Sob minha Pele
40 Capítulo Trinta e Nove
Notas iniciais
— Capítulo Trinta e Nove —
— Bella —
A vida gostava de pregar peças.
Por anos fingi que Esme e Carlisle eram meus pais, pois eu pensava que odiava minha mãe e Caius nunca foi presente na minha vida, então uma chama de esperança se acendia dentro de mim ao ver Charlie e Renée reunidos. Eles eram meus pais, eu enfim tinha uma família de verdade.
Charlie parecia um bom homem, simples demais se comparado ao mundo que eu cresci, mas foi impossível não imaginar como teria sido crescer ao seu lado. Eu via como Carlisle tratava Alice, com tanto amor e carinho e por muito pensei que vovô me amava de verdade, mas como eu podia acreditar no amor de um homem que tinha me arruinado?
Eu me soltei de Edward, que não pareceu gostar daquilo, mas o mais longe que fui foi seguir até Charlie e Renée. Os dois, que até aquele momento continuavam submersos em seu reencontro, olharam para mim ao mesmo tempo.
Charlie, meu pai, tocou em meu braço, sorrindo para mim por trás de seu rosto tomado por lágrimas. Mamãe me chamou até si, então eu fui, beijando seu rosto delicadamente, sentindo-a me abraçar de volta.
— Charlie — ela falou para mim, ainda chorando. — Pai. — Nos afastamos um pouco, Renée olhava para mim com um misto de sentimentos. — Charlie pai...
— Meu pai — sussurrei, a ajudando com sua frase. Renée soluçou, enquanto concordava com um aceno positivo de cabeça.
— Deus, Renée ela é tão parecida com você — Charlie exclamou ainda próximo a nós dois.
— Olhos — mamãe murmurou, com seu olhar ainda preso em mim.
— O quadro que você tinha no atelier eram na realidade os olhos de Charlie, não? — perguntei a ela, Renée deu um mínimo sorriso, assentindo. — É uma pintura linda — falei, lamentando por até ela estar confiscada como tudo dentro daquele apartamento.
— Eu vou ir comer algo — Edward anunciou, o olhei. O Garoto do Brooklyn piscou para mim, saindo do quarto.
— Ele é um garoto de ouro — Charlie falou, limpando as lágrimas do rosto de Renée, que ainda olhava para o homem como se não pudesse acreditar na sua presença ali. Mas, era compreensível, não? Uma vez que mamãe acreditava que Charlie estava morto. — Eu ainda me lembro dele bebê, deixando Lizz e Edward loucos mexendo em tudo.
Mamãe riu, apertando minha mão na sua.
— E ele toca como o pai — Charlie falou para mim, como se eu já não soubesse muito bem, mas não fiz nenhum comentário idiota sobre aquilo. — Renée bem que falava que ele seria um músico.
— Sério? — perguntei para mamãe.
— Sim — ela respondeu.
— Seu namorado sempre queria mexer na guitarra do pai dele — Charlie contou, com um sorriso saudoso no rosto. — Falando em namorado, há quanto tempo estão juntos?
— Pouco — confessei. — Mas ele é realmente incrível, você não precisa bancar o pai ciumento — sussurrei, a expressão de Charlie endureceu e eu me dei conta de que o que tinha falado remeteu a Marcus Higginbotham, meu avô.
Renée apertou minha mão com toda sua força, fazendo com que eu a olhasse. Em seu olhar, questionamento, ela queria saber o que tinha realmente acontecido.
— Mãe, vamos esquecer isso — pedi, ela revirou os olhos.
— Isabella está certa, Renée, melhor não falarmos sobre isso agora — Charlie concordou comigo, agradeci internamente por isso.
— Eu... — Renée respirou fundo. — Que-Quero sabe-saber! — exigiu. — Marcus!
Engoli em seco ao ouvi-la dizer o nome dele.
— Renée...
— Ele fugiu — interrompi a fala de Charlie, falando diretamente com minha mãe. — A polícia está buscando por ele, pelos Black e por Caius também. — Renée suspirou. — Eu fui presa...
— Não, melhor poupá-la — Charlie implorou a mim.
— Ela quer saber a verdade, eu vou dizer a ela a verdade — neguei o pedido dele, Renée olhava para mim com uma expressão torturada no rosto, mas sua mão na minha sustentava o aperto forte e confiante. — Eu estive presa nos últimos dias, por isso não vim aqui. Estou sendo acusada de lavagem de dinheiro, eu realmente não sabia de nada disso, mãe, mas Marcus me fazia assinar tudo aquilo... — Calei a boca, começando a chorar, Renée me abraçou com força, chorando junto comigo. — A-Acho que vou ser condenada, eu não vejo outro fim para essa história.
— Não! — Renée exclamou, apertando-me ainda mais contra si. — Não, Bel, não.
— Sinto muito, mãe, eu deveria ter sido mais esperta.
Renée eu chorávamos juntas, de uma forma que fazia com que meu coração doesse muito. Eu não queria ir para um presidio, não queria perder minha mãe, ou mesmo Charlie, para ficar presa por anos, cumprindo uma pena por um crime que nem sabia que tinha cometido a cada assinatura que dei naqueles documentos.
— Tem de ter uma solução — Charlie se pronunciou, ainda abraçando Renée eu virei meu rosto para olhar para ele. — Você vai ser inocentada, filha. — Ele limpou meu rosto. — Isso tudo vai passar. — Beijou minha testa, beijando a de Renée também, que assim como eu o olhava.
Soltei Renée, indo para os braços de Charlie, começando a chorar no colo dele. Ele me colocou protetoramente em seus braços, afagando meus cabelos.
— Vai ficar tudo bem, filha — ele continuou prometendo. — Não perca as esperanças.
***
Meu abraço com Charlie não durou muito, eu ainda me sentia confusa com ele. Eu disse a ele e mamãe que estava indo atrás do meu namorado, os deixando sozinhos no quarto.
Segui até a lanchonete do hospital, as pessoas ali conversavam, mas o falatório não era capaz de abafar cem por cento a música tocando ao fundo no sistema de som da lanchonete, uma canção pop irritante. Encontrei Edward ali, o Garoto do Brooklyn tinha um copo de café a sua frente, ele o encarava seriamente, remexendo uma colher lá dentro.
— Tudo bem? — perguntei, sentando diante dele, seu olhar se ergueu para mim.
— Não, nem com você, né? — ele perguntou de volta.
— Acabei de contar para Renée sobre a prisão — murmurei, Edward suspirou.
— Eu estava pensando em Clarisse — murmurou de volta. — Tem canela. — Passou o copo com café para mim, eu bebi apenas um gole, sem ter estômago para muita coisa. — Contou para Renée sobre o que Billy fez? — Edward perguntou.
— Não — neguei, tocando no meu rosto. Eu tinha gastado uma considerável quantia de maquiagem para esconder as marcas remanescentes da agressão, por sorte elas estavam quase sumindo. Não que eu fosse me esquecer daquela noite, ele estava cravada em minha mente muito mais do que na minha pele. — O que vamos fazer, Edward?
— Sobre? — Ele me encarou com um vinco na testa.
— Sobre o fato de que a vida é uma merda.
Ele revirou os olhos, bebendo um pouco do seu café.
— A vida não é uma merda, Bonequinha.
— Ela não parece muito boa agora — afirmei. — Você tem que me prometer que vai seguir sua vida quando eu for presa...
— Isabella...
— Estou falando sério — o ignorei. — Nada de visitas, nada de ficar como um maldito celibatário esperando por mim! — Ele riu, voltando a encarar seu café. — Só não volte a foder com as irmãs Denali — implorei, Edward riu ainda mais, passando a mão pelos cabelos. — Encontre uma garota legal que goste de rock, você pode foder com essa, mas espero que ela seja péssima de cama.
— Você prometeu ter meus futuros bebês, senhorita, não sei porque está me mandando ir foder com outra garota.
— Porque eu quero que seja feliz, Edward. Porque eu amaria ter filhos com você, uma vida inteira ao seu lado, mas não acredito que as coisas vão ficar bonitas para mim, pelo contrário.
Edward não disse nada, no lugar disso ele se levantou e foi até o balcão da lanchonete. Eu o observei de longe, vendo-o conversar com a atendente, que devia ter a minha idade, mais ou menos.
O que diabos Edward estava fazendo? Ele estava cantando outra na minha frente? Eu queria que ele fosse feliz, mas não precisava esfregar a felicidade na minha cara. Fiquei petrificada no meu lugar, sem acreditar naquilo.
Um tempo depois vi Edward voltar a nossa mesa, após a garota lhe entregar algo, era um papel com o número dela? Porra, aquilo me deixava irritada e triste!
— O que você estava fazendo? — o questionei, enquanto ele sentava no seu lugar, com um sorrisinho no rosto.
— A garçonete se chama Taylor...
— Não quero saber.
— Quando falei mais cedo com ela, para comprar meu café, ela pareceu bem interessada em mim...
— Edward, cala a boca! — exigi, sentindo as primeiras lágrimas nos meus olhos.
— E enquanto Taylor estava falando sem parar, eu notei um anel na mão dela. — O quê? — Um anel bem bonito, simples, mas bonito. — Edward colocou sua mão sobre a mesa, a abrindo, revelando um anel de prata, com pedrinhas brilhantes, que eu sabia serem falsas, o contornando. — Eu acho que o pedido que farei terá mais credibilidade com um anel.
Pedido?
— Pedido? — consegui externar meus pensamentos, Edward sorriu de lado, tomando minha mão esquerda, que tremia, na sua.
— Isabella Marie Swan, não sabemos o que acontecerá em seu julgamento, mas eu quero que saiba que estarei sempre aqui por você. Eu te acho irritante, mandona, mas eu te amo mesmo assim, Bonequinha, não imagino mais um futuro sem você ao meu lado. — Respirei fundo, contendo as lágrimas. — Não me arrependi de colocar um rótulo em nossa relação antes, não me arrependerei agora ou depois. Então, você aceita continuar sendo parte do nós? Aceita casar comigo um dia?
Ele continuava sorrindo para mim, mas eu vi a seriedade no seu olhar.
— Aceito — eu disse, sem hesitar por um segundo que fosse. — Eu aceito, com certeza aceito, casaria com você agora mesmo! — proclamei, Edward se inclinou sobre a mesa, beijando meus lábios enquanto deslizava o anel para meu dedo. — Nós somos loucos! — exclamei contra seus lábios, Edward riu assentindo.
— Nós somos mesmo, vamos fugir para Vegas e casar.
— Não!
— Você disse que casaria agora mesmo — ele rebateu.
— Sei o que disse, mas eu ainda quero um casamento de verdade, não vou casar em uma capela estúpida em Las Vegas com um cara fantasiado de Elvis presidindo a cerimônia. — Toquei em seu rosto bonito com ambas as mãos. — Vou usar branco, sapatos Jimmy Choo, Alice será minha madrinha, Clary a daminha, Charlie vai me levar até você... Espera, você me chamou de Isabella Swan!
— Eu vi o que escreveu naquele bloquinho de notas — Edward disse, dando de ombros. — Quando casarmos será Isabella Masen.
— Convencido, quem disse que eu vou tomar seu sobrenome? — Edward beijou a ponta do meu nariz, fazendo com que eu risse.
— Eu tenho certeza de que você vai.
— Ok, eu vou — confidenciei, ele me beijou outra vez. — Só porque quero manter o sobrenome igual ao dos nossos futuros lindos bebês, a menina que será obcecada por sapatos, o garoto por guitarras.
Edward se afastou um pouco, puxando minha mão esquerda de seu rosto a colocando entre as suas, afagando minha pele enquanto olhava diretamente para mim com aquele intenso olhar verde. Eu o amava tanto, eu amava tanto o amar, Edward tinha me mudado, mas de forma completamente positiva.
— Você não chamará o nosso filho de Jimmy, né?
— Não mesmo — neguei, ele suspirou aliviado. — Alguma ideia?
Edward ficou olhando para mim, enquanto ficava pensando sobre minha pergunta. Eu ainda estava a mil por hora sobre o pedido, era noiva de Edward, noiva!
— Riley! — Edward exclamou por fim, dando um de seus sorrisos bonitos.
— Riley? De onde tirou esse nome? — indaguei, sem ter ideia.
— A música que está tocando — ele disse.
Eu parei para prestar atenção na música, era um cara com sotaque de New York a cantando. Ele falava sobre suportar qualquer coisa, pois ao seu lado tinha uma garota incrível lhe ajudando.
— O cara se chama Riley — Edward continuou a falar. — Ele canta indie rock, foi descoberto tocando na rua, no Brooklyn, por uma empresária de Los Angeles. — O Garoto do Brooklyn beijou minha mão. — É a música que marca nosso noivado, acho que seria uma homenagem justa, o que acha, Bonequinha?
— Eu gosto! — exclamei, começando a chorar.
— Por que você está chorando? — Edward perguntou preocupado, voltando a se inclinar sobre a mesa.
— Porque eu estou morrendo de medo, Garoto do Brooklyn — falei baixinho. — Medo de que o futuro seja escuro demais para mim, para você também.
— Não tenha medo, Bonequinha — Edward esticou seu pulso esquerdo para mim, deixando com que eu visse a tatuagem em seu pulso.
Sorri, tocando na tatuagem.
— Eu te amo — falei para Edward. — Amo tanto você, Garoto do Brooklyn! — Não dei tempo para uma resposta, o puxando para um novo beijo, até que formos interrompidos por um pigarro, nos soltamos e vi Taylor parada junto a nossa mesa, com uma expressão irritadiça.
— Meu anel! — Ela esticou sua mão para nós.
Nós.
— Hum, claro. — Edward soltou um sorriso amarelo à garota, pegando o anel da minha mão e devolvendo a sua real dona. — Obrigado pelo empréstimo, Taylor.
— Tanto faz — ela reclamou, se afastando da gente.
— Eu vou te comprar um anel de noivado, assim que possível — Edward prometeu.
— Não preciso de um anel, eu tenho você. — O beijei outra vez. — Mas. — Interrompi o beijo. — Eu não reclamaria se você me desse um anel.
Edward riu, me beijando mais uma vez, então outra. Não parei para contar, a contagem tinha sido interrompida muito tempo antes, e eu esperava poder beijá-lo sempre que quisesse, pelo resto de nossas vidas.
***
Nós dois logo voltamos para o quarto de Renée, mas combinamos de que o nosso noivado ficaria em segredo e não contaríamos para ninguém por enquanto, pois não queríamos trazer mais comoção geral. Minha mãe e Charlie estavam envolvidos em uma bolha própria, era realmente belo ver os dois juntos, não parecia que tinham passado tanto tempo separados, já que aparentavam uma grande sintonia.
Edward e eu ficamos até o fim da tarde no hospital, foi um tempo bom para poder conhecer Charlie melhor, já que ele atualizava mamãe de sua vida e por tabela me deixava saber mais. Soube que ele era filho único, que seus pais tinham falecido muito cedo e depois da morte dos dois Charlie deixou Forks — sua cidade natal e onde estava oficialmente morando —, para morar em New York.
Charlie também nos falou sobre o pai de Edward, relembrando os bons momentos dos dois. Eu via como meu namorado parecia estar gostando de ouvir mais sobre seu pai, mesmo que seu olhar parecesse triste, ele ainda sorria a cada historia contada.
Quando deu a hora de Edward voltar para o Brooklyn, já atrasado para seu trabalho, eu decidi que iria retornar com ele. Charlie pediu para ficar como acompanhante de Renée aquela noite e eu não pude negar, não podia separar os dois mais ainda.
— Amo você, mamãe — falei para Renée ao me despedir dela, beijando sua bochecha.
— Amo você — ela conseguiu dizer de volta, fazendo com que eu sorriso ao ouvir aquilo. Como pude por anos renegar o amor de Renée? — Obrigada — mamãe murmurou, deixando-me confusa.
— Por que está me agradecendo? — Ela apontou para Charlie parado do outro lado da cama, ele sorriu para nós duas. — Não, eu que agradeço — sussurrei para mamãe, Charlie esticou sua mão, tocando na minha. — Eu vejo você depois — disse para ele, que assentiu concordando.
— Tomem cuidado — ele pediu para Edward e eu, depois do meu namorado também se despedir de Renée.
— Pode deixar — Edward prometeu, beijando minha cabeça. — Vamos, Bonequinha?
— Vamos. — Uni minha mão a sua, deixando com que ele me levasse de volta para o Brooklyn.
***
Naquela noite de terça-feira, enquanto Rose e Edward estavam na boate, Arthur — que iria novamente esperar sua não namorada, mas quase isso, voltar do trabalho — e eu ficamos trabalhando em cima das fotos que ele tinha para sua exposição. O ex-líder de torcida ainda não tinha conseguido convencer Rosalie a ser a última modelo, mas ele alegou que estava trabalhando nisso e ela estava quase cedendo.
Arthur tinha também conversado com os donos de algumas galerias sobre um emprego para mim, mas todos alegaram que não tinham vagas. Eu tentava a todo custo acreditar que aquilo era a verdade, mas no fundo desconfiava que eles não queriam empregar uma garota que tinha acabado de sair da cadeia e que a qualquer momento poderia voltar para lá.
Aquela noite eu não tive pesadelos, mas ainda assim acordei quando Edward voltou. Eu sabia que já estávamos a um bom tempo sem sexo, só que tudo que fiz foi me agarrar a ele para voltar a dormir. Nossa comemoração pelo nosso noivado secreto iria esperar mais um pouco.
Na manhã seguinte, Edward e eu acordamos antes de Rosalie e Arthur, estávamos tentando cozinhar qualquer coisa, mas era certo de que ambos éramos um completo desastre na cozinha. Mesmo assim, era bom ter um tempo de calma com Edward, eu quase podia me esquecer de todos os problemas, como a mensagem recebida de Jenks, no celular que Alice comprou para mim, avisando que na quinta-feira da semana seguinte eu passaria por uma audiência preliminar.
— Eu nem sei decifrar o gosto da sua panqueca, noiva — Edward falou, com uma careta no rosto, ao provar minha comida.
— Noiva? — ignorei sua ofensa a minha comida, não que ele não estivesse certo, com certeza estava, eu cozinhava mal pra caramba.
— Minha noiva — ele confirmou, beijando meus lábios, largando o prato de panquecas sobre o balcão, me segurando pela cintura e me erguendo até me sentar ali também.
Eu me coloquei na ponta do balcão, para conseguir ter mais acessibilidade para contornar o corpo de Edward com minhas pernas, o trazendo para mais perto de mim. O Garoto do Brooklyn logo estava me beijando, deixando suas mãos por dentro da camiseta dele que eu tinha pegado para usar aquela manhã.
— Eca, não na minha cozinha! — escutei a voz de Rosalie, Edward e eu resmungamos em sincronia, mas nos afastamos.
— Nossa cozinha — Edward especificou para ela, ajudando-me a deixar o balcão.
— Tanto faz, só não quero as partes intimas de vocês no local que eu como — Rose resmungou, ela parecia bem brava aquela manhã, diferente de Arthur atrás dela que tinha um preguiçoso sorriso no rosto.
— Adivinha quem será minha modelo? — Arthur indagou, se servindo com uma generosa xícara de café que Edward tinha preparado.
— Você aceitou? — questionei Rose, com surpresa na minha voz.
— Sim — ela continuou resmungando.
— O que você fez para convencê-la? — perguntei para Arthur, que sorriu maliciosamente.
— Melhor não saber, Bella.
— Que nojo — Edward reclamou. — Rosalie, você agora é modelo! — debochou da amiga.
— Que tal me ajudar com a sessão de fotos? — Arthur sugeriu para mim. — Eu posso te pagar por isso.
— Sério?
— Claro, você já me ajudou com parte da edição das fotos da exposição ontem, pode me ajudar com tudo na galeria que vou expor também. Prometo pagar bem.
— Não posso te ajudar na galeria, esqueceu que ninguém está me contratando?
— Como minha assistente — Arthur esclareceu, pegando uma panqueca. — Ninguém vai te expulsar de lá se você estiver como minha contratada. — Ele mordeu um pedaço da panqueca, a cuspindo em sua mão rapidamente, a jogando para o lixo. — Isso está terrível!
— Bella quem fez — Edward me abraçou por trás. — Sabemos que ela seria uma péssima cozinheira.
— Que sorte que ela não será cozinheira, mas assistente do meu namorado — Rose murmurou distraidamente, enquanto se servia de café.
Nós três ficamos em silêncio ao ouvir o que a loira falou, ela não demorou muito para se tocar do que tinha dito.
— Eu não quis falar isso! — exclamou alarmada.
Edward atrás de mim riu baixinho.
— Ah, você quis dizer isso sim! — Arthur exclamou de volta, soando como se tivesse acabado de ganhar o melhor presente do mundo. — Está perdidamente apaixonada por mim, Anjo. — Ele beijou o rosto de Rose, que o empurrou, mas deu um sorrisinho discreto. — Você ainda vai casar comigo, garota — Arthur falou para ela, Rose o olhou hesitante, mas o beijou rapidamente. — Viu? — Ele se voltou para Edward e eu. — Ela vai casar comigo um dia. — Arthur colocou Rosalie em seus braços, ela não negou aquilo e logo eles estavam voltando a se beijar.
— Vamos casar antes desses dois — Edward sussurrou no meu ouvido, fazendo com que eu sorrisse.
***
Eu queria muito ver mamãe, mas naquela quarta decidi deixá-la sozinha por mais um tempo com Charlie. Além do mais, Edward começaria a me ajudar a preparar currículos, para que eu buscasse por empregos em galerias que Arthur não conhecia os donos, ou em qualquer outro lugar que estivesse empregando, pois mesmo sendo assistente do fotografo eu ainda precisava de mais grana.
Depois de algumas horas trabalhando em cima do currículo — que Edward disse ser bom, pois eu tinha uma formação educacional de primeira, mesmo sem concluir a faculdade —comigo, ele pegou a antiga guitarra do seu pai para tocar um pouco. Eu continuei usando o notebook de Arthur, que ele tinha me emprestado antes de sair com Rosalie, sabe-se lá para onde, para ficar fuçando a internet.
Foi impossível não digitar o nome no campo de busca:
Marcus Higginbotham.
Logo a página foi tomada por links de matérias falando sobre sua fuga, todo o roubo e o fato de eu ter sido presa. As manchetes faziam com que meu coração disparasse, no fundo eu ainda desejava que tudo aquilo fosse um grande pesadelo, daria tudo para despertar e descobrir que meu avô não era um vilão, mas o homem que durante toda minha vida eu amei e tive como minha base.
Tudo que falavam sobre meu avô era terrível, não só os textos prontos dos jornais e blogs, mas principalmente os comentários. O xingavam, xingavam a mim e até mesmo a minha mãe que estava convalescendo numa cama de hospital.
“Tomara que prendam logo esse velho ladrão e que ele morra na cadeia!”
“A família inteira ésuja, joguem-os dentro de uma cela e percam as chaves!”
“Que morram todos!”
Engoli em seco, continuando a ver os comentários. Meus batimentos cardíacos só aumentavam, enquanto minhas mãos suavam de nervosismo. As pessoas nos odiavam, elas nos queriam mortas.
E se Billy Black não fosse a única ameaça? E se alguém encontrasse vovô antes da policia e o matasse como um justiceiro vingando todo o roubo? E se algum funcionário no hospital fizesse algo a minha mãe? E se eu fosse abordada na rua por um maluco? Aquilo era apavorante, então percebi que faltava mais alguém aquela família, alguém que não tinha o sobrenome, mas que tecnicamente fazia parte dela.
Clarisse.
Olhei para Edward por cima da tela do notebook, ele estava afinando a guitarra, completamente concentrado em sua tarefa. Clarisse era parecida demais com Edward, os dois se saíram completamente à mãe deles, mas ela tinha o sangue Higginbotham nas veias, não tinha?
Aquilo fez minha cabeça doer, a ideia confusa de Edward ser irmão da minha tia. Clarisse que era apenas uma criança, que nem duvidava da verdade sobre sua paternidade.
Eu precisava saber mais sobre aquilo, precisava também conversar com Elizabeth.
— Edward? — chamei por ele.
— Sim? — Olhou rapidamente para mim, logo voltando sua atenção para a guitarra em seu colo, continuando a afinar. — Ela está desafinando tão rápido, talvez seja a hora de aposentá-la de vez.
— Eu quero me encontrar com sua mãe — falei, cortando seu papo sobre guitarra, Edward me encarou de olhos arregalados.
— Você quer se encontrar com a minha mãe?
— Sim, quero conversar com Elizabeth. — Edward suspirou, passando a mão pelo rosto. — Eu realmente preciso, Edward — acrescentei. — Imagino que ela não vá gostar muito de falar comigo, mas... Só preciso, entende?
Ele assentiu, afagando minhas pernas que estavam emboladas em cima do sofá.
— Ela está no trabalho agora — comentou. — Clary está ficando com uma vizinha, eu tive meio que dispensar meu papel de babá dela nos últimos dias, porque queria ficar perto de você.
Assenti, fechando o notebook de Arthur, o colocando sobre a mesinha velha do centro da sala.
— Por que não fazemos o seguinte, eu vou me encontrar com Elizabeth e você vai ver sua irmã? Acredito que Clarisse esteja sentindo sua falta.
— Bella, eu acho que seria melhor ir a esse encontro com minha mãe.
— Não — neguei, ele revirou os olhos, ficando irritado. — Não adianta reclamar, eu realmente quero um tempo a sós com Elizabeth, será que você pode respeitar isso? Eu te amo, agradeço por estar sendo tão cuidadoso comigo, mas não vou ficar tendo você de segurança atrás de mim vinte e quatro horas por dia, Edward.
— Certo, ok — Edward cedeu. — Desculpe se estou sendo grudento, mas você passou todo aquele tempo presa e agora quero compensar.
Eu dei um sorriso pequeno, me esticando para depositar um rápido beijo nos lábios dele.
— Não se preocupe, eu não vou desaparecer — prometi, mesmo sabendo do grande risco de voltar a ser presa. — Eu tenho mesmo de ir falar com sua mãe agora.
Edward torceu o nariz.
— O que foi agora?
— Você está indo falar com sua sogra, boa sorte!
Eu tive de rir daquilo.
— Obrigada, espero que ela seja boazinha comigo.
***
Edward me deixou na porta da lanchonete que Elizabeth trabalhava, ele hesitou, mas continuou seu caminho para ir ver sua irmã. Eu entrei na lanchonete, já procurando por minha sogra, a vi servindo uma mesa.
Não parecia feliz, longe disso, seu semblante era cansado. Elizabeth, como minha mãe, não tinha mais a expressão feliz que ambas nutriam na fotografia que eu mantinha junto de mim.
Quando Elizabeth se afastou da mesa, fui até ela. A mulher arregalou seus olhos verdes — já tão familiares para mim — quando me viu, apressando seu passo até o balcão.
— Oi, podemos conversar? — perguntei a ela em um sussurro, depois de vê-la entregar o bilhete com o pedido a outra garçonete atrás do balcão.
— Não, estou trabalhando — Elizabeth respondeu rapidamente, sua voz era tomada por nervosíssimo.
— Não vai demorar! — exclamei. — Pegue uma folga!
Ela revirou os olhos, do mesmo jeito que o filho fazia.
— Pegar uma folga — debochou.
— Elizabeth, por favor! — Ela me encarou.
— Eu não quero ser vista perto de você, vá embora! — ordenou. — Já basta meu filho estar grudado em você, correndo riscos, não quero ameaçar minha segurança o que colocará a de Clarisse em ameaça também — falou baixinho, mas com uma alta carga de ansiedade.
— É justamente sobre Clary que vim falar com você — falei, sem ceder a ela. — Eu tenho esse direito, não tenho? — a confrontei. — Afinal a garota é parte da minha família, é uma Higginbotham.
— Não repita isso! — Elizabeth exigiu, olhando ao redor com angustia em seu olhar.
— Só converse comigo um pouco — pedi. — Eu vou embora depois — prometi.
— Não quero ser vista ao seu lado — Elizabeth insistiu.
— Então, consiga uma liberação para sair mais cedo e vá me encontrar no apartamento do Edward — sugeri, dando um passo para longe dela.
— Eu não vou — Elizabeth afirmou.
— Se você não for eu vou continuar vindo aqui, até você ceder — deixei bem claro. — Posso ser bem insistente, Elizabeth. — Virei às costas para ela, saindo da lanchonete.
Passei uma hora inteira sozinha no apartamento, esperando Elizabeth aparecer. Eu estava começando a acreditar que ela não iria, quando ouvi batidas na porta.
A porta não tinha um olho mágico, então eu fiquei temerosa de abri-la sem saber quem era, já que ainda lembrava muito bem das ameaças do Black. Sendo assim, eu apelei para o contato auditivo.
— Quem está ai?
— Sou eu. — Ouvi a resposta, era Elizabeth.
Aquilo me acalmou um pouco, então eu abri a porta vendo minha sogra.
— Onde está o meu filho? — ela indagou assim que me viu.
— Foi ver a Clary — respondi, dando espaço para que ela entrasse.
— Você está morando aqui? — Elizabeth me perguntou, seguindo até a sala.
— Estou.
Ela respirou fundo, balançando a cabeça em negação.
— Edward é louco!
— Um pouco — concordei, sentando no sofá, ela continuou em pé, encarando a guitarra que pertenceu ao seu marido que estava ao meu lado. — Eu dei uma Fender para Edward, uma guitarra cara e novinha, mas ele continua bem apegado na guitarra do pai dele.
Elizabeth deu um sorriso triste, tocando no objeto.
— Eu também ficaria péssima se me separassem de Edward, como vejo que você se sente por não ter mais o seu marido — murmurei, fazendo Elizabeth me encarar. — Eu sinto muito pela morte dele, todos que o conheceram falam como ele era um homem maravilhoso.
— A diferença, Isabella — Elizabeth começou a falar. — É que eu não fui culpada pela morte do meu marido, mas você será a culpada se algo acontecer ao meu filho, eu não consigo olhar para você sem imaginar tudo que pode acontecer ao meu garoto só porque ele te ama e não quer se afastar.
Engoli em seco, sabendo que ela tinha razão.
— Então, você sabe que ele me ama.
— Claro que sei, Edward é meu filho, eu o conheço muito bem.
— Certo, quer dizer que você precisa saber que eu também o amo, Elizabeth.
Ela suspirou, tocando na guitarra novamente.
— Isso não o protege, Isabella, independente de tudo estar com você ainda coloca Edward em perigo. — Seu olhar voltou para mim. — Um perigo que eu tentei afastar por anos, agora ele está ai batendo a nossa porta. Eu vi o que aquele homem fez a Charlie, eu não posso deixar nada parecido acontecer com meu filho.
— Mesmo assim você dormiu com ele — acusei, ela vacilou por um instante. — Mesmo tendo visto o que ele fez com Charlie, mesmo tendo sido ameaçada você aceitou ir para cama com ele, teve uma filha dele!
— Eu fiz por Edward! — Elizabeth gritou. — Eu fiz porque eu precisava manter meu filho vivo, alimentado e com um teto sobre sua cabeça. Não vou esperar que você entenda isso, claro, já que nasceu e cresceu em berço de ouro e sempre teve tudo que quis, mas nem todos nasceram. Eu não nasci, Edward não nasceu, muito menos nosso filho. Você não faz ideia até que ponto uma mãe é capaz de chegar para cuidar de um filho, eu mataria por Edward e Clarisse sem pensar duas vezes, então sim, eu fui para a cama com seu avô para ter dinheiro e poder dar uma vida um pouquinho melhor que fosse ao meu garoto.
Elizabeth chorava, mas de forma silenciosa, continuei calada, sem saber o que dizer.
— Não era como se eu fosse poder escapar daquilo — ela sussurrou. — O seu avô ofereceu o dinheiro, mas ele me teria mesmo se eu tivesse recusado.
Um arrepio cruzou meu corpo ao ouvi-la dizer aquilo.
— Ele é um louco, sádico e psicopata. — Seus olhos se encontraram com os meus, havia tanto temor ali, eu mesma temi imaginando tudo que devia ter acontecido na noite que ela esteve junto de Marcus. — Ele quase matou Charlie, ameaçou nossa família... Sinto muito por você ter crescido ao lado desse monstro, mas eu não quero você perto, não posso ter você perto. — Soluçou.
— Eu pedi para ele me largar — murmurei para Elizabeth, já chorando também. — Eu juro que pedi para que ele me deixasse.
— Ele não fará isso, faça você, então. — Ela respirou fundo. — Deixe o Edward, Isabella! — Elizabeth exigiu. — Por favor, deixe-o — implorou. — O convença que isso é o melhor, diga para ele não contar a verdade para Clarisse.
O choro dela piorou, Elizabeth ergueu a guitarra do seu falecido marido, sentando-se no sofá, agarrada ao instrumento. Eu permaneci calada, apenas a encarando por um longo tempo, até que tive coragem de falar.
— Você deixaria o seu Edward se estivesse no meu lugar?
— Isabella...
— Deixaria?
Ela não respondeu, apenas continuou chorando.
— Eu não posso deixar o Edward, acredite, queria ter a coragem de partir para sempre da vida dele, o deixar seguir sem meus problemas pesando sobre os ombros dele, mas não posso, sou fraca demais para ir.
Eu levantei, andando de um lado para o outro na sala, vendo a mãe do meu namorado — noivo, na verdade — chorando sem parar.
— Não vou deixá-lo, Elizabeth! — decretei. — Eu sinto muito por estar arrastando Edward para tanta confusão, mas não vou deixar ele, não posso, não consigo. — Ela me olhou. — Amo o Edward, amo mesmo. — Abracei a mim mesma. — Ele me fez uma pessoa melhor, ele me torna melhor a cada dia, então eu continuarei sendo absurdamente egoísta e me recusarei a deixá-lo.
Elizabeth se colocou de pé, ainda me olhando atentamente.
— Você pode me odiar, tudo bem. — Dei de ombros. — Eu posso lidar com isso, só não posso lidar com a ideia de não ter mais Edward na minha vida. Sabe, por quê? Porque você e o pai dele criaram um homem maravilhoso pelo qual me apaixonei — afirmei. — Edward é tão bom, honesto, carinhoso. Vocês fizeram um ótimo trabalho com ele, você deu tudo de si para mantê-lo no caminho certo mesmo depois daquele incêndio, você se sacrificou por seu filho e eu só posso agradecer por ter sido tão boa para ele. Então, eu realmente entendo que você me odeie por estar bagunçando a vida do seu garoto, pois eu sou um grande problema que ele não merecia, mas eu não sei mais viver sem o amor de Edward.
Elizabeth limpou seu rosto cuidadosamente, em mais um tempo de silêncio que durou muito, mas ela foi a primeira a falar daquela vez.
— Você se parece com sua mãe.
— Eu sei, sou a cara dela...
— Não apenas fisicamente — ela negou. — Você parece muito como Renée era, ao menos. Ela amava tanto Charlie, não podia ficar longe dele e eu imagino o que ela deve ter aguentado durante todos esses anos para te manter segura.
Eu me encolhi ao ouvir aquilo, imaginando tudo que mamãe guardou para si.
— Deus, Isabella! — Elizabeth exclamou, voltando a chorar. — Você é filha da Renée.
— Sou.
— Você é filha da Renée — ela repetiu, sorrindo minimamente.
— E do Charlie — acrescentei.
— Você é sim! — Elizabeth fungou. — Renée e eu uma vez conversamos sobre nomes — começou a falar, deixando-me confusa sobre começar aquele assunto. — Ela me perguntou sobre como eu escolhi o de Edward, eu respondi e também disse que se um dia tivesse uma filha queria que se chamasse Isabella, Charlie estava perto e disse que era um nome lindo, eu brinquei e falei que permitia que eles o roubassem de mim se tivessem uma filha antes de Edward e eu.
— Ah!
Elizabeth assentiu.
— Ela cumpriu o trato. — Elizabeth andou até mim, me colocando em seus braços, o que me surpreendeu, mas não a afastei. — Isabella — disse meu nome, apertando-me contra si.
— Me desculpa! — pedi a ela, explodindo em lágrimas. — Desculpe por tudo que aquele monstro fez a você, por favor, me desculpa — implorei, agarrando-me a ela. — E-Eu sinto muito, você não precisava ter vivido com medo por anos, não merecia isso tudo.
— Vo-Você — Elizabeth gaguejou, afastando-me, tocando no meu rosto. — Ele também te machucou?
— Todos me machucaram — respondi, Elizabeth suspirou. — Menos o Edward.
Elizabeth sorriu, beijando minha testa.
— Eu não quero que nada aconteça a ele, eu não quero.
— Eu sei. — Ela começou a limpar meu rosto. — Me desculpa também, por tudo que falei, mas eu estou tão nervosa. Os últimos anos foram terríveis, mas os últimos dias tem sido piores, eu estou com muito medo.
— Edward falaria para não termos medo.
Elizabeth riu, assentindo.
— Os dois, querida, os dois diriam isso. — Ela me puxou para um novo abraço, que eu aceitei de bom grado. — Eu posso ir visitar sua mãe?
— Com certeza, ela vai amar ver você.
Eu me soltei dela.
— Elizabeth, sobre Clarisse...
Ela fechou os olhos, com uma expressão torturada tomando conta do seu rosto.
— Ela é boa e inocente demais para tudo isso, Isabella. Ela ainda é meu bebezinho, eu não posso deixar nada acontecer ao meu bebê.
— Não vai, nada vai acontecer a ela — prometi.
***
Na quinta-feira de manhã eu me encontrei com Elizabeth para que fossemos juntas visitar minha mãe, ela tinha conseguido o dia de folga e Edward foi ficar de babá da irmã. O caminho de metrô junto dela para Manhattan foi bem diferente do que imaginei, eu pensei que ficaríamos desconfortáveis uma com a outra — já que não muito depois de nos entendermos no dia anterior ela foi embora — mas, foi tranquilo.
Claro que ainda havia certo desconforto inicial entre nós duas, principalmente por estarmos em público juntas, o que com certeza a aterrorizava, mas o longo caminho até Manhattan nos venceu. Ela falou sobre Edward, cada fase engraçada ou constrangedora dele, o que me garantiu boas risadas, também contou um pouco sobre seu primeiro marido e me deixou saber mais sobre a família que meu noivo pertencia.
Quando chegamos a Manhattan, já estávamos muito mais confortáveis uma com a outra. Eu logo nos coloquei no andar onde Renée estava internada, conseguindo liberação de visita para nós duas.
Bati uma vez na porta, entrando e sendo seguida por Elizabeth. Charlie estava sentado próximo a cama, ele alimentava Renée com o que eu sabia ser mingau.
— Oi, mãe! — Renée me olhou, sorrindo, seu sorriso morreu quando viu Elizabeth, ficando em choque. — Eu devia ter feito isso com mais calma — falei culpada.
— Lizz! — Renée exclamou, tentando se levantar.
— Renée, não — Charlie a repreendeu calmamente.
— O-Oi — Elizabeth gaguejou ao meu lado, eu sabia que ela estava pensando em Marcus e Clarisse, mas tínhamos combinado de que não tocaríamos no assunto com mamãe, não ainda.
— Vá lá — incentivei.
Ela concordou, seguindo até a cama de mamãe. Renée chorava, mas sorriu em direção a antiga amiga.
— Parece que nossos filhos são um casal — Elizabeth falou, sua voz continuava recheada de temor. Mamãe assentiu, sorrindo ainda mais. — Charlie! — Ela o abraçou rapidamente, eu sabia que os dois ainda não tinham se encontrado.
— Oi Lizz.
— Deus, Renée. — Ela se voltou para Renée, começando a chorar também. —Eu estou tão feliz que você está bem agora. — Segurou na mão de mamãe.
— Bel me. — Renée respirou recuperando o fôlego. — Bel me salvou.
— Eu não fiz nada demais, mamãe — sussurrei, eu não tinha a salvado, sendo franca se eu tivesse sido mais esperta ela nem teria tentado cometer suicídio.
— Ela parece demais com você, não? — Elizabeth afagou o rosto de Renée. — E você roubou o nome! — brincou, mamãe riu.
— Desculpe — ela disse para a amiga.
— Tudo bem. — Elizabeth sorriu carinhosamente para ela. — Ela não é minha filha, mas pelo menos é minha nora. — Olhou para mim, sorrindo. — Um poço de teimosia como você.
— Ei! — exclamei, Renée e Lizz riram.
— Não quero atrapalhar seu café. — Elizabeth apontou para a comida nas mãos de Charlie.
— Que tal você fazer isso? — Charlie passou o mingau para Elizabeth. — Eu confesso que preciso comer um pouco, você já tomou café, Bells? — perguntou para mim, eu fui pega de surpresa pela forma como ele me chamou.
— Não, Edward e eu somos péssimos na cozinha e Rose não quis cozinhar para a gente — lamentei.
Charlie riu.
— Vem, eu te pago um café — chamou por mim, olhei em expectativa para minha mãe e Elizabeth, Renée piscou para mim e a mãe de Edward disse:
— Eu ficarei com Renée, não se preocupem.
Assenti, deixando o quarto com Charlie.
— Tudo bem? — ele me perguntou enquanto esperávamos pelo elevador.
— Tudo bem, pai. — Testei aquilo, segurando em seu braço, Charlie beijou o topo da minha cabeça.
As portas do elevador se abriram e vi nosso reflexo no espelho que tinha ali, eu estava começando a me acostumar com Charlie, o que era maravilhoso. Eu sorri para nossa imagem, vendo Charlie sorrir junto a mim.
***
Elizabeth e eu passamos boa parte do dia com mamãe e Charlie — que já tinha se decretado o acompanhante oficial — no hospital, para que nós duas pudéssemos matar as saudades de Renée. Mas, no fim da tarde voltamos para o Brooklyn, seguindo direto para o apartamento dela onde Edward estava com Clarisse.
Assim que entramos ali eu pude ouvir Edward tocando, com o acréscimo da voz infantil de Clarisse cantando uma música que não reconheci, mas a garotinha soava animada. Elizabeth e eu paramos na porta da entrada da sala, observando o show dos dois.
Edward estava com a Fender, sem um amplificador ela tinha um som baixo, mas Clarisse compensava aquilo cantando e alcançando tons altos. Os dois pareciam estar se divertindo muito com aquele show improvisado, eu não tive capacidade de os interromper e Elizabeth provavelmente também não, mas quando Clary nos viu o show acabou.
— Bella! — ela gritou, correndo até mim.
Sorri para a baixinha, me abaixando na altura dela para lhe apertar em um abraço. Fazia séculos que não a via, mas eu tinha tanto Clary nos meus pensamentos naqueles últimos tempos que ela já era uma parte constante na minha vida. Me senti mal por ter perdido o pote com suas conchinhas, já que ele ainda estava na minha mala de Hamptons.
— Eu não acreditei quando o Edward contou que você e ele namoram, mas estou muito feliz com isso.
— Feliz é pouco, ela deu um grito tão alto em comemoração que eu acho que estou surdo — Edward disse rindo. — Como Renée está?
Clary me soltou, enquanto a mãe contava ao irmão sobre Renée, apertando meu rosto entre suas mãozinhas. O sorriso dela era glorioso, eu sorri de volta, era incapaz de não sorrir. Ela não era apenas a irmã mais nova de Edward, minha cunhada, era a minha tia, por mais que isso soasse estranho, era parte da minha família.
A família que todos estavam odiando, fazendo ameaças de morte. Porém, nem todos nós éramos terríveis, eu sabia que minha mãe e Clarisse não eram, ao menos.
— Você é linda, Bella! — Clarisse proclamou.
Eu ri, afagando suas mãos sobre meu rosto.
— Você também é muito linda, Clary.
Por sorte ela era parecida com Elizabeth, isso tornava tudo mais fácil.
— Eu vou preparar o jantar para a gente — ouvi Lizz anunciar. — Bella, você gosta de espaguete?
— Claro — concordei, levantando-me, indo até Edward, que jogou a Fender para trás do seu corpo e me abraçou. — Por que não desenhamos um pouco, Clary? — sugeri a ela. — Enquanto Lizz prepara o jantar.
— Ai, que legal! — Clary gritou. — Vamos desenhar, sim, com certeza.
Nós rimos da agitação dela, mas todos se calaram quando a porta foi aberta e vimos um homem, tropeçando em seus próprios pés, entrar. Eu não precisei perguntar quem era, sabia que se tratava do padrasto de Edward.
— Elizabeth, quero comida! — ele foi gritando, claramente bêbado, o que eu sabia reconhecer muito bem.
— Richard...
— Quero comida! — ele gritou mais uma vez com ela.
Edward me soltou, eu consegui o segurar a tempo, antes que ele partisse para cima do tal Richard. Eu ia adorar ver aquele homem levando na cara, mas Clarisse estava ali, não queria que ela presenciasse uma cena como aquela.
— Por que você não arranja um emprego e vai bancar sua própria comida? — Edward indagou revoltado, tentando se soltar de mim.
Richard se virou para ele, parecendo só ali se dar conta de Edward na sala.
— O que o bastardo está fazendo aqui? — ele indagou, tentando chegar até Edward, mas tropeçando no meio do caminho e caindo no chão.
Clarisse tinha uma expressão triste no rosto, algo que fez com que eu me lembrasse de mim mesma quando via Renée bêbada na idade dela.
— E quem é você? — Richard perguntou para mim. — Elizabeth, comida! — gritou mais uma vez, deitando no chão, tão bêbado que não podia fazer mais nada.
— Mãe! — Edward exclamou entre dentes, Lizz parecia culpada e envergonhada.
— Melhor vocês irem agora, eu faço espaguete outro dia. — Ela começou a tentar fazer o marido se levantar, o que parecia impossível, ele já estava quase dormindo no chão mesmo.
— Eu tive uma ideia. — Me voltei para Clarisse. — O que acha de ir dormir lá no apartamento do seu irmão...Nosso apartamento? — me corrigi automaticamente.
Vencendo a tristeza no rosto dela, vi sua face se iluminar com a proposta.
— Eu posso? — ela perguntou para Elizabeth, que concordou com um aceno de cabeça. — Eba!
— Vamos embora! — Edward exclamou, ainda furioso, seguindo para fora sem falar mais nada com a mãe.
— Eu vou pegar uma mochila e roupas! — Clarisse anunciou, desaparecendo por trás de uma porta.
— Eu... — tentei falar algo com Lizz, que cansou de tentar levantar o marido que tinha apagado por fim, colocando uma almofada que estava no sofá debaixo da cabeça dele.
— Apenas distraia a Clary disso — Lizz pediu a mim, logo vimos a garotinha voltar, com uma mochila nas costas.
— Vamos, Bella! — Ela agarrou minha mão. — Tchau, mamãe.
— Até amanhã, meu amor. — Elizabeth veio para perto da gente, beijando o rosto de Clarisse, erguendo-se e beijando o meu. — Cuide-se, Bella.
— Pode deixar, Clary vai ficar bem também — garanti. — Vamos, Clary.
Elizabeth a beijou mais uma vez, então pudemos sair do apartamento. Encontramos com Edward do lado de fora do prédio, uma expressão furiosa no rosto.
— Não na frente da sua irmã, por favor — eu pedi, o abraçando rapidamente e sussurrando no seu ouvido, o senti relaxar um pouco nos meus braços.
— Vamos aproveitar que estou de folga e irmos comer Hot Dog? — perguntou para nós duas.
— Podemos fazer isso depois? — perguntei, Edward me olhou sem entender. — Eu tenho algo que quero fazer antes.
— Uma aventura? — Clary perguntou entusiasmada.
— Uma aventura!
***
Edward riu quando eu falei o que queria fazer, depois disso me mandou preparar para suportar a dor. Uma caminhada rápida depois chegamos ao estúdio de Aro, ele estava atendendo um cliente, mas parou rapidamente para falar com a gente.
— Você mudou de ideia sobre desenhar para mim? — ele perguntou.
— Olha, se você fizer a tatuagem que quero de graça, eu posso aceitar o trabalho — falei, mas por dentro nervosa que ele não aceitaria mais que eu desenhasse para seu estúdio, por sorte não foi o que aconteceu.
— Não negaria isso a filha do Charlie — Aro falou, com um grande sorriso no rosto. Claro que ele já sabia. — Ele livrou minha cara de muitos problemas no passado, tinha uma...
— Criança presente, criança presente! — Edward o cortou rapidamente, tapando os ouvidos de Clary.
— Opa, foi mal! — Aro riu. — Eu vou terminar a tatuagem daquele cara, depois cuido da sua, Bonequinha.
— Aro! — Edward exclamou irritado.
— Só estou brincando, relaxa ai.
Meia hora depois Aro acabou a tatuagem do cara, o mandando embora para fazer a minha. Eu já estava tremendo de medo no momento que sentei na cadeira diante Aro, mesmo com Edward do meu lado a tensão era gritante.
— Você tem certeza? — Aro perguntou para mim. — Está com bastante medo.
— Que irônico a tatuagem que vou fazer dizer sem medo, não? — Eu ri entre meu desespero. — Eu estou pronta! — exclamei me enchendo de coragem.
— Lá vamos nós! — Aro anunciou, passando álcool no meu pulso.
— Eu quero fazer uma um dia — Clary disse, folheando o caderno de desenhos de Aro.
— Ei? — Olhei para Edward quando ele me chamou. — Eu te amo!
— Eu também te amo. — Afaguei seu rosto com a mão livre, sentindo a agulha tocar na minha pele. — Porra! — xinguei.
— Ainda tem tempo de desistir — Aro disse, parando por um segundo.
— Não, eu não estou desistindo! — deixei bem claro.
Talvez falando aquilo não apenas sobre a tatuagem, mas sobre tudo. Eu ainda tinha chances de ser plenamente feliz, me agarraria a elas e lutaria contra o medo.
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