Sob o Céu da Bretanha
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Artur abriu os olhos estranhando o frio que fazia em sua cama. Ainda parecia cedo, mas Lancelot não estava mais lá. Pensativo, o Rei levantou-se e seguiu a se preparar para um novo dia. Quando já estava vestido e com a Excalibur novamente a sua cintura, a porta dos aposentos reais se abriu com Lancelot trazendo uma bandeja bastante cheia:
– Senti sua falta.
– Fui buscar nosso dejejum.
– Você como sempre me mimando – disse Artur com um ar de riso.
– Para que serve ser Rei se não pode ter esses pequenos luxos?
– Claro! Vamos comer Lance.
A refeição estava adorável; queijo de cabra, pão de mel, frutas frescas do retorno da estação, leite, dentre outras iguarias encontradas na corte.
– Pus uma gema de ovo no leite, vai te fazer recuperar as forças.
– Creio que tu devias tomar um também!
Lancelot riu e lhe disse que havia mesmo tomado um daqueles antes de subir. Conversaram ainda um pouco mais antes de saírem do quarto.
Já em um dos salões que serviam de antessala para a câmara que abrigava a legendária távola redonda, Morgana tecia o linho a fim de fazer uma túnica para Connor. Trabalhava o tecido com uma destreza sem igual agradecendo mentalmente o fato de já poder comprar o fio pronto e não precisar fiar.
Artur e Lancelot desciam as escadas e encontraram Morgana totalmente entretida no seu trabalho, trajando um vestido azul marinho de ar senhorial.
– Irmã! Vejo que acordou bastante cedo!
– Não muito irmão, levantei-me a pouco; Connan que pulou da cama quase antes de amanhecer; está agora a cavalgar com Galahad.
– Meu herdeiro certamente deve estar conhecendo as terras que serão suas.
– Sem dúvida, mas se eu pudesse evitar que ele herdasse essas terras para impedir a menina Nimue de celebrar o Grande Rito com seu próprio irmão como eu fiz sem dúvida o faria! – Pensou Morgana contendo-se para não tocar nesse assunto agora.
– Estão de bom humor vocês dois; devem ter tido uma excelente noite de sono!
Artur enrubesceu dos pés à cabeça enquanto Lancelot desviou o olhar. Morgana apenas atinou para o que realmente acontecera ao ver a reação dos parentes à sua fala.
Sabiamente, a Duquesa da Cornualha mudou de assunto, iniciando uma breve conversação sobre como Artur deveria dar ordens às servas da cozinha para usar o leite velho na confecção de queijos e coalhadas ao invés de jogá-lo aos porcos.
Como o esperado, Artur usou a conversa como pretexto para ir a cozinha e Lancelot, aproveitando a deixa, disse que ia à procura do seu filho. Após breves momentos sozinha, Morgana pôde soltar uma sonora gargalhada ao pensar que finalmente aqueles dois se entenderam como deveria ser. Mas sua alegria logo se dissipou ao lembrar do fato de que o reino e os outros nobres jamais aceitariam dois reis; teria que conversar com Artur no tempo apropriado a respeito dele se casar com uma nova Rainha. Por hora, havia mais assuntos pendentes a serem debatidos, eles teriam tempo de aproveitarem a companhia um do outro por um pouco mais de tempo.
Horas mais tarde, quando o sol já ia alto no céu, o castelão da Cornualha, Sir Marcus, finalmente chegou à Bretanha. Foi recebido com toda a pompa e cordialidade dispensadas a uma pessoa de seu nível e depois de descansar da longa viagem de Tintagel até Camelot, finalmente começou a se preparar para ver o Grande Rei.
A sala do trono estava preparada para uma ocasião festiva, assim como a grande távola redonda; o Rei estava trajando uma rica túnica vermelha cravejada de pedras preciosas, a coroa real brilhava em sua cabeça como há muito não o fazia.
Lancelot estava vestido tão ricamente quanto o primo, situava-se à direita do Rei e ostentava uma fina coroa de prata, destinada àqueles que governavam os pequenos reinos da Bretanha; Morgana, à esquerda do Rei, estava usando um longo vestido vermelho sangue, que destacava ainda mais o punhal curvo de sacerdotisa; uma tiara de ouro branco cravejada com uma gema única de pedra-da-lua, pertencente à Senhora do lago, dividia espaço com o crescente tatuado em sua testa; possuía também uma coroa igual à que Lancelot usava, mas ela estava, por hora, em posse de Sir Marcus.
Tristão já estava bem melhor dos ferimentos e também estava devidamente vestido, usando sua coroa como rei de Gales. Ele e Galahad estavam sentados abaixo do local destinado ao trono.
Sir Marcus acabava de chegar ao recinto e logo depois de se ajoelhar e perante o Rei e cumprimentar a todos inclusive seu pupilo, Sir Tristão, começou a falar:
– Meu Rei, não posso dizer que não me surpreendi com o seu chamado; a que devo a honra desse convite?
– Vamos falar melhor na távola redonda, bebendo um bom vinho e comendo, Sir Marcus, só estávamos esperando o senhor para começar a reunião.
Todos começaram a se dirigir ao salão da távola redonda e sentaram-se à mesa por ordem de hierarquia, com Lancelot sempre à direita do Rei. Assim que todos estavam acomodados, os servos seguiram servindo os pratos do jantar e encher os copos de um vinho tinto bastante jovem.
– Agora que todos já estão acomodados podemos começar nosso assunto... bem, todos sabem que a Bretanha vem passando por um período de guerras e dificuldades. Muitos de nossos homens morreram e o mesmo se fez dos nossos melhores cavaleiros e reis menores. Agora depois de tudo ter acabado, podemos ver que dois dos sete reinos que compõem a Grã-Bretanha estão sem reis nem rainhas e precisando urgentemente de regentes que reergam sua antiga estrutura e poder.
– Então meu irmão chamou os reis menores para discutir sobre a posse dos reinos sem reis?
– Sim, Morgana, mas não creio que nomear alguém que não seja de extrema confiança a uma posição tão elevada seja a saída; portanto decidi dar o antigo reino de Lot, a Escócia, para Sir Marcus, em retribuição por ele ter cuidado tão bem da Cornualha por todos esses anos!
– Meu Senhor me enche de honra ao falar assim! Não é que eu esteja recusando tamanha recompensa, mas e a Cornualha?
– Morgana deve assumir seu reinado lá; há tempos que não vai a Cornualha, minha irmã, o povo deve lembrar-se quem é sua rainha para que não haja disputas desnecessárias... Depois se quiser pode indicar um regente de sua confiança.
– Entendo; não deve ser mesmo uma má ideia passar uns tempos em Tintagel para refletir um pouco... depois, como você mesmo disse, verei quem coloco como regente da Cornualha.
– Em relação a Gales do Norte, ele deve ser dado a meu herdeiro, o filho de Lancelot, Galahad!
– Mas, meu Rei, eu não sei se estou pronto para reger um reino tão importante!
– Não se preocupe meu filho, você foi bem educado e eu te ajudarei no que precisares – disse Lancelot para o jovem que sentava-se a seu lado.
O rumo da conversa agora pendia para como os recursos seriam destinados para os reis menores. Artur dividiu os poucos recursos da Coroa de forma que os reino mais afetados pela guerra, como os reinos de Gales recebessem a maior parte.
Todos concordaram em se preparar para se dirigirem a seus reinos o mais rápido possível.
O banquete se estendeu por um bom tempo; Morgana tocou a harpa e cantou para todos os presentes e como de costume, suas habilidades musicais eram capazes de deleitar até mesmo objetos inanimados.
Quando a noite já ia alta, todos os presentes se prepararam para se recolher. Morgana foi à cozinha saber, por parte das amas, como Connor havia passado a noite. Ao ser informada de que o menino já havia caído no sono, resolveu ela mesma ir dormir também. Agora que precisaria ir a Tintagel teria que se decidir se levaria Connor direto a Avalon para começar o treinamento o quanto antes ou viajaria com ele para a Cornualha.
Sir Marcus acompanhou Tristão até seu quarto e ajudou o pajem a preparar o cavaleiro para dormir; daqui a um pouco ele estaria completamente recuperado dos ferimentos. Logo depois o novo rei da Escócia se recolheu no quarto ao lado.
Lancelot e Galahad estavam às portas do quarto destinado ao herdeiro real; antes de entrar o rapaz se dirigiu a seu pai:
– Pai, será que eu consigo? Governar um reino inteiro é muita responsabilidade!
– Eu tinha pouca experiência quando recebi Pellinore do pai de Elaine, meu filho, mas com ajuda necessária, consegui reger bem por aquelas terras...
– Mas o Senhor é o lendário campeão da Coroa Real!
– E você é o herdeiro do Grande Rei! Tem meu sangue correndo nas veias... E tem a mim e ao seu primo, o Rei para te ajudar no que for preciso; sei que não sou bom de demonstrar esse tipo de coisa, mas eu te amo meu filho e não vou deixar nada de mal te acontecer!
Lancelot pôde sentir os braços de seu filho em torno do próprio corpo. O abraço forte foi suficiente para acalmá-lo e só depois, o jovem, que já possuía um semblante bastante cansado entrou em seu quarto.
Lancelot continuou seu percurso pelos corredores da torre principal do castelo, mas não para o seu próprio quarto e sim para os aposentos reais. Artur não estava nem um pouco surpreso ao vê-lo e sorriu logo depois que o duque fechou a porta atrás de si.
– Galahad está muito assustado com tudo isso Artur.
– Eu sei, é realmente um fardo pesado demais para um rapaz tão jovem, queria ter outras opções, mas ele tem sangue real e além do mais, nós tivemos fardos parecidos à idade dele não?
– Tem razão; ele vai se sair bem.
– Vai sim, meu campeão e se ele precisar de ajuda, estaremos perto dele. Vai ser mesmo bom ele ter esse choque de responsabilidade agora; isso vai deixá-lo mais preparado para governar a Grã-Bretanha quando eu me for.
– Que os deuses permitam que esse dia demore uma eternidade a chegar – disse Lancelot selando levemente os lábios do Rei enquanto ele acariciava, com as pontas dos dedos, seus cabelos – Acha que devo passar a noite aqui?
– E por que não?
– O castelo está cheio...
– E quem há de desconfiar do capitão da cavalaria “velando” o sono de seu Rei?!
Lancelot deu um meio sorriso e começou a retirar sua espada, repousando-a sobre a mesa. Artur o ajudou a se despir e os dois foram para a cama.
– O dia foi longo, não foi meu Rei?
– Decerto que sim, mas agora podemos descansar.
– Vem, vamos dormir, meu caro.
Artur se aninhou no peito do grão-duque e deixou-se cair no mais doce sono em meio aos braços fortes do seu campeão.
Fale com o autor