Sob o céu de Blackwood

9 Cap. 8 : Pedido de ajuda



Jacob


A chama da lareira continuava a crepitar baixinho, projetando sombras longas sobre os painéis de carvalho escuro do quarto. O silêncio que se seguiu às minhas palavras não era mais a tempestade sufocante de minutos atrás, mas uma trégua frágil, nascida do exaustivo desespero que consumira a todos nós naquela noite.

Sarah encarou a minha mão envolvendo os dedos de Renesmee. A hostilidade em seus olhos havia desaparecido, substituída pela lucidez fria e calculista que o ambiente aristocrático de Londres exigia de quem pretendia sobreviver nele.

— Um dote alto, a proteção do Ducado de Blackwood e um herdeiro para salvar uma casa nobre do esquecimento — murmurou Sarah, caminhando lentamente até o pé da cama. Sua voz recuperava o tom refinado de Mayfair, embora os olhos ainda estivessem vermelhos. — Lorde Thomas Sterling. O Conde de Oakhaven.

Ergui as sobrancelhas, analisando o nome que ela jogara no ar.

— O Conde de Oakhaven? — perguntei, buscando em minha memória as poucas correspondências e relatórios que meu falecido pai me enviara durante meus anos no exterior.

— Ele tem quase sessenta anos, meu filho — explicou Sarah, cruzando as mãos sobre o vestido escuro. — Viúvo há mais de uma década, sem filhos, e a saúde fragilizada pelo inverno rigoroso. A propriedade dele em Surrey é isolada, longe da fofoca venenosa das temporadas de Londres. É um homem de reputação ilibada, extremamente religioso e obcecado com a ideia de não deixar as terras da família caírem nas mãos de primos distantes com os quais não fala. Se você oferecer um acordo formal... ele aceitará a união sem fazer as perguntas que outros fariam. E, mais importante: Cavendish não ousaria desafiar abertamente o prestígio de Sterling.

Senti um aperto involuntário no peito ao ver a cabeça de Renesmee se abaixar ainda mais. A garota que eu vira crescer entre risos no campo estava prestes a ser prometida a um homem de quase sessenta anos. O destino era cruel, mas o mundo real de Londres não oferecia contos de fadas para jovens desonradas por vermes da nobreza.

— Um homem de sessenta anos... — sussurrou Renesmee. Sua voz não continha raiva, apenas uma profunda e dolorosa melancolia. — Ele... ele vai me odiar, Jacob? Quando souber que trago uma criança que não é dele?

Ajoelhei-me ao lado da cama para ficar na altura de seus olhos. A proximidade me permitiu ver a fragilidade em seu rosto palido, mas também a curva suave de sua mandíbula. Ela era apenas uma jovem assustada, forçada a amadurecer antes da hora pelas garras da tragédia.

— Ele não vai odiá-la, Nessie — respondi, mantendo a voz firme e calorosa, tentando ser a ancoragem de que ela precisava. — Ele verá você como a salvação da casa dele. E eu estarei pessoalmente encarregado de redigir os contratos de casamento. Haverá cláusulas rígidas. Você terá seus próprios aposentos, sua liberdade, e ele jurará respeitar a sua integridade. Eu não estou mandando você para um cativeiro; estou comprando a sua liberdade e o seu futuro sob o manto do respeito nobre.

Renesmee piscou devagar, uma última lágrima escorrendo por sua bochecha. Ela assentiu, cobrindo minha mão com a sua outra mãozinha gelada.

— Se o senhor diz que é o certo, meu Duque... eu farei o que for preciso — disse ela, usando o título oficial pela primeira vez, como se reconhecesse a autoridade e a responsabilidade que agora pesavam sobre meus ombros.

— Não me chame de ‘meu Duque’ — pedi, dando-lhe um leve aperto nos dedos antes de me levantar. — Para você, continuarás sendo apenas Jacob. O mesmo que prometeu cuidar de você e que te ensinou a montar cavalos.

Virei-me para Sarah, que me observava com um misto de alívio e uma tristeza solene.

— Amanhã bem cedo, enviarei uma carta confidencial ao Conde de Oakhaven pedindo uma audiência privada — ordenei, assumindo de vez a postura do chefe da casa Blackwood.



Renesmee


O sol da manhã invadiu o quarto através das pesadas cortinas de veludo, cortando a penumbra da noite anterior com uma luz fria e impiedosa. Para a sociedade de Londres, aquele era apenas mais um dia nobre em Mayfair. Para mim, era o início da contagem regressiva para o fim da minha vida.

Minhas mãos tremiam enquanto eu tentava ajustar o xale sobre os ombros. O espelho do toucador devolvia a imagem de uma garota de dezessete anos com olheiras profundas, lábios desbotados e o olhar de quem fora condenada à morte.

A porta do quarto rangeu suavemente e Rachel entrou, carregando uma bandeja com chás, torradas e frutas frescas. Quando nossos olhares se cruzaram, ela rapidamente colocou a bandeja sobre a mesa e correu até mim, fechando a porta com chave atrás de si.

— Nessie... por Deus, como você está? — sussurrou Rachel, ajoelhando-se ao lado da minha cadeira e pegando minhas mãos geladas. Os olhos dela transbordavam uma dor genuína, a dor de uma irmã de criação que acompanhara de perto cada pedaço do meu pesadelo.

A visão do carinho sincero de Rachel fez com que a pouca compostura que me restava ruísse por completo. Envolvi seus pulsos, agarrando-me a ela como quem se afoga se agarra a um rochedo.

— Rachel, por favor... — a minha voz saiu embargada, um sussurro desesperado que mal conseguia passar pela minha garganta apertada. — Por favor, você precisa me ajudar!

— Calma, minha querida. Tente respirar...

— Eu não posso fazer isso! — interrompi, as lágrimas voltando a queimar minhas bochechas. — Eu ouvi o que Jacob e a nossa mãe conversaram ontem à noite. Eles querem me casar com o Conde de Oakhaven... Um homem de quase sessenta anos, Rachel! Um velho doente que eu nunca vi na vida, para viver trancada em uma propriedade isolada em Surrey!

Rachel tentou suavizar a expressão, apertando minhas mãos com carinho.

— Nessie, meu irmão está fazendo isso para te salvar. Ele quer te proteger de Arthur Cavendish e dar uma vida honrada a você e ao bebê...

— Não é salvação, é um cativeiro decorado com títulos e dotes! — implorei, inclinando-me para mais perto dela, encarando-a no fundo dos olhos. — Eu sei que o seu irmão tem boas intenções, eu sei que ele voltou para assumir o Ducado... Mas eu só tenho dezessete anos, Rachel! Eu não posso passar o resto dos meus dias sendo a esposa de fachada de um homem que tem a idade do meu falecido padrinho, carregando essa vergonha nas costas e fingindo gratidão !

— Nessie, o que você está sugerindo? — Rachel perguntou, a voz falhando diante da gravidade do meu olhar.

— Me ajude a fugir daqui — pedi, o som das palavras fazendo meu próprio coração disparar. — Hoje mesmo. Enquanto Jacob está ocupado com os papéis do Ducado. Me ajude a sair desta casa antes que ele envie essa carta para Surrey!

Rachel arfou, tentando se afastar ligeiramente, mas mantive o aperto em seus braços, implorando com cada fibra do meu ser.

— Fugir? Ficou louca, Renesmee?! Para onde você iria? Uma jovem grávida e sem recursos, nas ruas de Londres ou no interior? Você não duraria uma semana!

— Eu posso ir para o norte, para a França, trabalhar em uma hospedaria, mudar de nome... Qualquer coisa! — as palavras saíam atropeladas, impulsionadas pelo pavor sufocante de imaginar a minha vida ao lado do Conde. — Eu tenho algumas joias que eram da minha mãe Bella. Se você me ajudar a vendê-las ou conseguir um trajeto em uma carruagem de aluguel, eu posso sumir! O novo duque nunca precisará sujar as mãos por mim, e nem mamãe Sarah terá que carregar esse peso.

Rachel olhava para mim com o rosto banhado por lágrimas de aflição, visivelmente dividida entre o amor protetor que sentia por mim e o medo absurdo das consequências daquela loucura.

— Rachel, eu te imploro... — chorei baixinho, unindo as mãos em prece diante dela. — Você é a única pessoa nesta casa que pode me ouvir sem tentar decidir o meu destino como se eu fosse um pedaço de terra a ser negociado. Se você me ama, se ainda guarda alguma consideração... não me deixe ser vendida para aquele velho. Ajude-me a fugir.