Sob o Véu da Noite
11 Capítulo 11: O Vale dos Sonhos
Os dias seguintes à partida de Demóstenes transformaram-se em um vácuo de existência, uma sucessão de momentos onde a realidade parecia esvair-se entre os dedos. Atenas, que antes pulsava em cada viela, agora se reduzia a uma repetição exaustiva, um tabuleiro onde todas as peças já haviam sido movidas.
Os poucos homens que restaram da tripulação que o acompanhava desde Samos, evitavam-no como se carregasse uma praga. Talvez carregasse. Sem destino e sem vínculos, Cadmo se afastou da suntuosidade da residência de Péricles, trocando a opulência por um bordel nas sombras da Acrópole. Não dormia. Sentava-se no alpendre, observando as sombras dos clientes dançarem nas cortinas de linho, enquanto mastigava amendoins até a mandíbula doer. O riso das cortesãs e o vinho barato lhe ofereciam um simulacro de presença, mas a cada amanhecer, restava apenas a dor surda de um exílio invisível.
Ao amanhecer, subia as escadarias da Acrópole. Os degraus de pedra, lavados pelo orvalho, refletiam a luz do sol nascente como lágrimas congeladas. A estátua de Atena dominava o pátio, seus doze metros de ouro e marfim cegando-o como um desafio. A deusa segurava Niké na mão esquerda, a Vitória dourada, mas seus olhos vazios, fixos no horizonte, horizonte, pareciam ignorá-lo completamente. A protetora dos heróis, lembrou. Mas ele não era um herói. Nunca fora.
Aos pés da estátua, ele deixava bolo de cevada, mel e vinho, oferendas roubadas do bordel, esperando, sem admitir, um sinal. Nenhum vinha. Helena costumava dizer que os deuses só falavam com aqueles que estavam dispostos a ouvir.
— Eles são como ecos no vento, sombras no fundo de um lago. Para alguns, isto basta. Mas, se você souber o que perguntar, Cadmo, talvez encontre uma resposta.
Agora, sentindo o frio do mármore sob as palmas das mãos, ele se perguntava se Atena o observava dos confins de algum destino traçado. Nos últimos dias, seu sono tornara-se errante, e em seus sonhos, sentia-se observado por olhos brilhantes que jamais piscavam.
— Você fala demais para uma pedra — murmurou certa manhã, entornando uma das jarras de vinho que oferecera.
O vento respondeu, arrastando folhas secas pelo chão.
Dali, partia para o destino seguinte dos seus dias, o Liceu. Desde que chegou, Cadmo foi atraído para aquele lugar. Podia sentir algo no fundo da sua mente tentando lhe comunicar algo, mas essa agonia diária não se revertia em respostas. O pátio cheirava a poeira e tinta fresca. Ele encostava-se sob a sombra de uma oliveira velha e retorcida, observando os garotos atenienses correrem pelo pátio de terra batida. Seus gritos eram agudos, estridentes, nada como os urros guturais dos exercícios espartanos.
Um deles tropeçou, arranhando o joelho, e chorou como um filhote de cão. Cadmo franziu o rosto. Fraqueza. Mas, por um instante, viu-se ali: sete anos, sangrando em silêncio no pátio do orfanato, enquanto Helena costurava sua pele com agulha e linha de tecer.
Mas, naquele dia, algo diferente aconteceu. A poeira levantada pelas corridas formou um véu dourado no ar. Cadmo fechou os olhos. Foi ali, entre os gritos e lágrimas, que tudo se dissolveu.
Floresta. Barulhos. O cheiro de figos maduros e sangue.
Ele estava de volta àquela noite, as folhas mortas formavam um leito sob seu corpo exausto, os galhos retorcidos das árvores pareciam mãos esqueléticas a lhe agarrar os membros. O céu, negro como obsidiana polida, ondulava com sombras indecifravéis.
O som chegou primeiro: o canto grave e rítmico das corujas, um chamado às trevas que se espalhavam ao seu redor. Uuh, uuh, uuh. Seu coração respondeu, cada batida acompanhada pelo calor espesso do sangue que vertia de sua coxa direita. Mas não havia dor. Apenas a pulsante percepção da própria fraqueza.
— Mamãe, um homem! — A voz infantil ressoou por entre os troncos caídos, vítimas de um vento que já se foi. Pequenos pés afundavam na lama ao seu redor.
Cadmo tentou erguer a cabeça, mas a chuva escorria em seus olhos. Vultos se aproximaram. Uma mulher e uma garota, seus rostos borrados pela névoa.
— É um deles. Se afaste. — A voz da mulher era fria como o beijo da morte.
— Ele está ferido!
— Está morrendo — disse a mãe, puxando-a para trás.
— Podemos ajudá-lo? — Sentiu um toque quente contra seu rosto, dedos pequenos e delicados, mas não houve conforto. Apenas uma invasão.
— Não. — A voz, agora, afastava-se
— Por quê?
— Porque ele não nos ajudaria. — Ela retorquiu com um cuspe.
— Como sabe? — A garota inclinou-se, seu rosto tão perto que Cadmo viu seus olhos azuis como o céu antes da tempestade. — Você me mataria se eu implorasse? — sussurrou, enquanto garras invisíveis se enterraram no peito de Cadmo, penetrando o coração.
As sombras giraram e se contorceram. Um suspiro escorreu de seus lábios, e então tudo se tornou escuridão.
Cadmo acordou engasgado, suor escorrendo pelas têmporas. O Liceu estava vazio, a poeira flutuava como névoa. Apenas o vento sibilava entre as colunas, carregando o eco de risos fantasmas.
A cidade continuava muda. Cadmo caminhou até a base da Acrópole, onde o vento dançava em redemoinhos, como se guiando-o para cima. Desta vez, a subida foi interminável. As escadarias serpentearam além das nuvens, os templos e teatros reduzidos a miniaturas de brinquedo abaixo dele. No topo, o Propileu erguia-se como um portal, suas colunas brancas brilhando sob um sol que não existia.
Ao atravessar o pórtico, uma cortina de água morna envolveu-o. Não era chuva, mas um rio suspenso, fluindo do chão para o céu. Seus pés afundaram do mármore para a grama fofa, que preenchia o solo de um vale que não deveria existir. Florestas de árvores brancas cintilavam sob a luz do entardecer, rios verdes serpenteados por peixes de prata, e cachoeiras que desafiavam a gravidade, subindo em espirais até se perderem nas nuvens.
No centro do vale, o Parthenon, intacto e majestoso.
E então, da entrada do templo, uma silhueta emergiu, envolta em luz. O brilho que emanava dela não era natural, mas um reflexo de algo além do mundo humano. Seus passos eram graciosos, mas definitivos, e conforme se aproximava, Cadmo sentiu-se petrificado.
Quando o véu foi retirado, o rosto que encontrou era de uma beleza escultural, a pele alva como a própria pedra que formava os deuses. Os olhos azuis como o núcleo de uma chama o encararam com uma intensidade imutável. O sorriso em seus lábios era gentil, mas repleto de segredos.
— Cadmo — a voz era melodia e trovão.
Ele não soube se caiu de joelhos ou se o chão desapareceu. A mulher estendeu a mão, e o vale inteiro inclinou-se para tocá-lo.
— Não encontrará imagens novas onde só há espelhos — sussurrou, seu dedo gelado desenhando uma linha de frio em sua testa — Às vezes, é preciso acreditar que o que encontrará do outro lado é algo bom. Confie no que sente. E vá.
Antes que pudesse responder, ela deu um leve empurrão em sua testa e uma lufada de ar quente atravessou seu rosto.
Cadmo piscou e estava de volta no Liceu. O chão de terra batida jazia sob seus pés, a poeira já havia assentado. Um menino e seu pai brincavam com espadas de madeira, rindo. Ele levantou-se, as pernas trêmulas, e olhou para a Acrópole. O Parthenon ainda estava lá, distante, mas a estátua de Atena parecia menor.
No bolso, suas mãos encontraram o saco de castanhas. Imagens novas, lembrou-se, até que partiu, deixando-as para trás para o pai e filho.
— Roxana — murmurou, o nome saindo como uma promessa. — Preciso encontrá-la.
Ele desceu as escadarias do Liceu, passando por mercadores e filósofos que debatiam em voz alta. Um destacamento de guardas começava a agitar as ruas para o toque de recolher. Não olhou para trás. Na praça principal, uma multidão ouvia um poeta recitar versos sobre amor e guerra. Cadmo não parou. Seus passos o levaram ao portão leste, onde mercadores se preparavam para partir.
— Ei, você. Venha aqui — Ele ordenou a um camponês, que vestia trapos cor de diarreia. O homem obedeceu — Quando saiu a última caravana para Erétria?
— Vish, bicho. Eu não sei — Ele respondeu. Talvez o…
Cadmo não esperou. Questionou outro, e outro, e outro, até que um guarda, recruta, incomodou-se com sua euforia.
— Alto lá! Você! Ô do elmo rachado! — Bradou o recruta.
— O quê?! — Retorquiu Cadmo, no mesmo tom.
— O que pensa que está fazendo?
— Ah, você serve! — Exclamou Cadmo — Quando saiu a última caravana para Erétria?
— Como…? — Ele gaguejou.
— Responda, homem! Ou o polemarco saberá disso!
— Claro, claro… — Seus olhos se arregalaram, enquanto fitava os arredores — Não saem mais tantas caravanas, nesses tempos…
— QUANDO?! — As veias de Cadmo saltavam no seu pescoço, seu rosto se avermelhara.
— Há uns dois dias, mais ou menos…
— Uma mulher partiu com eles? Diplomata? — Cadmo agora agarrava-o.
— Uma mulher…? Deixa eu pensar?
— Olhos azuis, baixa, ruiva, geniosa. Certeza de que a viu. Pense, homem!
— Ah! — O recruta fitava-o como quem finalmente descobriu um segredo — A flor de Lesbos! É claro! Sim, ela estava com el…
Cadmo esperou que terminasse. Acotovelar-se através da multidão que deseja fugir da cidade, após a revolta, lutando para encontrar o salvo conduto que Demóstenes lhe dera. Aproximou-se do portão com o pergaminho em mãos. Os guardas chamaram-no.
— Precisa de um cavalo? — interrompeu um camponês esfarrapado, apontando para um animal magro.
Cadmo sacudiu a cabeça. Caminharia, se necessário. Enquanto ajustava o alforge, uma águia desceu dos céus e agarrou uma cobra, uma árvore próxima, suas asas sujas de sangue. Por um instante, seus olhos se cruzaram, e uma voz soou em sua cabeça.
— Até os mortos precisam descansar.
E partiu, deixando Atenas para trás, enquanto o sol mergulhava no mar, tingindo o mármore da Acrópole de vermelho-sangue.
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