Sob o Véu da Noite
9 Capítulo 9: Preto e Branco
A floresta respirava úmida, cada folha gotejando o peso de uma chuva que não cessava há sete dias. O cheiro da terra úmida tomava seus pulmões a cada respiração pesada. O mato grudava em Cadmo como mãos frias, enroscando-se em suas pernas, tentando arrastá-lo de volta para o esconderijo. A lama escorria entre seus dedos, que cravavam-se no cabo da adaga, as marcas do punho já tão fundas que pareciam parte da própria lâmina. No sopé da colina, um vilarejo despertava em um frenesi desesperado. Cavalos relinchavam, carroças rangiam e atolavam na lama, e camponeses apressavam os passos com trouxas e crianças chorosas nos braços. Em meio à confusão, Cadmo podia distinguir os sons de animais encurralados.
— É questão de tempo até o garoto voltar com os outros — sussurrou alguém nas sombras, a voz rouca de nervoso.
— Isso se os lobos não o encontrarem primeiro — respondeu outro, mais seco.
Cadmo não viu seus rostos. Sabia apenas que eram inimigos. Alvos com cheiro de medo e sangue podre.
O céu era uma tampa de chumbo, sem sol, sem lua. O mundo tinha virado cinza: cinza o solo arado, cinza as montanhas ao longe, cinza até o sangue velho em sua roupa encharcada.
Cadmo permaneceu imóvel. O corpo exausto protestava, as pernas vacilaram quando tentou se erguer. Fazia três dias que não dormia, e cada músculo gritava por descanso. Mas ele não tinha esse luxo. Não agora.
Seus olhos vasculharam a multidão, buscando uma silhueta específica. O líder. Precisava encontrá-lo novamente, antes que se esvaísse na corrente de fugitivos.
Na última vez que se depararam, o alvo estava isolado à beira de um riacho. Cadmo hesitou. A faca pesou. A mente fugiu. E, quando voltou a si, o corpo de seu melhor amigo, Lysandro, estava aos seus pés. O rosto dele ainda estava surpreso, os olhos abertos fitando o céu que não respondia. A chuva lavara as suas mãos, mas o peso da culpa permanecia. Não cometeria o mesmo erro duas vezes.
Em pouco tempo, o vilarejo estava vazio. Silêncio.
Cadmo caminhou pelas ruas estreitas. Pegadas recentes na lama denunciavam que haviam retardatários. Na praça central, carroças com eixos quebrados se espalhavam entre ferramentas e baús abandonados. O cheiro de pão queimado e estrume ainda pairava no ar, misturado ao sal do mar distante. Cadmo focou no som das ondas — um, dois, um, dois —, tentando tirar o olhar congelado de seu amigo de sua mente.
Um som estranho o fez girar a cabeça. Gemidos
Vinha de uma rua estreita à sua direita, cortando o vazio úmido como uma lâmina invisível. Cadmo avançou. Seus passos seguiam o mesmo ritmo do coração, que batia acelerado. Concentre-se, pensou.
Seguiu os gemidos até um celeiro com o telhado parcialmente desabado. Uma luz tremulava entre as frestas das tábuas de madeira. À porta, um cesto com trapos ensanguentados. Dentro do edifício, sombras se contorciam. Murmúrios baixos escapavam, abafados pelo som da tempestade.
O seu alvo apareceu de repente, cambaleando com um balde cheio nas mãos. Ofegante, deixou as costas escorregarem contra a parede e sentou-se no chão enlameado, esfregando o rosto com a água do recipiente. A chuva transbordava pelas calhas sobre sua cabeça, enquanto ele permanecia ali, imóvel. A cabeça baixa, como se buscasse respostas no solo enlameado.
Agora, pensou. Mas o corpo não se moveu. Os dedos apertaram o cabo da lâmina, hesitantes, enquanto a sua visão embaçava. Não da chuva. Não de cansaço. Podia sentir algo mais profundo, mais sombrio, rastejando dentro dele.
Respirou fundo. As ondas, lembre-se das ondas. Ajustou a postura, obrigou-se a avançar. Mas sentiu seus passos vacilarem sobre uma tábua quebrada, que cedeu sob seu peso. Cadmo se desequilibrou, caindo em quatro apoios sobre a lama.
O líder ergueu a cabeça, o balde caindo com um baque surdo.
— Quem está aí? — O sujeito tinha olhos fundos, mãos calejadas de quem cavara sepulturas e semeadoras.
O silêncio mastigou as palavras. Cadmo se levantou com dificuldade, apertando o punho da faca com ambas as mãos para conter o tremor.
— Estou aqui
O sujeito estudou sua figura por um instante.
— Você estava com o outro rapaz, não é?
— Estava — Cadmo permanecia imóvel.
— Ele está morto? — O líder perguntou, a voz embargada.
Cadmo não respondeu de imediato. O gosto de ferro ainda estava em sua boca. A imagem do amigo jazia sob a chuva, a expressão congelada no instante em que a lâmina o atravessou. Esfregou os olhos e a figura sumiu.
— Está.
O líder fechou os olhos por um momento.
— Que droga... Pelos deuses, era só um garoto — Ele passou a mão pelo rosto com força, como se tentasse apagar algo invisível. — Eu… eu o deixei escapar, sabia? — murmurou. — Mesmo sabendo que ele voltaria.
A faca de Cadmo pesou ainda mais — E ele voltou — sua voz saiu áspera. — Sua mão é quem guia a minha agora.
O líder deu um sorriso amargo — Vingança? É disso que se trata? — Seus olhos brilhavam de cansaço, vazios de medo. — Acha que me matar fará seu amigo voltar?
Cadmo não respondeu.
— Vocês não têm o direito de decidir quem vive ou morre. — O líder levantou-se, o olhar estreito.
— É meu dever — Cadmo tentou avançar, mas os pés pareciam presos na lama.
— Dever? — O líder apontou para as casas vazias. — E que belo dever, hein? Vocês nos subestimam, sabia? Por acaso você sabe quem construiu essas paredes? Quem cultivou essas terras? — O sujeito ajoelhou-se, examinando um punhado de terra encharcada — Não éramos escravos antes de vocês incendiarem nossas casas. Antes de assassinarem nosso povo. Antes de criarem essa ordem distorcida onde vocês estão em cima e nós embaixo.
Cadmo cerrou os dentes. — Agora são escravos. Obedecer é a única lei que restou para vocês — disse, mas as palavras soaram ocas, como cascas secas.
— Obedecer? — Um riso seco escapou dos lábios do outro. — Por que deveríamos obedecer os algozes que nos fizeram crer que os próprios deuses desejavam a nossa morte? Isso é algo cruel, forte, poderoso. Não há espaço para perdão. — O homem levantou-se, fitando a porta atrás de si como se procurasse motivos para voltar — Mas, quer saber? Esse poder vocês não tem mais! A Grande Rebelião abriu portas que jamais serão fechadas!
Cadmo inclinou levemente a cabeça. — Então é isso que andam tramando? Bom saber.
— É isso que sempre estivemos tramando, tolo! — O punho dele encerrou-se, as juntas brancas — A guerra provou que até mesmo Esparta pode sangrar.
— O que a sua rebelião trouxe foi caos e morte.
O sujeito deu de ombros. — Para quem já vive morto, a morte é liberdade.
Cadmo girou a faca entre os dedos. — Pois bem. Então me deixe libertá-lo.
O líder o observou por um longo tempo. Seu olhar espiava o reflexo da lâmina — Se quisesse me matar, já teria feito.
Cadmo cerrou o maxilar.
— O que quer de mim? — o sujeito completou.
— Sua vida. — Cadmo cuspiu no chão, a saliva misturando-se à chuva.
O sorriso dele desapareceu. — Então tire-a.
O silêncio se alongou, pesado como a tempestade sobre eles. A voz do seu tio veio à sua cabeça, dura e distante: “Não se dialoga com escravos, Cadmo. Eles entendem melhor quando as regras são entalhadas em suas costas.”
A sombra do inimigo moveu-se lentamente, colocando uma cerca improvisada entre os dois. Cadmo se preparou para avançar, mas um gemido vindo da casa desviou a atenção de seu alvo.
O erro custou caro.
A criatura se moveu rápido, lançando um punhado de lama nos olhos de Cadmo. A sua visão virou um borrão turvo. Um segundo depois, o impacto brutal de um corpo contra o seu o jogou ao chão.
A faca escorregou de sua mão.
A chuva aumentou, tamborilando nos telhados, abafando tudo — gemidos, grunhidos, o som de corpos rolando na terra. Cadmo tateou o chão em busca da lâmina, mas foi recebido por um chute no estômago. Tossiu, engatinhando para trás, os pulmões ardendo.
Em volta, sombras curiosas espiavam pelas frestas da janela.
Sentia a dor o abraçar entre as costelas. Ouviu passos, virou-se com dificuldade.
O seu atacante segurava a faca agora.
— Liberdade, garoto — a criatura sibilou, avançando.
Cadmo recuou, os joelhos deslizando na terra molhada. Um outro grito cortou o ar.
O líder hesitou.
Foi o espaço de que Cadmo precisava.
Disparou na direção de uma das carroças abandonadas, sentindo a criatura em seu encalço. Cadmo reuniu suas últimas forças na tentativa de arrancar uma das tábuas da carroça, farpas invadindo a palma da sua mão como agulhas. A madeira cedeu e Cadmo girou o corpo, desferindo um golpe cego contra o rosto do outro. O impacto estalou como um raio. A criatura tropeçou para trás, caindo de joelhos. A metade do rosto desfeito, os dentes espalhados na lama como grãos de arroz.
Na tábua, em meio às intensas manchas de sangue que pingava como chuva, um chifre solitário se encontrava preso entre os veios da madeira.
Cadmo não esperou.
Mais uma pancada.
Outra.
O corpo desabou no chão, imóvel.
Seu peito subia e descia em espasmos irregulares. Os olhos fixos na criatura caída, esperando algum movimento. Mas ele não se mexeu. Está morto.
O pensamento ainda se formava quando um novo som cortou o ar. A porta pesada da casa em suas costas se abriu de repente, rangendo. Uma criança surgiu, os cascos afundando na lama, os olhos arregalados.
— Paaaaai…
A voz dela tremeu.
Cadmo não conseguia se mover. A faca, a chuva, o sangue, tudo parecia ter congelado.
A menina deu um passo hesitante para frente.
— Pai...?
A tempestade rugia ao redor, mas ele só ouvia o som da respiração dela.
E o silêncio, esmagador, entre eles.
Cadmo se ergueu, o peito arfando, os olhos fixos no corpo a sua frente. O morto ainda respirava, um sopro rouco. Seu sangue, misturado à lama, desenhava padrões grotescos no chão enlameado.
— Paaaaai! É você?
A voz cortou o espaço entre eles como um raio, o coração martelando contra as costelas. A menina o viu. Eles se reconheceram. Olhos azuis arregalados, varrendo a cena diante dela. Pequena demais para compreender, grande demais para esquecer.
O mundo pareceu parar. O tempo tornou-se um pântano espesso onde Cadmo afundava, incapaz de se mover, de respirar, de desviar o olhar.
Então, mais um grito.
Estridente. Doloroso.
E o peso do silêncio veio depois, esmagador.
A menina correu de volta para dentro. Cadmo quis chamá-la, mas a voz morreu em sua garganta. O corpo à sua frente já não era um inimigo. Era apenas uma pessoa. Apenas um pai.
Seus dedos se abriram lentamente, e a faca caiu. O choque da lâmina contra a pedra ressoou como um trovão em sua mente. Ele deu um passo para trás. Depois outro. E outro.
No horizonte, o mar rugia, e as ondas pareciam rir. De repente, tudo se desfez. A praça, a chuva, o sangue, a lama. O vilarejo se dissolveu em sombras, engolindo-o junto.
— Cadmo?
A voz veio de longe, suave como um sopro. A escuridão estalou, fragmentou-se.
Seus olhos se abriram.
Ele estava deitado em um colchão fino, empoçado sob a água que escorria de seu rosto como lágrimas que não conseguia controlar. O cheiro de sangue persistia, mas agora misturava-se a algo mais — incenso, talvez, ou óleo de oliva.
— Cadmo?
A voz era suave, mas firme, cortando o eco dos gemidos que ainda retiniam em sua mente. Ele se levantou de um salto, as costas coladas na parede, a mão buscando instintivamente o cabo invisível da faca. A respiração vinha em golpes curtos, como se o ar fosse espesso demais.
Roxana estava a alguns passos, segurando uma lamparina baixa. A luz dourada iluminava metade de seu rosto, destacando os fios de cabelo que escapavam do capuz. Os olhos azuis não mostravam mais medo, apenas uma curiosidade afiada. O sangue de Cadmo congelou.
— Ei! — insistiu, inclinando a cabeça. — Por que está chorando?
Ele passou o braço pelo rosto, enxugando a umédia que teimava em persistir. As mãos tremiam, e ele as escondeu atrás das costas, os dedos buscando o elmo do pai num gesto inconsciente. Clang. Clang. A lembrança do som metálico o ancorou à realidade.
— Não estou chorando — resmungou, a voz rouca como se tivesse engolido cinzas. — É a chuva.
Roxana ergueu a lamparina, iluminando o canto onde ele se encolhia. A água da chuva com que sonhara, na verdade, vinha de um jarro de flores derramado na prateleira acima, em razão de seus movimentos bruscos enquanto dormia.
Ela não comentou. Em vez disso, aproximou-se devagar, como se ele fosse um animal ferido, e colocou algo ao seus pés — um pedaço de pão envolto em linho.
— Sonhos são mentirosos — disse, não como consolo, mas como constatação. — Estamos a salvo aqui.
Cadmo não respondeu. A imagem da menina gritando pelo seu pai mesclava-se ao rosto de Roxana, e ele apertou os punhos até as unhas deixarem marcas. Seus olhos fixaram-se nas próprias botas, ainda lamacentas da travessia noturna.
— Você fala como... — ele começou, mas interrompeu-se. — Como você está?
Roxana sorriu, apenas com os olhos.
— Estou bem melhor. E… obrigada… por ter me ajudado. De verdade — completou, virando-se para sair. — Venha. Demóstenes chegou ao amanhecer. E você... precisa de ar.
Ele ficou parado até que seus passos se perderam no corredor. Então, ajoelhou-se, pegou o pão e partiu-o ao meio, como costumava fazer com Lysandro nos acampamentos. A primeira mordida quase o fez engasgar. O sabor o levou de volta à noite em que dividiram uma caça roubada, rindo sob as estrelas.
Fitou o elmo do pai numa bancada ao canto, a luz da lamparina tremeluzia. Levantou-se, sentindo o calor que começava a se espalhar pela peça de bronze. Clang Clang… Desta vez, o som pareceu mais fraco.
Quando saiu, o céu começava a clarear em tons de ferida cicatrizando — roxo, vermelho, depois dourado. Roxana observava o horizonte, seu manto flutuando no vento como asas de coruja. Ela não olhou para trás, mas disse, baixinho o suficiente para que ele duvidasse se eram palavras ou o vento:
— Até os mortos precisam descansar, Cadmo.
Ele não respondeu. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não beliscou uma castanha sequer durante toda a manhã.
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