Sob o Véu da Noite
12 Capítulo 12: O Jogo de Péricles
Roxana caminhava de volta à residência de Péricles, exausta após um dia inteiro de julgamentos no Areópago. Reprimendas aos traidores e punições aos conspiradores da revolta que ocorrera algumas semanas antes. Depois de alguns dias acompanhando Péricles, ele deixou de ser tão ruim assim. Parecia sempre taciturno e Roxana acreditava que isso era em razão da morte de sua esposa, Aspásia, pela peste. Os momentos de solidão refletiam-se em estudos e reflexões e, diferente de Alcibíades, desprezava simpósios e comemorações. Era um orador excepcional, cativava as massas e ameaçava as elites da qual ele mesmo fazia parte. Roxana já vira esse jogo antes, e o resultado quase sempre costuma ser trágico. Apesar de sua posição de observadora, visto que não era uma cidadã ateniense, Péricles a havia convocado a depor duas vezes para sustentar sua argumentação. Três senhores idosos de famílias extremamente tradicionais exigiam a cabeça dos criminosos que violentaram e assassinaram suas filhas na revolta. Péricles era o único que ousava confrontá-los em público, mas, fora do tablado, não moveu um músculo sequer para impedir as execuções. Roxana entendeu muito bem o seu jogo, e ela era um dos peões. Não jogaria esse jogo por muito mais tempo.
No dia anterior, a resposta à sua carta havia finalmente retornado de Lesbos, e o navio que a trouxe mostrava sinais claros de combate, provavelmente com piratas. A carta informava sobre a piora na situação de saúde de Deucalião e a disponibilidade de três dezenas de navios a serem somados à frota ateniense, ainda mais do que havia previsto. Péricles mostrou-se satisfeito e até concedeu acesso ao conteúdo das recentes cartas que havia recebido de um dos magistrados em Erétria, informando a situação do impasse com o navio apreendido. Segundo ele, a cidade enfrentava intensos conflitos internos entre resistir ou render-se à Esparta que, após a tomada de Tebas, batia a sua porta. O magistrado temia que a situação pendesse a favor da oposição e que, a qualquer momento, Erétria abrisse seus portões ao inimigo. Devido à gravidade da situação e ao sigilo do conteúdo, Roxana mostrou-se surpresa com o fato de Péricles tê-la mostrado e ainda mais pelo fato de parecer extremamente calmo diante daquela situação.
Ao chegar na residência, dirigiu-se ao seu aposento e solicitou um banho à criada, que já tinha deixado tudo pronto à sua espera. Satisfeita, tomou um banho demorado, refletindo sobre isso tudo. Depois, vestiu um manto de linho leve e se encaminhou até o jardim central, sentindo o frescor do início de noite. Ali, se juntou ao seu livro de poesias e começou a rabiscar ideias. Começou com uma e foi até a metade. Não a agradou. Depois outra, e outra, e outra. Nada ia até o fim. Depois, como Safo a ensinou, buscou formas de aproveitar essa mistura de ideias para criar algo novo, mas, ainda assim, sentia que era raso demais. Então, abaixou o livro, frustrada e tornou a encarar o lago. Um turbilhão de lembranças veio em sua cabeça, seu coração aqueceu e ela começou a escrever, linha após linha, sobre o homem que delineava as águas daquele lago algum tempo antes. Onde ele deve estar agora? Pensou. Sequer conseguiu se despedir, pois já havia partido quando retornou de mais um dia de reuniões. Naquele momento, já deveria estar em Tebas buscando o que tanto queria. Não o julgava. Roxana, apesar de não se sentir mais tão pequena dentro daquelas paredes, ainda estava longe de poder chamá-la de lar. Se sentia deslocada a todo momento e, após o ataque, não permitiam que saísse desacompanhada. Sou uma prisioneira, pensou.
Seu devaneio foi interrompido pela criada que surgiu para transmitir o convite de Péricles ao seu escritório. Roxana assentiu e levantou-se, deixando o livro de poesias para trás. Subiu as escadas até o terceiro andar e bateu na pesada porta de madeira escura. Uma voz abafada surgiu lá de dentro, convidando-a entrar. O quarto estava um breu, exceto por uma vela que queimava na mesa à frente da sombra que se dirigia a ela. Todas as janelas estavam fechadas e um cheiro de vinho pairava no ar. Sente-se, disse a voz, e ela obedeceu. Péricles permaneceu lendo um longo pergaminho, sem sequer olhá-la.
— Acredito que tenha compreendido a gravidade da situação em Erétria — começou ele.
— Perfeitamente.
— Ótimo. Preciso da sua ajuda uma última vez…
— Péricles — ela o interrompeu. — Em que momento essa relação vai deixar de ser unilateral?
Seus olhos se estreitaram sob a luz fraca
— Como? — disse com indignação
— Venho acompanhando você há mais uma semana, testemunhei ao seu favor, mobilizei os navios que precisava…Você ainda não cumpriu a sua parte do acordo. O que está acontecendo em Erétria? Onde está o navio? — disse cerrando os dentes.
— Você leu as cartas…
— Eu li as cartas que você me deu — ela o interrompeu novamente — Já cansei das suas histórias. Não acredito em nenhuma delas. Eu quero a verdade.
Ele deu uma risada seca, pousou o pergaminho e juntou as mãos sob o queixo
— Está procurando a verdade no lugar errado, menina. Espero que saiba disso.
— Sugiro que não me chame de menina novamente, não lhe dei tal liberdade. Você sabe bem o meu nome e o utilizará apropriadamente. Agora, diga a verdade. Sem teatro, sem discurso, sem rodeio. Ou abandonarei sua casa desnecessariamente grande neste exato momento e mandarei sua querida frota para o fundo do Egeu junto dos malditos piratas, sem distinção. E pode ter certeza que acharei uma forma de fazê-lo.
Dessa vez ele não riu. Parecia encarar um ponto distante por cima de seu ombro esquerdo, enquanto permanecia na mesma posição.
— Eu conheci seu pai, sabia?
Roxana deixou um suspiro escapar, enquanto seus ombros caiam e as rugas de raiva desapareciam de sua testa.
— Cccomo?
— Foi uma tragédia… Perdi grandes amigos naquela tolice.
— Explique-se! — ela agitou-se na cadeira — Meu pai…como assim…como assim você o conhecia?
— Anfípolis…— começou ele, impaciente — era uma colônia ateniense. Imagino que soubesse disso — interrompeu a explicação diante da indignação da moça — bom, claro que sabe. Foi fundada muito antes de eu e você, é verdade, mas passou a ter fundamental importância apenas a uma década atrás. Seu pai foi um dos primeiros e únicos cidadãos que se voluntariaram para essa missão. Tínhamos recém descoberto que aquela região era parte de uma longa rota comercial que ia do coração do continente até terras distantes ao Leste. Os bárbaros estavam causando muitos problemas por lá, estão até hoje, e a nossa colônia acabou se tornando uma espécie de porto seguro na região. A ideia de trazer esses produtos caros e raros por via terrestre era burra e perigosa, justamente por causa desses bárbaros…
— Não estou entendendo aonde você quer chegar com essa historinha — ela disse revirando os olhos.
— Escute…Apenas escute. É justamente aí que seu pai entra. Estávamos muito ocupados expulsando os resquícios da presença persa ao Sul, e a guerra já nos havia custado muito. Então, procurei pelas vielas da cidade alguns pobres coitados que já haviam servido em nossa armada antes. A maioria como remadores, mas naquele ponto era indiferente. Continuei nessa empreitada até que conheci seu pai. Era um estrangeiro, pobre, mas ambicioso, e trabalhava madeira como poucos que eu já vi. E se colocarmos esse sujeito para construir alguns barcos? Pensei. E ele aceitou, voluntariamente. Na semana seguinte ele já estava num navio a caminho de Anfípolis e lá continuou até a sua morte. Se posso credibilizar alguém por todos esses anos de presença inquestionável de Atenas no Egeu, é seu pai.
— Então é isso? Meu pai foi apenas mais um dos seus investimentos que deram certo?
— Na verdade, não, Roxana. Seu pai era um grande homem. Chorei quando soube de sua morte.
Ela soltou um pigarro de deboche.
— Tanto que, quando soube que sua filha estava viva e presa em Pela, fiz questão de contatar diretamente o governador local para que interviesse na situação. E ele a soltou.
— Tarde demais…
— Como?
— Tarde demais! — disse ela, aumentando a voz de repente.
— Pode ser. De qualquer forma, foi uma tragédia o que aconteceu com a sua irmã. Como era mesmo o nome dela?
— Não importa. Ela vai ficar bem. Eu vou ajudá-la — murmurou em tom quase inaudível.
— Roxana…?
— Olha — ela interrompeu — já estou me cansando dessa sua história. Afinal, por que você está me falando isso? Quer me convencer a te ajudar?
Ele a encarou por alguns segundos, depois se levantou e serviu dois copos de vinho. Roxana recusou o seu, então ele o entornou e o colocou de lado. Ainda em silêncio, caminhou até a janela na lateral do quarto e abriu as cortinas. O cômodo foi invadido pelo vento frio da noite. Fitando a paisagem, Péricles a confessou.
— Quando eu soube que uma das filhas de Arcésio havia sido feita prisioneira por aquele grupo de maltrapilhos, não medi esforços para encontrá-la — ao sentir o suspiro irônico de Roxana, continuou — É claro que já estávamos em seu encalço. Eles já haviam atacado uma dezena de caravanas de suprimentos na região, então era de nosso interesse pará-los, sim. Mas, foi no momento em que descobri de você, que desloquei o destacamento de Deucalião para a região e o incumbi dessa missão. Felizmente, eles conseguiram encontrá-los e libertá-la. Soube dessa informação ainda por uma carta, que li em conjunto com minha mulher.
— Minha mulher…Aspásia…ela era uma grande amiga de Safo — Roxana se empertigou — Como já sabe, Deucalião é marido de Safo e…bom…buscamos convencê-los a acolhê-la. Felizmente, Safo ficou feliz com a ideia. Ela sempre esteve disposta a ajudar mulheres em situações complicadas. Bom…creio que esse é um dos motivos pelo qual Aspásia a admirava tanto. E esse é o motivo pelo qual te recebi em minha casa e me dispus a escutá-la. Eu me preocupo com você, Roxana, e quero ajudá-la.
Roxana permanecia em silêncio. Mirava seus joelhos que agora balançavam sem controle. Sentia-se desconfortável na cadeira, as marcas em suas costas latejavam como nunca. Um longo zumbido invadiu seus ouvidos. Ela tampou-os, mas nada mudou. O barulho vinha de dentro. Um calafrio tomou conta do seu corpo, suor escorria pela sua testa e pingava em seu manto de linho, como lágrimas. Em um instante, fechou os olhos e se descobriu dentro de uma grande gruta azul, e uma voz a respondia.
— Pão quentinho com meeeel — gritou a voz de uma menina.
— Mel, mel, mel, me… — respondeu a gruta.
— Queijo de ovelha com figossss
— Figos, figos, figos, figo…
— Para com isso, Roxana — disse uma outra voz
— Eu estou com fome
— Fome, fome, fome, fom…
— Eu já te dei quase tudo. Sobrou só uma asinha pra mim.
— Fomeeeeeeeee
— Fome, fome, fome, fom…
— Táaaaa, sua chata. Pode comer. Vou procurar algumas frutas. Acha que vai ficar bem?
— Sim. Mas, vai rápido. Estou com…
— Fome! Já entendi. Não faça nenhuma besteira. Já volto.
— Não vouuu.
— Vou, vou, vou…
Tudo escureceu. Sentiu alguém puxar seu cabelo. A dor era terrível, parecia que iam arrancar seu couro cabeludo. De repente, caiu de costas num chão de pedra úmida e sentiu um resquício de ar escapar de seu pulmão.
— Me larga, seu idiota!
— Achou que ia se safar de novo, não é?
— Não sei do que está falando — disse olhando pro chão.
— Ah, sabe muito bem. E eles também vão saber. Vou ter sua mão direita por isso, ladra!
— Tá, tá, tá. Dá pra ir embora? Você é muito chato.
— Além de ladra, ainda é insolente. Sua mãe não te ensinou como se dirigir a um homem, menina? Você vai ter o que merece, ah sim. Espere e verá!
Uma lágrima escorreu de seus olhos no momento em que o homem bateu a porta atrás de si. Uma enxurrada de lágrimas a seguiram. Quando acordou, estava no chão do escritório de Péricles. O homem estava ajoelhado ao seu lado, com uma expressão preocupada no rosto. Percebeu que ainda estava chorando.
— Roxana? Você está bem? O que houve?
— Nada — ela disse, se colocando prontamente em pé.
— Você…?
— Sim, sim. Estou bem. Onde estávamos?
— Tem certeza…?
— EU ESTOU BEM, PÉRICLES!
— Certo….
— Você dizia que quer me ajudar…como ACHA que pode me ajudar, Péricles?
— Quero que vá para Erétria…
— Como…?
— Os navios…que conseguimos…bom, eles vão se reunir em Erétria.
— Erétria?
— Exatamente. Era isso que a carta que eu lhe dei para enviar dizia.
— Por que Erétria? Por qual razão…?
— A carta convoca a frota ateniense para retomar a cidade e se livrar dos traidores que tanto querem se juntar aos espartanos.
— Você disse que enviaria navios para retomar o controle do Egeu e expulsar os piratas…
— E vamos fazer isso, depois.
— Depois? — riu indignada — Você é inacreditável.
— Roxana, trata-se de estratégia militar, você não…
— Não entenderia? Pois bem, tente. Explique.
Péricles bufou — caso nós enviássemos nossa frota até Lesbos e redondezas, e Erétria abrisse seus portões ao espartanos, teríamos nossa retaguarda totalmente exposta a retaliações.
— Mas, os piratas não…?
— Antes da guerra haviam piratas, sim. Algumas dezenas talvez. Agora, existem centenas, e eles rondam exatamente as ilhas que integram a Liga de Delos. É uma bela coincidência, não?
— Acha que Esparta os financia?
— Talvez não diretamente. Os espartanos não costumam se envolver com o tipo. Mas, vai por mim, tinha algum dedo podre aí. Esse é o motivo de eu ter enviado Demóstenes a Samos.
— Demóstenes e…Cadmo? — lembrou-se de sua poesia, de súbito.
— Cadmo o ajudou, sim, mas era missão de Demóstenes justamente entender o motivo dos governadores locais não atenderem mais às nossas tentativas de comunicação. Espiões informaram que havia movimentação suspeita nos portos.
— E…Demóstenes…o que ele descobriu?
— Ele descobriu que os persas estão envolvidos. — Péricles cuspiu a frase como uva podre.
— Mas…o tratado de paz.
— Bom, parece que não vale mais uma dracma sequer. O sátrapa da região, Tissafernes, parece estar financiando esses piratas, assim como imagino que esteja ajudando Esparta a construir navios. Sua marinha nunca foi muito desenvolvida. Esse é o único motivo que explica essa mudança tão repentina e a tragédia em Siracusa.
— Isso significa…
— Isso significa que temos mais um inimigo. E a última coisa que quero no momento é me encontrar cercado entre espartanos, persas, piratas e traidores covardes. Por isso, preciso que me ajude.
— Mas, isso não faz sentido. Lesbos vai…
— Lesbos vai continuar sofrendo com os piratas, sim. Honestamente, não há muito o que fazer. Se mandássemos uma frota até lá, seria dizimada em menos de uma semana. Não. Precisamos nos proteger para que possamos proteger qualquer um dos nossos aliados.
— Por que não mandou Demóstenes? Por que eu?
— É uma boa pergunta. Veja, a situação com Demóstenes escapou um pouco do meu controle. Essa missão em Samos não havia sido autorizada pelo conselho, e tampouco eu me dispus a explicar meus motivos naquele momento. Os persas tem espiões aqui dentro, certamente, assim como os espartanos. Se eu lhes dissesse, Demóstenes correria um grande risco. Não, eu precisava garantir. Infelizmente, o asno do Alcibíades, você viu, organizou essa tramoia de Siracusa pelas minhas costas, e veja no que deu. Metade da frota foi destruída pelos espartanos. Fomos derrotados no mar! — exclamou irritado pela primeira vez — Bom, diante disso, eu não pude questioná-lo publicamente, pois sabia que o assunto Samos viria à tona, e deu no que deu. Por isso, tive que achar uma forma de livrar a pele de Demóstenes, e a minha também. Em tempos de guerra, todo homem conta, e imaginei que não iriam contestar se eu sugerisse enviá-lo para Mégara. Dito e feito. Eles tem algum apego incompreensível por aquele lugar.
— Mas, Mégara não é importante?
— Mégara é muito importante, de fato. Mas, um dos maiores aliados de Esparta, a cidade de Corinto, está localizada exatamente ao lado de Mégara, enquanto nós estamos um tanto longe. É impossível estabelecer uma base ou uma rota de suprimentos tão eficiente quanto a que eles têm. Portanto, Mégara cairá cedo ou tarde, é inevitável.
— Então…você enviou Demóstenes para a sua morte? Depois de tudo?
— Demóstenes é um soldado. Soldados travam guerras. Quando são submetidos ao confinamento da tranquilidade, guerreiam dentro de si. Veja Cadmo.
— Cadmo? Como…
— Roxana, respondendo finalmente a sua pergunta, eu preciso de você em Erétria, pois não quero que isso se torne um banho de sangue. Existem algumas frutas podres, sim, mas não são todas. Por isso, preciso que você encontre uma forma de removê-las de dentro.
— Mas, eu não…
— Você é uma diplomata excepcional. Uma grande oradora. Não consigo pensar em alguém melhor que você, na verdade.
— Péricles…
— Sei que o navio te interessa e, justamente por isso, que estou te entregando este salvo conduto, assim como o selo diplomático, que lhe dará acesso ao que precisar saber. Esta é minha oferta — e estendeu as mãos. Um pergaminho selado em uma mão, e uma espécie de moeda de prata com a imagem da coruja em lapiz-lazuli na outra.
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