Notas iniciais
Feita num devaneio de quinze anos.

O bater dos pés havia se tornado um hábito, muito irritante por sinal. Pensava em mil formas de fugir dali enquanto deslizava os dedos pelo bolso da calça, agarrando o celular com todo aquele visível nervosismo.

“17:14” – Não que precisasse saber a hora, era só mais uma tentativa frustrada de tentar se acalmar. Em primeiro lugar, não sabia nem porque estava ali. Além do mais, não é como se eu tivesse aquela vontade mor de vê-lo. – “Mas veja bem, Gabbie... se você não tem tal vontade, por que está aqui?” Ah, cala a boca.— Eu juro que se alguém pudesse ver o diálogo que eu mantinha com meu subconsciente, eu seria classificado como louca. Ou retardada, no mínimo.

O aperto no meu ombro me trouxe para a realidade. Meus olhos abriram um pouco mais e virei de imediato, já com um meio sorriso no rosto. De alguma forma, eu já sabia quem era.

— Olá – O sorriso só cresceu em meu semblante ao ver que de fato era quem eu esperava. Era incrível como perto dele eu só conseguia sorrir que nem uma criança besta.

— Nossa. Como sabia que era eu? – O rapaz perguntou entre um meio sorriso e uma sobrancelha arqueada. Esse era o momento em que eu passaria por insana.

— Acho que eu já te disse que minha intuição é realmente magnífica. Ela nunca falha – O riso tão usual saiu no costumeiro tom; com aquele quê descontraído que só funcionava quando estava perto do moreno. Estendi a cabeça para fitá-lo e ali me perdi. Não tinha nada de especial, mas me chamava atenção de uma forma incompreensível. Os leigos diriam que aquilo poderia ser amor, mas não era. Era só uma vontade muito forte de estar junto. Vontade de rir daquele silêncio constrangedor que ficava quando não existia mais assunto. Era só anseio muito forte. Podia parecer que eu estava simplesmente parada na frente do rapaz, com cara de idiota, observando-o. Mas todos esses pensamentos passaram numa velocidade que nem eu conseguia explicar.

— Hahaha, é... então... – Suspirou, calmo. Tinha nas mãos uma barra de chocolate já mordida. Ergueu a mesma e ofereceu. — Vamos? – Se virou, fazendo menção com a cabeça para segui-lo. Acompanhei o rapaz com rapidez.

O pequeno passeio foi melhor do que eu esperava. As conversas triviais sobre qualquer assunto que pairasse em nossas cabeças – por mais ridículas que pudessem ser – foram deliciosas. Talvez fosse isso que me cativasse tanto nesse “relacionamento”; toda essa naturalidade constrangedora que nos envolvia tão calorosamente. Esse “planejar não-planejado” tão, mas tão elegante. Era ridículo como eu me entregava para tudo isso tão facilmente, mas simplesmente acontecia.

— Já sei! Vamos à roda gigante? –Talvez eu tivesse colocado um pouco de ânimo mais que necessário no pedido. Fiz uma expressão de constrangida e ri desconsertada, passando a mão pela minha nuca.

— Pode ser – Ele lançou aquele sorriso que me deixava tão bem. Fomos então na direção do brinquedo. Meus dedos melecados devido ao algodão doce azul, qual eu havia enchido o saco para comer. Não demorou muito na fila até que chegasse nossa vez.

Adentrei na pequena cabine do brinquedo e me sentei. Thomas entrou também e se sentou à minha frente. Continuei a comer o algodão doce, esperando dar inicio ao brinquedo. O silêncio pairou dentro da cabine, e talvez eu estivesse com um certo receio de fitar os olhos do moreno e abrir aquele sorriso besta. Finalmente, o brinquedo começou a funcionar. Olhei pela janela apreciando a bonita vista do pôr-do-sol. Se bem que o meu pôr-do-sol estava ali dentro da cabine. E foi engraçado; tudo aquilo, por um momento, pareceu um filme de romance bem clichê. Que no final aconteceria aquele beijo que todas as pessoas na sala do cinema vibrariam e suspirariam, e iriam sair da sessão com aquela pequena necessidade vinda do coração, desesperadas por um beijo terno e um abraço aconchegante. Não contive a risada, que saiu um pouco mais baixa.

— Tá rindo do quê? – Ele perguntou, se virando na minha direção e me encarando com curiosidade.

— Da gente – Disse ainda olhando pela janela. Aquele lugar peculiar na minha imaginação estava todo ali, e eu não queria ser puxada para a realidade naquele momento. Levei os dedos até o vidro da janela e desenhei dois bonecos palitos e uma tela de cinema no fundo. Thomas apertou os olhos e se levantou, vindo sentar ao meu lado. Esticou um pouco o corpo e deixou a cabeça sobre meus ombros, observando o desenho.Riu. Aquela risada me deixou num estado que, sinceramente, nem eu conseguia classificar. O máximo que eu consegui fazer foi sorrir de uma forma calma. Senti a respiração do moreno na minha orelha, e foi o suficiente para que meu coração começasse a bater mais forte. Se eu virasse o rosto, encontraria os lábios do rapaz. O cuidado para que isso não acontecesse foi extremo. Levei os dedos até o algodão doce e puxei um pedaço, levando a minha boca e chupando os dedos logo em seguida, o que fez ele se afastar um pouco e se sentar bem largado, ainda ali do meu lado. Suspirei fundo e olhei para ele de relance, apreciando o perfil do belo menino. Havia chego num ponto em que pequeno sorriso não abandonava mais meu rosto.

Me encostei no banco e coloquei uma mão no mesmo, e por ironia do destino, em cima dos dedos do moreno. Me faltaram palavras, reações, e tal e tudo mais. Suspirei fundo e fiz menção a levantar a mão e tirá-la dali o mais rápido possível. Foi quando o moreno, com todo seu charme, segurou minha mão e não me deixou puxá-la. Não tive tempo de pensar. Instantaneamente virei o rosto para fitá-lo, esperando ver alguma expressão de brincadeira, ou uma careta. O que eu vi, na verdade, foram fogos de artifício. Foram flores de cerejeira. Risos e doces. Campo de girassol e filhotes de gatos. Fechei os olhos e pude sentir o gosto dos lábios de Thomas. Movi a mão até o rosto do garoto, afagando ali com carinho e atenção. O engraçado foi, de fato, poder ouvir e ver o suspiro de todos aqueles que assistiam o meu, digo, o nosso romance clichê. Enquanto minha língua deslizava sobre a dele, num beijo sutil e ainda sim intenso, o corpo do moreno veio mais para perto. A música dos créditos começara, enquanto meu coração sapateava com tudo aquilo que acontecia.

Me dei conta do que eu queria; ser ao menos figurante de sua história. Eu não precisava nem ter nome, só precisava dizer um olá para ele, enquanto você o rapaz corria atrás do seu par romântico. Mas ali estávamos, tão entretidos. E foi quando o pôr-do-sol explodiu dentro da cabine.

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