Sob o céu de incertezas
1 Sob o céu de incertezas
O som distante de explosões reverberava no horizonte, como trovões de uma tempestade que nunca chegava, mas cujos ecos eram impossíveis de ignorar. A pequena vila de Bergen, cercada por colinas e florestas densas na Alemanha rural, parecia viver em suspensão entre a tranquilidade forçada e o peso avassalador da guerra. As ruas, que antes eram animadas por crianças correndo e vizinhos conversando nas portas das casas, agora permaneciam silenciosas, com as janelas fechadas e os olhares escondidos por cortinas pesadas.
Pela manhã, as pessoas saíam para cuidar de suas obrigações, mas sempre com passos apressados e cabeças baixas. Soldados patrulhavam as ruas em pequenos grupos, observando cada movimento com uma mistura de desconfiança e tédio. E nos campos, homens magros, de olhares cansados e uniformes surrados, trabalhavam sob a vigilância de guardas armados. Eram trabalhadores forçados: judeus, prisioneiros políticos e estrangeiros capturados pela máquina de guerra nazista.
Hanna Keller, com seus dezenove anos, era uma figura discreta entre os habitantes da vila. Desde que a guerra começara, ela aprendera a ser invisível, uma habilidade essencial para sobreviver em tempos de incerteza. Com um lenço cobrindo seus cabelos loiros e uma cesta no braço, ela caminhava pela estrada de terra que levava ao mercado. As botas desgastadas levantavam poeira a cada passo, mas ela não se importava. Estava mais preocupada em evitar chamar atenção.
Antes de sair de casa, seu pai, Alfred Keller, um homem de meia-idade com traços severos e uma expressão permanentemente cansada, lhe dera instruções claras:
— Traga pão, se conseguir, e volte antes do anoitecer. Não quero que você fique na rua quando... eles estiverem por aí.
Ele não precisava explicar. Os “eles” eram os trabalhadores forçados, que muitas vezes eram escoltados pelas ruas, carregando cargas pesadas ou fazendo reparos nas fazendas próximas. Alfred evitava qualquer menção direta a eles, mas Hanna sabia que o desconforto do pai ia além do medo. Era um silêncio forçado, uma tentativa de evitar pensar demais sobre o que acontecia ao seu redor.
No mercado, a movimentação era maior do que o habitual. Mulheres disputavam entre si os poucos alimentos disponíveis, enquanto os soldados revistavam caixas e conversavam em voz alta. Hanna conseguiu pegar algumas batatas murchas e um pedaço pequeno de pão. Enquanto esperava na fila para pagar, seus olhos vagaram pela praça até pararem em um grupo de trabalhadores que descarregavam sacos de farinha de um caminhão.
Foi então que ela o viu pela primeira vez.
Ele era alto, com cabelos escuros desgrenhados e um olhar que parecia carregar toda a dor do mundo. Embora magro, havia uma dignidade em sua postura que o destacava dos outros. Seus olhos encontraram os dela por um instante, e Hanna sentiu o rosto esquentar. Ela tentou desviar o olhar, mas não conseguiu. Algo na maneira como ele a encarava a fez sentir uma mistura de curiosidade e desconforto.
— Você não devia encarar — murmurou uma voz ao seu lado.
Hanna se virou e viu uma mulher mais velha, com expressão severa, observando-a com reprovação.
— Foi sem querer — respondeu Hanna, mas sabia que não era verdade.
Durante o trajeto de volta para casa, a imagem do rapaz continuava viva em sua mente. Ele parecia diferente, como se sua presença fosse um lembrete silencioso de tudo o que estava errado no mundo. Quando ela passou por um grupo de trabalhadores sendo escoltados por soldados, ouviu gritos e viu o mesmo rapaz ser empurrado com brutalidade por um guarda. Ele tropeçou, mas manteve o equilíbrio, erguendo-se com dificuldade.
Hanna hesitou, o coração acelerado. Ela sabia que não deveria se envolver, mas, antes que pudesse se controlar, deu um passo à frente.
— Está tudo bem? — perguntou, a voz baixa, quase inaudível.
O rapaz ergueu os olhos para ela, surpreso.
— Estou vivo — respondeu ele, a voz rouca.
Antes que Hanna pudesse dizer mais alguma coisa, um dos soldados olhou em sua direção, e ela rapidamente deu meia-volta, continuando seu caminho. Mas o breve encontro ficou gravado em sua memória, e ela sabia que não seria fácil esquecer aqueles olhos.
Naquela noite, enquanto ajudava o pai a consertar um velho rádio, Hanna tentou esconder sua inquietação.
— O que houve no mercado hoje? — perguntou Alfred, sem desviar os olhos das ferramentas em sua mão.
— Nada demais. Algumas brigas por comida.
Ele a olhou de relance, como se tentasse avaliar se ela dizia a verdade.
— Você sabe que precisamos ser cuidadosos, não é? Essa guerra... ela não poupa ninguém.
— Eu sei, pai.
Mas, enquanto dizia isso, Hanna sabia que algo dentro dela havia mudado. A imagem do rapaz continuava a persegui-la, e ela sentia uma curiosidade crescente sobre quem ele era e como havia chegado ali.
Nos dias que se seguiram, Hanna encontrou-se voltando ao mercado com mais frequência, mesmo quando não havia necessidade. Ela dizia ao pai que precisava verificar se havia mais pão ou ovos disponíveis, mas, na verdade, queria vê-lo novamente.
Cada caminhada pela estrada parecia mais longa, mais carregada de antecipação. O rapaz de olhos intensos havia se tornado uma presença constante em sua mente, e ela não conseguia entender por quê. Talvez fosse a postura dele, o modo como se recusava a deixar que a miséria apagasse sua dignidade. Ou talvez fosse a forma como seus olhares se cruzaram, como se houvesse algo não dito entre eles, algo que ela não conseguia explicar.
No terceiro dia, ela o viu novamente. Ele estava ao lado de outros trabalhadores, carregando tábuas de madeira para um celeiro que precisava de reparos. Um soldado gritava ordens, enquanto outro observava de perto, segurando um rifle com casualidade ameaçadora.
Hanna parou por um momento, observando à distância. Ele parecia mais cansado do que antes, mas ainda havia algo na maneira como se movia que a fascinava. Quando seus olhos se encontraram novamente, ela percebeu que ele a reconhecera. Não havia sorriso, mas um leve movimento de sua cabeça, quase imperceptível, como se quisesse dizer algo sem chamar atenção.
Dessa vez, Hanna não ficou parada. Movida por um impulso que não entendia, aproximou-se lentamente do grupo.
— Está tudo bem? — murmurou ela, assim que ficou perto o suficiente para ser ouvida.
O rapaz olhou para ela, surpreso, mas não respondeu de imediato. O soldado mais próximo parecia distraído, mas Hanna sabia que qualquer movimento suspeito poderia atrair sua atenção.
— Você não devia falar comigo — disse ele, finalmente, a voz baixa e rouca.
— E por que não? — rebateu ela, mantendo o tom baixo.
Ele a encarou por um momento, como se avaliando sua sinceridade.
— Porque eles estão sempre olhando. — Ele gesticulou discretamente em direção aos soldados. — E porque falar comigo pode colocar você em perigo.
Hanna sentiu o coração acelerar. Sabia que ele estava certo, mas, por algum motivo, não conseguia se afastar.
— Meu nome é Hanna — disse ela, como se aquilo pudesse quebrar a tensão.
Ele não respondeu imediatamente, mas, depois de uma pausa, murmurou:
— Chaim.
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, um dos soldados gritou em sua direção, e Hanna recuou, fingindo que apenas passava por ali. Mas, enquanto se afastava, sentiu uma estranha mistura de medo e excitação. Ela sabia que estava entrando em território perigoso, mas algo em Chaim a atraía de uma maneira que ela não conseguia ignorar.
Naquela noite, enquanto ajudava o pai a cortar lenha no quintal, Hanna não conseguiu conter suas perguntas.
— Pai, por que eles fazem isso? — perguntou, de repente.
Alfred parou, o machado ainda na mão.
— Fazem o quê?
— Os trabalhadores forçados... os judeus. Por que eles são tratados assim?
O pai franziu a testa, como se a pergunta fosse um golpe inesperado.
— Hanna, essas não são coisas que você deve questionar. É assim que as coisas são.
— Mas não faz sentido. Eles são pessoas como nós.
— Não! — disse ele, com mais força do que pretendia. O tom o surpreendeu, e ele suspirou antes de continuar, mais baixo. — Não é seguro pensar assim. Nem para você, nem para mim. Você sabe como as coisas são agora. Não podemos mudar isso.
Hanna sentiu uma pontada de frustração, mas não insistiu. Sabia que o pai a amava e fazia o possível para protegê-la, mas sua relutância em enfrentar a realidade do que acontecia ao redor a deixava inquieta.
Alguns dias depois, Hanna tomou uma decisão impulsiva. Levou a cesta de pão como desculpa e saiu de casa, mas, em vez de ir ao mercado, seguiu para o rio que ficava escondido entre as árvores, um lugar que ela visitava desde criança para escapar do mundo.
Enquanto se aproximava, ouviu o som de passos leves atrás dela. Virando-se, viu Chaim, que a observava à distância. Ele parecia hesitante, como se não tivesse certeza de que deveria estar ali.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, aproximando-se.
— Eu vi você sair do mercado. Achei que talvez quisesse... falar.
— E se alguém te seguir?
— Eu fui cuidadoso.
Hanna olhou ao redor, nervosa. Sabia o risco que estavam correndo, mas, por algum motivo, não conseguia afastá-lo.
— Você devia estar com o grupo.
— E você devia estar em casa — respondeu ele, com um leve sorriso que parecia deslocado em seu rosto cansado.
Ela não pôde evitar sorrir de volta, mesmo sabendo que aquele momento era imprudente.
— Obrigado — disse ele, finalmente. — Por falar comigo.
Hanna hesitou.
— Não sei por que faço isso.
— Talvez porque você ainda veja as pessoas como elas são, não como dizem que devemos vê-las.
Eles ficaram em silêncio por alguns momentos, ouvindo o som do rio ao fundo. Para Hanna, aquele era um dos poucos momentos em que o peso da guerra parecia mais distante, como se estivesse além do alcance das árvores que os cercavam.
Nos dias que se seguiram, os encontros de Hanna e Chaim tornaram-se frequentes, sempre à margem do rio ou escondidos entre as árvores. A cada conversa, Hanna descobria mais sobre ele: a cidade de onde viera, sua família, os sonhos que um dia tivera antes de tudo ser destruído pela guerra.
— Meu pai era professor — disse Chaim uma vez, enquanto traçava linhas invisíveis na terra com um graveto. — Ele sempre dizia que o conhecimento é a única coisa que ninguém pode tirar de nós. Eu acreditava nisso. Mas aqui... — Ele parou, olhando para as mãos magras. — Às vezes, não tenho certeza.
Hanna sentiu uma pontada de dor por ele. Queria dizer algo que pudesse aliviar seu sofrimento, mas sabia que palavras não eram suficientes.
— O que você quer fazer quando isso acabar? — perguntou, tentando mudar o tom.
Chaim riu, um som rouco e quase sem vida.
— Quando isso acabar? Isso parece um sonho distante.
— Mas é isso que nos mantém vivos, não é? Sonhos.
Ele a olhou por um longo momento, como se quisesse acreditar em suas palavras.
— Talvez.
Enquanto os encontros clandestinos continuavam, Hanna começou a perceber os olhares de reprovação ao redor da vila. A senhora Lutz, vizinha de seu pai, fazia comentários disfarçados sobre "certas pessoas que esqueciam seu lugar". No mercado, os soldados pareciam mais atentos, os olhos vasculhando cada movimento.
Em casa, o pai de Hanna estava mais inquieto do que nunca.
— Você anda diferente ultimamente — disse ele uma noite, enquanto consertava um par de botas. — Tem algo que eu deveria saber?
Hanna hesitou, sentindo o peso da pergunta.
— Não, pai. É só... o cansaço de tudo isso.
Ele não pareceu convencido, mas não insistiu.
A tensão aumentou quando um grupo de soldados fez uma inspeção surpresa na vila, revistando casas e interrogando moradores. Naquela noite, enquanto ajudava o pai a arrumar a cozinha, ele finalmente falou o que vinha guardando.
— Hanna, escute-me bem. Não se envolva com eles. Não fale, não olhe. Não podemos nos dar ao luxo de atrair problemas.
Ela assentiu, mas não disse nada. Dentro de si, sabia que era tarde demais para seguir aquele conselho.
Em uma tarde cinzenta, Chaim revelou algo que fez o coração de Hanna parar.
— Estou planejando fugir — disse ele, a voz baixa, mas firme.
— Fugir? Mas para onde?
— Há rumores de que há uma rede de resistência perto da fronteira. Eles ajudam pessoas como eu a escapar.
Hanna sentiu um misto de medo e esperança.
— E como você vai chegar até lá?
— Ainda não sei. Mas se eu ficar, é apenas uma questão de tempo até que me matem.
A ideia de perdê-lo era insuportável, mas o plano parecia suicida.
— É muito perigoso.
— Tudo aqui é perigoso — respondeu ele, com um olhar que a desafiava a entender. — Mas não posso continuar vivendo assim.
Na noite seguinte, Hanna tomou sua decisão. Esperou que o pai fosse dormir, pegou um casaco grosso e reuniu o pouco de comida que conseguiu esconder. Depois, correu para o rio, onde sabia que Chaim estaria esperando.
— Vou com você — disse ela, sem hesitar.
Chaim balançou a cabeça, incrédulo.
— Você não pode. É perigoso demais.
— E é seguro para você? Não importa o que aconteça, estamos ambos em perigo. Mas juntos, talvez tenhamos uma chance.
Ele ficou em silêncio por um momento, e então assentiu, embora o olhar nos olhos dele refletisse tanto medo quanto gratidão.
— Certo — disse Chaim, a voz séria. — Mas precisamos ser rápidos e cuidadosos. Se nos encontrarem, não haverá perdão.
Hanna sentiu um arrepio ao ouvir aquelas palavras, mas não recuou.
— Para onde vamos?
— Há uma floresta a cerca de quinze quilômetros daqui. Dizem que há um contato da resistência em uma cabana escondida lá. Ele pode nos ajudar.
Hanna assentiu, sabendo que aquela jornada seria perigosa e exaustiva, mas sem outra alternativa em mente.
Eles partiram sob o manto da noite, com apenas a lua para iluminar o caminho. O frio cortava como uma lâmina, mas Hanna não reclamou. Chaim, acostumado às condições brutais, caminhava com determinação, sempre atento a qualquer som ao redor.
Enquanto avançavam pela trilha que levava à floresta, o silêncio da noite era interrompido apenas pelo som de galhos quebrando sob seus pés e o ocasional uivo distante do vento. A tensão entre eles era palpável, mas também havia uma estranha sensação de unidade, como se, naquele momento, fossem os únicos dois humanos em um mundo devastado.
Perto do amanhecer, eles ouviram um som que os fez congelar: cães.
— Eles estão nos procurando — sussurrou Chaim, puxando Hanna para trás de uma árvore.
— O que fazemos? — perguntou ela, o coração batendo tão forte que tinha medo de que os cães ouvissem.
— Precisamos sair da trilha. Venha.
Chaim a guiou por entre arbustos densos, afastando galhos com cuidado para não deixar rastros óbvios. O som dos cães parecia se aproximar, mas, aos poucos, começou a se afastar, até desaparecer por completo.
Quando finalmente pararam para descansar, Hanna estava ofegante e coberta de arranhões, mas aliviada por estarem fora de perigo.
— Isso foi perto demais — disse ela, tentando recuperar o fôlego.
Chaim concordou, mas não disse nada. Em seu rosto, havia uma expressão sombria que ela não havia visto antes.
Horas depois, chegaram à floresta. Era densa e fria, mas oferecia um esconderijo natural. Chaim guiou Hanna até uma clareira onde, ao longe, uma pequena cabana de madeira estava parcialmente escondida pelas árvores.
— É aqui — disse ele, com um misto de alívio e cautela.
Aproximaram-se devagar, e Chaim bateu na porta com um padrão de toques que ele dissera ter ouvido dos outros prisioneiros. Depois de um momento de silêncio, a porta se abriu, revelando um homem de meia-idade com olhos atentos.
— Quem são vocês? — perguntou ele, segurando uma espingarda.
— Amigos — respondeu Chaim. — Precisamos de ajuda.
O homem olhou para eles por um longo momento antes de assentir e deixá-los entrar.
Dentro da cabana, o ambiente era simples, mas aconchegante. Uma lareira acesa fornecia calor, e havia mantimentos básicos espalhados pela mesa de madeira.
— Sou Klaus — disse o homem, enquanto servia um pouco de sopa. — Sei por que estão aqui. Mas precisam entender que a estrada à frente é ainda mais perigosa.
Chaim assentiu, mas Hanna sentiu o peso daquelas palavras.
— Há uma rota segura até a fronteira? — perguntou ela.
Klaus suspirou.
— Segura, não. Mas há uma rota. Vou levá-los parte do caminho, mas o resto será por conta de vocês.
A jornada com Klaus foi breve, mas essencial. Ele os guiou por passagens escondidas na floresta, evitando patrulhas e pontos de verificação. Quando chegaram a um ponto onde a floresta começava a abrir para um campo vasto, Klaus parou.
— A partir daqui, vocês seguem sozinhos. Há um celeiro abandonado a cinco quilômetros daqui. Usem-no como abrigo. Depois disso, sigam para o sul até encontrar o rio. Lá, vocês podem encontrar outra ajuda.
Chaim apertou a mão de Klaus, agradecendo.
— Não posso prometer que nos encontraremos novamente — disse Klaus. — Mas desejo sorte a vocês dois.
Hanna sentiu lágrimas ameaçando surgir, mas as segurou. Sabia que não podia se deixar abater agora.
Eles continuaram sozinhos, atravessando o campo aberto com o máximo de cautela. Mas quando estavam quase chegando ao celeiro, o som de tiros ecoou atrás deles.
— Corra! — gritou Chaim, puxando Hanna.
Os soldados haviam os encontrado. Enquanto corriam, Chaim fez de tudo para proteger Hanna, colocando-se entre ela e os tiros. Finalmente, alcançaram o celeiro, mas Chaim foi atingido no ombro.
— Você está ferido! — exclamou Hanna, tentando estancar o sangramento.
— Não se preocupe comigo. Precisamos continuar.
Mas os soldados estavam se aproximando, e eles sabiam que o tempo estava acabando.
Dentro do celeiro, Chaim encontrou uma pequena passagem que levava ao porão.
— Fique aqui, Hanna — disse ele, a voz firme.
— O que você está fazendo?
— Vou distraí-los.
— Não! Eu não vou te deixar!
— Você tem que ir! — gritou ele, segurando seu rosto com as mãos trêmulas. — Você tem uma chance. Não a desperdice por minha causa.
Hanna chorava, mas sabia que ele estava decidido. Com um último olhar, ele subiu as escadas e saiu do celeiro, correndo em direção oposta para afastar os soldados.
Minutos depois, o som de tiros encheu o ar.
Hanna ficou no porão até a noite cair. Quando finalmente saiu, tudo estava silencioso. Não havia sinal de Chaim, nem dos soldados.
Ela seguiu para o sul, como haviam planejado, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Anos depois, quando a guerra finalmente terminou, Hanna voltou para o rio onde tudo começara. Ela carregava consigo o peso das memórias, mas também a força que Chaim havia lhe dado.
Embora nunca soubesse o que acontecera com ele, sua luta não foi em vão. Hanna se dedicou a ajudar sobreviventes e a lutar por justiça, honrando o sacrifício de Chaim e o amor proibido que compartilharam, mesmo que por tão pouco tempo.
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