro, inclinando-se contra a mesa para expirar, exausto. Lidar de novo com aqueles excêntricos ingleses era tão cansativo. Olhou-a de modo inquisidor: ― Até a mais desonrada das famílias será chamada. ― Ainda que fosse como uma acompanhante, disse nas entrelinhas

Pela primeira vez, viu raiva genuína a faiscar nos olhos dela ― e, dentre todas, aquela era a face mais atraente. Não apenas porque os belos lábios rosados se crisparam com as palavras que dissera, ou porque as íris verdes transmitiam uma intensidade deliciosa de se domar. A principal razão foi a presunção: sentiu-se orgulhoso por minimamente transpassar a máscara de insolência que ela tanto gostava de usar quando com ele.

E apenas tivera que descobrir um detalhe ou outro sobre os Mirikamo. Não que fossem informações de acesso fácil, até porque as encontrara escassas e pouco detalhadas, mas a partir delas era possível montar um panorama geral.

Era a mãe a verdadeira Mirikamo, uma herdeira de uma família que um dia mostrou-se uma das mais influentes do Japão. Contudo, o dinheiro tornou-se escasso e restou apenas o prestígio: era necessário um casamento rentável. Daí entrou o esposo, um empresário qualquer que enriquecera muito rapidamente, ainda que não estivesse ligado a qualquer laço sanguíneo nobre. Deste casamento consumado pelo interesse mútuo, nasceu um casal de gêmeos.

De casamentos arranjados, a “aristocracia” nipônica estava cheia. Relacionamentos sem amor, disfarçados em nome de uma bela imagem, eram tão comuns como um hábito ao qual todos se acostumavam, inevitavelmente. Um repentino empobrecimento de um homem de negócios antes em estupenda ascensão, no entanto, era um escândalo. Assim como um divórcio.

Ali estava a ruiva: fruto de um casal que nunca se amara, e cuja fachada que chamavam de relação ruiu quando o dinheiro também se mostrou efêmero. E ela estava muito, muito zangada.

― Então o stalker procurou pela minha família? ― indagou em retórica, num timbre que ele nunca a ouvira usar. Não pôde evitar sorrir com a conquista.

― Por precaução.

― Claro, sua acompanhante podia se revelar uma assassina psicopata, não é? ― Ora, a colegial já estava indignada.

― Ou algo pior ― estimulou, divertido.

― Vejo que te causei uma ótima impressão ― cuspiu, desviando os olhos furiosos. Aquele homem era muito mais que inconveniente: era repulsivo.

Mais repulsivos eram aqueles ultrajantes sorrisos; tinha de se controlar antes de mostrar mais do que já exibira tão descuidadamente. Tão rápido quanto possível, buscou expressar a mesma calma calculada de outrora, usando do desinteresse. Fitou o convite espalhafatoso de tão exuberante pela última vez antes de escondê-lo das vistas dentro da bolsa.

― Ou seja, vamos uma festa tediosa cheia de gente chata. ― Fingiu-se educada, como quem trata um chefe de estado: ― Claro que vou aceitar.

― O que tem contra nós? ― ouviu ele questionar, e ao mirar os orbes amarelados viu seriedade neles. Sabia o que “nós” significava. A detestável elite.

Bem, para alguém de fora não era compreensível. Afinal, mesmo que a família fosse um fracasso, isto não estava em nada relacionado a qualquer fator externo. Foram o pai e a mãe, com ganância e egoísmo, que destruíram a si mesmos. Todavia, seria bem mais simples se tudo se resumisse a esta separação, a estes problemas familiares. Ainda havia... aquele ano. Aquelas lembranças. Das quais não compartilharia com ninguém, muito menos com um desconhecido pretensioso como Tora.

Desta vez não iria cair em seu jogo: iria ela mesma modificar as regras a seu favor. Pôs sobre os ombros o estojo do violino, indicando a partida, mas permaneceu ali, a olhar para a janela com um padrão intrincado e decorativo. Como quem não quer nada, disse para si mesma:

― Tantas perguntas. ― Voltou os olhos para os dele, e sorriu atrevida: ― Eu poderia fazer o mesmo: não é estranho um rapaz recém-formado de uma boa e influente família não estar na universidade?

Se mais sensível, Tora iria arrepiar-se. Apenas arregalou os olhos, incrédulo. Aquilo já envolvia segredos dos Igarashi que não deveriam (nunca) ser compartilhados com outra família, ou seriam arruinados. Droga, ela não era alguém a se subestimar. Antes de qualquer reação, ela avisou séria, ainda que o sorriso brincasse nos lábios.

― Controle suas interrogações ou vou atirá-las contra você.

― Gostaria de te ver tentar ― desafiou, ao recompor-se. Estava irritado e isto transparecia em seu rosto. Os papéis haviam se invertido. E ela não se sentiu nem um pouco ameaçada, porque provocou:

― Pode achar que tem todos na mão, mas isto é apenas sinal de sua prepotência irritante. ― Além de enumerar alguns de seus defeitos, os disse com uma audácia indescritível. Complementou, tão próxima quanto possível, e pressionou o indicador sobre o peito do loiro: ― Não me interessa quem você é ou o que você tem, não se intrometa no meu caminho, Tora.

Partiu sem olhar para trás, com o andar altivo e leve, como se também pudesse debochá-lo com o caminhar. Já ele se recuperava do mais estranho diálogo que tivera com uma mulher. Yukari o chamara pelo nome, sem qualquer cerimônia, provando que “Igarashi” não era qualquer sinal de respeito ou acanhamento, e sim apenas um capricho. O surpreendera, irritara, desafiara, provocara. Como se o único objetivo em cada fala fosse frustrá-lo, porque agir daquela maneira lhe capturara a atenção, quando ela obviamente demonstrara que o detestava.

Na penumbra da sala tomada pelos últimos raios solares, Igarashi Tora permitiu-se um riso seco e curto. Havia surgido um novo desafio para diverti-lo: iria descobrir os segredos de Mirikamo Yukari e, sobretudo, iria fazê-la sua.

Notas finais
Para quem não conseguiu ver a imagem de capa, aqui o link: http://imageshack.com/a/img191/6615/mbh1.jpg ¹ Vibrato de braço: A mão e os dedos permanecem parados, enquanto todo o braço do violinista mexe, fazendo com que toda a mão e os dedos mexam um pouco. (Wikipedia) Mas então. Demorei um tempão pra postar. Primeiro porque foi difícil lidar com os dois (Kanou e Tora), e Usui e Ayuzawa são infinitamente mais fáceis. Segundo: segundo meu contador, foram 4901 palavras :v (Tive que passar a cena fofa SuzuHina para o próximo) Isso é muita coisa e demora a ser escrito, mas infelizmente não consigo mais escrever cenas curtas. Então uma pergunta: preferem capítulos menores (2000~2500 palavras) com apenas uma cena de cada vez (mais fragmentado), ou capítulos longos com várias cenas? Well, acho que vocês estão conseguindo captar mais ou menos o que planejo colocando Aoi, Tora e Kanou na história [/sou óbvia neste aspecto, sorry. Não conheço aqui no Brasil muitas fics deles em romances com personagens originais, e espero conseguir fazer algo decente ^~^ E sim, esta mesma festa de que a Yuka e o Tora disseram é a que também vão Usui e Ayuzawa. Tora, Usui e Gerard juntos