Sob minha Pele
15 Capítulo Catorze
Notas iniciais
— Capítulo Catorze —
— Edward —
Domingo, dia cinco de junho de dois mil e cinco, apenas quinze dias antes do meu aniversário de onze anos. Foi quando aconteceu, foi quando meu pai faleceu naquele incêndio.
Aquela manhã tinha se iniciado como outra qualquer, eu não poderia prever como o dia acabaria, tudo parecia perfeitamente calmo e normal. Minha mãe tinha me acordado cedo, coisa que ela sempre amou fazer, meu pai — que não trabalhava aos domingos — estava na sala do apartamento tocando sua velha guitarra e logo me chamou para tocar com ele.
Normal, calmo, cheio de paz. Eu podia me recordar com perfeição de como aquela manhã foi maravilhosa, talvez um dos maiores sonhos impossíveis da minha vida fosse voltar aquele momento e eternizá-lo, aproveitar cada instante daquelas últimas horas com meu pai.
Em algum momento, ficamos apenas nós dois na sala, mamãe ocupando-se com algo da casa. Eu me lembrava de estar sentado ao lado do meu pai, enquanto ele tocava Let It Be com extrema concentração, de olhos fechados, cantando baixinho. Nós não éramos parecidos fisicamente, mamãe vivia dizendo que eu apenas herdaria a altura dele, mas ela também dizia que nós dois éramos bastante parecidos de outras formas, que eu tinha muito do meu pai. Sempre gostei daquilo, queria ser como ele.
Nós não tínhamos milhões em dinheiro, nosso apartamento era pequeno e alugado, eu ia a uma escola pública usando materiais e uniforme de segunda mão. Porém, via a cada dia como meus pais se esforçavam, o quanto meu pai dava duro no trabalho para manter a gente e aquilo me fazia sentir um grande orgulho dele.
— Eu gosto dessa música — falei quando ele parou de tocar, papai assentiu, ainda de olhos fechados. Quando por fim os abriu, vi as lágrimas em seus olhos azuis.
— Eu também gosto dessa música, filho — ele disse, apertando meu ombro.
Vi a tatuagem em seu pulso, com os dizeres sem medo. Até onde eu sabia, papai tinha a feito não muito depois que nasci, os tempos não eram fáceis e ele gravou aquilo em sua pele para dizer que não precisava ter medo, que tudo poderia ser superado.
— Eu quero uma tatuagem como essa quando crescer.
Ele riu, olhando para seu pulso.
— Dói muito para fazer uma tatuagem, Edward, talvez você não suporte a dor, garoto.
— Não, eu suporto — teimei. — Não tenho medo. — Apontei para a tatuagem, papai abriu um sorriso, mas eu notei que seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas.
— Edward, eu amo você, filho — falou.
— Eu tenho de ir trabalhar, uma das meninas da lanchonete está com o filhinho doente e pediu que eu a substituísse no turno da tarde para poder cuidar dele — mamãe anunciou entrando na sala.
— Posso ir ver Jasper e Rosalie? — perguntei animado, meus melhores amigos moravam próximo a lanchonete onde minha mãe trabalhava, eu queria muito ir vê-los.
— Claro, acho que a mãe deles pode ficar de olho em você por algumas horas — mamãe concordou. — Tudo bem em ficar só, querido? — perguntou a papai, que estava distraído com sua guitarra, o olhar perdido. — Edward? — o chamou.
— Sim, eu ficarei bem — ele respondeu por fim, estendendo a guitarra para mim. — Leve com você, para que Jasper possa praticar um pouco também.
— Maneiro! — exclamei, pegando a guitarra em mãos com cuidado.
— Até mais tarde, amor. — Mamãe beijou a bochecha de papai, que sorriu para ela. — Vamos, Edward, não posso demorar — ela me chamou, já andando até a porta do apartamento.
Papai me entregou a capa da guitarra, deixando com que eu a guardasse ali.
— Farei espaguete para o jantar — prometeu.
— Com almôndegas? — perguntei, finalmente tendo a guitarra em segurança dentro de sua capa.
— Com certeza com almôndegas. — Papai bagunçou meus cabelos. — Vejo você mais tarde, garoto, comporte-se, certo?
— Pode deixar — concordei, seguindo mamãe para fora do apartamento, nós estávamos na saída do prédio quando me lembrei de algo. — Mãe, espera só um instante — pedi.
— Edward, estou atrasada — disse, mantendo a porta do prédio aberta.
— Não vai demorar, prometo! — Passei por ela, correndo para o nosso apartamento no terceiro e último andar do prédio. — Pai? — gritei por ele quando entrei ali, o encontrando próximo a janela, com uma xícara de café em mãos, olhando para a rua lá fora.
— O que foi? — perguntou preocupado. — Cadê sua mãe?
— Lá embaixo, brava por eu estar a atrasando. — Revirei os olhos, fazendo com que ele risse. — Só queria dizer que também te amo — falei, cruzando a sala até ele, o abraçando, seus braços rapidamente me apertando contra si.
Ele me afastou um tempo depois, se agachando diante de mim, ficando na minha altura.
— Você é muito especial para mim, filho, saiba disso. — Tocou em meu rosto. — Vá agora, sua mãe está o esperando, nós nos falamos de noite.
— Vê se não se esquece das almôndegas, por favor — implorei, o fazendo rir novamente, então sai correndo, daquela vez em direção a saída do apartamento.
Foi a última vez que vi meu pai.
***
Alice estava pálida, o celular ainda em sua mão, seus olhos marejados. Eu não sabia o que falar, ou fazer. Não conhecia Renée Higginbotham, mas até para mim a noticia de sua morte tinha sido uma surpresa.
— Seu hambúrguer, Edward — Jessica voltou, colocando a comida diante de mim, junto a um copo de refrigerante. — Tudo bem? — perguntou a Alice, vendo-a paralisada ali, a Cullen piscou, parecendo recobrar a consciência.
— Você pode ficar com o troco. — Ela tirou algum dinheiro da bolsa, entregando mecanicamente a Jessica, que se afastou fazendo uma careta para o estado transtornado de Alice.
— Alice?
— O mundo dela vai desabar — murmurou, suas mãos tremiam muito e sua voz era vacilante. — E-Eu não sei o que fazer para ajudá-la, Edward. — As lágrimas começaram a deslizar por seu rosto. — Ela é minha melhor amiga e não sei como ajudá-la. — Soluçou.
— Alice, calma — pedi, deixando meu lugar, indo sentar junto a ela. — Você está certa, Bella é sua melhor amiga e precisa da sua ajuda agora — sussurrei, Rosalie e Jasper tinham sido fundamentais para mim quando perdi meu pai, sem eles sempre por perto naquela época, eu não saberia o que fazer com meu mundo desabando também.
— Oh Deus, eu preciso falar com ela, coitadinha — Alice disse aos prantos, discando em seu celular, o nome de Bella logo aparecendo na chamada. — Não, não, está fora de área. O que faço agora? E se ela saiu por ai sem rumo? Se for...
— Você não tem o número da casa dela? — sugeri antes que ela continuasse pensando em Bella se matando também, Alice assentiu, rapidamente discando o novo número.
— Sue? — chamou, parcialmente aliviada, quando teve sua ligação atendida. — Bella me ligou, ela disse sobre Renée e... — Alice se calou, soltando o ar ao ouvir o que a mulher do outro lado da linha disse. — Bella foi com ela, certo? — Alice pareceu sorrir por um instante e aquilo me confundiu, o que estava acontecendo? — Qual hospital? — Alice fechou os olhos. — Tudo bem, não se preocupe, eu ficarei com elas e chamarei por meus pais para ajudar. Eu mantenho você informada, obrigada. — Ela desligou, escondendo o rosto atrás de suas mãos, parecendo dizer uma prece para si mesma.
— Alice? A mãe da Bella?
— Ela está viva. — Alice voltou a chorar, seu corpo pequeno tremendo por conta do choro. — Teve uma parada cardíaca, mas os paramédicos conseguiram a reanimar. — Alice fungou, tirando o rosto das mãos. — Bella está com ela no hospital, eu tenho de ir lá apoiá-la, eu tenho tanto medo de que ela fique só agora e faça uma grande besteira.
Eu levantei, deixando com que ela saísse do banco, recolhendo sua bolsa e entregando a ela.
— Eu — murmurei, olhando rapidamente para minha comida ali, mas toda a fome que sentia antes parecia ter desaparecido. Só conseguia pensar em Bella, em como ela devia estar por quase ter perdido a mãe. O aniversário de morte do meu pai aconteceria na semana seguinte, eu sabia como perder alguém era, ela deveria estar um caos no meio daquela confusão. — Eu posso ir com você? Talvez seja melhor do que sair daqui sozinha, está muito nervosa — falei para Alice.
Ela piscou algumas vezes, então me encarou por um tempo.
— Você quer ver a Bella — Alice disse, não tinha acusação em sua voz, mas sim surpresa. — Okay, você pode ir, vamos — ela falou quando permaneci mudo.
Não sabia porque estava querendo ir até Bella, ela sequer era uma amiga. Ainda assim, me vi jogando dinheiro sobre a mesa para pagar a comida intocada e segui Alice para fora da lanchonete. Nós entramos em um táxi, ela disse o nome do hospital ao motorista e já tinha o celular novamente grudado a sua orelha.
— Mamãe? — falou, ainda chorando, mas silenciosamente. — Aconteceu algo terrível, mãe. — Ela fez uma pausa rápida. — Não, não, estou bem. Jazzy está bem também. Foi com a mãe da Bella, a Renée, ela...Sofreu um acidente, se é que consegue me entender. — Alice olhou rapidamente para o motorista. — Cocaína — murmurou para a mãe.
Foi impossível não arregalar os olhos ao receber aquela informação, mesmo indiretamente. Renée Higginbotham além de estar em uma fase alcoólatra também estava usando drogas? Porra, cocaína era pesado demais, ela com certeza tinha tido uma overdose que resultou na parada cardíaca.
— Eu preciso que venham...Ah, isso é excelente, é bom saber que já estão na estrada, sigam direto para o hospital, por favor — Alice pediu, seu choro tornando-se mais alto. —Jasper está no trabalho, mas não, eu não estou sozinha. — Olhou para mim rapidamente. — Mãe, a Renée ficará bem, não? Ela teve uma parada cardíaca, mas isso não a afetará tanto, não é mesmo? Mãe, diga! — Alice exigiu, sua expressão se endurecendo ao ouvir a resposta da mãe. — Encontro vocês no hospital. — Desligou.
— Possíveis sequelas? — perguntei baixinho.
— E probabilidade de morte cerebral — Alice sussurrou, segurando o choro. — Isso não pode acontecer. — Engoliu em seco. — Se Bella perder a mãe...Não acho que nada será capaz de mantê-la no chão.
— Você acha que ela estava no chão mesmo com a mãe viva?
Alice me encarou, seus olhos cheios de raiva.
— Ela não é uma vilã, Edward.
— Desculpe, Alice, eu apenas...
— Apenas não a conhece de verdade, não sabe como ela é por trás de tudo aquilo. Não espero que entenda, mas se está indo até lá para tripudiar da cara dela, eu peço que sequer se aproxime da minha amiga.
— Não faria isso, Alice — garanti, ela assentiu.
— Ela ama a mãe — Alice disse, eu sabia daquilo, de alguma forma sabia desde que Bella falou sobre Renée na sala de música da casa dos Cullen. Ela apenas parecia ter medo demais de assumir aquele sentimento, eu esperava que ela tivesse dito isso a mãe, ao menos uma vez antes do acontecido, minha mente não teria tido um dia de sossego se eu não tivesse voltado para casa naquele dia cinco de junho e dito ao meu pai que o amava antes de perdê-lo para sempre.
***
O caminho do Brooklyn até Manhattan onde ficava o hospital que Renée foi levada, pareceu dobrar aquele dia. Alice não parava de chorar e de mexer em seu celular conferindo se Bella não tinha ligado, pelo o que ela me disse, a amiga tinha quebrado seu aparelho, mas ela esperava que a Higginbotham fosse ligar de qualquer lugar. Isso não aconteceu.
Assim que chegamos ao hospital, Alice seguiu a passos firmes até o elevador, apertando o botão que indicava a UTI. As pessoas no balcão de recepção nos lançaram olhares feios por termos passado por eles sem uma identificação, eu podia esperar que assim que o elevador parasse, seguranças nos abordassem e nos mandasse para fora do hospital por estarmos praticamente o invadindo.
— Alice, nós deveríamos ter nos identificado na recepção — falei, ela me lançou um olhar confuso.
— Meus pais e eu somos acionistas aqui, Edward — contou, compreensão chegando a ela diante minha fala.
— Ah, okay, isso faz sentido — entendi o ponto dela. — Então, por ser uma das donas você não precisa se apresentar? Pode circular por ai quando quiser?
— É, basicamente isso — suspirou. — Eu sei, é errado. — Deu de ombros. — Só que ando por esses corredores desde sempre, sem ter que me identificar a ninguém, já é normal fazer isso.
— Não, tudo bem, eu também ando pela lanchonete que minha mãe trabalha sem me identificar. — Alice não riu, mas deu um sorriso pequeno.
— Obrigada por ter vindo — agradeceu, os olhos fixos nas portas. — Talvez isso possa animar a Bella de alguma forma.
Assim que o elevador chegou ao andar da UTI, Alice saiu, praticamente correndo em cima de seus saltos. Ela perguntou, aos gritos, para uma enfermeira que passou por ela onde estava Bella, então pudemos ouvir o choro.
Era alto e angustiante, eu parecia ter voltado ao pesadelo que tive dias antes, Bella chamando desesperadamente pela mãe. Era assustador como aquilo tinha se tornado uma realidade, muito pior do que o próprio sonho, o choro dela era exatamente como o meu quando fui informado de que meu pai estava morto.
Alice foi até a sala de onde ouvíamos o choro de Bella e eu fui atrás, nós logo pudemos ver a Higginbotham. Ela estava sentada sozinha em um dos sofás da sala de espera ali, os pés sobre o móvel, abraçando a si mesma. Duas enfermeiras estavam de pé ao lado dela, uma segurava um copo de água e outra falava algo para Isabella, mas ela não parecia dar ouvidos a nenhuma delas.
— Eu estou aqui, estou aqui — Alice falou, correndo até Bella, que por fim abriu os olhos, olhando diretamente para a amiga.
— Ela tentou se matar, Al — Bella disse, a voz era trêmula e baixa, chorou mais ainda ao dizer aquilo.
Não via alguém tão fragilizado desde aquela noite de junho em dois mil e cinco, minha mãe e eu quebramos ali, então bem a frente dos meus olhos, vi Bella quebrar também.
— Eu senti o coração dela parar, ela morreu em minhas mãos — Bella contou, jogando-se nos braços de Alice, que rapidamente retribuiu o abraço, as enfermeiras afastaram-se, deixando nós três sozinhos na sala, fechando a porta ao saírem. — E-Ela... — Bella gaguejou, calando-se quando seus olhos repousaram sobre mim, eu me senti um intruso. Não era amigo dela, muito menos um parente, não deveria ter ido até ali. — O que você está fazendo aqui? — ela conseguiu perguntar sobre seu choro, afastando Alice, que olhou de Bella para mim em desespero.
— Bella, o Edward apenas...
— Você me avisou sobre isso — Bella interrompeu Alice, falando comigo. — Você disse que ela poderia acabar assim, eu deveria ter lhe escutado. — Ela se colocou de pé, movimentando-se tão rápido que no instante seguinte estava em meus braços, abraçando-me com força, o rosto escondido em meu peito por trás de seus cabelos. — Não me afaste, por favor — implorou.
Não a afastei, a envolvi em meus braços, deixando-a chorar em meu peito. Eu queria que ela parasse de chorar, mas ao mesmo tempo sabia que aquilo seria necessário, Bella precisava colocar tudo aquilo para fora, faria com que estivesse mais calma e mais forte depois.
— É tudo minha culpa — sussurrou.
Apertei meus dedos em suas costas, puxando-a ainda mais para perto. Ela era tão magra e pequena, não tanto quanto Alice, mas parecia tão fragilizada naquele momento, que parecia que desmontaria em minhas mãos a qualquer instante.
— Não é sua culpa — falei próximo ao seu ouvido, levando uma mão até sua cabeça, afagando seus cabelos. — Não se culpe por isso, Bella, você não fez nada.
— Exato, eu não fiz — continuou se culpando, seu choro parecia cada vez pior. — Eu deveria ter salvado ela antes, você disse isso, eu não dei ouvidos, fui estúpida e ridícula pensando que ela era um estorvo.
A afastei um pouco, segurando em seu rosto com ambas as mãos. Ele estava completamente vermelho e cheio de lágrimas, seus olhos vermelhos e suspeitei que as lentes ali só estivessem os deixando mais irritados ainda.
— Não é sua culpa — repeti, dizendo aquilo em alto e bom som, olhando diretamente para seus olhos. Mesmo com as lentes, eu podia ver um pouco da realidade do olhar dela, aquele que tinha visto na casa de Alice, o mesmo olhar castanho triste de quando falou sobre a mãe enquanto estávamos no piano.
— Ela quase morreu, eu senti o coração dela parar, foi assustador. — Bella fechou os olhos, o choro nunca parando.
— Ela está viva, Bella — falei, afagando seu rosto, limpando as lágrimas ali.
— Ei. — Alice se aproximou da gente, hesitante, tocando nas costas de Bella, que reabriu os olhos. — Eu vou buscar por informações de Renée, sente-se um pouco, amiga — pediu. — Você pode ficar com ela? — perguntou para mim.
— Posso.
Mesmo se eu não quisesse, suspeitava que seria um pouco difícil deixar Bella ali. Suas mãos estavam agarradas a minha camisa, eu não poderia dar um passo para longe sem machucá-la, ou acabar a arrastando junto comigo.
Alice beijou o rosto de Bella, que deu um sorriso triste para ela, então deixou a sala que estávamos.
— Vem. — Puxei Bella até o sofá que estava antes, ela não protestou, ainda agarrada em mim me seguiu até ali. — Você quer um pouco de água? — perguntei depois de sentá-la ali, ajoelhando-me diante dela.
— Não — respondeu, balançando a cabeça em uma negativa, olhando para nossas mãos que ela tinha entrelaçado, que estavam sobre seus joelhos. — Por que você está aqui, Edward? — perguntou, tocando na tatuagem em meu pulso que eu tinha em homenagem ao meu pai.
— Eu estava com Alice quando ela recebeu a ligação, não queria deixá-la vir até aqui só — contei, Bella levantou os olhos para mim, questionando-me apenas com um olhar. — Não sei — sussurrei. — Não sei porque vim.
— Obrigada por ter vindo. — Ela levou uma mão até meu rosto, o afagando delicadamente, então se inclinou em minha direção. Eu pensei que ela me beijaria, mas seus lábios apenas tocaram em minha testa, também percebi que se ela quisesse, eu não teria a impedido de me beijar daquela vez. Estava enlouquecendo, perdendo qualquer resquício de juízo que me restava. — Obrigada — agradeceu novamente, apoiando sua testa na minha, nossas mãos ainda entrelaçadas, ela apertava a minha, como se quisesse ter certeza de que eu estava ali.
— Você vai ficar bem — falei, sentido o rosto dela tão próximo, meus próprios olhos fechados, mas todos os outros sentido em alta por tê-la tão perto.
— Não estou preocupada comigo. — Recomeçou a chorar. — Eu não quero perdê-la, não posso. — Soluçou. — Não disse que a amava, eu deveria ter ido, não posso deixá-la morrer sem saber disso.
— Ela vai saber, tenho certeza de que ela ficara bem e logo você poderá contar. — Afaguei sua mão, com a mão que antes estava em meu rosto, Bella agarrou os cabelos da minha nunca, enquanto continuava a chorar.
— Como você superou? — perguntou tão baixo que quase não ouvi. — A morte do seu pai, como superou? — Ela afastou nossos rostos, mas nunca soltando minha mão.
— Não acho que tenha superado, Bella — confessei. — Foi abrupto demais, passei muito tempo em negação, sem crer que aquilo era mesmo real. Mas, não pense nisso, sua mãe está viva, os médicos não vão deixar com que nada aconteça agora.
— Ela deixou uma carta de despedida. — Bella olhou para a bolsa ao seu lado no sofá, soltando-me por fim e mexendo ali, tirando a carta de lá e estendendo para mim. — Estava junto ao corpo dela quando a encontrei. — Eu li rapidamente, sentido-me nauseado só de ler, imaginando como deveria ter sido mil vezes pior para Bella que se deparou com aquilo junto ao corpo da mãe que tinha tentado se matar. E o que Renée queria dizer sobre o pai?
— Talvez você devesse se livrar disso — sugeri, devolvendo a carta a ela. — Não guarde isso, apenas a fará se sentir pior.
— Ela disse o mesmo que você e Alice — Bella falou, ignorando minha sugestão e guardando a carta novamente em sua bolsa.
— Bella...
— Ela disse que eu tenho que me libertar, o que pode dizer a mesma coisa que mudar, o que tanto você quanto Alice disseram. Eu sou um monstro, não sou?
Ouvimos a porta abrir, então Alice entrar ali, trazendo um copo de água em mãos que entregou a Bella.
— Você soube de algo? — perguntei a ela, indicando a Bella que ela deveria beber um pouco da água, a Higginbotham negou. — Bella, por favor — pedi, tirando o copo de sua mão. — Você está pálida, seus lábios estão extremamente brancos e rachados, pode desmaiar a qualquer momento por estar tão nervosa e claramente desidratada. Ao menos comeu algo hoje?
— Não — respondeu, aceitando a água por fim, bebendo um único gole pequeno, devolvendo o copo para mim, que eu repousei no chão ao meu lado.
— Sua mãe está passando por alguns exames para checar a atividade cerebral dela — Alice respondeu, sentando-se ao lado dela, afagando as costas de Bella. — Ela tem de ficar em um colchão com gelo, ou algo assim — disse confusa.
— É para que o corpo dela resfrie, a temperatura corporal tende a subir em paradas cardíacas — expliquei, ganhando olhares questionadores de ambas. — Eu assistia muito House — confidenciei, Bella riu, pegando a mim e Alice de surpresa por isso. Ela ainda parecia transtornada com tudo aquilo, com todo o direito do mundo, mas pelo menos estava conseguindo sair do círculo de dor e choro que a situação estava lhe sufocando.
— Meus pais estão a caminho — Alice contou a Bella. — Papai irá cuidar de Renée pessoalmente, ela estará em boas mãos.
— Obrigada por isso, Al — agradeceu, repousando a cabeça no ombro da amiga.
— Bella, Renée estava usando drogas há quanto tempo? — Alice perguntou, a voz vacilante.
— Eu nunca tinha percebido que ela usava qualquer coisa antes — Bella falou, suas mãos fechando-se com força. Eu as toquei, fazendo com que ela as abrisse e entrelacei meus dedos aos dela, impedindo que ela acabasse se machucando com suas próprias unhas. — Ela não saia de casa tinha dias, desde aquele jantar frustrado na casa de Carmen, não sei como ela pode ter comprado cocaína nesse meio tempo, provavelmente já tinha em casa. Foda-se, eu devia ter notado! — Apertei suas mãos, enquanto a via chorando no ombro de Alice, essa por sua vez que olhava atentamente para mim, parecendo ser capaz de enxergar através das minhas roupas e pele.
Algum tempo depois, o celular da Cullen tocou. Ela disse algo sobre seus pais, então precisou deixar a sala, pedindo que eu assumisse o lugar junto a Bella, que prontamente substituiu o ombro da amiga pelo meu.
O choro de Bella era a única coisa que podia ser ouvida ali, nem mesmo a central de ar daquele lugar era barulhenta como na maioria dos outros lugares. Mas, era forte o suficiente para fazer Bella tremer de frio, o que me obrigou a aquecer seu braço como podia, temendo que ela acabasse doente por aquilo.
Quando Alice voltou, Bella tinha apagado sobre mim, em um sono superficial, que me obrigou a permanecer imóvel para não acordá-la. Alice sentou no outro sofá, olhando a parede a sua frente.
— Ela gosta de você — murmurou.
— Desculpe?
Alice me olhou, sorrindo brevemente.
— Bella gosta de você. Eu pensei que isso era apenas um capricho, um jogo da parte dela, mas a forma como se agarrou a você quando te viu, isso não é normal, ela não correria nem mesmo para Jacob daquele jeito. — Não disse nada, novamente ficando mudo. — Assustador, eu sei, Masen. — Alice respirou fundo, os olhos em Bella.
Olhei para Bella dormindo sobre meu peito, sua mão esquerda agarrada a minha direita.
— Alice? — Uma mulher entrou na sala apressadamente, ela devia ter uns quarenta anos, era bonita e parecia muito elegante. Tinha estatura média, seus cabelos castanhos escuros emolduravam um rosto em formato de coração e tinha olhos gentis e preocupados aquela tarde.
— Mãe! — Alice correu até a mulher a abraçando.
Ah claro, a sogra de Jasper.
Bella sobre mim se remexeu por conta da chegada da senhora Cullen, ela emitiu um som sofrido, provavelmente ao constatar onde estava e se lembrar de tudo. Eu apertei sua mão, afastando seus cabelos do rosto, fazendo com que ela me olhasse.
— Como ela está? — me perguntou, seus olhos mais vermelhos do que antes, ela precisava tirar aquelas lentes com urgência.
— Não tivemos noticias novas, você apenas apagou por uns vinte minutos, ou menos.
— Bella, querida? — Ela voltou o rosto na direção do som, vendo a mãe de Alice ali.
Bella recomeçou a chorar, encolhendo-se junto de mim.
— Ela passou minutos sem respirar, Esme.
— Carlisle está conversando com o médico que a atendeu agora mesmo, Bella. — Esme sentou do outro lado da Bella, que foi para o colo dela sem hesitação. — Ele irá assisti-la de perto, eu estou aqui para ajudar no que for preciso também. — Beijou o topo da cabeça de Bella, que chorava tão desesperadamente como quando chegamos ali. — Nós faremos tudo por sua mãe, você não está sozinha nessa, meu bem.
— Eu não quero perdê-la — Bella murmurou em pânico.
— Você está tremendo tanto, deve estar congelando — Esme falou, eu senti o quanto ela mudou de assunto ali. Renée corria riscos sérios de não resistir. — Aqui, coloque isso. — Esme tirou de si o xalé, que usava, jogando por cima dos ombros de Bella, parecendo me notar finalmente. — Desculpe, você é?
— Edward Masen — Alice respondeu por mim. — É o amigo de Jasper, lembra? Já falamos sobre ele. Edward e eu estávamos juntos, quando Bella me ligou.
— Claro. — Esme assentiu. — É bom conhecê-lo, querido — falou para mim. — Apenas lamento que seja assim. — Apertou mais ainda Bella contra si.
— É bom conhecê-la também, senhora Cullen.
— Apenas Esme, não sou tão velha assim — ela me cortou, dando um sorriso gentil. — Bella, querida? — falou com a Higginbotham. — Seu avô já foi informado?
— Sue disse que ligaria para ele — contou, parando de chorar instantaneamente. — Eu deveria ligar. — Soltou-se de Esme, procurando por sua bolsa. — E-ele vai enlouquecer, nós não podemos deixar a imprensa saber disso, seria um grande caos para todos. Os Black precisam ser informados também. Droga, eu quebrei meu celular!
— Pare, Bella! — Alice ordenou, fazendo Bella se calar. — Eu aviso o Jacob, Sue já deve ter informado seu avô, você ficará aqui e não vai se preocupar com ninguém além da sua mãe. — Ela já estava deixando a sala logo depois de dizer aquilo.
— Ela é parecida demais com o pai — Esme falou sobre Alice para mim, eu quis rir, Jasper estava ferrado então já que namorada e sogro eram autoritários daquele jeito. — Querida, você quer falar com seu pai? Talvez ele possa vir até New York passar um tempo ao seu lado, isso seria bom.
— Não — Bella negou. — Não o quero aqui, ele pode ficar na Austrália para sempre.
— Bella, pense bem — Esme insistiu.
— E o que acha de ir tirar essas lentes? — falei com Bella, que estava segurando o colar em seu pescoço, era muito mais simples do que qualquer outra joia que já tinha a visto usando, mas poderia ser caro da mesma forma, reparei ali que ela não estava com o anel de noivado. — E comer algo depois.
— É uma boa ideia, Edward — Esme falou — Bella, você precisa tirar as lentes, seus olhos estão irritados demais e precisa comer algo para se sustentar, talvez eu possa lhe dar um calmante depois que comer algo.
— Não, não — negou assustada. — Não quero chegar perto de qualquer droga agora.
— Tudo bem, não a obrigarei tomar nada — Esme prometeu. — Eu vou atrás de Carlisle, ver o que ele já sabe. — Beijou o rosto de Bella e se levantou.
— Não quero ficar só — Bella disse nervosa, segurando a mão de Esme, que me olhou apreensiva.
— Edward, você poderia ficar com ela mais um pouco?
— Eu vou ficar com você, Bella — garanti, segurando sua mão no lugar de Esme. — Não vou deixá-la sozinha.
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