Sob seu olhar
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Acordei um pouco confusa. A textura da cama não parecia em nada com a minha, e muito menos o cheiro. Era um cheiro suave, e de certa forma marcante. Mas, onde eu havia sentido aquele cheiro antes?
Noah.
Levanto de súbito sentindo a cabeça girar e meu coração bater tão forte quanto uma britadeira em uma calçada. Olho ao redor completamente assustada e para o alívio parcial do meu desespero, percebo que estou sozinha no quarto.
Sento na cama respirando fundo para me acalmar e percebo que de fato estou no quarto de Noah. Há fotos dele em um mural, e livros nas paredes. É inegável dizer que o início do dia de hoje realmente aconteceu e não foi apenas um delírio meu.
Outro turbilhão de pensamentos vem a mente quanto lembro do caso de Rose, e se ela já está bem.
Ouço batidas na porta e quase no mesmo instante vejo Noah entrar por ela. Assim que seus olhos escuros encontram os meus ele não parece surpreso. Espero que ele não diga nada como você baba enquanto dorme ou que eu ronco.
— O café da manhã está pronto, vai querer vestir suas roupas? Estão limpas e dobradas ali em cima da cadeira. Pode tomar banho, vou estar te esperando aqui no corredor.
— E seus pais? — Arrisco perguntar.
— Saíram. Catty está no churrasco com o pessoal, Tereza também está lá. Eu estou saindo.
E tão rápido quanto entrou, ele sai.
Tomo banho e visto-me rapidamente e vejo que até mesmo os sapatos de Tereza estão limpos, ainda que um par de chinelos estejam ao lado deles. Arqueio a sobrancelha e olho para os meus pés vendo que algumas bolhas no calcanhar estavam a mostra. Mas, quando diabos ele havia visto aquilo?
Um arrepio sobe em meu corpo.
Tal como havia dito Noah estava a minha espera no corredor. Com os calçados de Tereza na mão e os chinelos no pé, caminho lado a lado com ele até a escada. Teria sido um trajeto razoavelmente tranquilo se não fosse o fato de que Jonathan saiu de um dos quartos bem a nossa frente.
Eu paralisei no lugar, totalmente petrificada. Meus cabelos molhados, e o fato de eu estar tão cedo na casa deles poderia sugerir à Jonathan uma coisa bem diferente da que de fato havia acontecido.
O pior foi o olhar que ele e Noah trocavam, eram sérios, e até mesmo... ferozes?
Não tentei entender, apenas dei um passo a frente. Eu queria explicar, mas como que explicava a noite passada?
— Eu... — Gaguejei, tentando formar alguma frase, mas nada saiu. Ou melhor, Jonathan saiu, quando deu as costas para nós dois e desceu as escadas em uma velocidade altíssima.
Arqueio uma sobrancelha, até então Jonathan nunca havia sido rude assim comigo.
— Vamos. — Diz Noah, parecendo mal-humorado.
Não sei o que está acontecendo, mas certamente boa coisa não é.
...
— MENINA, COMO ASSIM VOCÊ DORMIU COM ELE?
Sou obrigada a jogar um dos meus chinelos em Tereza com o pé, evitando que ela surte ainda mais. O clima pela manhã não foi bom, e agora que estamos apenas eu e Tereza na cozinha cortando temperos para a feijoada, tudo o que eu quero fazer é esquecer o climão que aconteceu no corredor da casa de Noah.
— Dormi no quarto dele, apenas isso.
— Como apenas isso?! Me explica direito essa história. — Ela se aproxima, sorridente, e eu apenas aponto a faca para ela.
— Eu expliquei. Aliás, fico aliviada que a Rose esteja bem. — Comento deixando a faca na pia e lavando as mãos. As cebolas estão fazendo meus olhos ficarem bastante irritados. — E me diz sobre ontem, falou com o Felipe?
Seu sorriso triplica de tamanho, alcançando até suas orelhas ricamente ornamentadas com brincos prateados.
— Ah, se falei. — Seu sorriso murcha um pouco. — Mas só isso mesmo. Fomos para a praia do coral e só ficou na conversa. Achei que iria ser a ficada do século, mas se resumiu no assunto "faculdade".
Penso em falar alguma coisa, mas Helena, uma das garotas que iria fazer a feijoada entrou na cozinha, me impedindo de prosseguir no assunto. Os temperos cortados foram rapidamente utilizados por Helena e outras garotas e garotos. Entre eles o próprio João.
Sentada na mesa de jantar próximo à janela que dá vista para a piscina, posso ver que tanto Jonathan quanto Noah estão no quintal. De lados opostos, e mal olhando um para o outro. Não entendo muito de comportamento humano, mas sei que algo está errado.
Os dois parecem tensos, e Jonathan não tira as mãos no cabelo.
— Acha que tem algo aí? — Tereza pergunta, parecendo estar olhando a mesma coisa que eu.
Dou de ombros, incerta do que responder.
— Não sei, honestamente, não sei.
Viro o rosto para observar Tereza e ela apenas sorri, colocando a mão em meu ombro. Um sinal de consolo, mas por que ela está me consolando?
...
Cerca de 15:00 da tarde na mansão de João. O churrasco ainda está a todo vapor e parece que toda a universidade está aqui, com exceção de alguns poucos alunos e professores. Uma batida eletrônica faz meus ouvidos latejarem em reclamação. Quero ir embora, mas Tereza me fez prometer que ficaria até que a noite chegasse.
Ela conseguiu convencer minha mãe de que eu estava bem e que iria ficar com ela até a noite. Até roupas ela havia conseguido.
Um suspiro e levo mais um pedaço de carne até a boca.
Foi assim a tarde toda desde que Tereza sumiu com Catty para irem dançar. Em outras palavras, ficar com alguém.
É nesses momentos em que detesto ser a pessoa mais tapada e incomunicável do trio. Sem elas eu fico completamente sozinha.
Ouço alguns gritos na direção da área da piscina e sem pensar duas vezes corro até lá, tomando um verdadeiro susto ao ver diversas garrafas de vidro quebradas no chão.
Quando saí pela porta senti como se estivesse na divisão de dois lados em guerra. De um lado Thiago estava com uma garrafa na mão, visivelmente alterado, e falando coisas horríveis sobre Rose e Noah. Os cacos de vidro e resíduos de outros líquidos, que imaginei serem bebidas alcoólicas, se misturavam próximos ao seu pé e em toda a área próxima à borda da piscina.
Do outro lado Noah estava sendo segurado por uma Catty chorosa e Felipe, que parecia tão irado quanto o próprio Noah.
É quando Thiago lança a garrafa que segurava em Noah que toda a confusão começa.
Catty que estava segurando Noah se assusta quando a garrafa de vodka voa e quebra bem próximo de seus pés, dá um pulo para trás e acaba por cair em cima de Felipe, que a segura pelos ombros.
Aquele foi o estopim. E eu observo assustada quando Noah marcha em direção à Thiago. Procuro Jonathan ou Tereza com olhar, mas não encontro ninguém. As pessoas estão ao redor, tampando a visão de quem estava mais atrás.
Noah e Thiago se encontravam e Noah acertou um soco de direita em sua face, o fazendo cambalear para trás. Movida pela coragem ou pelo medo, não sei, apenas sei que corri em direção a Noah antes que alguém se machucasse de verdade.
Acho que meu gesto despertou as outras pessoas ao redor, pois logo vejo alguns dos amigos de Noah segurando Thiago, o impedindo de avançar. Acho que um deles é Pablo, não lembro muito bem o nome.
Seguro forte no braço de Noah e ele vira o rosto parecendo atônito quando me vê.
— O que está fazendo? — Indagou ele, parecendo estar alheio à Thiago naquele momento.
Boa pergunta. O que estou fazendo?
— Te impedindo de fazer alguma besteira. Sei lá. — Respondi, soltando o braço dele e dando um passo para trás.
Sinto que foi uma péssima ideia assim que sinto uma pontada no pé, e o pior de tudo, o sangue começar a sair.
— Você pisou em um caco de vidro? — Noah indaga, se aproximando com cuidado para não pisar também. Ele me estende o braço. — Segura em mim.
Meu coração está martelando como louco, mas ainda sim eu seguro em seu braço indo parecendo um saci. No meio do caminho em retorno para a casa encontramos João, que está com as bochechas vermelhas.
— Mary? O que aconteceu com ela? — Questiona com os olhos arregalados. — Enfim, leva ela pro quarto do Ramon, lá deve ter coisas para pelo menos estancar esse sangue.
Noah e eu assentimos, e seguimos em frente entrando na casa.
...
Sento na cama de Ramon e espero Noah achar os tais materiais para pelo menos estancar o sangue. Ele se ajoelha a minha frente com algumas gases, esparadrapos e mais algumas coisas.
Quando ele toca no meu pé faço uma careta demonstrando dor.
— Vai sentir um pouco de dor. Tenho que ver se tem vidro aqui dentro.
Fecho os olhos e aperto a borda da cama, sentindo uma dor crescente e latejante. Abro os olhos quando ouço uma risada baixa vinda de Noah.
— Do que você está rindo?
Ele não olha em minha direção, mantendo seu olhar fixo no meu pé.
— Bloody Mary. — Comenta, rindo. Apesar da dor no pé ainda sinto um leve calor no coração.
Noah está rindo.
— Não é engraçado rir de uma pessoa sangrando, sabia? — Censuro, olhando para baixo. Noah ergue o olhar também, e eu não evito prestar atenção naqueles olhos.
— Você já parou de sangrar, e aparentemente não tem mais nenhum vidro. Ainda sim recomendo ir ao médico para ter certeza. — Ele conta, parando de rir. Uma batida soa na porta.
O contato visual não dura muito, pois logo ele termina de limpar o ferimento em meu calcanhar e fica de pé, olhando para a porta se abrir. Jonathan não parece feliz em nos ver juntos pela segunda vez no dia, todavia, desta vez ele não dá as costas e vai embora. Pelo contrário, se aproxima de onde estou sentada.
— O que aconteceu?
A voz grossa de Jonathan lembra a de Noah, embora a de Noah seja mais suave.
— Ela cortou o pé em um dos vidros que Thiago deixou pelo caminho. Eu estava limpando o ferimento. — Noah é quem responde por mim, totalmente tomado por um mal-humor repentino. Jonathan olha para a gaze em meu pé direito.
— Ah, você faz medicina ou enfermagem agora. Curioso, sempre achei que você fosse do ramo da engenharia. — O tom ácido com que Jonathan fala me faz arregalar os olhos. Por acaso esse pirralho está de TPM?
Antes que mais uma discussão tenha início resolvo interferir, me pondo de pé, sentindo o corte latejar.
— Muito bem lembrado, Jonathan, eu tenho mesmo que ir em um profissional. Porém, isso não é motivo para tratar seu irmão assim. Se o problema aqui era referente ao corte em meu pé, fiquem tranquilos. Eu mesma estou indo resolver isso.
Não espero respostas quando passo pelos dois homens, seguindo direto para a porta onde me surpreendo ao encontrar Catty e Tereza, as duas com uma certa agonia no rosto.
— Vou ir falar com eles. — Avisa Catterine, passando por mim e por Tereza que apenas confirmamos com um gesto de cabeça.
— Vamos, você precisa ir ao hospital.
A voz de Tereza me faz olhar em sua direção, e eu confirmo, apreensiva sobre como a situação deve estar dentro daquele quarto.
Fale com o autor