Sob o Véu da Noite

5 Capítulo 5: Segredos e Espadas


O edifício era um anel de mármore frio, suas arquibancadas, desgastadas pelo tempo e pelo uso, subiam em fileiras circulares até o teto abobadado como órbitas sem olhos. Na última fileira, uma figura solitária se destacava, com a postura ereta e o olhar fixo em um pergaminho que descansava em suas mãos, a sombra de um pilar escondendo metade de seu rosto. O homem parecia alheio ao eco de seus próprios passos, concentrado em um murmúrio discreto trocado com um guarda de braços marcados por cicatrizes de chicote.

À porta, o polemarco ergueu o braço, barrando a entrada de qualquer um que não fosse Demóstenes. O olhar dos dois atenienses se cruzaram, a tensão crescente pairando no ar.

— Ele o aguarda. Somente você.

— Estou certo de que Péricles deseja saber o motivo dele estar aqui — disse Demóstenes, cruzando os braços e acenando na direção de Cadmo.

— Ele não pode ter acesso ao relatório.

— Não cabe a você decidir

A testa do polemarco se enrijeceu numa reação quase imperceptível, então fitou Cadmo por alguns segundos, até que desviou seu olhar para o pomo da espada, impecavelmente lustrado, em contraste com o resto dos trapos que vestia.

— Muito bem — disse o Polemarco — mas, as armas ficam aqui.

Por um minuto, seu olhar parecia distante dali, observando aquela figura misteriosa, até que Demóstenes completou impaciente. — Cadmo, o gládio…

Cadmo hesitou. O polemarco percebeu. Agora, tinha sua mão pousada no pomo da espada. Observou a presença dos soldados ao redor, homens austeros. “Não estamos mais entre aliados”, lembrou-se. Até que, finalmente, retirou a espada da bainha num movimento lento, e a entregou ao soldado ao seu lado. Tratou de registrar muito bem o seu rosto, no caso da espada não retornar a suas mãos.

Quando Cadmo e Demóstenes se viraram para entrar, o polemarco completou — a adaga também — e ambos congelaram no meio da passada. Os guardas na porta tornaram a fechar o caminho com lanças cruzadas. Demóstenes se virou a tempo de ver Cadmo sacar a lâmina curta, escondida no manto, e entregar nas mãos do oficial ateniense.

Pela primeira vez viu aquele homem esboçar a sombra de um sorriso no momento em que falou — Era um blefe, rapaz. Mas, imaginei que você não decepcionaria minhas expectativas — baixou os olhos para examinar a lâmina — É uma bela peça. Mas, facilmente identificável.

Cadmo permaneceu em silêncio, enquanto o homem testava o fio da lâmina na ponta do dedão ressecado. Até que suas sobrancelhas franziram sob o entendimento da situação — não sabia quem eu era, não é?

— Não. Mas, já sei o suficiente — disse, enquanto entregava a adaga ao mesmo guarda que segurava a espada — Demóstenes, já sabe minha opinião sobre o assunto. Se algo acontecer, vou responsabilizar você.

O destacamento ateniense bateu os pés em continência no momento em que o oficial retornou à dianteira da formação e partiu em passos sincronizados na direção do caminho de onde vieram.

Ambos os observaram partir, até que Demóstenes finalmente interrompeu o silêncio — Qual era a da adaga?

— Não confio neles.

— Te tomaria como um tolo caso confiasse — Demóstenes o puxou para longe dos guardas na porta e sussurrou — Eu preciso saber de tudo, entendeu? Até descobrirmos o que está acontecendo aqui, a única coisa que separa a sua cabeça do machado é a minha palavra.

Cadmo concordou em silêncio. Por cima dos ombros de Demóstenes, os guardas desviaram o seu olhar no último momento, fingindo desinteresse. Então, finalmente adentraram naquele salão. A escassa luz invadia o lugar por finas frestas nas paredes elevadas. O eco de seus passos reverberou no vazio, como se o próprio prédio os estivesse julgando. Quando se aproximaram, um homem de barbas grisalhas ergueu o olhar e deixou o pergaminho de lado, dispensando o guarda com quem conversava.

— Demóstenes — ele cumprimentou, seco, mas com a voz firme de quem já tinha resolvido muitas guerras antes de o dia começar. — E imagino que este seja Cadmo?

— General — retribuiu Demóstenes, enquanto retirava sua clâmide manchada de lama — Sim, este é o homem que mencionei em minhas cartas. É inteligente, capaz e leal. Vai nos ser útil.

Péricles estreitou os olhos e avaliou Cadmo por um momento, como se pudesse ler sua história escrita nos ombros tensos e na postura alerta. Finalmente, assentiu — Veremos. Pelos seus informes, não duvido que ele seja inteligente e capaz, mas lealdade não é algo que avalio sem prudência. Diga-me, Demóstenes, teria ele saído de sua vista em algum momento desde que chegaram?

O ateniense engasgou com uma resposta, no momento que Cadmo o interrompeu. — Sim, general. Eu não era seu prisioneiro.

— Imagino que não — Péricles deixou escapar um pigarro de desaprovação.

— Não sou um conspirador, se é o que pergunta.

— De fato. É um traidor.

— O que disse? — cuspiu Cadmo.

— Era um aliado em Samos, você diz? — perguntou, o dedo indicador apontando para Cadmo como uma adaga. — E por que está aqui? É apenas uma alma solidária ou um lobo em pele de cordeiro?

Cadmo manteve-se imóvel, as mãos fechadas atrás das costas, onde ninguém via os dedos tremendo.

— Desde que Demóstenes me contou sobre você, não pude deixar de pensar: por qual motivo nos deparamos logo com um espartano encoberto numa missão ultrassecreta?

— Encoberto? — Cadmo riu, um som áspero que se perdeu nas altas cúpulas — Creio que não.

— Você ainda não respondeu a minha pergunta.

— Não. Por que deveria?

Péricles levantou-se da cadeira e desceu os degraus lentamente, passando ao largo dos dois. No centro do salão, um chão esculpido trazia a imagem de Atena, rodeada por um grande sol dourado. Parou respeitosamente ao lado da deusa, mirando seus olhos brilhantes.

— Tem razão. Veja só, logo eu fazendo julgamento de valor a essa altura. — Demóstenes fez menção de se manifestar, mas Péricles silenciou-o com um gesto — O poder é uma coisa engraçada. Percebe, Demóstenes? — uma risada genuína encheu o salão — Bom, imagino que apenas minha autoridade não seja o suficiente. O que quer, espartano?

— O que o faz achar que quero alguma coisa?

— Conheço bem homens como você. Sedentos, famintos, inquietos. Não conseguem suportar a calmaria de uma vida tranquila, se acomodar no carinho de uma mulher — seu olhar deixava bem claro que sabia muito mais do que parecia.

— Hum…bom pra você.

— Ainda tem pesadelos?

Cadmo congelou. Por um instante, o tempo de um ofegar, sentiu suas mãos quentes. Algo como…sangue. Procurou-as em susto. Estava tudo bem. Péricles o observava. Desviou seu olhar em busca de Demóstenes, que encontrava-se no canto, à parte.

— Isso é inútil — completou Cadmo, fazendo menção de se retirar.

— Lobos são úteis. Cordeiros, só servem para o sacrifício. — Péricles estudou Cadmo. O silêncio pesou, cortado apenas pelo arrastar de uma lagartixa na parede — Veja, eu acredito saber a razão de estar aqui. Portanto, estou disposto a te fornecer algumas informações muito valiosas. Considere uma espécie de presente.

Cadmo riu.

— Peço que fique e escute. A única coisa que quero em troca é a sua ajuda em um assunto.

— O que quer?

— Saberá no momento certo. — o rosnado de aprovação de Cadmo bastou para que continuasse — sentem-se por favor.

Péricles se inclinou para a frente, apoiando um pergaminho nos joelhos. Começou, desenrolando o que descobriu ser um mapa. Manchas de vinho marcavam a folha, como sangue seco.

— A situação está se deteriorando mais rápido do que prevíamos — começou, com o tom grave. Seus olhos estavam marcados por pesadas olheiras. — Mégara está à beira do colapso, e a Ática é um alvo constante. Esparta continua tentando nos invadir, e os oficiais na região são tão úteis quanto pedras no mar. Corrupção por toda parte. — Uma pausa calculada. — Se a fronteira cair, Atenas será cercada.

Demóstenes cruzou os braços — E do que precisa?

Péricles suspirou o que parecia ser o último resquício de fôlego daquele dia — Preciso que vá para Mégara. Organize o que puder. Você terá um salvo-conduto. E, quanto às acusações da Bulé... — Ele riu, um som seco, quase amargo. — São absurdas. Palhaçadas políticas. Vou informar aos magistrados que sua missão é punição suficiente. Redenção, se preferirem o termo. Eles aceitarão. Não é a primeira vez que precisam de um empurrão meu. — Péricles ergueu um outro pergaminho, com o selo quebrado.

Enquanto os dois falavam, Cadmo mal prestava atenção. Seu olhar estava fixo no rosto de Péricles, e a menção à guerra trouxe um arrepio que percorreu sua espinha. Se manteve distante daquilo o quanto pôde. Falhou. Péricles era mais um daqueles que distribuía ordens com a naturalidade de quem reparte pão. Nem precisou se esforçar para lembrar ao que aquilo o remetia.

— Isso não é tudo — acrescentou quando Demóstenes deu as costas, pensativo — Tebas caiu. Os espartanos estão lá agora. Toda a região também está sob controle deles…

— Quem comanda o destacamento? — A voz de Cadmo soou mais alta do que pretendia.

Péricles virou-se lentamente para ele, como um falcão que avista movimento no campo. — Por que pergunta?

Cadmo hesitou por um momento, mas o seu rosto traiu o que ele tentou esconder. — Curiosidade — respondeu, finalmente.

— Tenho certeza que sim — disse Péricles, inclinando a cabeça — O comandante é um certo Anquises, dos Ágidas.

Aquele nome atingiu Cadmo como um golpe de lança. Ele engoliu seco, a língua pesada de repente.

— Espartano até os ossos, esse Anquises — Péricles observou-o, os olhos estreitos. — Dizem que esfola desertores pessoalmente. Deve ter aprendido com os melhores.

A boca de Cadmo era uma linha fina, seu olhar impassível. Atrás das costas, as unhas compridas marcavam a palma da mão com formas que se assemelhavam a cicatrizes esbranquiçadas.

— Raramente um espartano esquece suas raízes. — prosseguiu Péricles — Lealdades são difíceis de apagar, não importa o que aconteça.

Demóstenes interceptou com o corpo, bloqueando a linha de visão entre os dois — Cadmo não é deles.

— Claro. E eu não sou ateniense. — Péricles sorriu, mostrando dentes amarelados. — Imagino que queres ir à Beócia? — Péricles jogou a isca, segurando um salvo-conduto como quem exibe um osso a um cão. — Posso te ajudar com isso, mas com uma condição: você ajudará Demóstenes. Isso não é um pedido.

— Não é minha guerra — disse Cadmo, a voz baixa, mas firme. Virou-se, as botas rangendo no mármore. A saída era um arco de luz, e ele caminhou em direção a ela, ignorando a voz de Péricles.

— Cadmo — A voz de Péricles o alcançou como uma lâmina. — Um espartano exilado jamais será visto como confiável, seja pelos magistrados ou pelo povo. Se decidir ajudar, faça-o sem chamar atenção. E, por Atena, não deixe que isso caia sobre mim. Esparta nunca sai do sangue, menino. Nem do cheiro

Cadmo parou por um momento, mas não respondeu. Apenas continuou descendo, os passos pesados e ritmados como um tambor de guerra.

Ao sair do edifício, encontrou uma mulher de porte altivo e olhos inquisidores esperando próximo à entrada. Ela cheirava a mirra e tinta, um contraste com o mofo do edifício. Seu olhar desceu até as castanhas que ele apertava no bolso, sem querer, e um lado da boca subiu levemente. Ela fitou-o brevemente antes de voltar a encarar a porta como se esta fosse um tribunal.

— Você bloqueia a passagem — disse Cadmo, enquanto recuperava suas armas do guarda. A moça recuou um passo, sem abaixar a cabeça — Esperando por alguém? — ele perguntou, quase sem pensar.

— Sim — ela respondeu sem olhar para ele — E você? —

Antes que ele respondesse, ela desapareceu na penumbra do salão, deixando para trás o cheiro de pergaminho novo. Cadmo apenas sorriu de lado, sem responder, e seguiu seu caminho, as palavras de Péricles ainda ecoando em sua mente.