Sob o Céu da Bretanha
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Morgana não conseguia ver nem a mulher a seu lado, parecia flutuar em meio a densas nuvens escuras. Sentiu percorrer uma distância considerável até que finalmente pôde enxergar um pouco a sua volta.
As nuvens tornaram-se azuladas e podia-se ver inúmeros portais espalhados a esmo. Morgana sabia muito bem onde estava, embora nunca tivesse ido pessoalmente até lá. Devaneava em seus pensamentos quando ouviu a voz assustada em tons de desespero da rainha:
– Morgana, onde estamos?!
– No mundo dos sonhos, certamente, embora eu nunca tenha vindo para cá. Bem... ao menos lúcida!
– Como assim?
– Todos nós viemos aqui quando dormimos, obviamente, mas sempre esquecemos ou apenas nos lembramos de fragmentos de sonhos, nunca do percurso que fazemos para chegar nele.
– Você aprendeu isso em Avalon?
– Claro, os Mistérios só são revelados aos iniciados.
– Nunca pensei que isso fosse real, se bem que os padres dizem que as bruxas podem nos fazer ter visões demoníacas!
– Isso parece demoníaco para você, Guínevere?
– Não! É lindo, mas tenho medo!
– Sempre temos medo do que não conhecemos, mas acalme-se, estou aqui.
– O que são esses portais?
– Cada um leva a um diferente sonho, ou a outros mundos. O portal errado poderá nos deixar presas para sempre num mundo de ilusões, por isso tenho que sentir bem qual vai nos levar ao mundo das fadas, nunca o acessei por aqui!
Os portais de névoa azulada pareciam sempre iguais para Guínevere, mas Morgana olhava com atenção para cada um deles.
Já havia passado algumas horas desde que chegaram àquele lugar e Guínevere já estava se sentindo meio tonta. Pensava no quanto tudo aquilo a aterrorizava e no quanto tudo o que imaginara serem apenas delírios demoníacos se tornava belo e real.
Passavam por portais que lhe pareciam sempre iguais quando Morgana parou de repente:
– Chegamos, é esse!
– Graças a Deus, pensei que ficaríamos perdidas para sempre; Lancelot já deve estar desesperado!
– Não se preocupe com o tempo aqui, Guínevere.
Entraram por um portal e uma luz fortíssima as envolveu, tão forte que conseguia penetrar os olhos fechados da Rainha.
O que Guínevere viu a seguir foi um frondoso bosque com carvalhos altíssimos. Animais de todos os tipos passeavam ao que parecia ser um eterno dia de verão. Havia ervas espalhadas pelo chão e um cristalino olho d’água onde gamos paravam para descansar.
A face lívida de Morgana tornara-se suave, parecia estar em casa, realmente o nome de Morgana das Fadas lhe fazia jus. Guínevere viu a duquesa olhar ternamente para ela e começara falar:
– O tempo aqui é traiçoeiro. Pode passar muito rápido ou muito lentamente; a forma mais segura para não se perder aqui é contando o tempo através das batidas de seu coração. Pelo o que vejo, graças à Deusa, é que o tempo agora está mais lento do que na terra. Pedirei às fadas para assim o manter durante seu treinamento. Chegaremos antes que Lancelot possa tirar um breve cochilo.
– Iremos mesmo falar com as fadas?
– Claro! Elas são as únicas que podem regenerar minha magia e te treinar ao mesmo tempo, elas sempre foram fiéis à Deusa e defenderão a Bretanha com toda a sua magia.
Caminharam pelo bosque enquanto Morgana procurava introduzir Guínevere nos mistérios, um dulcíssimo aroma de flores invadia a Rainha deixando-a numa espécie de êxtase.
– A Deusa é tudo o que você está vendo; ela é a mãe da terra. Ela mantém em equilíbrio a luz e as trevas, ela pode ser a senhora da fertilidade, mas também é a grande destruidora. Cada um dos seres humanos possui um caminho diferente a seguir, cada um desses caminhos é uma forma de honrar a Deusa. Se seguir seu caminho com retidão e não praticar o mal, você estará em comunhão com a Deusa. Além disso, você pode fazer o que bem desejar e ninguém pode censurá-la por nada.
– Então você quer dizer que não há pecado?
– O pecado foi criado pelos homens como forma de explicar as duras leis religiosas a que se submetem. Na verdade, só causar danos ao próximo ou a si mesmo é considerado errado. Você deve ter crescido aprendendo que a mulher foi a portadora do pecado original e a principal responsável pela danação do mundo, mas escute bem Guínevere, o corpo da mulher é um templo vivo e divindade nenhuma destruiria o mundo por conta de falhas de seres tão pequenos como os humanos. Você deve aprender a contar os ciclos da lua no seu corpo e começar a fazer magia por conta própria. Mas não se preocupe, estando aqui, temos tempo.
Mal saíram do bosque e encontraram um homem vindo dos povos antigos que se ofereceu alegremente para guiá-las até a rainha das fadas, conversando com Morgana como se já a tivesse visto antes:
– Vocês já se conheciam? – perguntou Guínevere.
– Sim, o povo antigo serve a Deusa desde os tempos remotos. Dividimo-nos entre o trabalho no país das fadas e o de Avalon. Eu mesmo já remei a barca com a Senhora Morgana muitas vezes!
– Entendo. Onde estamos agora?
– Nas planícies do país das fadas. Aqui é onde se realizam os rituais e parte do treinamento, logo em seguida iremos entrar no castelo.
– Realmente trata-se de um belo país.
Os vastos campos eram simplesmente esplêndidos: verde por todos os lados, nem pareciam vindos de um rigoroso inverno. Guínevere pôde ver círculos de pedra bastante parecidos com o Stonehenge, e algumas belas moças, altas e esguias, com cabelos escuros, dourados ou avermelhados, cantando e brincando ao longe, tão belas que lhe pareciam deidades vindas de contos gregos; tão belas que faziam a Grande Rainha da Bretanha sentir-se feia pela primeira vez.
Morgana andava com alegria e despreocupação. Parecia que o temor das guerras e dos invernos jamais chegaria àquele país. Seguiam conversando com o homem miúdo até que avistaram o castelo real.
Nenhum muro o protegia e a edificação ficava no alto de uma colina circundada por um lago, que parecia brilhar em meio ao eterno sol ameno de primavera.
Ao final da caminhada, o homem deixou as nobres em companhia de uma bela jovem que as esperava em frente ao lago; despediram-se e entraram em um bote que logo começou a se deslocar sozinho para a outra margem, a base da colina.
Guínevere olhou a cena em que estava com uma curiosidade típica de quem não estava acostumada a tais vislumbres, quando a moça de longos cabelos preto-azulados vestida em seda azul bastante clara lhe falou:
– Olá, Grande Rainha da Bretanha, eu sou Asrai, uma das fadas protetoras das águas. Não se preocupe com o barco, eu o encantei para percorrer esse trajeto! Olá, Senhora Morgana, há quanto tempo não nos víamos!
– Olá, Asrai, querida, muito obrigada por nos receber pessoalmente em vez de enviar uma das fadas mais jovens.
– Nobres como vocês merecem uma recepção adequada.
Guínevere estava boquiaberta. Tudo o que presenciara até ali havia sido no mínimo impressionante para os seus padrões, e ao olhar para aquela jovem belíssima trajando roupas que jamais havia tido e possuindo olhos negros como a noite sem lua, tinha a sensação de que havia muito mais a acontecer.
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