A noite caía sobre Shilah como um manto de veludo escuro, pontilhado por milhares de estrelas que pareciam brilhar com mais intensidade ali do que no céu da Macedônia. Os jardins do palácio do Rajá¹ eram um labirinto de fontes murmurantes, jasmins noturnos e figueiras frondosas, um refúgio de tranquilidade longe do burburinho do acampamento militar e das tensões diplomáticas. Kallias havia sido designado para a patrulha do perímetro leste, uma tarefa monótona que o mantinha próximo aos muros do palácio. O ar fresco da noite era um alívio, e ele caminhava com passos medidos, a lança descansando no ombro, a mente distante.

Ele não conseguia parar de pensar no encontro no mercado. A voz dela falando grego, a acusação velada sobre a tempestade e as ruínas, e aquele toque acidental que ainda formigava em seus dedos. Ele sabia que era perigoso. Ela era a realeza inimiga, ou no mínimo, a realeza de um povo que logo poderia se tornar inimigo. Ele era apenas um infante. O abismo entre eles era intransponível.

E no entanto, quando ele dobrou uma esquina do muro e viu uma figura solitária sentada na borda de uma fonte de lótus, o coração de Kallias traiu sua razão.

Amara não conseguia dormir. A quietude de seus aposentos parecia sufocante. As palavras de seu pai sobre alianças e estratégias ecoavam em sua mente, mas era o rosto do soldado macedônio que persistia em suas visões. Ela havia descido aos jardins buscando a paz familiar do som da água, mas encontrou apenas inquietação.

Ao ouvir o leve tilintar de armadura, ela se virou. O luar banhava o rosto de Kallias, revelando a hesitação em seus traços. Amara deveria ter fugido. Deveria ter chamado os guardas do palácio. Um soldado estrangeiro armado tão perto de seus aposentos era uma violação grave. Mas ela não se moveu. Ela permaneceu sentada, as mãos repousando sobre o colo, os olhos fixos nele.

Kallias parou a alguns passos de distância. Ele cravou a base de sua lança na terra macia, um gesto deliberado de desarmamento, e ergueu as mãos abertas. “Eu não quero assustá-la,” ele disse em grego, a voz baixa, tentando não quebrar o silêncio da noite.

Amara inclinou a cabeça ligeiramente. “Você está fora de seus limites, soldado. Se os guardas de meu pai o virem, sua trégua terminará em sangue.”

“Eu sei,” Kallias admitiu, dando um passo lento à frente, atraído por uma força invisível. “Eu estava em patrulha. Ouvi a água. Eu… eu não esperava encontrá-la.” Era uma meia-verdade, e ambos sabiam disso.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, separados por alguns metros de grama úmida e séculos de diferença cultural. A ausência de uma linguagem comum fluida , já que o grego dela era formal, de livros, e o dele era prático, de acampamentos, o que o forçou a uma comunicação ainda mais simples.

Kallias apontou para o céu estrelado, traçando com o dedo uma constelação que conhecia desde a infância. “Órion,” ele murmurou. “O Caçador.” Amara acompanhou o gesto dele, olhando para as mesmas estrelas. Ela sorriu levemente, um sorriso triste. “Mrigashira,” ela corrigiu suavemente, apontando para a mesma região. “A cabeça do cervo. É caçado, não o caçador.”

A diferença de perspectiva os atingiu com força. O que para ele era o agressor, para ela era a presa. Kallias abaixou a mão, sentindo o peso da metáfora. Ele olhou para as próprias mãos, ásperas e calejadas do cabo da lança. “Eu sou o caçador,” ele disse, a voz tingida de amargura. “É isso que você vê. A tempestade que deixa ruínas.” Amara percebeu a dor na voz dele. A vulnerabilidade que ela vira no mercado estava ali novamente, exposta sob o luar. Ela se levantou lentamente, a seda de seu sari farfalhando suavemente. Ela deu um passo em direção a ele, cruzando uma linha invisível.

“Eu vejo um homem,” ela disse, a voz firme. “Um homem que tenta falar minha língua para não ofender um mercador. Um homem que abaixa sua arma no escuro. Os monstros não fazem isso.”

Kallias ergueu os olhos, encontrando os dela. A distância entre eles havia diminuído.

Ele podia sentir o cheiro de jasmim que emanava do cabelo dela. A vontade de estender a mão e tocar o rosto dela era quase esmagadora. Ele queria explicar a ela que estava cansado da guerra, que a visão de Alexandre de um império universal lhe parecia cada vez mais vazia, e que ali, naquele jardim estrangeiro, ele se sentia mais em paz do que em sua própria casa.

Mas as palavras falharam. Em vez disso, ele levou a mão ao peito, sobre o coração, e depois estendeu a mão aberta na direção dela, um gesto universal de paz e sinceridade. Amara compreendeu. Ela retribuiu o gesto, levando a própria mão ao coração.

Naquele momento silencioso, no diálogo dos gestos, a hostilidade inerente às suas posições evaporou. Um macedônio invasor e uma pricesa indiana que eram apenas Kallias e Amara, duas almas solitárias encontrando um espelho improvável uma na outra. O “quase” romance ganhava contornos reais, tecidos no silêncio de uma noite roubada.

Notas finais
1 - Um raja é um título monárquico equivalente a rei ou governante principesco , tradicional no subcontinente indiano e no Sudeste Asiático.