Sob o Luar de Shilah: Quando dois mundos se tocam.
6 O Retorno e a Ferida.
A Batalha de Hidaspes foi um triunfo tático para Alexandre, mas um pesadelo de sangue e lama para os homens que a lutaram. O rio inchado cobrou seu preço, e a muralha de elefantes de Poro provou ser um terror inigualável. Quando o exército macedônio finalmente retornou às proximidades de Shilah, vitorioso mas exausto, e o ar de invencibilidade havia sido substituído por um silêncio sombrio. As carroças de feridos pareciam não ter fim.
No palácio, a notícia da vitória de Alexandre foi recebida com alívio político, mas Amara não sentia paz. Seu coração era um tambor frenético enquanto ela observava do alto das muralhas o acampamento ser reerguido. A necessidade de saber o destino de Kallias a consumia. O amuleto que ela lhe dera parecia uma proteção frágil contra a fúria daquela guerra.
Naquela noite, usando novamente seu disfarce e os caminhos ocultos, ela se infiltrou mais uma vez na periferia do acampamento. O cheiro de ervas medicinais, sangue e desespero pairava sobre as tendas dos curandeiros. Amara caminhava como uma sombra, seus olhos buscando freneticamente o rosto familiar entre os corpos estendidos em esteiras improvisadas.
Ela o encontrou em uma tenda menor, afastada do centro do caos. Kallias estava deitado de costas, o peito nu enfaixado com ataduras que já começavam a manchar de vermelho. Seu rosto estava pálido, coberto por uma fina camada de suor, e seus olhos estavam fechados. A respiração era superficial.
O coração de Amara falhou uma batida. Ela se ajoelhou ao lado dele, a respiração presa na garganta. Com as mãos trêmulas, ela tocou o rosto dele, sentindo a febre irradiar de sua pele. O toque leve, no entanto, foi suficiente para despertá-lo de seu torpor febril.
Os olhos de Kallias se abriram lentamente, lutando contra a névoa da dor. Quando o foco retornou e ele viu o rosto de Amara inclinado sobre o seu, um sorriso fraco e exausto curvou seus lábios.
“Você veio,” ele sussurrou, a voz mal passando de um sopro.
“Eu precisava saber,” ela respondeu, a voz embargada, lutando para conter as lágrimas. Ela notou o cordão de seda escura emaranhado em seus dedos enquanto ele tentava erguer a mão. O amuleto de seu irmão ainda estava lá, manchado, mas intacto. “O amuleto…”
“Ele funcionou,” Kallias disse, com um esforço visível. “Um golpe de lança… raspou minhas costelas. Se eu não tivesse me movido um centímetro para o lado…” Ele fechou os olhos, a lembrança da dor o atingindo. “Achei que nunca mais veria os jardins.”
Amara não disse nada. Ela pegou um pano úmido de uma bacia próxima e começou a limpar o suor do rosto e do pescoço dele com uma delicadeza que desmentia o ambiente brutal ao redor. A vulnerabilidade dele quebrou as últimas defesas que ela havia tentado manter. O conquistador indestrutível ,agora, era um homem ferido, exausto, que havia lutado não apenas por seu rei, mas para cumprir a promessa de voltar para ela.
Naquela noite, na penumbra de uma tenda médica macedônia, o romance deles se aprofundou além da atração e da curiosidade. Tornou-se algo forjado na dor e no alívio de estarem vivos. Amara cuidou dele, como uma mulher cuidando do homem que amava. E Kallias, em sua fraqueza, encontrou na presença dela a única cura verdadeira para a desilusão que a guerra havia deixado em sua alma. O abismo entre seus mundos parecia insignificante diante da fragilidade de suas vidas.
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