Sob o Céu da Bretanha
26 Capítulo 26
Notas iniciais
O Grande Rei da Bretanha ficou atônito por um tempo... Primeiro aquele beijo nos lábios, depois tais palavras. Será que havia ouvido o que pensara ouvir?A surpresa passou em um instante, e Artur, sorrindo, disse:
– Eu também te amo Lancelot! Sempre te amei...
– Acho que meu senhor não entendeu... Quero dizer que o amo, não como primo, muito menos como irmão... É bem mais que isso, é...
– Lance. – Artur calou seu duque com um leve toque em seus lábios. – Não precisa de explicação, eu entendi o que você quis dizer no primeiro momento... E repito, eu te amo, assim como amei Gwen... Assim como sei que você também a amou. Desde aquela noite em Beltane, eu tenho mais e mais certeza, só fui covarde demais para dizer-te... Mais uma vez, você dá mostras de ser o mais corajoso entre nós!
Lancelot aos poucos abriu o sorriso mais belo que Artur jamais vira. O duque era um homem forte porém esguio, o rosto aquilino emoldurado por cachos escuros estonteantemente desarrumados. Artur não aguentava mais apenas olhar para o seu campeão, a expressão ‘possuir uma beleza capaz de curvar um rei’ tomava ares cada vez mais literais naquele quarto.
Artur levantou-se da cama e ajoelhou-se na frente de seu primo. Lancelot logo esboçou uma espécie de consternação e começou a falar:
– Meu senhor, não deveria...
– Galahad! – dizer o antigo nome do homem à sua frente surtiu o efeito que Artur desejara, interrompendo suas falas prontamente. – Não é vergonhoso para mim ajoelhar-me diante do meu protetor, daquele a quem amo... Seria capaz de morrer por você, meu caro. A única ordem que darei a você é que a partir de agora não ouse se dirigir a mim com extrema formalidade, como sempre fez! Você me ressente demais quando faz tal coisa, meu bem. Isso nos distancia tanto...
Lancelot engoliu em seco, as lágrimas inundando seus olhos, brigando para não caírem, deixaram sua voz um tanto embargada. – Nunca foi minha intenção!
– Eu sei, apenas não o faça mais... Agora venha, não há mais nada para esperar. – disse Artur, erguendo o duque por ambas as mãos, fazendo-o ficar de pé perante a si próprio.
Imediatamente, Artur começou a despi-lo, expondo à luz de seus próprios olhos toda a virilidade do homem à sua frente. Havia bastante insegurança entre os dois, eram como aprendizes explorando aos poucos terrenos antes apenas imaginados. Ambos conheciam com detalhes os corpos um do outro, havia ocorrido muitas batalhas e os soldados em guerra nunca se dão ao luxo de terem alguma privacidade. Porém, qualquer toque além do usual entre parentes era absolutamente novo para eles.
Lancelot pensou que fosse desfalecer ao sentir a boca morna do seu Rei engolfar-lhe por inteiro, movimentando-se em vai e vem, causando uma doce tortura que fazia todos os pensamentos do duque se esvanecerem. Suas mãos acariciavam gentilmente os fios louros de Artur.
O rei levantou-se e Lancelot o conduziu de volta para a cama, beijando-o profunda e castamente. Pôde sentir ali seu próprio gosto mesclado ao leve hálito mentolado advindo do hábito do seu Rei de sempre mascar hortelãs silvestres antes de deitar-se.
Olhavam-se com tanta ternura que seria possível senti-la no ar. Entre beijos e carícias leves, Lancelot, posto por cima de Artur, apoiando seu peso com os braços, preparou-se para continuar:
– Tem certeza disso? Podemos parar por aqui se você quiser. Temos todo o tempo do mundo!
– Eu não quero você pela metade, Lance! Mesmo que tivéssemos a eternidade do país das fadas, ainda assim iria te querer agora!
Lancelot prosseguiu e Artur simplesmente perdeu o fôlego. Sensações totalmente opostas lhe invadiam o âmago, assim como o seu duque estava fazendo. O Grande Rei limitava-se a arfar sofregamente e cravar as unhas nas costas do seu campeão, numa avalanche de dor e prazer. Estava tão desconcertado que nem mesmo uma palavra foi capaz de proferir.
Lancelot tentara, inicialmente, conter-se ao máximo, para não machucar seu Rei. Todavia, os orbes azuis do seu amado, seus cabelos louros molhados de suor, seu cheiro... Era tudo tão intenso que o cavaleiro não conseguia mais se conter. Suas investidas tornaram-se cada vez mais rápidas e fortes.
Artur perdia-se entre os beijos e afagos do duque. Por um momento, pensou que fosse ser rasgado ao meio, tamanha a virilidade do seu campeão. Nunca ter feito nada parecido também não tornava a experiência fácil. Mesmo assim, ele não podia parar. Não queria nem cogitar a possibilidade de que aquilo fosse acabar algum dia.
Lancelot percorreu com as mãos toda a extensão do corpo de Artur e parou justamente em seu baixo ventre, começando a tocá-lo com a mesma intensidade e no mesmo ritmo que suas investidas.
O soberano da Bretanha não via mais nada a não ser os olhos negros e profundos de Lancelot. O duque gemia baixo com sua voz rouca e grave, aumentando ainda mais a velocidade de seus movimentos, até alcançar o ponto de não poder mais segurar seu êxtase. O Rei sentiu o duque se derramando em seu interior, e tentava entender como um homem de aparência tão esguia como Lancelot poderia dispor de uma força descomunal como aquela. Seu próprio clímax veio em seguida, unindo ainda mais os dois corpos, exaustos e inebriados de prazer.
Nenhum dos dois conseguiu se mexer por longos minutos, presos ao estado de pós-clímax. Quando finalmente Lancelot se moveu para o lado, Artur, virando-se para fitar-lhe os olhos, começou:
– Por Deus Lance, não sabia que dispunha de tanta força!
– Desculpe primo, é que desde a morte de Elaine não estive com mais ninguém... E quando você me disse que sente o mesmo que eu sinto, quando toquei em seu corpo... Não pude me conter, senhor! – Lancelot corou, não só pelo fato de estar num momento tão íntimo, mas também pelo olhar reprobatório de Artur, ao perceber que havia sido tratado com alguma formalidade.
– Está tudo bem, Lancelot, não disse que isso era um defeito. – emendou Artur, recostando-se sobre o peito do seu duque, que logo começou a afagar seus cabelos.
– Eu te machuquei, não foi?
– Não se preocupe, Lance. Nunca tinha feito nada do tipo... Você sabe que, excetuando-se Guínevere, tive algumas poucas mulheres, e mais nada.
– E eu agi como um bruto, nem sequer te preparei... Mereço ser decapitado em praça pública!
– Jamais repita uma coisa dessas! Nem por brincadeira. Como faria para governar sem você a meu lado?
– Perdão... Deixe-me ao menos lhe preparar um banho quente, vai aliviar suas dores.
Artur sorriu ao ver Lancelot levantar-se e preparar um banho quente com ervas aromáticas. Apesar de já não serem mais jovens de vinte anos, o corpo do duque exalava beleza e masculinidade sem iguais. Não seria de se estranhar que todas as donzelas do reino quisessem desposá-lo agora que estava viúvo.
Os pensamentos do Rei foram interrompidos quando o duque o pegou pelos braços e o conduziu para tina cheia de água. A imersão realmente lhe acalmou os músculos doloridos. A água morna sempre o relaxara, e os doces aromas das ervas só ajudavam ainda mais. Lancelot também se banhou, e, logo depois, buscou uma túnica leve para cobrir seu Rei, levando-o novamente à cama.
A noite já ia alta quando finalmente adormeceram nos braços um do outro.
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