Sob o olhar dos Deuses
4 O último brinde
O corpo de Ganimedes pulsava.
Não como o de um homem comum, mas como um astro que começa a brilhar por dentro. A energia o invadia como ondas — suaves, depois ferozes. Seus olhos se fecharam. Viu-se não mais como o jovem príncipe de Troia, mas como algo maior, antigo, celeste. Estava se tornando parte do céu.
Zeus o segurava firme, como quem segura algo sagrado. As asas douradas ao redor protegiam-no do frio da altitude, mas também da dúvida.
— Estás pronto? — sussurrou o deus.
— Não. — Ganimedes abriu os olhos, arfando. — Mas mesmo assim… quero ir.
Com um gesto, Zeus desceu com ele até os domínios do Olimpo, não como CEO, não como rei dos deuses — mas como amante, como homem furioso e apaixonado.
O conselho estava reunido. Hera estava de pé, com Hermes e Atena a seu lado. Havia tensão nos olhos de todos. Mas algo estava diferente.
Ganimedes não tremia mais.
Ele caminhou até o centro da cúpula e encarou Hera sem desviar os olhos.
— Não vim pedir permissão.
— És insolente — retrucou ela, mas a voz não era mais certeira. Estava ferida. — Usurpa um lugar que nunca foi teu.
— Não pedi esse lugar. Mas fui escolhido. E agora, escolho também.
Zeus se aproximou, firme como um trovão contido.
— O Olimpo nunca foi estático, Hera. — Ele pousou a mão sobre o ombro de Ganimedes. — A mudança é parte da eternidade.
Um silêncio caiu.
Hermes desviou o olhar. Atena franziu o cenho, mas não interveio.
Foi Poseidon quem se manifestou por fim, sua voz como o eco de marés:
— Que se prove, então, que ele pertence a nós. Que beba do cálice da imortalidade e sirva não apenas ao teu leito, Zeus, mas ao mundo.
Zeus fez surgir o cálice dourado.
Dessa vez, Ganimedes não hesitou.
Tomou o vinho dos deuses e sentiu o tempo dobrar. As veias dele cintilaram como rios de luz. Quando abriu os olhos, sua pele ardia como ouro quente. No lugar onde um jovem ficava antes, havia agora uma nova divindade.
Não um menino.
Mas um deus do céu.
Zeus sorriu. Hera virou-se, derrotada mas altiva — jamais pediria desculpas, mas jamais o atacaria de novo.
Ganimedes caminhou até o trono que antes era só de Zeus, e sentou-se no braço dele, de cabeça erguida.
— E agora? — perguntou, baixinho.
Zeus inclinou-se e o beijou, sem medo de quem via.
— Agora... pertencemos um ao outro. Por cima dos céus. Acima do Olimpo.
—
E assim, os homens olharam para o céu e viram uma nova constelação: Aquário.
Dizem que ali repousa o amor de um deus e a coragem de um homem que aceitou tornar-se eterno.
Porque às vezes, ser imortal… é só amar e ser amado de volta.
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