Sob seu olhar

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Olá, olá. Eu postando mais uma história, masssss, essa já está beeeeem adiantada, então não se preocupem. Estarei postando com pontualidade.

Aproveitem^^

A chuva faz meus óculos embaçarem. E por consequência eu não consigo enxergar nadica de nada. Entendo que chuva é importante para a existência da vida no planeta, mas, poxa, precisava cair tudo isso logo hoje?

Tiro meus óculos para limpá-los e sinto vários esbarrões em mim, um seguido do outro. Consequências de ficar parada pleno corredor onde pessoas atrasadas vem e vão, todas com seu próprio horário, sempre em cima da hora.

Coloco novamente meus óculos e sinto como se a correnteza de um rio estivesse a puxar-me. Sou levada por aquele mar de gente até a sala de aula que costumo frequentar às sextas. Corte e costura não parece nada algo que uma universitária deveria estar cursando, eu sei. Porém, minha razão de estar aqui é um dos motivos pelo qual muitos pagam outras coisas bem mais caras para tentar aliviarem, acertou quem disse "estresse".

Como filha única de pais genuinamente separados, minha missão nesta terra é conseguir atender todas as exigências e esperanças desse casal de meia idade presente em minha certidão. É um pouco difícil, admito, quando meus pais me criaram de formas distintas dentro de suas respectivas casas.

Meu pai é mais liberal, acredita em signos, má sorte e tem um ótimo dom para cozinhar. Não se importa muito com bens materiais, é apaixonado por arte, e prefere sessões de massagem à qualquer outro lazer nas sextas a noite. Com ele aprendi a respeitar a natureza, animais e escolhas pessoais de cada um. E mesmo que ele negue, foi ele quem me mostrou que corte e costura pode ser desestressante.

Minha mãe, como posso dizer, é o completo oposto. Ela acaba sendo algo como um general dentro de casa: Dá ordens, não gosta de exercer o diálogo, e por algum motivo sempre passa mais tempo treinando artes marciais do que passa em casa com a família, quer dizer, eu e o Petuxo, nosso gato. Ela é um amor, mas prefere ser o Rambo do que ser qualquer donzela. Ela é o maior exemplo de mulher forte que conheço, e me orgulho disso.

Porém, eles acabam tendo expectativas diferentes sobre mim. Meu pai sente que eu deveria ter mais contato com a natureza, e minha mãe quer que eu seja a melhor possível em tudo que eu faça. Definitivamente uma coisa não parece em nada com a outra.

Entre um pensamento e outro, giro a maçaneta da porta que dá para a sala do curso e entro. Minha surpresa é instantânea ao ver que eu estou mais atrasada do que imaginei.

— Menina, pegou o ônibus que dá a volta em Nárnia? — Quem reclama é Tereza, minha melhor amiga e fiel companheira de curso. Ela se inclina na minha direção assim que eu me sento ao seu lado. Por sorte, a professora ainda está separando os tecidos que iremos usar hoje.

— Não, tá' doida? Só me atrasei por causa da chuva. Me molhei toda, inclusive. —Digo mostrando a minha blusa com alguns tons mais fortes devido à chuva que me alcançou no meio do caminho.

— Tá. — Foi o que ela se limitou a dizer, isto é, pelos próximos dois segundos. Tereza nunca ficava calada por mais de dois segundos. — Fiquei sabendo de uma coisa...

Eu sabia o que ela estava tentando fazer, estava tentando me atiçar para me contar alguma fofoca da faculdade.

— Você sempre fica sabendo das coisas, Tez. O que foi dessa vez? — Olho em sua direção e vejo quando seus olhos parecem brilhar em mil tons de dourado. Meu estômago se revira, boa coisa daí não virá.

— Ah, cala a boca. — Observo quando ela se ajeita na cadeira, fazendo um rangido ser ouvido pelo cômodo todo. Sua voz fica mais baixa, quase como um sussurro. — Não surte, mas, eu... CONSEGUI QUE A CATTY NOS CONVIDASSE PRA' SOCIAL NA CASA DELA SEXTA. NÃO É MARAVILHOSO?

Meu corpo está paralisado, e acho que parte da minha mente. Isso se deve à diversos fatores, entre eles estão: a) As pessoas, a maioria senhoras de meia-idade, nos olhando; b) O fato de Tereza estar me olhando como se o destino da humanidade dependesse de mim nesse instante; c) Sexta. Hoje é sexta.

— Você quer dizer hoje? A festa, social, sei lá, é hoje? — Pergunto com o maior tom neutro que consigo. Não gosto dessas festas, e pior que isso, não sei se minha mãe me deixaria ir.

Ainda que eu tenha meus 20 anos preciso da aprovação dos meus pais para festas e coisas do tipo. Parece ridículo, eu sei, mas, esse é jeito deles de cuidarem de mim.

— Hoje não, né? — Ela ri, pegando o seu material de costura. — Vai ser sexta.

Respiro fundo, pedindo a Deus por paciência.

— Tereza. — Chamo, atraindo sua atenção. — Hoje é sexta, criatura de Deus.

Sua expressão de riso cai totalmente, deixando apenas um olhar de aflição.

— Caramba, caramba, caramba, e agora? Não podemos ir pra lá sem passar a tarde vendo qual look nós finalmente vamos usar. Espera, e se meu vestido preto estiver com a Diana? Eu mato aquela garota! — Sou obrigada a interromper seu surto segurando seu antebraço.

— E está chovendo demais, como que pega ônibus desse jeito sem ficar com os pés molhados até chegar no ponto? E só lembrando, o vestido preto não é seu, é da Diana, caso tenha esquecido. — Mordo o lábio inferior, largando o braço dela e virando para a frente, olhando a professora colocar as primeiras anotações do que faremos hoje. — E, acho melhor não irmos. Vai que tudo é um sinal.

— MAS NEM FERRANDO QUE EU NÃO VOU. — Tereza grita e eu automaticamente pulo em meu lugar, me assustando pra valer com esse rugido da pantera louca. — Escuta, quando sairmos daqui vamos na minha casa, eu te empresto uma roupa, nós nos maquiamos, pegamos um uber e voilá. Estaremos dentro de uma das festas mais famosas da faculdade.

A última frase ela diz cantarolando, o que me dá um pouco de arrepio na espinha. Tereza pode ser minha amiga, mas não é o melhor exemplo de pessoa com sanidade mental.

— Okay, okay. E onde exatamente você está encaixando o fato de que nós duas precisamos de permissão pra ir em festas, ainda mais em festas da faculdade?!

Tereza ri e pede meu celular. A aula está correndo, porém nós duas estamos ainda perdidas nesse longo debate sobre a festa da Catty. Por mais que eu não tenha o mínimo gosto por esse tipo de coisa, não é apenas isso que me faz ficar com receio de ir nesta. É algo maior, algo que eu classifico como mal pressentimento.

...

Uma das coisas na vida que eu nunca questionei é o quão persuasiva Tereza pode ser.

Com sua voz suave, seus olhos brilhantes e uma lábia digna de João Grilo, ela pode convencer quase qualquer um a fazer quase qualquer coisa. Para isto basta apenas que ela esteja focada o bastante, e sempre ela está.

Digo isso após anos de amizade, e porque horas atrás tive novamente o (des)prazer de contemplar esse dom dela em ação. Pois foi através desta dom que ela conseguiu a aprovação de nossos familiares para a tal social na casa da Catty. Algo que confesso que não me animou em nada.

Neste instante eu a vejo andar para lá e para cá, com uma chapinha na mão enquanto decide atentamente sobre qual dos seus vestidos mais pomposos deveria usar. Como ela havia previsto antes, Diana havia pegado o vestido preto, restando a ela apenas o lilás com alcinhas, o azul que possuía um amplo decote nas costas, e um verde esmeralda que era combinado com renda.

A indecisão dela já estava me dando uma certa agonia, se eu pudesse escolher, a faria se enfiar em qualquer um dos três e terminar logo aquela maldita chapinha no cabelo.

— Você vai assim mesmo?

Desvio o olhar dos vestidos que passei a encarar, e a vejo parada na minha frente já com os cabelos coloridos lidos e bem penteados. Desço o olhar para minha roupa e observo que minha má postura está fazendo um pouco da barra da minha blusa sair de dentro da calça.

Avalio um pouco minhas roupas que se resumem em: Uma regata azul marinho, um macacão jeans de cor clara, e um par de tênis sem cadarço. Não está ruim, mas imagino o que Tereza deve estar pensando: Simples demais.

— Sim, vou. E recomendo que você se apresse, ou não vamos sair daqui hoje, entendeu?

Tereza revira os olhos, sai da minha frente e pega o vestido lilás, entrando no banheiro do quarto.

Quando ela sai do quarto, sinto como se a tensão do meu corpo estivesse escapulindo por alguns instantes. Nem a aula foi capaz de acalmar meus nervos após a incrível notícia da festa dada por Tereza.

Eu realmente queria ter ido pra casa, as vezes ter roupas na casa da sua melhor amiga pode ser incômodo. Se eu estivesse em casa poderia dar qualquer desculpa e não ir. O arrependimento agora é um pouco tardio, eu sei.

Entretanto, nada posso fazer quando sei que meu nervosismo de ir nessa festa é apenas um: Noah.

Notas finais
O que acharam da Mary ou da Tereza, hein? Não percam as próximas aventuras dessa dupla!!!