Notas iniciais
Ai vai o próximo... Já estamos enveredando pela segunda fase da história... como a temática vai mudar um pouco o estilo da escrita inevitavelmente vai se alterar também; mas espero conseguir manter a alma da história sem perder nunca as raízes advindas das Brumas! Espero que gostem :)

Na chegada à Camelot, Artur e Lancelot foram recebidos com honras pelos habitantes que os viram passar até o castelo. Após um banho rápido e uma refeição improvisada, o Rei e o duque se dirigiram à sala do trono e pediram a um dos servos para que Tristão e Gawain fossem ao seu encontro.

Ao receberem a notícia sobre a morte de Gawain, Os nobres ficaram extremamente abalados. A guerra levara mais um de seus irmãos de armas. O servo também alertou que Tristão estava bastante ferido para se locomover, e estava convalescendo em um dos quartos do castelo.

Imediatamente, Artur, ajudado por Lancelot, foi de encontro ao único cavaleiro restante da lendária Távola Redonda. Tristão encontrava-se deitado e com a aparência bastante debilitada, e comia, com dificuldades, algumas porções de carnes frias e frutas secas.

– Tristão!

– Artur, Lancelot, pensei que os havia perdido também!

– Já ouvimos tudo a respeito de Gawain, Tristão. E temo que esse não seja o único resultado trágico dessa guerra... Guínevere, ela, também faleceu.

– A Rainha?! Mas como?!

– A culpa foi minha... – Lancelot disse, de cabeça baixa.

– Não comece Lance, foi tudo uma grande armadilha do destino. Talvez levada pelo desespero de mais uma guerra, ela finalmente se aliou à Morgana em Avalon e participou de uma série de encantamentos para ajudar nossos soldados na guerra. Não sei se você chegou a ver, mas fui gravemente ferido na luta e fui salvo, mais uma vez, por Lancelot. Meus ferimentos eram demasiado graves e Guínevere gastou sua energia vital tentando me curar. – disse Artur, com semblante tão grave que chegava a torná-lo totalmente diferente do Rei bondoso e alegre que governava a Bretanha em tempos de paz.

– Então, acho que somos apenas nós três da antiga geração...

– É... Mas vamos consertar isso. Sei que está impossibilitado de se levantar por algum tempo, mas queria apenas que me dissesse alguns nomes de extrema confiança. Preciso nomear intendentes para analisar o estado geral do reino e destinar recursos para a reconstrução. Eles têm que ser de extrema confiança e também habilidosos em gerência, pois vão ter a liberdade de movimentar recursos da Coroa e fiscalizar as reconstruções necessárias. Como temos o mínimo de recursos possíveis, precisamos ser cautelosos.

– Bem, com todas essas características, terão que ser nobres com o máximo de educação e experiência. O castelão da Cornualha, meu padrasto Marcus, é de extrema confiança. Seu irmão, Lancelot, o rei Bors da Bretanha do Sul, pode nos ajudar. Artur, você já deve saber que os pequenos reinos à exceção dos que eu já mencionei, Gales, que está sob meu reinado, e Pellinore, que está sob o reinado de Lancelot, estão sem reis nem rainhas. Aconselho que Lancelot vá em busca do seu filho Galahad. Ele já é um homem, apesar de jovem, recebeu a melhor educação e é tão fiel quanto seu pai. Já que ele é o herdeiro da Grã-Bretanha, você deve nomeá-lo regente de um desses reinos, para evitar conflitos pelo poder.

– Como Morgana é a rainha por direito da Cornualha, seu padrasto Marcus pode tomar posse de outro reino. Insistirei com Morgana para que ela se divida em suas funções entre Avalon e a Cornualha.

– Sendo assim, Galahad poderia ficar como regente de Gales do Norte, não é um reino grande e Camerlend é muito próxima à Camelot – adiantou Lancelot.

– É uma boa ideia. Assim, se ele enfrentar qualquer problema, você pode ajudá-lo, primo!

– Isso se o senhor, meu Rei, permitir que eu fique, posso ajudá-lo a reestabelecer Camelot, e ainda posso ajudar meu filho, caso ele precise. Pellinore não deve ter sofrido muito com a guerra, embora eu tenha que ir até lá para dar alguma assistência a meu povo.

– Claro, Lance, terá um quarto ao lado do meu, primo. Sendo assim, teremos Tristão como soberano de Gales, Galahad reinando sobre Gales do Norte, Marcus na Escócia, Lancelot em Pellinore e Morgana na Cornualha. Tudo resolvido, devemos descansar e nos preparar para pegar Galahad na Bretanha do Sul.

– Eu mesmo farei isso, Artur. Preciso mesmo agradecer a meu irmão por tudo o que ele fez.

– Claro. Agora descanse, Tristão, eu também devo tentar dormir um pouco.

– Até breve, meu Rei.

Artur e Lancelot saem dos aposentos de Tristão e Lancelot conduz seu Rei até seus próprios aposentos.

Ao chegarem aos aposentos reais, Lancelot percebeu os olhos de Artur encherem de lágrimas e logo tentou confortá-lo, mesmo estando igualmente destruído por dentro:

– Ela vai fazer muita falta... Nunca mais nossa vida será a mesma!

– É, meu primo, nossa amada se foi. Não sei se conseguirei suportar daqui para frente!

– Nós temos que dar um jeito, Artur. – disse Lancelot, não conseguindo conter as lágrimas.

– Preciso de você!

– Agora somos só nós dois... Vou continuar te apoiando como sempre te apoiei, Artur. Você tem certeza que ainda quer ficar nesse quarto? Não sei se vai ser bom para você; as lembranças ainda estão muito fortes!

– Está tudo bem Lance, só preciso de um banho e de algumas horas de sono.

– Claro, sente-se um pouco eu vou preparar seu banho.

– Não tem nenhum servo que faça isso?

– Ordenei que a maioria fosse ajudar os médicos com os feridos. Os poucos que ainda estão no castelo devem estar cuidando para que ele volte a ser digno de habitar um Rei... Fiz mal?

– Não, é claro que não, pode dar as ordens que bem entender, confio em você.

Lancelot sorriu e começou a temperar a água do banho de Artur usando a água que fumegava na lareira. Depois de se certificar que a água da tina estava a uma temperatura confortável, ele se dirigiu ao Rei e o levantou gentilmente da cadeira.

Começou a tirar sua túnica ricamente bordada com fios de ouro, desabotoando as mangas uma por uma, sem deixar de fitar um segundo sequer as íris azuis do seu Rei, e a depositou no pé da cama. Logo depois se ajoelhou e puxou consigo as calças de Artur, que não conseguia parar de pensar em como amava aquele homem, sempre tão fiel.

Já totalmente despido, Artur caminhou até a tina e entrou, sentindo a água morna levar parte de suas preocupações. Lancelot o seguiu, ajudando-o a lavar seu cabelo louro tão pálido que não se podia dizer se haviam ou não fios brancos. Ajudou-o a esfregar suas costas, seu peitoral, evitando cuidadosamente seu ferimento.

Tendo finalizado o banho, Artur se ergueu da tina e foi enxugado pelo Grão-Duque da Bretanha. Vestiu uma túnica simples de linho para dormir e finalmente foi para cama. Lancelot foi sentar-se a sua cabeceira. Seus olhos negros de beleza sem igual denunciavam o sono acumulado de dias.

– Precisa ir e dormir também, primo, está muito cansado.

– Devo velar seu sono, Meu Rei. O senhor está ferido, preciso verificar se não tem febre durante o sono.

– Não permitirei que se desgaste ainda mais, precisa dormir!

– Não acho correto, deixe-me ao menos dormir nessa cadeira a seu lado.

– Não, Lancelot! Você precisa de um descanso de verdade, vá dormir!

Ao ver os olhos do seu duque lutarem contra o dilema de fazer o que achava certo ou obedecer uma ordem do seu Rei, Artur não suportou o autoflagelamento que Lancelot se impunha e se adiantou:

– Se quer ficar perto de mim, deite-se ao menos na cama, é grande o suficiente para nós dois.

Lancelot, um pouco surpreso, aceitou o convite e deitou-se junto a Artur, que virou-se lentamente para olhá-lo nos olhos, erguendo sua mão para acariciar os cachos negros tão rebeldes, mas tão suaves, assim como quem os possuía:

– Pronto... Agora, durma Lance, prometo que se sentir alguma coisa, não hesitarei em te chamar...

– Promete?

– Claro.

Não demorou muito para Lancelot cair em sono profundo sentindo os afagos do seu Rei, que acabou por dormir também.