Sob o Céu de Conservatória - Volume 1
3 Lições de alfabeto e fé
Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro 14 de maio de 1895 — 10:17 a.m.
Mais de um mês decorrera desde o primeiro e atribulado encontro entre Nayla e Joaquim. Desde então, limitavam-se a cruzamentos fortuitos pelas ruelas da vila, olhares que se reconheciam, mas lábios que se mantinham selados pelo rigor das conveniências.
Nayla preservava sua rotina de filha de pastor com zelo: as lições aos pequeninos nas manhãs de sábado, o auxílio constante à família Alves na feitura das tortas e a arte de esquivar-se de Davi, que parecia mui empenhado em cortejá-la.
Contudo, um sopro de novidade agitava Conservatória: as obras da estação ferroviária finalmente haviam sido entregues à posteridade, e as locomotivas rumo a Petrópolis já cortavam os vales.
Nayla sentia-se radiante. Aquele outono trazia um frescor distinto. Ela caminhava pelas estradas de terra com leveza, observando a dança das folhas alaranjadas que atapetavam o chão. O vento matinal era um abraço revigorante, enquanto o da noite convidava ao recolhimento e à oração. Para a jovem, não havia local mais poético que a plataforma da estação: o espetáculo das folhas rodopiando ao vento e a aura de despedidas e recomeços traziam-lhe um estranho conforto. Tornara-se seu hábito, às terças-feiras, buscar o banco mais afastado para ler as Escrituras sob o mais belo local da região.
— Este ano reserva grandes transformações — previu o Pastor Elias, enquanto Nayla o ajudava a organizar a colheita de hortaliças ao romper da aurora.
— Amém, meu pai — respondeu ela, com um sorriso impossível de conter. — Há quem prefira os dias de primavera, mas sou cativada pelo renovo do outono. É uma estação nostálgica, quase como um acalento da Providência.
Elias fitou a filha, soltando uma risada benevolente. — Por vezes, tuas palavras soam como poesia, minha filha. E como progridem os estudos bíblicos com as crianças?
Nayla afastou uma mecha de cabelo que teimava em colar-se à testa suada. — Perfeitamente. Estão fascinados com a Sabedoria de Salomão. Chegaram a propor soluções mui criativas para o dilema das duas mães e do filho único.
Elias apoiou-se na bancada, interessado. — E o que sugeriram essas pequenas mentes?
— Um deles afirmou que esconderia a criança pelo palácio, quem a encontrasse primeiro provaria ser a mãe verdadeira, pois "uma mãe sempre sabe onde encontrar o que é seu" — relatou Nayla, rindo.
Pai e filha compartilharam uma gargalhada genuína antes de carregarem a carroça para o comércio da família. Nayla aproveitou o fim da lida para ocupar-se dos afazeres domésticos, acendendo o fogão a lenha para o chá e cuidando da limpeza da casa.
***
O dia fora exaustivo. Somente ao cair da tarde Nayla logrou um momento de quietude. Banhou-se apressadamente e partiu para a estação, buscando a luz alaranjada do poente para sua leitura.
— A paz do Senhor, Sr. André. Como passa? — indagou ela ao único funcionário presente: o bilheteiro.
O velho, de passos lentos e semblante cansado, ofereceu-lhe um sorriso desdentado. — A paz do Senhor, senhorita. Pensei que o sereno a manteria em casa hoje.
— Jamais perderia o pôr do sol de terça-feira neste lugar — retrucou ela, acomodando-se no banco de madeira.
— Um dia — murmurou o Sr. André com sinceridade — ainda hei de acenar-lhe da plataforma enquanto a vejo partir no vagão, rumo ao seu destino em Petrópolis.
Nayla sentiu os olhos marejarem. — Suas palavras tocam-me a alma, Sr. André. Que o Senhor as ouça.
A paz, contudo, foi breve.
Nayla sentiu uma presença e, ao erguer os olhos da Bíblia, deparou-se com Joaquim. Sobressaltada, ela tentou levantar-se para partir, mas ele foi mais ágil detendo-a com um toque leve, quase hesitante, no pulso.
— Por quem sois... tenha calma — suplicou Joaquim, a voz baixa e serena.
Nayla estremeceu, o coração fustigando o peito. — Solte-me, senhor! Não lhe dei liberdade e não aprecio sua companhia importuna. Sou filha do Pastor Elias e uma moça solteira, não seria decoroso ser vista em tal proximidade com o senhor.
Joaquim concordou, libertando-a imediatamente. — Compreendo vosso receio e não desejo macular vossa honra. Mas... ouso pedir-lhe apenas uma resposta.
Nayla ajeitou as dobras do vestido, tentando recobrar a compostura. — O que deseja?
— A senhorita poderia... — A hesitação era visível, Joaquim tremia e a voz parecia embargar-se na garganta. — Poderia ensinar-me as histórias contidas nesta Bíblia?
Nayla permaneceu estática. — Não compreendi. Deseja um exemplar das Escrituras?
Ele negou com a cabeça. — Eu não domino as letras. Sou analfabeto. Mas ouvi o que proclamaram no coreto e achei de uma beleza sem par. Sei que não sou bem-visto no templo por causa de minha família, mas sinto uma sede inexplicável de conhecer a Deus.
Um nó apertou a garganta de Nayla. Seria um estratagema? Ou estaria diante de uma alma genuinamente faminta? — Vossa família é dada ao ateísmo. Por que tal súbito interesse pelo Criador?
— Eles seguem suas convicções. Eu, contudo, não partilho delas. Ouço os sermões de vosso pai da rua de trás e já decoro alguns hinos, mas a história me escapa por falta de instrução. Por isso, peço vossa ajuda. Podeis fazer isso por mim?
Nayla buscou o olhar de Joaquim. Era o mesmo olhar opaco e vazio que a perseguia nos sonhos. Mas a razão ainda tentava prevalecer. — Por que não recorre a um homem? Davi ou meu pai...
— Vosso pai nutre desdém por mim. E quanto a Davi... — Joaquim fez uma pausa, negando com a cabeça — não creio que ele seja o mestre adequado para o que busco.
Nayla arqueou a sobrancelha, curiosa com a afirmação, mas resolveu não insistir. Suspirou, cedendo à compaixão que lhe ardia no peito. — Sente-se naquele banco — apontou para o assento a dois metros de distância. — Não se aproxime mais que o estritamente necessário, está bem?
Com um sorriso que iluminou seu rosto, Joaquim obedeceu.
— Pois bem, comecemos pelo princípio — iniciou Nayla, sentindo uma onda de misericórdia. — Sabe como Deus trouxe o mundo à existência?
A voz doce da menina atravessava a distância entre os bancos, e Joaquim escutava com uma reverência que Nayla raramente via em homens feitos. Ela narrou a criação, a separação entre a luz e as trevas, o Dia e a Noite, usando uma linguagem profunda, porém acessível.
O sol mergulhou no horizonte, dando lugar à lua e às lamparinas que o Sr. André acabara de acender. Ao fim daquela primeira lição, ambos se levantaram. O silêncio da noite era preenchido apenas pelo som do vento.
— Espero ter-lhe sido útil, Joaquim.
— Mais do que imagina, senhorita — ele retirou a boina e sorriu. — Posso aguardá-la na próxima terça-feira?
Nayla sentiu um calafrio percorrer-lhe o ventre e, num sussurro, anuiu: — Pode sim.
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