Sob as luzes de Las Vegas (one)

1 Capítulo único - Sob as luzes de Las Vegas


Notas iniciais
Bom, esta fic foi escrita para o desafio do Nyah no mês de maio - Yuri. Como deve ser dito o tempo, a trama se passa em 2015. Madelaine é uma neko, porém, dominante. Quando escrevo Yaoi (meu amor primeiro), meus ukes são sempre dominantes, assim também o é no Yuri, of course.

***

Madelaine saboreava mais uma dose de whisky em um bar na noite de Las Vegas. Furtivamente, observava um casal numa mesa à meia luz, onde cartas de pôquer disputavam espaço com fichas e taças de uma bebida dourada. A cada beijo e carícias entre o casal, seu coração feria um pouco mais. Será o amor tão fútil? Ela pensava. Outra dose de whisky lhe acalentava a alma.

Por muito tempo ela estivera longe. Havia partido para enfrentar sozinha o poder daquele amor. Um amor que sufocava seu coração e do qual sabia que jamais iria se livrar. Ela amava verdadeiramente. Porém precisava provar ser mais forte que aquele amor. Sua vaidade e seu orgulho não a permitiam ser prisioneira. Para se libertar precisava conviver com o amor sem ter a seu lado a pessoa amava. Era por demais controladora, orgulhosa e dona de si para pertencer a alguém, para permitir que o amor desse a outra poder sobre si. Por isso partiu e agora, depois de tanto tempo, voltou e a encontrou nos braços de outro... nos braços de um homem.

Entre uma dose e outra, Madelaine recordou de suas noites nos cassinos de Las Vegas ao lado de Juliet. Madelaine a trapaceira, Juliet a isca. Quantos homens depenaram, quanto dinheiro ganharam... Depois o amor, as carícias, os beijos acalentados. Juliet jurava jamais deixar de amar Madelaine. Tentava arrancar de Madelaine um “eu também te amo”, mas não recebia nada mais que um leve sorriso no canto dos lábios antes de outro beijo. Juliet não sabia ser o beijo por amor ou apenas para diversão, isso a angustiava.

— Sim, Juliet, eu a amava… eu ainda... – disse baixinho entre mais uma dose de whisky. Sim, Madelaine a amava, mas jamais dizia. Acreditava não precisar dizer pois vivia o amor, ele emanava sem palavras. Para ela assim é o amor, algo para ser vivido sem a mácula das juras. Amava em silêncio, adestrando-se para ser superior, enquanto Juliet tão entregue, totalmente à mercê de seu amor.

Agora ela ali, olhando para aquela mesa. Deveria ter entrado, olhado e ido, mas algo em si a pedia para ficar. Talvez seu lado masoquista falando mais alto. Lágrimas desceriam de seus olhos se ela se permitisse chorar, mas o orgulho não consentia jamais. Mais uma dose de whisky.

As fichas se foram. Não restara nenhuma mais ao casal. Aquela bela mulher e o rapaz de porte atlético nada mais possuíam para continuar a jogatina. O sol, já próximo de raiar, era mais um prenúncio de que era hora de ir, abandonar a mesa, o jogo e a bebida dourada.

Madelaine em seu canto à penumbra, não deixou de observar que depois de terminada a jogatina, aproximaram-se do casal dois homens. Percebeu que fizeram alguma ameaça a eles. Pôde ver na cintura de um deles uma arma, e o medo nos olhos dos dois ameaçados. Mais uma dose de whisky enquanto desviava o olhar. No pensamento, o possível perigo que Juliet corria. Madelaine bem conhecia o que aqueles homens eram capazes de fazer. Um sentimento estranho percorreu sua alma. Juliet não tinha a perspicácia de Madelaine para sair das artimanhas que aquele vida proporcionava. Era ingênua no jogo da vida.

O rapaz e a bela mulher caminharam juntos para fora do bar. Tomaram um taxi. Em outro, Madelaine. Atravessaram o centro de Las Vegas. Cassinos e luzes, muitas luzes e algumas pessoas naquele fim de madrugada. O taxi à frente parou em um hotel, ainda o mesmo, bem lembrava Madelaine. Deixou ali a passageira e seguiu com o rapaz.

Madelaine também desceu. Ela quase ria de si ao ver o que estava fazendo. Ela, a dominadora, seguindo sua amada pelas ruas da cidade, esperando talvez ainda ser amada por aquela que abandonou há tanto tempo. Um amor jurado não poderia ser quebrado, haveria mesmo de ser para sempre.

Que desculpa foi mesmo que arranjou para partir? Há sim. Cansou de depenar os homens naquela cidade. Juliet quis ir também, mas não, não desejava estorvo em sua vida. Mal sabia Juliet que o estorvo não era ela, mas o amor que aprisionava o coração de Madelaine. A morena fria precisava da distância para domar o amor em si, para moderar o amor, o orgulho e a vaidade. Mal acreditava ela que estava ali novamente, no encalço daquela que lhe fizera tantas juras de amor. A distância e o tempo trouxeram moderação, mas o amor estava lá, intacto.

Poderia dar meia volta e ir embora, afinal, ela estava agora nos braços de outro... de um homem. Mas... por Deus, não podia fazer isso, precisava novamente estar com aquela que amava, precisava saber se ainda residia no coração de Juliet. Ou seria apenas a preocupação? Talvez o que a fizesse estar ali era apenas o interesse em saber o que queriam aqueles homens no bar, em saber se Juliet corria perigo. Ou seria a esperança de não ser falso o amor de Juliet? Dúvidas.

Subiu alguns andares pelo elevador, ela sabia qual o apartamento. Levantou o punho e hesitou por alguns segundos antes de bater três vezes à porta. Mas ela estava segura, precisava saber. Ouviu a chave girar na fechadura.

— Madelaine. — disse a morena surpresa. — O que faz aqui? Achei que nunca mais a veria.

— Quis saber como você estava, fiquei curiosa depois de tanto tempo — falou levantando os olhos para fitar a morena à sua frente, levemente maior que si. Deixou transparecer uma verdade absoluta e segurança no que dizia.

— Entre. Eu estou chegando agora… realmente não esperava a ver… — liberou a passagem para que Madelaine adentrasse naquele espaço que por tanto tempo abrigou o amor entre as duas.

Caminhou lentamente pela sala, observando o confortável sofá onde tantas vezes estiveram sob um edredom, tomando chocolate quente após o amor.

— Como você está? Por onde andou? — indagou Juliet com certo desconcerto ante a situação.

— Estou bem, estive em Nova York nos últimos anos, após uma estadia em Hong Kong. Foi bom estar em outros ares. — respondeu Madelaine após voltar-se à morena. No sentimento, talvez o ciúme da posse. Era estranho imaginar aquela mulher que dizia a amar, agora nos braços de outro. O amor não pode ser assim tão volúvel.

— E o que deu em você que retornou? Sentiu saudades? — proferiu terminando a frase com um riso um tanto irônico. Ela ainda estava surpresa com a presença de Madelaine. Vê-la novamente era algo que realmente não esperava acontecer. Ela conhecia bem Madelaine e o orgulho que tinha. Um orgulho que acreditava intransponível.

— Na realidade eu não retornei, estou apenas de passagem a caminho de Washington. Passei por aqui e resolvi lhe visitar — falou com a mesma falsidade que sempre permeou sua personalidade. Jamais deixaria transparecer o ciúme ou o desejo de ainda estar no coração de Juliet, como ela estava em seu coração. O orgulho jamais lhe permitiria. — Mas e você? Eu quero saber como está.

— Eu estou bem... Madelaine, eu realmente não esperava vê-la novamente, você partiu de repente sem um motivo aparente e… nós estávamos bem, eu não entendi. — disse ao sentar-se em um dos sofás, dando sinal à outra para que sentasse também. Na voz certa aflição, desejando compreender o que fizera aquela mulher retornar depois de tanto tempo. Madelaine foi sem planejar retorno e ainda que Juliet ficara por muito tempo esperando que ela regressasse, não acreditava mais ser possível.

— Eu precisava ir, Juliet, fiz o que tinha que fazer e não me arrependo. Foi bom para mim, deve ter sido bom para você também. — trazia a certeza no fim da sentença, agindo como se desde sua partida Juliet não lhe tivesse feito a menor falta, como se a cada dia naqueles anos todos, ela jamais havia lhe permeado o pensamento. Ledo engano.

— Eu… eu sofri muito com tua partida. Você sabe que era um porto seguro em minha vida… eu realmente fiquei sem chão… foi muito difícil. — olhou fundo nos olhos da morena menor, talvez se lembrando da imensa saudade que sentira quando Madelaine partira por um motivo não bem explicado e que não a convencera totalmente.

— Você precisava crescer, Juliet, precisava se virar sozinha… Pelo jeito se virou, já que parece estar bem. — disse olhando para uma foto disposta sobre um móvel. Na foto, Juliet com o rapaz que a acompanhava no bar. Nos lábios de Madelaine, um leve sorriso como se não desse importância ao que vira. Como se sua fala não trouxesse nenhuma intenção implícita.

— Este… este é Oliviery… nós estamos juntos. Você sabe, eu… Bem, quando você se foi eu fiquei um tempo só, depois tive com algumas garotas e já há algum tempo encontrei Oliviery. — as justificativas eram reflexos da insegurança e do domínio que Madelaine sempre teve sobre si. E resquícios ainda permaneciam, ela se sentia perdida ante o poder daquela morena.

— Não precisa se explicar, Juliet, nós não devemos explicações uma a outra, somos donas de nossas vidas. Foi bom você ter me esquecido. — falou calma e com voz tranquila, transparecendo não haver nenhum sentimento de sua parte pela morena maior. Mas as entrelinhas da última sentença soaram mais como uma interrogativa que uma afirmativa.

— Eu achei que você não iria mais voltar… tive que tocar minha vida e… depois superei, como você superou. — findou com um sorriso nos lábios, como se tudo tivesse se apagado.

Uma navalha talvez transpassasse o coração de Madelaine ao ouvir aquelas palavras. Palavras tão simples, mas que aprofundam na alma. Juliet jamais conseguira mentir para Madelaine, ela sempre captava a verdade nas entrelinhas, no semblante e no tom da voz da morena. Ela não estava mentindo também agora, realmente havia deixado de amar. Como pode um amor ser apagado?! Madelaine sabia que o amor não se apaga e isso não ocorreu com Madelaine. Ela ama como poucos, ama de verdade e profundamente. Ainda que não declare o amor, que não o macule com juras, é para sempre.

— Não me deve explicações, Juliet, — falou após uma mínima fração de segundo em silêncio — não se esforce para isso. Quero apenas saber se está bem… Continua jogando? Você não era muito boa… — finalizou rindo, mudando o viés do assunto. Ela já sabia o que desejava saber.

— Bem… eu e Oliviery jogamos, mas… ele não é bom como você… nós perdemos algum dinheiro e… estão cobrando. — comentou com certa apreensividade, desviando os olhos de Madelaine.

— Você sabe que não se pode dever para essa gente. Espero que não seja muito… — procurou novamente os olhos negros de Juliet, tentando encontrar neles o quanto aquela situação preocupara a morena.

— Bem… é uma quantia razoável… falou com um leve sorriso, tentando amenizar a importância do fato.

— Lhe ameaçaram?

— Eles… Eles nos deram dois dias para arrumar o dinheiro, senão… Bem, não se preocupe com isso, nós daremos um jeito. — ainda que com sorriso nos lábios, a expressão denunciava claramente que o temor assolava sua alma.

Madelaine, que conhecia muito bem a índole dos credores da jogatina, identificou logo o perigo que Juliet corria.

— Darão um jeito? Em dois dias? Se perderam muito dinheiro não vão conseguir recuperar em dois dias.

— Daremos um jeito, não se preocupe. — falou tentando desviar o olhar dos olhos negros de Madelaine, um pouco envergonhada por estar naquela situação.

Madelaine esperou um tempo, observando a morena à sua frente, depois, sentenciou — Vamos jogar esta noite… uma última noite para nós. Tenho certeza que ainda sei depenar os homens daqui. — concluiu sorrindo.

— Não quero que se envolva, Madelaine, isso não é problema seu… — disse tentando recusar a ajuda, envolta por um naco de orgulho.

— Só achei que poderíamos ser novamente uma dupla… mas se você não quer, tudo bem… eu não faço questão. — nas entrelinhas, trazia a tentativa de quebrar o orgulho da morena. Ela sabia que não era muito consistente, por conhecido, volátil.

— Bem… nós formávamos mesmo uma bela dupla… creio que poderemos agir mais uma vez. — expressou agora sorridente, como quem encontra uma luz no fim do túnel.

— À meia noite no Planet Hollywood, como nos velhos tempos. — disse já se levantando, com um sorriso determinado nos lábios.

— À meia noite. — outorgou Juliet, também se pondo em pé — Desculpe, deixe lhe oferecer um drink.

— Não… eu realmente tenho que ir… cheguei a pouco na cidade, vou descansar no hotel.

Madelaine realmente não poderia mais ficar naquele apartamento que tantas lembranças ele traziam. Quantas vezes as duas se amaram naquela cama, quantas carícias e juras de amores vividas naqueles cômodos. Agora sentira que o coração de Juliet não mais lhe pertencia. Madelaine agora teria que amar sozinha, viver seu amor verdadeiro que sequer o tempo e a distância conseguiu suprimir. Mesmo amando, ela tentou ser livre pela doma de seu amor. Mas ela acreditou que o amor também não se esvairia do coração de Juliet. Talvez por ingenuidade imaginou que alguém mais pudesse amar como ela amava. Ledo engano. Juliet se livrou do amor… do amor que jurava ter. Uma ferida na alma de Madelaine, mas ela ainda amava... com a mesma intensidade que dantes.

Meia noite. Madelaine chegou ao Planet Hollywood um pouco antes, entrou ao salão, pediu um drink e pôs-se a observar os fregueses para encontrar as possíveis vítimas. Sedutora, com um vestido azul turquesa de renda guipir e botas três quartos marrom. Não deixou de observar os olhares a ela direcionados… olhares pecaminosos de desejos.

Logo Juliet adentrou ao salão. Vinha ela com um longo vermelho e um salto 10. Madelaine parou o trago, sustentou ao ar a taça admirando a bela morena. Em outros tempos elas se beijariam. Agora, restava a admiração. Um naco de tristeza lhe veio à alma, ferindo-lhe a vaidade. Sim, ela ainda amava, e amava muito.

— Você está muito bela, Juliet. — disse sorridente, disfarçando qualquer possível resquício de desejo ou amor, deixando transparecer apenas a naturalidade de um elogio casual.

— Obrigado… você também não perdeu seu encanto. — retribuiu.

Madelaine sentiu na fala da morena o elogio frio. Realmente nada mais havia no coração de Juliet, mas isso já havia sido constatado anteriormente, ela não tinha mais ilusões. Agora, amaria por si só… enquanto vivesse. Conversas vagas e sem demora encontraram as vítimas. Dois bilionários russos do petróleo.

Com algumas cartas na manga entre as distrações que Juliet muito bem produzira com seu busto quase todo à mostra, não foi difícil Madelaine arranjar alguns royal flush ou full house, tirando dos bilionários pecúlios suficientes para o casamento de um lorde.

Após o dinheiro tomado, drinks e risos, já quase as luzes de Las Vegas dando lugar ao sol da manhã, as duas deixaram o Planet Hollywood.

— Creio que nos despediremos aqui, Juliet. — disse ao estar fora do cassino, já observando se um taxi estaria por ali.

— Você vai embora novamente? — quis saber, mas já certa da resposta.

— Como lhe disse, estou a caminho de Washington, devo deixar a cidade ainda hoje. Você já tem o dinheiro para pagar sua dívida, vou tranquila. — falou com desatenção, como se não fosse importante, como se nada daquilo importasse para ela.

— Está bem, você não tem mesmo vínculos… queria ser como você. — comentou sorrindo baixinho. — De qualquer forma, muito obrigada pelo que fez por mim. Se não fosse você, não sei o que poderia ter me acontecido… a mim e a Oliviery.

— Estou feliz por você… você o ama, ao que parece. — poderia não ter comentado, mas não resistiu, quis saber da boca da morena.

— Sim, eu o amo. Nós estamos vivendo bem, sou feliz ao lado dele… sinto-me segura… sinto-me amada também. — disse com expressão de verdade, a mesma verdade com que dissera tantas vezes amar Madelaine.

As palavras trouxeram ainda mais decepção à Madelaine. Uma afronta ao que ela acreditava ser amor, ao que ela imaginava existir nas pessoas, mas que talvez existisse apenas em si mesma.

— Que bom, fico mesma feliz. — disse com sua verdade, pois mesmo não estando mais no coração de Juliet como tanto tempo acreditou estar, ela ainda a amava como amou um dia, ainda que seu orgulho e sua vaidade a impedisse de dizer. Estava feliz por tê-la ajudado — Mas agora eu já vou indo mesmo. — concluiu fria como a neve.

— Um último abraço, então. — comentou Juliet envolvendo a morena menor com os sentimentos que possuía, ainda que distante daquele que pertencia ao coração de Madelaine. — muito obrigada, nunca me esquecerei do que fez por mim.

Separaram as duas. Madelaine caminhou até uma das colunas no cassino, donde à surdina, ficou observando Juliet se afastar. Logo a morena chegou a um carro que a aguardava à beira da rua. Dele saiu um moreno alto. Oliviery. Juliet entregou a ele a maleta com o dinheiro e envolveram-se em um beijo, um beijo cujo sabor Madelaine bem conhecia.

Madelaine caminhou pelas ruas sem destino. No pensamento apenas a pobreza da alma humana, o quanto é volátil o amor, o quanto ele inexiste para muitas pessoas. Talvez ninguém além dela mesma o conhecesse plenamente. Ela o conheceu e questionava se é conveniente viver em um mundo onde o amor é tão raro quanto um diamante vermelho. Ela por completo desacreditou no amor e nas pessoas que dizem o possuir. Elas dizem amar, mas não o conhecem de fato. Olhou em sua bolsa e ali estava o revolver que comprara no início da noite.

***

Um pouco antes do amanhecer, ainda sob as luzes de Las Vegas, encontraram morta uma linda mulher com vestido azul turquesa de renda guipir. Em suas mãos, um revolver.

***

Notas finais
O volátil amor!!!! Poucos sabem que ele realmente existe e é como é!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!