Sob a luz das estrelas
7 Capítulo 7: Lembranças e solidão
Notas iniciais
Talvez eu devesse gritar por ajuda. Talvez eu devesse me matar. Talvez eu não esteja ouvindo.- Sail- Awolnation
Eles tinham voltado da praia com preocupação. Rapunzel fez questão de passar no Snuggly Duckling e relatar a situação. Os caras do pub ofertaram ajuda quanto a isso e ela ficou mais tranquila. A volta para a torre foi difícil de fazer uma vez que os bandidos quase lhe quebraram o nariz por ter manchado a reputação de Rapunzel. A loira precisou interferir e mais uma vez salvou o homem das garras dos caras do pub. Ao chegarem à torre se livraram das roupas molhadas e Eugene se enrolou numa toalha felpuda enquanto esperar sua garota tomar banho. Ela preparou o jantar após o banho e ele aproveitou a ocupação dela para relaxar os músculos tensos na tina de água morna. Colocou a mesma roupa do dia em que se conheceram. Ele só tinha aquela troca. Não era sábio andar com malas por aí quando precisava correr e se esgueirar. Jantaram juntos e o dia terminou em uma sessão de beijos ousados no sofá. Subiram quando a madrugada começou e Eugene não resistiu em lhe beijar mais vezes quando a viu apenas de combinação. No fim ambos acabaram dormindo sem camisa e apenas com a roupa debaixo. A jovem adorava a sensação de sentir sua pele contra a dele e o abraçou feliz durante o sono.
Rapunzel acordou arfando e o lençol deslizou por seu corpo deixando-a com o colo exposto. Eugene sentou no mesmo instante e a olhou preocupado. Tinha o sono leve. Era uma questão de sobrevivência não dormir pesado com o estilo de vida que optou:
–O que houve?- Tocou-lhe o ombro. Ela puxou o lençol para si. Sentia-se um tanto quanto exposta com a luz do dia deixando seu quarto todo iluminado:
–Pesadelo.- Murmurou levando a mão a cabeça. Eugene a puxou para si e as costas nuas tocaram o peito quente. Ela suspirou:
–Com o que sonhou?- A jovem suspirou chorosa:
–Não me lembro.- Sussurrou estremecendo- Mas eu brigava com alguém e depois ficava em perigo mortal.
–Eu sinto muito.- Ele disse e abraçou-a protetoramente- Não queria te expor assim. Agora é uma procurada e tudo por minha causa.
–Eu não estou muito preocupada com isso.
–Bem, esse pesadelo pode muito bem ser seu medo de ser pega.- Ela se virou um pouco e o olhou com preocupação:
–Acho que seria mais preocupante se você fosse pego.
–De fato.- Ele murmurou num tom tenso e instintivamente levou a mão a garganta- Querem minha cabeça.
–Isso é mais uma daquelas expressões que não precisam ser levadas ao pé da letra?
–Infelizmente não.- Sussurrou e sentiu-se horrível por deixá-la triste e quase apavorada- Existe alguns limites que as pessoas não devem cruzar. O meu foi a coroa. Eu cruzei uma linha que não deveria e o rei quer que eu pague por isso. Com razão. Flynn Rider é um canalha arrogante e sedutor que roubou mais da metade da nobreza, o que incluí suspiros de esposas solitárias. Eu fiz muita questão de fazer piadas sobre minhas qualidades então...As pessoas tem um fraco por mim. Conseguem me odiar assim.- Estalou os dedos- Principalmente os homens.
–E Eugene Fitzherbert seria?- Ele a olhou longamente:
–Alguém que finalmente encontrou o caminho de casa após muitos anos longe. – Beijou-lhe castamente e a jovem suspirou- Eu fico feliz de nossos caminhos terem se cruzado.
–Eu também. – Ela murmurou de volta. Sentiu o queixo dele raspar contra seu ombro e sem perceber deixou o lençol cair:
–O que é isso?- Eugene perguntou olhando para um sinal quase escondido na nuca dela. Ele estava praticamente envolto pelos cabelos loiros.
–Isso?- Levou a mão a marca- É só uma marca de quando nasci.
–Mas parece o sol.- Num movimento carinhoso ele levantou boa parte do cabelo e encarou o sinal. Aproximou o rosto do local e fitou a marca mais escura. Era como se o sol tivesse lhe beijado ali e deixado o símbolo da bandeira de Corona em sua pele.- Que interessante.
–O que?
–Eu nunca ter reparado nisso.- E sem resistir sugou-lhe a pele da nuca. Ficou contente ao ver que ela se arrepiou. Mordeu o local delicadamente e ela levantou num pulo procurando a peça de cima da combinação. Eugene sorriu e jogou para ela- Você é linda.
–E você um canalha sedutor.- Resmungou fazendo-o sorrir de canto- Café da manhã!-Lembrou feliz e enfiou-se no fresco vestido azul que deixava os ombros a mostra. Ele a olhou com desejo:
–Você poderia usar modelos assim mais vezes.- Murmurou. Levantou agarrando-a e lhe dando beijos estalados pelo rosto e pescoço. Rapunzel soltou um grito quando ele lhe atacou com cócegas e fugiu dele em meio a gargalhadas.
Os quatro dias seguiram de maneira divertida e completamente deliciosa. Eugene não se contentou em levá-la a praia ou para andar de cavalo. Ele a levou para uma festa de aniversário de alguém da família de Gunther que morava numa pequena vila aos arredores da capital. No dia seguinte eles assistiram ao teatro de um dos caras que Rapunzel sabia o nome, mas Eugene não fez questão de gravar. Os sete dias que passaram juntos foram regados a descobertas e prazeres simples. A noite ela se deixava levar por seus beijos e Eugene suprimia sua própria necessidade em prol dela. Queria ir devagar, queria que ela soubesse como era bom sentir prazer para só então poder sentir também. Nesse ritmo ele a beijava onde ela deveria ter vergonha só de pensar, mas não tinha, o incentivava mais. Ele nunca tinha se preocupado com alguém além dele antes da loira:
–Então, quando acha que ela sairá novamente?- O moreno perguntou enquanto andava lentamente na direção da janela. Rapunzel deu de ombros:
–Muito provavelmente em 15 dias. Ela nunca consegue ficar o mês inteiro por aqui. Mesmo quando neva.- Eugene arqueou a sobrancelha- Mas serão viagens curtas com toda certeza.- Ele assentiu. Ao chegar a janela levou as duas mãos ao rosto dela, os dedos roçavam a nuca fazendo-a estremecer levemente e lembrar os momentos de paixão onde ele a tocou incansavelmente. — Vou sentir saudade. — Confessou arrastando os lábios nos dela de maneira lenta e cheia de vontade. Rapunzel suspirou:
–Eu também.- E sem resistir esticou a língua umedecendo os lábios dele. O moreno gemeu levemente e beijou-a de maneira profunda. Ela o puxou com força para si e deixou-se levar pela língua habilidosa e cheia de volúpia- É melhor ir.- Sussurrou se afastando mediocremente. Ele assentiu e foi para a janela. Ela se aproximou. Ainda pendurado no batente se inclinou e beijou-a lentamente:
–Você precisa me deixar ir.
–Eu não quero.- Confessou a jovem com um tom de voz triste:
–Eu volto.
–E será uma eternidade.- Respondeu continuando a beijá-lo. Pascal se colocou entre os dois e guinchou. Eles o olharam e o camaleão apontou para um desenho de Rapunzel onde tinha a representação Gothel. Eugene assentiu. Não queria que a mulher o visse dependurado na janela da torre trocando beijos ousados com sua filha- Lembre-se do combinado.- Murmurou:
–Sim.- Beijou-o mais uma vez antes de deixá-lo ir. Eugene desceu rapidamente com mais habilidade do que na primeira vez que fez isso. Andou de ré até chegar à passagem. Não conseguia tirar os olhos dela e seu peito apertava em saber que deveria deixá-la com uma pessoa suspeita. Acenou um último até breve e deixou-a. Ele aproveitaria aquele tempo para descobrir mais sobre a mulher e a verdadeira família de Rapunzel. Não se sentia seguro de deixar a loira sozinha com a figura sinistra. Ele tinha certeza que ela não era sua mãe. Só precisava checar algumas coisas antes de seguir em sua empreitada maluca. Iria até a estalagem de reputação duvidosa na estrada. Era mais perto de Arendelle, ainda assim longe tanto de um reino quanto de outro. Faria algumas perguntas sutis aos frequentadores e ao dono. O dono era amante de Gothel. Depois voltaria para Corona e se esgueiraria em meio aos registros procurando queixa de desaparecimento ou roubo de crianças há 18 anos. Não queria pensar na possibilidade que vinha o assombrando. As implicações dela realmente ser a princesa perdida eram pesadas e ele não gostaria de pensar naquilo. Se ela fosse a princesa seu relacionamento jamais seria permitido. Conforme se afastava da torre mais seu estomago pesava. Se ele descobrisse a verdade seria sua obrigação devolvê-la a família, ela precisava de pessoas que a amassem de maneira saudável. Pessoas além dele, gente que lhe mostrasse o que era ser uma mãe de verdade. Muitas crianças desapareciam de tempos em tempos, outras eram abandonadas feito ele. Tudo poderia ser apenas uma incrível coincidência. Ele rezava que assim o fosse.
________Tangled_________
Rapunzel suspirou quando ouviu sua mãe cantando para que lhe jogasse os cabelos. Ela geralmente ansiava pelas voltas de sua mãe sempre sentindo uma sensação de abandono e solidão quando ela partia, mas desde quando lhe foi negada a oportunidade de ver as lanternas aquela sensação deixou de existir. Jogou seus cabelos e puxou a mãe com esforço. Embora não doesse sua cabeça devido à mágica, seus braços sentiam tensão, assim como os ombros:
–Sentiu minha falta flor?- “Não” pensou:
–Sim!- Respondeu com um sorriso forçado. Sabia que toda sua chateação se dava ao fato de ter deixado Eugene partir e porque ao ficar na presença da mãe tinha de se controlar imensamente para não cometer nenhum deslize- Trouxe ingredientes novos?
–Pouca coisa uma vez que saí e essa dispensa estava cheia.
–Eu andei cozinhando bastante, sabe?- Suspirou- Para manter a mente ocupada.- Murmurou a última frase:
–Você e esses seus resmungos. Vamos querida. Cante para mim. Estou tão cansada.- E mal a olhou mais que uma vez. Ficou se admirando no espelho enquanto Rapunzel pegava o banco e a escova. Começou a cantar a música, mas sua cabeça estava em outro momento. Não conseguia não pensar em Eugene. O processo da mágica se fez bem mais lento do que o habitual e Gothel estranhou.- O que há minha flor?- Perguntou desconfiada:
–Mãe. Eu tenho algo para lhe contar.- Pascal saiu de seu esconderijo e a encarou em pânico. Gothel a olhou seriamente e arqueou uma sobrancelha:
–O que andou fazendo Rapunzel?
–Eu tenho um amigo.
–O que?
–Eu tenho um amigo.
–Não seja ridícula. Você não pode fazer amigos morando aqui.- Em seguida arregalou os olhos- Você saiu da torre?- E seu tom cruel deixou Rapunzel cismada:
–Não.- Olhou em volta e pegou Pascal na mão- Esse é meu amigo Pascal.- Gothel olhou para o camaleão com nojo, mas pareceu aliviada de que era apenas um bichinho:
–E de onde veio essa coisa?
–É um camaleão.- A mulher olhou-a indiferente- Ele surgiu no batente da janela enquanto estava fora e adora frutas. Posso ficar com ele?
–Você pode pegar uma doença!- Olhou-a longamente. Queria que ela tivesse apenas a si como referência. Nada poderia tirar-lhe a solidão além da mãe, mas depois pensou. Um camaleão não era tão ofensivo ou perigoso e a faria ter uma imagem boa se deixasse que ficasse com o bicho- Mas... Eu deixo que fique com seu novo amigo por sua sinceridade em me contar. Não deve esconder nada de sua mãe.- Rapunzel assentiu e foi para a cozinha com o camaleão nas mãos. Pediu silêncio a ele e suspirou:
–Mãe.- Chamou e a mulher foi para a cozinha- Você tem muito medo de sair quando vai buscar suprimentos?- A mulher a olhou atentamente:
–Eu sei me virar. Diferente de você que chega a ser patética de tão indefesa.- Riu descaradamente- Brincadeira, você é muito boa para mim flor.- E a loira sentiu uma tensão quando ouviu aquelas palavras.
Nos dias que se passaram Rapunzel testou Gothel sutilmente, como Eugene tinha lhe sugerido. Um dia ela questionou sobre a textura da grama, para induzir o pedido de deixá-la sair e a mulher prontamente respondeu que a grama cotar-lhe-ia os pés e por isso andava de sapato quando saia. Outra vez questionou sobre os príncipes dos contos de fadas e a mulher lhe disse que eles eram terríveis demônios pintados de anjos e que ela nunca deveria sair da torre. Nunca. Cada vez era mais difícil acreditar no que a mãe lhe dizia. Rapunzel começava a notar um tom não muito feliz quando a mãe lhe falava e com surpresa a jovem descobriu se tratar de sarcasmo. Mas não do tipo que ela usava para brincar com Eugene, era do tipo que deveria colocar alguém para baixo. Os dias que se seguiram ela tentou não sentir as alfinetadas sutis que a mãe lhe dava e apegava-se as lembranças de Eugene lhe dizendo o quanto era inteligente e capaz de cuidar de si. Rapunzel sentia-se cada vez mais capaz de cuidar da própria vida e quando esse sentimento a tomava ela sentia vontade de contar a mãe tudo que fez. Mas não tinha coragem, o sentimento de culpa e gratidão ainda a dominavam, apesar dos pequenos pensamentos de rebeldia. Gothel era sua mãe e mesmo que ela tivesse todos os motivos do mundo pra ter feito o que fez nada justificava a mentira deslavada de fingir não ter saído e mais ainda, mentir sobre seu relacionamento com Eugene. Durante a noite, quando sua mãe ia dormir, ela ficava até altas horas lendo o livro sobre economia e leis. Quando terminou os dois exemplares finalmente pegou o livro de romance que Eugene trouxe junto com todos os outros.
Rapunzel ficou surpresa com o conteúdo do livro. Eram descrições sobre paixões fulminantes, homens de torsos nus e lugares que tocavam. Além de tudo o amor de Clair, a personagem principal, era belo. O modo como ela sentia vontade de estar junto ao proibido pirata e todas as lutas que enfrentaram foi muito instigante. Rapunzel não via a hora de ir para a cama e assim ler mais capítulos. Ela finalmente pode entender o que era um arroubo de paixão e o que significava verdadeiramente despertar o desejo em alguém. De desejo ela entendia uma vez que Eugene fez questão de lhe beijar e tocar em lugares que a faziam desejar cada vez mais. E dessa forma a jovem compreendeu um pouco mais sobre a dinâmica de um relacionamento entre homem e mulher. Certamente achou uma tolice os personagens do livro ficarem escandalizados por Clair entregar-se a um homem que não era seu marido. Mais que marido o que importava era o verdadeiro amor e nem todos pareciam entender. Muito menos por Bae, o pirata doidivanas, ser de uma classe mais baixa que a dela. A loira ficou um pouco irritada de que todo o conflito do livro se deu porque as pessoas de fora não aceitavam seu relacionamento, mas depois a compreensão a dominou. Certamente a aprovação de sua mãe lhe era importante, e não era ela tão culpada quanto Clair por esconder seu ladrão doidivanas? O conto de duzentas páginas, umas bem mais picantes que outras, lhe deu muito o que refletir.
Certa tarde, enquanto cortava fitas para o novo vestido, parou distraidamente na frente do espelho. Queria meios de prender o cabelo sem que ele atrapalhasse tanto e não lhe deixasse com um ar infantil. Ela queria se sentir mais adulta para despertar surpresa e paixão em Eugene. Ela queria sentir-se sensual, do jeito que Clair tinha se sentido quando precisou se disfarçar de cigana para fugir de pessoas que a perseguiam e depois encontrou Bae. Suspirou olhando no espelho e puxou os cabelos de um jeito que seu pescoço ficou a mostra. Mesmo assim não era o que gostaria. Se eles fossem um pouco mais curtos ela conseguiria. Enrolou a fita de maneira elaborada no coque desleixado que fez. Bem mais da metade do cabelo ainda estava solta feito uma grande calda para trás, mas pelo menos não lhe cobria as costas e os ombros. Levou a tesoura até a fita sem perceber que boa parte do cabelo estava junto. Quando estava prestes a cortar sentiu um aperto forte no pulso:
–O que pensa estar fazendo Rapunzel?- Gritou Gothel completamente irada. Rapunzel arregalou os olhos e abriu a boca para explicar- O que eu disse sobre seu dom? Quer livrar-se dele assim sua egoistazinha?
–Eu só estava cortando a fita!- Murmurou de volta e Gothel continuou olhando-a com raiva:
–Você não pensa nos outros mesmo! Deixe esse cabelo solto. Pare de amarrá-lo e colocar seu dom em risco.
–Eu só estava cortando uma fita!- Gritou de volta- Se fosse egoísta como diz já o teria cortado há tempos!
–Hora sua!- Pegou-a pelo braço com força e desceu com raiva xingando palavreados que a moça jamais escutara. Quando finalmente chegaram ao andar debaixo Gothel puxou as fitas bruscamente, seu gesto tomado de raiva:
–Me solta!- A loira pediu- Eu não fiz nada de mais!- Gritou deixando Gothel nervosa com a falta de submissão:
– Sua egoísta manipuladora!- Enfiou-se dentro da dispensa- Vai ficar aí e pensar no que fez! Pensar que nunca mais deve encostar uma tesoura perto desse cabelo e muito menos ficar enrolando fitas idiotas nele!- Os gritos de Gothel a fizeram encolher- Ouviu bem? –Jogou-a com força e ela bateu as costas numa das prateleiras. Sentiu dor, mas ignorou. Gothel a olhou com fúria cega e fechou a porta. Rapunzel bateu com força:
–Mãe! Eu não vou fazer mais. Me tire daqui, por favor! Eu sinto muito!- Mas Gothel fingiu não ouvir. A jovem sentou-se encolhida, completamente incomodada e apavorada com o lugar pequeno e escuro. Fechou os olhos e sua cabeça doeu. Do nada ela não se viu mais com 18, mas sim bem pequena, por volta dos três ou quatro. Gothel arrancava a tesoura da mão dela e a levava pelo braço para a dispensa. Ela lhe olhou e falou algo, mas o som não saiu. Rapunzel gritou e chorou de pânico, mas Gothel fechou a porta e fingiu não ouvir. A jovem abriu os olhos e notou que aquilo foi uma lembrança. Já não sabia que podia chamar sua mãe de boa.
–Espero que tenha pensado em seu comportamento.- A mulher disse num falso tom de pesar quando abriu a porta, horas mais tarde, para tirar Rapunzel de lá. A menina não a olhou- Ótimo. Agora eu sou a vilã. – Dramatizou e Rapunzel a ignorou. Esperando qual seria a reação seguinte.- Rapunzel.- Chamou friamente- Que tipo de comportamento é esse?- A loira engoliu o pranto a olhou de maneira desafiadora:
–Você me humilhou.- E Gothel ficou surpresa com a noção dela de tal palavra- Por tão pouco! Eu lhe disse que não queria cortar os cabelos, mas você me tratou feito uma mentirosa! Você ficou descontrolada!
–Rapunzel.- Se aproximou irritada- O que quer dizer?
–Quero que nunca mais encoste em mim dessa maneira!
–Você está sendo ridícula me pintando de cara mal! Eu apenas a disciplinei, coisa que não o faço.
–Não depois que cresci um pouco mais.- Olhou-a com rancor:
–Pare de me olhar assim menina.- Advertiu e ficou aliviada quando o olhar submisso e triste voltou- Você mereceu ser disciplinada. Eu já havia dito para não forçar seu cabelo com fitas e você o fez. E quase o cortou no processo. Um castigo que seria bem vindo por sua desobediência. Não me olhe como se eu fosse a vilã da história mocinha! – Levou a mão a testa e jogou-se na cadeira da cozinha. A cadeira que Eugene sempre sentava quando iam fazer as refeições juntos- Rapunzel, tudo que eu faço é para o seu bem. É para vê-la educada, feliz, a amo tanto minha flor. No entanto quando preciso lhe repreender você age como se fosse a coisa mais horrível do mundo! Quando perco a cabeça por um segundo sou a vilã da história. – Sua voz sofrida não convencia Rapunzel. Algo que a teria feito quebrar por dentro e pedir perdão sentir-se uma filha horrível, não teve efeito algum. O ato de deixá-la gritando sozinha, de ter feito isso mais de uma vez, lhe deixou desconfiada e com medo. A atitude dela foi cruel e por muito pouco. Ela queria Eugene e seus braços protetores. Ela queria Eugene e a promessa de que tudo ficaria bem. Ela queria fugir dali e não enfrentar mais sua mãe, mas ao mesmo tempo, era sua mãe. E as mães sempre faziam tudo pelos filhos. Ela começou a arfar e sentiu as lágrimas virem com força. O sentimento dúbio de raiva e culpa a dominavam. Sentia-se ingrata, mas também sentia-se com razão, querendo sair de perto dela e nunca mais voltar. Todos os seus poros gritavam para que fosse embora e uma parte pequena de si, aprisionada há muito tempo em correntes psicológicas, lhe dizia que ela era sua mãe e ir embora seria cruel- E agora você chora. Eu lhe deixo ter um bichinho e é assim que me agradece.
–Eu sinto muito. Vou me deitar.- Disse cansada do desgaste emocional. Já estava saturada da batalha que tinha de travar. Iria explodir a qualquer momento. Ao deitar na cama percebeu que sempre precisou se conter diante sua mãe. Sempre precisou medir as palavras e procurar esconder seus desejos. Qualquer coisa parecia ser um gatilho para a mãe gritar ou lhe lançar histórias tenebrosas. Com Eugene ela podia respirar. A noção do quanto sua mãe estava errada sobre tudo lhe deixou tonta. Teve pesadelos horríveis. Acordou de madrugada sem Eugene ao seu lado para confortá-la e não podia contar com a frieza da mãe. Rapunzel nunca se sentiu tão sozinha, nem quando estavam apenas ela e Pascal na torre sem perspectivas de realizar seus sonhos. A noção daquela solidão a esmagou em meio à escuridão do quarto e sem conter-se ela chorou.
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