Sob o Véu da Noite
2 Capítulo 2: Ode aos Abismos
O gosto do sal ainda não deixara os lábios de Roxana, mesmo após uma semana dentro das muralhas secas de Atenas. O ar quente subia das ruas empoeiradas, carregado de murmúrios de descontentamento e o odor acre de doença que se agarrava aos becos como um visitante indesejado. Roxana caminhava pela via Panatenaica, evitando os corpos enfaixados de vítimas da peste deixados ao sol, enquanto o vento soprava pedaços de papiro com listas de mortos. Nas paredes das casas, grafites rabiscados em carvão gritavam: "A Liga de Delos é um cadáver!" e "Esparta nos engolirá!". A ágora, outrora o coração pulsante da cidade, estava quase deserta, com apenas alguns vendedores oferecendo migalhas de pão e frutas murchas a preços exorbitantes. A grande cidade parecia um casco oco, ressoando apenas o eco da crise.
Ela, por sua vez, sentia-se um grão de areia naquele deserto de apatia. Seus senhores estavam presos às responsabilidades de Lesbos, e os magistrados atenienses estavam ocupados demais com suas próprias crises para dar atenção às súplicas de uma estrangeira. No pátio do Areópago, vozes se erguiam em discussões furiosas sobre rebeliões nas ilhas e a escassez de trigo na Ática, mas bastava uma aproximação de Roxana para que os olhares cansados se desviassem.
Finalmente, no quinto dia, um mensageiro apareceu em sua porta trazendo a resposta de uma das centenas de cartas que despachou, acompanhada de um convite indesejado. Ainda assim, era um convite. Então, Roxana revirou o seu malão em busca da sua personalidade daquela noite. Vestiu sua melhor túnica, uma peça simples na cor azul profundo, em harmonia aos seus olhos, acompanhada de um fino manto branco sobre um dos ombros, contrastando com a pele queimada de sol. Optou por brincos simples e um anel de prata, ambos decorados com pedras verdes. “Isso deve bastar”, pensou.
Enquanto se dirigia aos arredores da Acrópole, ela passou por um grupo de aristocratas, vestidos com túnicas imaculadas, que riam alto enquanto carregavam ânforas de vinho para um simpósio. Roxana apertou os punhos, mas seguiu em frente, mantendo o olhar fixo no chão. Quando se deu conta, já estava a cruzar um grande portal de pedra e pareceu que havia adentrado um mundo aparte.
Em meio aos luxuosos edifícios, a residência informada no seu convite se destacava. Era um monstro de mármore, suas colunas iluminadas por luzes quentes de tochas que projetavam sombras dançantes de figuras nuas contra as paredes decoradas com tapeçarias da Jônia. Antes mesmo de entrar, Roxana ouviu os gritos: risadas estridentes, copos quebrando, o gemido de uma lira desafinada.
“A residência de Alcibíades”, disseram os criados com uma reverência que parecia contradizer a reputação de seu anfitrião. Um desses criados, de olhos vermelhos e sorriso frouxo, se prontificou para guiá-la por corredores onde o cheiro do vinho derramado se misturava ao incenso caro. Roxana avançava, seus passos firmes sobre o mármore decorado, desviando de corpos languidamente dispostos em almofadas. Peles bronzeadas brilhavam à luz trêmula, e cálices de ouro eram erguidos em toques quase constantes.
Roxana tentou ignorar os olhares que pousavam sobre ela, dirigindo-se ao centro da sala, onde Alcibíades estava cercado por admiradores. No triclínio, Alcibíades reclinava-se em um divã, a túnica aberta no peito, escorregando perigosamente pelo ombro, segurando uma taça de ouro com dedos que brilhavam de óleo perfumado. Entre risadas resolutas, seus olhos se fixaram nela com uma intensidade preguiçosa, enquanto ele brincava com a borda do cálice de vinho.
— Ah, a flor de Lesbos! — exclamou ele, um sorriso curvando seus lábios enquanto se levantava com uma elegância casual. — Você finalmente chegou! Veio regar meu jardim com suas lágrimas de súplica?
Roxana manteve a postura ereta, os dedos tremendo levemente ao seu lado. Tentou ignorar as gargalhadas dos convidados. — Você sabe exatamente o único motivo de eu estar aqui.
Ele riu, um som alto e despreocupado, e estendeu a mão para puxá-la para perto. — Que seriedade. Tudo pode esperar. Primeiro, prove o vinho. É da melhor colheita de Quios. — Alcibíades puxou-a pelo pulso, fazendo-a sentar à sua frente. Seus dedos traçaram o contorno da cicatriz em seu braço, exposta pela túnica. — Que bela marca... escrava? — sussurrou, como se falasse de um poema, não de uma ferida de chicote.
Ela arrancou o braço.
— Ah, me desculpe, Roxana — sua expressão afrouxou num biquinho patético — Acho que começamos com o pé esquerdo. Veja, estou realmente muito ansioso para ouvir suas demandas certamente urgentes, mas acontece que você chegou no meio de uma história que eu contava. Portanto, deixe-me continuar. Tenho certeza de que vai gostar dessa. Aqui, pode usar essa taça — catou uma taça dourada do chão e entregou-a de cara limpa.
Quando a noite se aprofundava, depois de muitas horas de insinuações e risadas abafadas por trás de leques e taças, Alcibíades aparentemente cansou-se de provocá-la e fugiu para seus aposentos junto de um casal de jovens de cabelos dourados. Roxana permaneceu cercada das más companhias, e aproveitou a oportunidade para beliscar alguns dos apetitosos aperitivos que integravam o banquete. Incrivelmente, os convidados de Alcibíades mostraram-se menos desagradáveis sem a presença da má influência, mas permaneciam sendo o tipo de pessoas que Roxana preferia evitar.
Foi salva algum tempo depois por um dos criados que veio escoltá-la até os aposentos pessoais de Alcibíades, onde os dois jovens acabavam de sair aos risos frouxos. Lá, em um leito decorado com tecidos escarlates e almofadas exuberantes, ele estava semi-nu e insolente como um sátiro. — Venha, sente-se — disse com um sorriso de canto de boca.
Ela estreitou os olhos, mantendo a compostura, mesmo quando ele lhe dirigiu um convite vulgar que trouxe o sangue às suas faces. Roxana não respondeu, apenas deu meia-volta, com passos calculados rumo à porta. Mas sua mão nem chegou ao trinco antes de ouvir a voz dele novamente, desta vez mais séria.
— Espere. Tudo bem. Fale. Estou ouvindo.
Com os dentes cerrados, ela virou-se, ajustou sua postura e sentou-se com toda a dignidade que ainda podia reunir. Ele a observava enquanto ela falava, deslizando os dedos pelo vinho como se fosse um passatempo qualquer. Mas, conforme a narrativa da crise em Lesbos se desenrolava, a máscara de indiferença de Alcibíades começou a rachar. Sua mandíbula tensionou por um instante, seus olhos desviando para as sombras da sala.
— Apresentarei isso ao conselho — disse ele, por fim, com uma voz quase casual, enquanto enchia seu cálice novamente. Mas, antes que ela pudesse agradecer, ele acrescentou — Não se iluda, sua demanda será soterrada. Existem coisas mais urgentes.
Roxana inclinou-se para frente, os olhos faiscando — Mais urgentes do que o fato da sua querida Liga estar à beira da desgraça? Do que Esparta controlar o Egeu?
O olhar dele endureceu, mas ele não respondeu de imediato. Após um silêncio carregado, Alcibíades recostou-se no trono de almofadas e soltou uma risada surda, jogando uvas para um cachorro que lambia o chão embebido em vinho. — Lesbos é uma ilha distante, querida. Aqui, até os deuses se cansam de ouvir choros.
— Então, não temos mais nada a discutir — Roxana ameaçou se levantar, mas ele a segurou pelo cinto.
— Espere, minha querida. Não se vá assim tão cedo. É falta de educação. — disse, enquanto mordia os lábios ao vê-la afastar sua mão — Creio que posso lhe ser útil em outro assunto, felizmente. Uma trirreme macedônia… daquelas que descreveu em sua carta… — Seus olhos perfuraram os dela. — Ouvi dizer que uma delas foi recém capturada.
O coração de Roxana parou e o chão pareceu vacilar sob os seus pés. A última imagem daquele porto em chamas — cadáveres misturados à espuma do mar — invadiu sua mente como um demônio. Ela engoliu o gosto de bile na garganta. — Onde?
Alcibíades voltou a encostar-se, satisfeito. — Pergunte a Péricles. Ele ainda acredita em heroísmo. — Cuspiu a palavra como um caroço de azeitona — Mas, antes de ir, por que não fica um pouco? — Seu olhar vagava pelo corpo dela, como se estivesse avaliando uma mercadoria — A noite está jovem.
Roxana ajeitou-se, os dedos apertando a taça de vinho até que os nós dos dedos ficassem brancos. — Obrigada — disse, colocando o recipiente sobre a mesa com um som seco. — Mas tenho assuntos mais importantes a tratar.
Ele riu, mas desta vez o som era frio. — Como quiser. Mas lembre-se, bela flor de Lesbos, em Atenas, nem todos estão dispostos a ouvir as queixas de uma estrangeira.
Roxana ergueu-se, lutando para manter a calma. Sem mais uma palavra, se dirigiu à porta do aposento, a tensão dançando sobre seus ombros enquanto a promessa de Alcibíades ecoava como um enigma.
Mas, antes que pudesse alcançar a maçaneta, a porta se abriu com estrondo e um grupo de homens seminus adentrou o recinto. O que parecia mais bêbado tropeçou na soleira da porta e esbarrou em Roxana, derrubando sua bolsa. Moedas de prata de Lesbos — cunhadas com cabeças confrontadas com javalis — rolaram pelo chão. Alcibíades pegou uma, examinando-a como se fosse uma relíquia obscena. — Bonita... mas sem valor — disse, atirando-a na fogueira onde um porco gordo assava intacto.
Ela virou-se e saiu, os passos firmes, mas o coração batendo rápido. As ruas estavam mais escuras agora, e o peso da cidade parecia esmagá-la. No entanto, em meio ao caos, uma centelha de determinação acendeu-se dentro dela. Se Alcibíades não a ouviria, ela encontraria alguém que o faria.
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