Sob o céu de Blackwood
2 Cap. 1: Família Black
A manhã em Surrey amanhecera sob aquele tom suave de azul pastel, comum aos dias mais amenos no campo inglês. Longe do ar denso, da fuligem e da agitação frenética que dominavam a capital durante a alta temporada, a imponente Mansão Blackwood erguia-se em perfeita harmonia com a paisagem. Situada a algumas horas de carruagem ao sul de Londres, a propriedade rural era o verdadeiro refúgio dos Black — o lugar para onde a nobreza se retirava quando os bailes, os compromissos na corte e as exigências da vida social da metrópole finalmente davam trégua.
Ali, a vida fluía em um ritmo aristocrático mais leve e bucólico. Sem a rigidez dos espartilhos de gala ou a vigilância constante dos salões de Mayfair, as manhãs eram dedicadas aos passeios pelos jardins, às caminhadas pela propriedade e à contemplação dos extensos gramados que se perdiam de vista.
Nos jardins frontais da Mansão Blackwood, emoldurados por sebes impecavelmente podadas e canteiros de rosas ainda orvalhadas, o som de gargalhadas infantis quebrava o silêncio sereno da casa.
Renesmee, aos seus dez anos de idade, corria com uma leveza graciosa entre os caminhos de pedra, o vestido de algodão claro balançando com o movimento. O vento suave desorganizava os seus cachos, mas ela mal se importava, ocupada demais em se esquivar de Rachel, que a perseguia com um sorriso arteiro no rosto.
Aos doze anos, Lady Rachel já ostentava a postura ligeiramente mais altiva de quem começava a transitar para a adolescência, mas, ali no campo, despia-se com facilidade do decoro exigido de uma jovem nobre. Era dois anos mais velha, mais alta e sempre a líder das travessuras que aprontavam longe dos olhos severos dos preceptores e das governantas.
— Você não vai conseguir me pegar, Rachel! — provocou Renesmee, parando perto de uma das fontes de pedra para tomar fôlego, os olhos brilhando com a vivacidade típica de quem conhecia cada esconderijo daquele jardim.
— Não conte com isso! — respondeu Rachel, acelerando o passo pela relva macia enquanto segurava as saias para não tropeçar. — Se eu te pegar, você vai ter que me ajudar a colher as amoras do pomar antes que a governanta nos chame para a aula de etiqueta!
Renesmee riu, desviando-se habilmente por trás de um grande salgueiro-chorão cujos ramos tocavam o chão como cortinas naturais. A Mansão Blackwood era o único mundo que ela conhecia e amava. Acolhida desde que se entendia por gente por Lord William e Lady Sarah, a menina crescera cercada de afeto, conforto e de um sentimento absoluto de pertencimento.
Para Renesmee, aqueles jardins bucólicos, a imensa casa de pedra e a companhia constante de Rachel eram a definição perfeita de lar.
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Ao longo do caminho encascalhado que cortava os prados da Mansão Blackwood, o eco cadenciado de cascos de cavalos anunciou o regresso dos dois jovens.
Aos vinte anos de idade, Jacob Black voltava de mais uma cavalgada matinal pelas terras da família. Como filho mais velho e futuro herdeiro, ele mantinha uma presença constante e afetuosa no dia a dia da propriedade. Crescera ali, dividindo a rotina nobre entre a preparação para os seus futuros deveres e a convivência leve com a família longe da agitação de Londres. Ao seu lado cavalgava Paul Lahote, amigo próximo e frequentador assíduo da casa, que costumava acompanhá-lo em quase todas as explorações pelo campo.
Ao contornarem a alameda de carvalhos que dava acesso aos jardins frontais, os dois homens puxaram as rédeas, abrandando o passo dos animais ao avistarem as meninas junto à fonte de pedra.
— Pelo visto, a recepção oficial já está à nossa espera, Jacob — comentou Paul com um sorriso bem-humorado, ajeitando as rédeas de couro. — E a tua pequena sombra já te procura.
Jacob sorriu, balançando a cabeça. Aos dez anos de idade, exatamente dez anos mais nova do que ele, Renesmee era uma presença constante na sua rotina diária. Desde pequena, ela o acompanhava pelos jardins, pedia para ver os cavalos nos estábulos ou simplesmente corria atrás dele e de Rachel pelas dependências da Mansão Blackwood. Para Jacob, zelar por ela e ver o seu crescimento era algo completamente natural e intrínseco à vida na propriedade.
Ao ouvirem os cascos dos cavalos, as duas meninas pararam a brincadeira. Rachel acenou prontamente, enquanto Renesmee abriu um sorriso espontâneo e radiante ao reconhecer o jovem nobre.
— Jacob! — exclamou Rachel, aproximando-se enquanto o irmão e Paul desmontavam com agilidade.
— Voltaram cedo — disse Renesmee, dando alguns passos na direção deles e ajeitando com as mãos os cachos rebeldes que o vento desordenara.
— Terminamos a ronda mais depressa do que o previsto — respondeu Jacob, aproximando-se com um olhar afetuoso e bagunçando levemente os cabelos da menina antes de entregar as rédeas do seu cavalo ao cavalariço. — E pelo que vejo, vocês duas já estavam aprontando antes da hora das aulas.
— A Rachel que começou, ela queria me levar pro pomar! — defendeu-se a menina de dez anos, com a vivacidade e a inocência típicas da infância, olhando para Jacob com a confiança de quem o tinha presente em todos os momentos do seu dia.
Jacob riu baixo, cruzando os braços e observando a garotinha que seus pais acolheram e que crescia sob a sua constante proteção.
Ao fim da tarde, quando as sombras dos carvalhos já se alongavam pelos extensos gramados da Mansão Blackwood, os sinos da propriedade anunciaram a hora de recolher. O vento frio do crepúsculo substituiu a brisa suave da manhã, empurrando a névoa do campo em direção às janelas do andar térreo.
A transição para o período noturno exigia o retorno ao decoro e às tradições da casa. Banho tomado, cabelos alinhados e vestindo um traje de veludo verde-escuro adequado para uma jovem de sua posição, Renesmee desceu a grande escadaria de jacarandá ao lado de Rachel.
A sala de jantar principal da Mansão Blackwood era um ambiente imponente, iluminado pelo brilho dourado de dezenas de velas nos lustres de cristal e pelo fogo que crepitava na alta lareira de pedra. No centro, a longa mesa de carvalho estava posta com louças refinadas e prataria. Lord William Black ocupava a cabeceira, mantendo a postura altiva e serena de um influente nobre, enquanto Lady Sarah sentava-se à sua frente. Jacob e Paul acomodaram-se a um dos lados, e as duas meninas ocuparam os assentos opostos.
O jantar fluía em uma atmosfera tranquila, com conversas sobre a colheita do campo e as notícias recentes de Londres, até que Lord William pousou os talheres sobre o prato de porcelana e limpou a garganta.
— O capitão do navio confirmou a nossa reserva no porto de Bristol para a próxima semana, Jacob — declarou William, olhando para o filho com um brilho de orgulho incontestável. — Tudo está pronto para a tua partida.
O silêncio instalou-se imediatamente na mesa. Renesmee, que segurava o seu copo, parou o movimento no ar e olhou de relance para Rachel, que também demonstrou surpresa.
— Partida? — perguntou Rachel, franzindo a testa. — Para onde vais, Jacob?
— Para o continente — respondeu Jacob, mantendo a voz calma, embora o seu olhar tenha viajado brevemente até Renesmee antes de encarar a irmã. — Farei uma longa expedição pelas capitais europeias e pelos territórios do Oriente. É hora de conhecer o mundo além das nossas terras.
— Sem previsão de retorno, pelo visto — interveio Lady Sarah, com o tom de voz carregado de uma preocupação maternal que tentava disfarçar. Ela pousou o guardanapo sobre a mesa e olhou diretamente para o marido. — Ainda acho uma decisão precipitada, William. Jacob tem deveres a cumprir aqui na propriedade. Não há necessidade de enviá-lo para tão longe, por tanto tempo, enfrentando mares imprevisíveis e terras estranhas.
— Não é precipitação, Sarah, é formação — contrapôs Lord William com firmeza aristocrática, embora sem perder a brandura. — Um herdeiro da família Black não pode limitar o seu horizonte aos limites de Surrey ou aos salões fúteis de Mayfair. Um homem de verdade precisa conhecer o mundo, negociar com diferentes povos e amadurecer longe do conforto do próprio lar. Eu fiz essa viagem na minha juventude, e ela fez de mim o homem que sou hoje. Jacob deve ir.
Jacob assentiu em silêncio, respeitando a visão do pai, embora um nó sutil tivesse se formado em sua garganta.
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Anos mais tarde...
Cinco anos haviam se passado desde a partida de Jacob. O tempo transformara a garotinha que corria pelos jardins de Surrey em uma jovem de quinze anos, cujos cachos acobreados e traços delicados começavam a despertar olhares admiráveis por onde passava.
Desta vez, contudo, a Mansão Blackwood não era o palco principal dos acontecimentos. A família deslocara-se para a imponente residência urbana em Mayfair, no coração de Londres. Um evento sem precedentes estava sendo orquestrado: um grandioso baile de gala para celebrar o décimo quinto aniversário de Renesmee e, acima de tudo, apresentá-la formalmente à alta sociedade britânica como a afilhada e protegida do influente Duque William Black.
No ateliê de alta-costura mais prestigiado da capital, o perfume de lavanda e o som ritmado de tesouras e agulhas preenchiam o ambiente iluminado pelas altas janelas de arco.
Renesmee permanecia de pé sobre um pequeno pedestal de madeira polida, ajustando a postura enquanto a modista francesa alfinetava as camadas de seda e renda de seu vestido de baile. O traje, de um tom suave de marfim com bordados sutis em fio de ouro, fora desenhado para realçar sua graciosidade sem perder a modéstia exigida para uma debutante.
— Mantenha os ombros levemente para trás, querida — instruiu Lady Sarah, acomodada em um sofá de veludo enquanto observava a jovem com um olhar repleto de orgulho e um toque incontestável de nostalgia. — Os salões de Londres podem ser impiedosos, mas você carregará a elegância dos Black. Ninguém ousará questionar a sua presença.
Ao lado de Sarah, Lady Rachel, agora com dezessete anos e ostentando o porte refinado de uma mulher prestes a se casar, ajustava uma fita de cetim no próprio pulso. Rachel estava noiva de Paul Lahote, um arranjo que começara como uma amizade sincera nos anos de juventude e amadurecera em uma união comemorada por toda a família. O casamento de ambos estava marcado para a temporada seguinte.
— Mamãe tem razão, Nessie — disse Rachel com um sorriso cúmplice, piscando para a jovem no espelho. — Quando Paul e eu chegarmos ao salão, tenho certeza de que ele tentará fingir postura séria, mas os outros cavalheiros estarão ocupados demais tentando garantir uma dança do seu cartão. Você será a sensação da noite.
Renesmee sorriu de canto, baixando os olhos com uma timidez graciosa.
— Eu só espero não tropeçar nas saias durante a valsa, Rachel — confessou ela, a voz doce ainda carregando a mesma pureza da infância. — O Duque fez questão de que este baile acontecesse aqui em Londres, mas confesso que sinto falta do silêncio do campo.
— A nobreza exige sacrifícios de etiqueta, minha mãe sempre diz — brincou Rachel, aproximando-se para ajeitar uma pequena fita no decote do vestido da garota. — Mas garanto que até os nobres mais rígidos de Mayfair se curvarão à sua graça.
Enquanto a modista dava os últimos arremates na bainha do vestido marfim, Renesmee olhou para o próprio reflexo no grande espelho oval. Ela já não era mais a menina que pedia para ver os cavalos nos estábulos. Era uma jovem à beira da vida adulta, prestes a ser apresentada a um mundo de luxo, poder e aparências.
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