Sob o céu de Blackwood

8 Cap. 7 : Não permitirei!



Jacob


— Espere — ordenei, a voz baixíssima, mas carregada do peso indiscutível de quem acabara de herdar o título de Duque de Blackwood. — Não passe essa xícara adiante até me dizer exatamente o que tem aí dentro.

O vapor acre e amargo do chá continuava a subir da xícara de porcelana, cortando a penumbra do quarto como um aviso nefasto. Mantive-me firme entre Sarah e a cama onde Renesmee estava encolhida, meus olhos fixos no semblante obstinado da minha mãe de criação.

— Sarah, me responda — insistir a voz soando como um rosnado contido. — Você está tentando arrancar essa criança do ventre dela?

Sarah ergueu o queixo, e as lágrimas que inundavam seus olhos refletiram a fraca luz das velas. Ela não recuou um único passo diante da minha presença.

— Eu estou tentando salvar a vida da minha filha, Jacob! — declarou ela, a voz vibrando com um desespero gélido e apaixonado. — Você não viveu os últimos anos nesta sociedade de Mayfair. Você não sabe a crueldade de que aquela gente é capaz. Se esta gravidez for descoberta, o nome dos Blackwood será jogado na lama e a vida de Renesmee estará destruída para sempre!

Renesmee prendeu a respiração, encolhendo-se ainda mais contra a cabeceira, olhando para a xícara com os olhos arregalados, começando a compreender o propósito assustador daquela infusão.

— Tem que haver outra saída! — rebati, dando meio passo à frente e estendendo a mão para interceptar a porcelana. — Essa poção é perigosa. Pode matar a garota, Sarah! Eu não acabei de enterrar o meu pai para ver Renesmee sangrar até a morte no leito desta casa por causa de uma infusão clandestina.

— E qual é a sua alternativa, Jacob?! — enfrentou-me ela, a voz cortante como aço, segurando a xícara com ainda mais força contra o peito. — Deixá-la carregar o fruto de um estupro até o fim? Forçá-la a se casar com o monstro que a violentou para salvar as aparências?! Eu prefiro ver este nome arruinado a entregar essa menina nos braços de Arthur Cavendish! Ela não vai se casar com aquele lorde miserável. Não enquanto eu respirar!

O silêncio rugiu no quarto por um segundo eterno. Renesmee soltou um soluço abafado, cobrindo a boca com as mãos trêmulas.

Sarah deu um passo em minha direção, encarando-me no fundo dos olhos com a chama de uma promessa que nada no mundo seria capaz de apagar.

— Eu fiz uma promessa no leito de morte de Bella — sussurrou Sarah, a voz trêmula de emoção, mas imbuída de uma força avassaladora. — Prometi à mãe dela que cuidaria da Renesmee como se tivesse saído do meu próprio ventre. Eu prometi protegê-la de todo o mal deste mundo. William morreu tentando defendê-la, e eu não vou falhar com a memória dele e nem com a minha promessa a Bella. Esse chá é a única forma de livrá-la da sombra daquele canalha para sempre!

Olhei para Sarah, sentindo a dor visceral que alimentava a sua decisão, e depois para Renesmee, cujo olhar aterrorizado alternava entre nós dois, incapaz de suportar o fardo de ter o seu destino decidido naquela penumbra.

— Não desse jeito — declarei, a minha voz soando baixa, mas irrevogável, ao fechar os meus dedos ao redor do pulso de Sarah, parando o movimento da xícara. — A promessa de proteger Renesmee agora é minha, Sarah. E eu não vou deixar que ela arrisque a própria vida tomando esse veneno. Haverá outra saída. Eu juro pelo nome do meu pai.

A tensão no quarto era sufocante. A fumaça amarga que subia da xícara parecia envenenar o próprio ar entre mim e Sarah. Meus dedos continuavam firmes ao redor do pulso dela, impedindo que a porcelana avançasse mais um centímetro em direção à cama, enquanto os olhos da minha mãe queimavam com uma obstinação desesperada.

— Jacob, solte o meu braço — sussurrou Sarah, os dentes cravados no lábio inferior, a voz tremendo de contenção. — Você acabou de chegar. Não entende o abismo em que estamos pisando...

— Eu entendo perfeitamente o risco, minha mãe , e não vou assistir você arriscar a vida dela por desespero — rebati, sem aliviar a pressão, a voz grave e inflexível.

— Chega... por favor, chegas de brigas! — um grito fino, embargado e partido ecoou do centro da cama de dossel.

O som cortou o impasse como uma lâmina fria. Sarah e eu viramos o rosto no mesmo instante.

Renesmee estava de pé sobre o colchão, com os pés descalços e as mãos trêmulas agarradas às colunas de madeira do leito. Os xales de lã haviam escorregado pelos seus ombros, revelando a extrema palidez de sua pele e os olhos acobreados transbordando lágrimas sem fim. O peito dela subia e descia em uma respiração desordenada, pálida como um fantasma na penumbra de Blackwood.

— Por favor... não briguem por minha causa — suplicou ela, a voz falhando a cada palavra, caindo de joelhos sobre as cobertas e escondendo o rosto entre as mãos. — O meu padrinho já morreu de desgosto por causa dos meus erros... Eu não posso suportar ver vocês dois se destruindo, se odiando por causa do que aconteceu comigo!

Sarah soltou um arfar doloroso. A dor no olhar de Renesmee pareceu atingir a minha mãe de criação com mais força do que qualquer argumento que eu pudesse ter usado. Os ombros de Sarah vacilaram e a rigidez da sua postura começou a ceder.

— Minha querida, nós só queremos proteger você... — murmurou Sarah, dando meio passo em direção à cama, embora a xícara ainda estivesse suspensa no ar.

— Mas vocês estão bradando como se eu não estivesse aqui! — interrompeu Renesmee, erguendo o rosto banhado em lágrimas e encarando nós dois com uma mistura dilacerante de inocência e desespero. — Eu tenho tanto medo... medo do que esse chá pode fazer comigo, medo do que o Arthur vai fazer se souber, medo do futuro... Mas o que mais me apavora é ver a nossa família se despedaçar ainda mais.

Ela olhou para mim, os olhos acobreados rogando por uma resposta que não trouxesse mais tragédia para aquela casa.

— Jacob... mamãe Sarah... — continuou ela, a voz caindo para um sussurro quebrado. — Se há um preço a pagar pela desonra que trouxe para esta casa, deixem que seja meu. Mas não façam disso uma guerra entre vocês. Eu não suportaria ser a razão de mais nenhuma morte ou de mais nenhum rancor sob este teto.

Um silêncio pesado e doloroso caiu sobre o quarto. Lentamente, desfiz o aperto no pulso de Sarah, mas recuei apenas o suficiente para pegar a xícara de porcelana das mãos dela. Encarei o líquido escuro e fumegante por um segundo e, sem desviar os olhos de Sarah, caminhei até a lareira e despejei todo o conteúdo do chá sobre as brasas alaranjadas.

O preparado chiou ao atingir o fogo, soltando um vapor denso que logo se dissipou na chaminé.

Virei-me de volta para as duas, a figura ereta sob a luz fraca das velas.

— A briga acabou — declarei, a minha voz soando baixa, mas com a autoridade absoluta do novo Duque. — Renesmee não vai tomar veneno nenhum, e nós não vamos nos destruir por dentro. Nós somos os Black, e enfrentaremos isso juntos.

A fumaça do chá despejado nas brasas terminou de se dissipar na chaminé, deixando no ar apenas o cheiro acre de ervas queimadas. Sarah continuava de pé perto do toucador, o peito arfando enquanto observava o resto do líquido escorrer pela pedra fria da lareira. Sua postura cedia ligeiramente, mas a chama de obstinação em seus olhos permaneceu acesa.

— Você destruiu o preparado, Jacob — disse Sarah, a voz rouca pela comoção e pelo choro contido, virando-se para me encarar com uma exigência impiedosa. — Mas destruir essa poção não apaga a realidade. Daqui a semanas, o corpo de Renesmee mudará e a sociedade de Londres não perdoará a vergonha. Se você recusa o chá e se nós jamais permitiremos que ela se entregue ao monstro do Cavendish... qual é a sua solução? Diga-me, como o novo Duque de Blackwood pretende salvar esta menina sem destruí-la?

Renesmee olhava de mim para Sarah, o corpo ainda trêmulo no centro da cama, as mãos segurando o lençol contra o peito como se o próprio ar dependesse da resposta que sairia da minha boca.

Apertei o pontalete da lareira com uma das mãos, sentindo a madeira entalhada sob os meus dedos enquanto a minha mente trabalhava rápido. Anos cruzando o mundo e convivendo com homens de todas as índoles me ensinaram que a aristocracia de Londres era movida a aparências, conveniências e legados. Para os velhos nobres sem sucessão, um herdeiro valia mais do que qualquer fofoca de salão.

Voltei-me para as duas, a figura ereta, a voz caindo em um tom calculado e gélido.

— Nós não vamos entregá-la a Arthur Cavendish e tampouco deixaremos que o nome dela caia na lama — comecei, encarando Sarah nos olhos. — Renesmee se casará. Mas não com o verme que a usou.

— Um casamento? — interrompeu Sarah, a testa franzida em desconfiança. — Quem aceitaria uma jovem grávida de outro sem expor o escândalo à corte?

— Alguém que precise desesperadamente de um herdeiro legítimo e de uma aliança com o ducado dos Blackwood — respondi, dando dois passos em direção à cama. — Um nobre de título respeitável, mais velho, de preferência viúvo e sem descendentes diretos. Homens nessa posição não fazem perguntas inconvenientes quando recebem uma noiva de sangue nobre, um dote generoso e a garantia de que seu título não morrerá com eles.

Renesmee prendeu a respiração, os olhos acobreados arregalados de surpresa.

— Um homem mais velho?... — murmurou ela, a voz fraca e assustada.

— Não qualquer homem, Nessie — fiz questão de acrescentar imediatamente, suavizando o tom e baixando o olhar para a garota, para que ela não duvidasse da minha intenção. — Eu não vou vendê-la para um tirano ou um libertino. Procurarei alguém decente, um homem honrado e de bons costumes que esteja no fim da vida pública e procure tranquilidade. Alguém que tenha a maturidade para respeitar o seu trauma, mantê-la segura em uma propriedade tranquila e tratá-la como uma verdadeira rainha. O filho nascerá sob o nome dele, como um herdeiro legítimo e intocável, e Arthur Cavendish nunca poderá reivindicar nada. Ele será seu marido apenas para a sociedade, não irá te tocar.

Sarah permaneceu em silêncio por longos segundos, absorvendo a proposta. O vinco de preocupação em sua testa abriu-se devagar, dando lugar a uma expressão de reflexão profunda.

— Um nobre de idade avançada... sem herdeiros — repetiu Sarah baixinho, o olhar perdido na penumbra do aposento enquanto pesava as peças no tabuleiro de Mayfair. — Um homem que busque a preservação da própria linhagem mais do que o escândalo dos salões...

— Exatamente — afirmei, a voz carregada de uma determinação inabalável. — Essa é a única forma de dar ao filho que ela carrega um nome limpo, proteger a honra da nossa família e afastar Cavendish para sempre, sem arriscar a vida de Renesmee com remédios perigosos. Enquanto ela estiver sob a proteção de um marido de alto prestígio, estarei livre para lidar com o herdeiro de Devonshire no momento e do jeito certos.

Renesmee olhou para as próprias mãos postas sobre o colo, o choro finalmente cessando para dar lugar a uma resignação calma. A ideia de um casamento arranjado não era o sonho romântico que ela alimentara a vida inteira, mas diante do abismo que se abrira sob seus pés, a promessa de proteção e respeito soava como um porto seguro.

— Você... você realmente acha que conseguirá encontrar alguém assim, Jacob? — perguntou ela, erguendo os olhos banhados em lágrimas para mim.

Aproximei-me da cama e toquei devagar a sua mão fria, fechando os meus dedos ao redor dos dela com uma firmeza que era um juramento.

— Eu vou encontrar — garanti, a voz soando como uma promessa solene na penumbra de Blackwood. — Você tem a minha palavra, menina. Ninguém mais neste mundo voltará a fazer você sofrer. Eu voltei pra te proteger.