Sob a luz das estrelas
10 Capítulo 10: Adeus aos velhos temores
Notas iniciais
Se nossa sabedoria pudesse ser adquirida através de uma bola de cristal todo sofrimento poderia ser evitado, mas hora, sem o sofrimento não há a tal sabedoria.
–Eu pensei que ela nunca fosse ir.- Eugene resmungou quando pisou na torre. Rapunzel estava sentada na escada e o encarava seriamente. Não tinha corrido para lhe abraçar- O que aconteceu?- Se aproximou com preocupação e ajoelhou na frente dela- Ela te fez algo?- Negou- Então?- Os olhos do homem correram com preocupação por todo o rosto dela:
–Estou...Estou dando uma olhada no lugar, aqui é um dos melhores ângulos. – Ele a encarou confuso- Uma última olhada.
–Rapunzel, você está falando sério?
–Eu não quero mais ficar Eugene. Eu quero ir embora. Para longe. Para um país onde nossos rostos não estejam estampados em praça publica, onde minha mãe não possa te atingir com a loucura dela.- O homem a olhou emocionado e preocupado:
–Você tem certeza disso?- Ela suspirou chorosa:
–Tanto quanto eu queria ver as lanternas.- Ele piscou consternado:
–Wow.- Engoliu em seco- Bem. Nós podemos ir para o velho mundo. Eu tenho nome inglês então será fácil embarcar.- Rapunzel engoliu em seco- Mas teremos de ir até Arendelle. Em Corona seriamos facilmente reconhecidos e barrados no porto.
–Arendelle não fica depois das ilhas do sul?
–Sim. É uma viajem longa. Precisamos nos programar e levar pouca bagagem para não chamar atenção na estrada. Quando quer partir?
–Hoje.
–Hoje?- Ele a olhou como se fosse louca- O que aconteceu entre vocês?
–Eu não quero ficar sozinha Eugene! Passei minha vida inteira sozinha, se eu continuar aqui, alimentando a loucura dela, vou morrer em solidão!- Suplicou e levou a mão ao rosto- Não posso.- Seu tom saiu triste. As mãos deslizaram pelo rosto e jogaram o cabelo para trás- Não quero permitir que ela te leve para morte. Se ela descobrir nossa relação vai te denunciar e não interessa para onde formos...Tudo estará perdido. Entende?- Ele assentiu e comprimiu os lábios. Suas mãos acariciavam os braços dela num gesto de conforto- Precisamos sair hoje. Vamos colocar o máximo de distância entre nós e a torre. Eu não... Não suporto mais viver desse jeito.
–Rapunzel, você tem certeza disso?- Ela assentiu olhando-o nos olhos e o moreno percebeu que ela fazia aquilo principalmente por si mesma. Rapunzel tinha chegado ao limite com a suposta mãe- Ok. Vamos embora! Teremos que nos estabelecer em Arendelle por alguns dias até conseguirmos documentos para você e passagens.- Ela assentiu- Vamos fazer nossas malas?- Rapunzel assentiu novamente e jogou-se nos braços dele beijando-o ternamente.
Mais tarde, enquanto separava o dinheiro em lugares diferentes da mochila que a loira tinha feito semanas antes, Eugene observou-a escolher o que levaria consigo. Ele improvisou pequenos bolsinhos e amarrou-os numa corda para usar embaixo da roupa onde espalhou mais uma quantia de dinheiro. Eles poderiam ser roubados e uma vez que a maior parte do dinheiro precisava ir na mochila grande ele não se arriscaria a ficar a míngua sem uma moeda ao menos para passagem do navio. Precisavam se precaver e fez outro cinto daqueles para Rapunzel orientando-a a amarrar nas coxas ou nos quadris, para esconder. Ela parecia empolgada ao arrumar as coisas. A loira enfiou dois vestidos dentro da mochila, trocas de combinação e um xale grosso. Ela não tinha roupas de inverno e Eugene ficou preocupado com aquilo. Ele enfiou sua única troca de roupa junto com as dela e nos bolsos da frente colocaram itens de higiene pessoal e a caixinha de tintas que ela fez questão de levar. Eugene pegou o cobertor da cama e o enrolou prendendo em cima da mochila. Colocou-a nas costas e entregou sua bolsa de couro para ela. Ajeitou o cinto que levava no cós da calça e desceu. Ela continuou no quarto ajeitando os cabelos para que saíssem do caminho. Ele estava preocupado com a maneira como ela agia, mas ao mesmo tempo não conseguia conter um ar de indescritível felicidade. Seu peito parecia a ponto de explodir tamanha emoção. Finalmente ela decidiu se libertar. Andou curiosamente até o quarto de Gothel e abriu a porta. Aquilo não era um lar, era apenas uma cama para dormir a noite. Ele entendia muito bem de estadias passageiras. Arqueou uma sobrancelha e abriu a gaveta do lado da cama curiosamente. Franziu o cenho ao ver um punhal e engoliu em seco. Pegou aquele artefato e enfiou num compartimento dentro da bota que foi feito com aquele intuito. Rapunzel estava silenciosa e quieta e ele subiu novamente para ver se tudo corria bem. A loira estava parada na frente do espelho. Usava um vestido azul escuro de mangas compridas brancas e tecido mais quente, lembrava veludo. Embora fosse um modelo fechado Eugene pode observar as curvas do corpo e ficar ainda mais atraído por ela. Seu dom com a costura era evidente:
–Hey Blondie. Você está linda.- A loira sorriu ainda fitando o reflexo- Podemos ir?- Ela o olhou com uma expressão ansiosa:
–Sim.- Sorriu fracamente e passou a mão pelo braço dele. Usava uma trança trabalhada que deixava seus cabelos quase do mesmo jeito que ficou no festival- Nossa meus braços estão doendo.- Comentou enquanto desciam as escadas:
–Me ensine a trançar desse jeito que eu evito suas dores. – Ambos riram. A loira pegou Pascal e o camaleão se ajeitou no ombro dela. Foram para a janela e Eugene a fez agarrar as costas dele. Desceram juntos. Ao chegar ao chão a jovem olhou para a torre sentindo um nó na garganta e depois encarou Eugene:
–Está pronta?
–Mais do que nunca.- Pontuou feliz. Entrelaçaram as mãos e pela segunda vez ela atravessou a cortina de folhas.
____Tangled____
Alexandra Fitzherbert sorriu fracamente ao observar a sobrinha. Estavam no quarto da menina. Ela de braços abertos no meio do recinto enquanto uma mulher velha e gorducha ajeitava o vestido elegante de cor clara:
–Oh sim. Se colocar juízo nessa sua cabeça vai conseguir ter sucesso no castelo como eu tive em Corona!
–Por que foi embora então?- Acusou de maneira afiada enquanto revirava os olhos com tédio:
–Se sua mãe te visse agora!
–Mas ela me mandou embora!- Acusou irritada e bufou- Eu odeio esses vestidos. Eu não quero ser dama de companhia de uma rainha estúpida!
–Me falaram o que aprontou aquele pobre vendedor de gelo!
–É o Kris! E ele é um idiota! Só preguei uma peça e ele ficou todo nervoso!
–Você não é mais uma menina Joanne!
–Joe!
–Joanne!- Advertiu irritada:
–Joe!- Gritou de volta quando a costureira picou seu quadril com a agulha- Tia! Por que não posso viajar por aí? Qual o problema? Por que você não pode ficar mais com a rainha? Por que eu tenho que ir?
–Porque eu e sua mãe queremos que tenha um futuro!- Joanne sorriu de canto sarcasticamente e bufou:
–Já parou para pensar que meu futuro envolve muito mais aventuras do que arrumar um marido nobre?
–Você não tem opção.
–Essa é sua frase favorita! Levou-a bem a cabo em sua vida ãh?
–Fayet nos deixe, por favor. — Pediu e a costureira saiu de olhos arregalados. Alexandra andou até a porta e fechou com brusquidão. Encarou a sobrinha com os olhos injetados e lhe desferiu um tapa dolorido- Nunca mais toque nesse assunto.
–Qual seu problema? Como teve coragem de se importar assim com os outros ao ponto de renegar o próprio filho?- A jovem Joanne arfava e estava com a mão no rosto, os olhos castanhos encarando a tia com tristeza- Eu costumava te idolatrar! Bem dizem! Se você tem um herói evite conhecê-lo!
–Você não pode entender!
–Eu posso sim! Posso entender como deu importância a sua vida de nobreza e não quis estragar tudo! Seu passaporte para ser igual Eleonor!- Resmungou numa voz afetada imitando alguém nobre de maneira desdenhosa- Mas você não é igual a ela. Não passará de uma plebeia que casou com alguém de sangue azul! Que continua lambendo as botas de reis e rainhas!
–Cale essa boca! Cale essa boca!-Gritou com o rosto completamente vermelho- Joanne, você tem 24 anos! Passou da idade de casar! Edward é primo das rainhas de Corona e Arendelle. Ele é o primeiro na linha de sucessão para o título de conde, o pai dele é primo das duas rainhas. Os dois reinos querem nossas famílias unidas! Você vai para aquele castelo quer queira ou não!
–Eu não quero mentiras e eu sei que se for para aquele palácio cheio de segredos eu vou acabar feito você!
–Você não tem opção.- A tia levantou o queixo e a encarou friamente- Eu não fiz o que fiz para você acabar feito uma ninguém. Nossa família demorou a conseguir entrar na nobreza, você não vai estragar tudo!
–Eu não quero!- Gritou:
–Não tem opção.
–Eu te odeio! Odeio vocês! Odeio as duas, você e mamãe por terem me obrigado a isso!- Joanne estava fula da vida.- Você só ficou comigo porque era conveniente. Por que viu benefícios.
–Eu te amo Joanne!
–E o garoto que largou no orfanato? O amava também? O que aconteceu com ele?
–Como soube disso? Andou se metendo onde não devia de novo menina?
–O que aconteceu com ele?- Gritou num tom nervoso:
–Eu não sei. – Sentou na cama e encarou a sobrinha com lágrimas nos olhos- Acha que não me atormento dia após dia com essa culpa? O que acha que fiz quando voltei para o país dos oceanos? O que acha que fiz? Eu o procurei durante anos. Mas os padres disseram que ele fugiu em um navio mercante. Ele desapareceu. Pode estar nas colônias hoje em dia. Nunca mais vou achá-lo. E não tem um dia sequer que não me arrependo de tê-lo deixado, de olhar nos olhos dele e mesmo assim deixá-lo. – Começou a chorar e Joanne engoliu as lágrimas- Por que acha que quero você bem? O que acha que senti quando padre Carter me disse que...-Ela soluçou- Que ele foi infeliz? Que ninguém queria ser amigo dele por minha causa!- Levantou gritando – O que acha que sinto todas as noites quando deito no travesseiro? Acha que fico bem? Acha que durmo tranquila? Eu não sei o que houve com meu menino. Não sei e temo que eu morra sem lhe pedir perdão!- Joanne sentiu as lágrimas virem, mas as segurou- Eu era jovem Joe! Eu era jovem, imatura, descuidada e completamente desamparada. Foi a única...
–Um filho deveria vir primeiro que qualquer reputação!- Ela gritou para a tia e a mulher soluçou entre o pranto:
–Eu sei!- Gritou desesperada- Eu sei, mas eu era jovem e não era forte feito você. Nunca fui.- Fungou- Mas então vi os problemas que você dava a sua mãe. Pensei que poderia ajudar.- Levantou e tocou-lhe o rosto- Uma segunda chance e eu...- Suspirou:
–Eu não vou usar essas coisas!- Arrancou o vestido do corpo e colocou calças masculinas e uma camisa branca- E se você pensa que me casando com o filho do homem que amou vai satisfazer seus sonhos está muito enganada!- Rosnou e siau tempestivamente:
–Joanne!
–Joe!- Esbravejou. Alexandra suspirou e foi atrás da jovem- Não vou jantar aqui!
Alexandra engoliu as lágrimas e foi para a cozinha. Ouviu a porta da frente bater quando sua sobrinha foi para a rua e soluçou dando vazão as lágrimas. Se pudesse usar uma borracha para apagar a sucessão de erros que cometeu ela teria feito. Foi sincera ao dizer aquilo para a sobrinha. Não tinha se passado um dia desde que deixou o menino no orfanato em que ela não pensasse nele. As lembranças a sufocaram e ela chorou.
27 anos atrás
–Ah Alexandra!- Eleonor entrou na biblioteca vazia com os olhos marejados- Foi feito. – A jovem de 17 anos e grandes olhos verdes a olhou com súplica- Papai o fez. – Suspirou- De conde a realeza.
–Eu sinto muito Eleonor. Sei como queria mais tempo.- Murmurou triste. De condessa a realeza. Alexandra não via muita diferença naquilo:
–O casamento será em um ano e eu nem o conheço. Será a mesma coisa com minha irmã depois.- Suspirou- Ele conseguiu achar utilidade para as filhas mulheres.- Fungou- Terei de casar com o príncipe!- Engoliu em seco- O rei já arranjou um casamento para minha irmã! E ela só tem 16!- E colocou-se a chorar. Alexandra consolou-a até que Eleonor se acalmasse- Eu nem digo por mim. Sendo a mais velha sabia que teria de me casar logo, mas a pobre Natália! Ela queria ver o mundo, ao menos conhecer algum reino vizinho! – Soluçou:
–Talvez esses príncipes sejam educados e bons maridos. Fiquei sabendo que o pai do mais velho está tão doente que ele logo assumirá o trono. O homem precisa de uma esposa.
–E por que eu? Por que não uma duquesa, baronesa, ou seja o que for?-Soluçou- Eu sei. Condes são o mais próximo de realeza e eles precisam manter o sangue.- Colocou-se a chorar- Eu estou tão apavorada. Tão apavorada por Natália*. Ela terá de se mudar para Arendelle em um ano! Ficará longe de nós! Minha pobre menininha.- Alexandra continuou consolando Eleonor. Embora a futura rainha fosse apenas um ano mais velha que a irmã era muito mais centrada e ajuizada. Enquanto Natália queria ver o mundo em aventuras e diversão Eleonor se preocupava com educação e não largava os livros- Eu não saberei ser rainha, nem eu nem Natália. E os outros dizendo que papai e mamãe ganharam na loteria.- Soluçou e deixou-se chorar.
Os meses passaram rápido e Eleonor viu Frederic apenas uma vez. Ele era apenas quatro anos mais velho que ela e gastava muito tempo correndo atrás do irmão problemático ou tratando de assuntos que o pai já não podia opinar devido a idade avançada. Era um jovem bonito e sério e sua postura austera deixaram os medos da futura rainha ainda maiores. Alexandra se compadecia pelo sofrimento das irmãs, principalmente de Eleonor e tentava ajudar. Faltando seis meses para o casamento a família da condessa se mudou para o palácio. Era um costume no reino. Alexandra ajudava Eleonor a escapar de algumas aulas chatas para passearem pelo jardim e ficarem mais calmas. Natália as acompanhava nesses passeios já que se ficasse sozinha tentaria fugir ou acabaria se metendo em brigas. Eleonor já estava uma pilha de nervos com a irmã rebelde. Numa tarde ensolarada nos jardins encontraram o primo da futura rainha. O pai dele era um dos conselheiros do rei e por esse motivo Alexandra nunca tinha botado os olhos nele, o jovem vivia no castelo com o pai. Foi dessa forma que Eleonor tinha conseguido o casamento. Quando as irmãs se casassem o título de conde ficaria com o primo:
–Olá.- Piscou para as três, o seu queixo era quadrado, os cabelos escuros que caiam graciosamente e os olhos castanhos mais belos que Alexandra já tinha visto. Era tão diferente de toda sua família tão loira e pálida. Quando ele piscou daquela maneira despretensiosa e as brindou com um sorriso a jovem dama de companhia sentiu o coração saltar. Ele tinha um nariz longo e que lhe dava uma beleza masculina muito característica — Frederic meu senhor. Veja quem achei por aqui. Minhas primas!- O homem era tão diferente de Eleonor que Alexandra não acreditava que podiam ser parentes. O príncipe apareceu e olhou para as três damas de maneira cortês:
–Senhorita Sach.- E ficou claro para Alexandra que o príncipe tinha se encantado com Eleonor pelo jeito que a olhava. A dama de companhia ficou mais aliviada quando Frederic estendeu o braço para Eleonor e ela aceitou com um sorriso tímido. Natália parecia um tanto quanto ofendida quando viu a irmã andando para longe com o homem:
–Está tudo bem?- O primo de Eleonor questionou preocupado. Natália bufou, um comportamento nada principesco, e sentou no banco do jardim. Alexandra notou que ele não tirava os olhos de si:
–Qual seu nome senhor?- A dama de companhia perguntou e Natália olhou para ambos com interesse:
–Harison Eugene Sach. – O sorriso que lhe brindou ao falar o nome foi o ponto de partida para a queda dela. O jeito que se olharam, a maneira como ele flertou. Foi tudo tão evidente que em um mês Eleonor já sabia o que se passava no coração de sua dama de companhia. Em um mês ele sempre fazia questão de falar com ela, brincar, provocar, saber tudo sobre ela e entrar cada vez mais em sua vida:
–Alex. Tome cuidado.- Disse a futura rainha- Meu primo tem um casamento arranjado. Daqui dois anos ele se casa com uma duquesa daquele reino a beira mar.
–Aquele distante onde existem lendas sobre o povo do mar?- Eleonor assentiu. Estavam no quarto da futura rainha e conversavam apreciando a vista da janela. A lua estava alta no céu. Ouviram um som no cômodo ao lado- A não Natália! De novo não!- Pediu chorosa e correu até a varanda do quarto. Se pendurou no balaústre e viu a irmã descendo por uma escada de lençóis- Você vai acabar se matando Natália!
–Então morrerei livre!- Gritou de volta:
–Creio que nesse caso eu já esteja envolvida o bastante!- Respondeu escalando de um quarto para o outro e descendo junto com a irmã. Alexandra suspirou e saiu para alertar os pais da condessa o que a filha mais nova estava fazendo, novamente, mas não chegou tão longe. Viu Harison esgueirando-se pelos corredores antes que pudesse alertar alguém:
–Senhor Sach.- Chamou escandalizada. Ele deu um sorriso largo:
–Então me pegou com a mão na massa.
–Já passa das onze senhor. Creio que deveria estar em seu dormitório.
–Creio que está adorando me ver.- Sorriu de lado e Alexandra o olhou cética. Ele fez um bico- Eu sinto muito. Estava prestes a sair para fazer coisas indevidas.- Alexandra corou:
–Coisas indevidas?
–Uma aventurazinha até um pub de má reputação. Tenho um fraco por esse estilo de vida! Alguém da nobreza não pode viver esse tipo de aventuras.- E a jovem de cabelos loiros já estava na dele quando o homem se aproximou sorrindo de canto, um jeito travesso que o deixava sensual.- Pode guardar meu segredo?
–Acho que sim.- Ela sussurrou quase escandalizada. Ele piscou o olho direito e a mulher sentiu o corpo esquentar com aquele gesto- Você é linda.- E se aproximou mais- Sinto muito por meter esse anjo loiro em meus pecados.- E encarou os olhos castanhos da mulher:
–Creio que essa proximidade não seja adequada.- Alexandra finalmente agradeceu que sua pele fosse mais bronzeada do que de toda sua família assim ele não a veria corar:
–A quem?
–A...Uma jovem solteira e...-Suspirou quando as mãos dele tomaram sua cintura- Perdidamente apaixonada.- Ele sorriu e inclinou-se beijando-a de maneira lenta e sensual. Alexandra pensou que poderia morrer com aquele beijo. Logo ela que nunca tinha se atrevido a beijar rapaz algum. Sem resistir passou a mão pelos cabelos escuros dele:
–Então é muito inadequado para um homem perdidamente apaixonado beijar uma jovem perdidamente apaixonada?- A declaração dele a fez ganhar o céu e o romance proibido foi tomando espaço em sua vida. Eles não conseguiam manter as mãos longe um do outro ou disfarçar os olhares durante o dia. Ela entregou-se de corpo e alma a ele e embora perdidamente apaixonado ele não seria capaz de dizer não aos pais e ser deserdado. Não seria capaz de acabar com a reputação dela e da família dele. Faltando apenas um mês para o casamento de Eleonor a jovem Alexandra ficou grávida. Aquilo não poderia acontecer naquele momento. O futuro marido de Natália era o príncipe herdeiro de Arendelle, uma vez que seu tio, o rei atual, não tinha tido filhos. E Arendelle era um país religiosamente rigoroso. Um escândalo daqueles não seria perdoado, ela acabaria com a reputação da família de Frederic e até mesmo com o casamento de Eleonor. Todos já estavam abalados com a iminente morte do rei. Natália, a irmã mais nova de Eleonor, ainda não se conformava com o casamento e o momento era o pior de todos. Após o casamento de Eleonor a jovem dama de companhia contou ao amado a notícia de que carregava um filho no ventre. Ele entrou em pânico e acabou tudo o que tinham rumando para o país distante onde apressou o matrimonio com a duquesa antes que a jovem grávida contasse aos outros sobre o filho e fossem obrigados a desmarcar o casamento arranjado pelos pais. Alexandra ficou sozinha. Decepcionada e sem saber como resolver o problema caiu em profunda tristeza e ficou doente. Os enjoos da manhã persistiam por todo o dia devido a seu estado emocional. Pediu perdão a Eleonor e Natália e disse que precisava ficar com a mãe até melhorar. As irmãs entenderam a situação e a jovem voltou para a casa afastada onde morou em sua infância. Contou tudo o que houve a sua mãe e a senhora escandalizada com a má sorte da filha teceu o plano:
–Vamos para Inglaterra. Morar com a minha irmã. Disse que seu marido era um guarda e morreu há 5 meses. Esperaremos para saber.
–Velha Inglaterra?- Sussurrou com medo da distância. Porém os planos da mãe não foram bem. Harison voltou para Corona, o casamento seria para breve, mas ele não esqueceu a jovem e não descansou até que a encontrou. Desesperada de que o escândalo pudesse emergir a mãe de Alexandra tentou adiantar a partida. Com medo de que o homem convencesse sua filha a passar a vida inteira como amante a mulher fez seu jogo:
–Alexandra. Sua tia a aceitou na casa dela. Com uma condição. Uma que irá exigir todo o seu esforço.- A jovem a olhou chocada- Terá de se desfazer dessa criança bastarda.
–Como? Me desfazer do meu filho... Eu... Não... Eu...
–Minha querida. Sach não te ama. Ele não vai deixar de casar com a duquesa pela dama de companhia da rainha. O que acha que vai acontecer a esse menino? Antes órfão e sem saber a podridão a qual foi concebido do que ser marcado como fruto de pecado. Não acha?- Ela soluçou entre o choro- Alexandra. Sua tia até tem um futuro bom para você. Pode se casar com alguém da nobreza inglesa. Mas não vai conseguir com essa criança. Você precisa fazer o melhor por esse bebê. Preste atenção. O orfanato não é tão ruim. Eleonor é rainha agora e saberá o que está acontecendo lá dentro. Ele não vai sofrer ou passar fome. Os padres são bons e ele jamais precisará saber que é uma vergonha!
–Não! Eu não vou fazer isso!- Gritou e saiu correndo. Não se importou que as pessoas da capital a vissem de barriga grande. Não se importou com absolutamente nada. Sabia onde encontrar Harison àquela hora da noite. Entrou no primeiro pub que viu e o encontrou nos braços de uma prostituta:
–HARISON!- Gritou com tristeza. Ele a olhou culpado e se aproximou- Eu pensei que me amasse.- Gritou mais uma vez e começou a socá-lo. O homem a segurou tentando acalmá-la. Estava bêbado como a maioria dos frequentadores. Ninguém a reconheceria com aquele véu na cabeça e roupas de camponesa- Pensei que ficaríamos juntos eu pensei...Que ao voltar pra mim agora, estava decidido. É assim que sofre por meu amor? Nos braços de uma meretriz de quinta categoria?
–Eu não posso causar um escândalo desses rejeitando a podre duquesa! Meus pais me deserdariam. Serei a mão do rei após esse casamento. Frederic quer que eu fique no lugar de meu pai quando ele assumir! Eu te amo mas...
–Mas não o bastante!- Ela gritou com os olhos molhados- O que... O que será dessa criança? Será motivo de vergonha?
–Não!
–Harison me garanta!- Agarrou-o com desespero- Me garanta que essa criança terá um futuro digno ou eu vou embora para Inglaterra e você nunca mais me verá! Nunca mais! Dê seu nome a essa criança. De seu nome a ela!
–Eu não posso Alexandra. Sabe que não posso, sabia disso desde que nos conhecemos.- Ela arfou sentindo toda a dor do mundo. Começou a chorar desconsoladamente e ele a tocou o rosto- Não me toque! Isso me machuca! Está olhando bem o que fez comigo? Porque essa é a última visão que terá da única pessoa que te amou de verdade! Durma assombrado com ela!- Gritou e saiu do bar.
A jovem dama de companhia chegou em casa aos prantos e durante as semanas que se seguiram antes do parto ela caiu em tristeza profunda. Sua cabeça maquinando. Quando pegou o filho pela primeira vez nos braços, ainda suada e cansada na cama, seus olhos marejaram:
–Mãe.- Sussurrou olhando para o pequeno em seus braços- Se parece tanto com ele.- Chorou e a mãe a olhou com dor no coração. O menino tinha a pele mais amorenada e cabelos escuros o nariz, podia-se ver, seria idêntico ao do pai. Ele era filho de Harisson. Bastava olhar e se confirmaria- Eu... Se eu fosse da nobreza, se tivesse um título em nosso nome... Meu menininho não precisaria sofrer.
–Já disse que pode poupá-lo disso. E mais. Você pode poupar seus futuros filhos disso.- Alexandra fungou assentindo:
–Você tem razão.- Olhou o pequeno nos braço- Diga a minha tia que não aceito nada mais do que condessa.
–Você enlouqueceu?
–É o único título que faria Harison desprezar aquela duquesa. Se eu fosse acima. Quero voltar um dia e mostrar que venci. Se titia conseguiu um casamento nobre para minha irmã conseguirá um para mim.
–Para isso você precisa esquecer esse menino.- Olhou-o vendo os traços de Harison e sentindo o coração pesar:
–Eugene. – A mulher piscou confusa- Eugene Fitzherbert. Uma combinação que nunca deveria ter existido.- E ao dizer isso chorou desconsoladamente. O bebê começou a resmungar de fome e antes que ela pudesse amamenta-lo a mãe o tomou nos braços:
–Não o alimente.
–Nem ao menos uma vez?
–Será mais difícil se o fizer. Mais um laço a ser quebrado e se machucar. Está fazendo o melhor para todos minha querida.- Mas ao assinar a carta de renuncia no orfanato Alexandra não se sentiu nenhum pouco melhor. Seu coração estava tão pesado que ela mal conseguia andar.
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