Sob a luz das estrelas

4 Capítulo 4: Passado e desconfiança


Notas iniciais
N/A: Sem betagem mais relido. Obrigada a quem comentou. Fico muito animada em continuar quando isso acontece. P.S: Cap maior que os outros.

Atiramos o passado ao abismo, mas não nos inclinamos para ver se está bem morto.

William Shakespeare

Eugene esgueirou-se por outra rua e quase foi pego por mais um guarda. Suspirou. Ninguém podia vê-lo ou ficariam bem mais em alerta e ele jamais sairia da capital outra vez. Viu um grupo de adolescentes passar em frente à biblioteca e aproveitou a distração de um dos guardas com as meninas bonitas para se esgueirar pela construção. Logo estava dentro do lugar. Ficou parado atrás de uma coluna majestosa e quando viu a morena do balcão se aproximou. Ninguém estava à vista, apenas ele:

–Hey doçura.- Piscou para ela. A jovem mulher o encarou com um sorriso bonito:

–Flynn.- Ele sentiu estranheza ao ouvir aquele nome, quase o mesmo sentimento de quando o usou pela primeira vez- Por onde andou?

–Bem.- Se aproximou do balcão e deu uma piscadela- Problemas com os guardas e uma coroa.

–Então é verdade?- Ela o olhou com luxuria- Você realmente roubou aquela coroa dentro do salão principal do castelo?

–Com uns dez guardas no mesmo local que eu.- Se vangloriou. Ele podia sentir a excitação da garota por seu feito. Ela suspirou:

–Consegui seus papéis. Receio que não seja muita coisa. Mas pode levar a uma outra busca.- Eugene sorriu contente- E você esqueceu uma coisa aqui da última vez que veio sozinho.- Cutucou ciumenta. Se ela soubesse o que ele estava arriscando por Rapunzel aí sim teria motivos para aquele tom- Sempre pensei que preferisse as morenas Rider.- Sussurrou sensualmente. Flynn sorriu. Sim, Flynn. Aquele era o típico sorriso sarcástico para sair de uma situação indesejada, mas que por algum motivo, deixava as garotas mais histéricas ainda:

–O que esqueci?

–Aquele seu livro de título apagado.- Entregou-lhe um velho exemplar de capa verde. Estava tão gasto que quase ninguém reconheceria:

–Você leu?- A garota deu de ombros e pegou outro livro:

–Estava vendo esse aqui.- Mostrou a capa de um romance. Um homem moreno e musculoso e uma ruiva com olhar apaixonado- Me fez lembrar muito seus beijos.- Flynn sorriu falsamente e piscou para ela:

–E meus registros doçura?

–Ah sim!- A menina abaixou e mexeu em alguma gaveta- Sabe quem veio aqui semana passada?- Eugene revirou os olhos. Ela procurava os papéis dele enquanto falava- A rainha. Veio abastecer algumas sessões e pegar alguns livros para a leitura mensal no orfanato.- Isso o colocou em alerta- Ela viu seu livro em cima da minha cadeira o folheou e ficou super interessada sobre o dono. Que mulher mais peculiar não é?- O coração do homem apertou levemente e o nó ansioso em sua garganta o deixou incomodado. A morena bonita levantou- Prontinho. – Entregou alguns rolinhos de papéis amarelados a ele.- Fiz tudo ao meu alcance querido.- Ele assentiu. Uma ansiedade tomando conta de seu ser:

–Muito obrigado docinho.- Piscou-lhe o olho e de quebra ainda lhe deu um beijo estalado na bochecha. A jovem quase se derreteu no chão.- Posso levar esse seu livro?

–Leve-me o que desejar.- Insinuou sorridente. Ele assentiu e pegou o livro dela. -Já volto.- Sumiu dentro da biblioteca e voltou um tempo depois:

–O que pretende fazer com tantos livros? E tão diferentes. Economia, história...Anatomia. Se não te conhecesse diria que está prestes a virar professor.- Flynn sorriu, ficou com o rosto rente ao dela, a distração da jovem o fez pegar suas coisas sem que ela percebesse:

–Você não me conhece boneca.- Sorriu maldosamente e se afastou, finalmente saindo dali. A jovem morena que ele não lembrava o nome ficou para trás se abanando com um lenço branco. Ele ganhou as ruas rapidamente e precisou ser bem mais cauteloso. Algo no comportamento dos guardas o fez tomar mais cuidado. Eles pareciam mais alertas que o normal. Andou pelos quintais das pessoas, por trás das casinhas. Um menino correu esbarrando nele quando estava na praça central. Suas coisas caíram e ele começou a recolhê-las irritado. Acompanhou o garotinho com o olhar e o viu depositar algumas flores no quadro da família real. Eugene se lembrou do que Rapunzel disse sobre a mãe:

–Bem. Aposto que o rei e a rainha também trancariam sua filha numa torre depois do que houve.- Olhou atentamente para a pintura e piscou, um tiro de adrenalina correu por seu corpo. Ele sentiu-se louco por pensar algo como aquilo. Seria apenas uma coincidência imbecil. Apenas aquilo. Olhou para o livro em sua mão e seu estomago pesou amargamente. Não queria cogitar aquela suspeita. Seria um belo castigo e azar de mais, por causa do roubo da coroa, ter se apaixonado pela princesa perdida. Chegou à conclusão de que sua suspeita era absurda. Correu até a ponte de ligação. Ali ele precisou ser engenhoso. Enfiou-se numa carroça de feno antes que pudessem vê-lo e assim que sua nobre carruagem saiu da ponte ele saltou. O condutor se assustou e o xingou sem parar. Não poderia voltar para Rapunzel, pelo menos não poderia entrar. Não quando sua mãe estava lá.

Quando se embrenhou na floresta encontrou um lugar seguro e longe do Snuggly Duckling. Os guardas faziam rondas constantes por lá. Seu cartaz de procurado ainda estava espalhado por todo o reino. Chegou à conclusão de que as pessoas da capital eram bem desligadas ou ocupadas de mais por não notarem sua figura. As mulheres certamente o fizeram. Aconchegou as costas contra uma árvore e ficou sentado no chão. Tirou os laços dos rolinhos de papel e esticou-os. Eram registros da família Fitzherbert. Propriedades que ele pode ver, foram tomadas por credores e agora pertenciam a outra família. Pode ver o registro de chegada do primeiro Fitzhebert a Corona. Tinha vindo de um navio inglês. Se perguntou se ele tinha família por lá. Depois nomes aleatórios que não o levariam a lugar algum. Quando chegou ao segundo papel finalmente viu. Alexandra Fitzherbert. Era o último nome da lista antes do dele. Sentiu um nó na garganta e encarou aquele nome por um tempo longo. Passou para o terceiro papel. Era um registro de embarque de Alexandra. Ela tinha se mandado em um navio para a Inglaterra. O quarto e último papel estava anexado ao comprovante de embarque. Ele pegou aquilo com receio. Era uma declaração de incapacidade. Ela tinha lhe deixado no orfanato e existia um documento para comprovar. Ele sabia como aquilo funcionava. Crianças bastardas jogadas no orfanato precisam de qualquer coisa que lhes dessem segurança. Caso fossem adotadas por outra família era preciso uma garantia de que os pais verdadeiros não a tomassem do novo lar. Correu os olhos avidamente pelo papel e viu a assinatura de sua mãe no final. Era uma letra trêmula, mas bonita. Franziu o cenho sentindo um nó quente na garganta. Jogou aqueles papéis com raiva:

–O que eu estava esperando? Uma carta de despedida?- Se perguntou e limpou uma lágrima teimosa que caia de seu olho. Ele fora atrás de seus registros um pouco antes de roubar a coroa a fim de saber para qual país se mandar quando a coisa ficasse feia. Algum país bem longe que não precisasse de autorização. Ele sabia que era Inglês ou de algum país próximo devido ao seu nome. Precisava confirmar onde teria passe livre para se mandar. Finalmente tinha acesso àquela informação e aquilo o atingiu mais do que deveria. Olhou para o lado e viu o livro de Flynnigan Rider jogado no chão. Pegou o velho exemplar e passou a mão com cuidado pela lombada. Lembranças o inundaram. Quantas vezes ele não dormiu com aquele livro agarrado ao peito? Perdeu as contas de quantas vezes represou as lágrimas ao se perguntar quem eram seus pais ou porque eles não o queriam e nessas ocasiões agarra o livro contra si.

Corona não tinha muitos órfãos e os que tinham geralmente chegavam lá de maneira trágica. Um incêndio, um naufrágio ou assassinato. Ele não, todos sabiam. Ele era um filho bastardo de algum rico. Indesejado pela própria família. Isso foi motivo para ser deixado de lado. Perdido em suas fantasias. Ele lia para as crianças mais novas até elas enjoarem de seu mesmo livro e o acusarem de ser um mau leitor. Aquele livro era o único presente que tinha realmente gostado de ganhar. Um presente da rainha. Meses após o desaparecimento de sua única filha ela começou a aparecer no orfanato para contar histórias. Eugene ficou tão feliz e encantando com as aventuras de Flynnigan que a mulher lhe presentou com o volume e lhe confessou com carinho que aquele fora um de seus livros preferidos na infância. O garotinho se sentiu muito importante por receber um presente tão valioso da rainha e o guardou com todo o amor. O livro foi o responsável por fazê-lo buscar uma vida ao mar. O rico fanfarrão dos contos teve algumas aventuras em alto mar e o garoto queria seguir seus passos. Eugene nunca imaginou que aquilo o fosse levar a uma vida de roubos e noites fogosas em companhia de mulheres bonitas.

Ele sorriu para si mesmo ao abrir o livro cuidadosamente. Se a rainha soubesse que seria responsável por criar o maior patife do reino jamais teria lhe dado aquele livro. Tinha quase certeza de que Rapunzel adoraria lê-lo.

_____Tangled_____

Gothel arqueou a sobrancelha quando ouviu a filha cantarolar. Ela não fazia aquilo desde o aniversário. Saiu de seu quarto e se aproximou da sala. Ela estava com seu violão sentada no sofá perto da janela e dedilhando notas aleatórias. Gothel se impressionava com a inteligência da jovem, apenas por ler um livro sobre instrumentos musicais tinha feito o seu e aprendido a tocar alguma coisa. Ela não falava isso para a jovem. Não queria que ela se sentisse autossuficiente. Aquilo a levaria a sentir-se forte o bastante para deixar a torre. Ela precisava acabar com a estima dela, deixá-la sempre insegura e com medo para que nunca quisesse deixa-la. Um prisioneiro da própria mente era bem mais fácil de manter:

–Vejo que está bem bom humor.- Resmungou e a menina pulou:

–Meu período passou.- Respondeu simplesmente e continuou dedilhando as cordas do violão:

–Já fez suas tarefas?

–Sim mãe. Você acordou tarde hoje.- O jeito que ela não a olhava ao falar a incomodou. Gothel tinha esses constantes arroubos. Mudanças de humor de uma hora para outra:

–Olhe para mim enquanto falo com você.

–Ou. Desculpe mãe.- Sorriu a encarando- Fazia tempo que não pegava meu violão.- Sorriu empolgada. Gothel levou a mão a testa. Aquilo a irritava, o constante bom humor mesmo quando levava uma bronca. A necessidade da pequena flor em lhe agradar às vezes a deixava doente. Ela não tinha obrigação alguma em agradá-la. Era culpa de seus pais que tivessem roubado a flor do sol em primeiro lugar. Ela só estava retribuindo o favor ao roubar a flor da vida deles. E tinha saído no prejuízo. Ter que cuidar daquela menina a vida inteira, mantê-la escondida e por fim se isolar enquanto tinha de criá-la. Ela perdeu boa parte de seus hábitos por culpa daquela coisinha. Mas ela deveria imaginar. Um dia pagaria o preço por usufruir do sol. – Está tudo bem?

–Estava vendo o quanto está gordinha Rapunzel.- Sorriu- Comeu muita torta sozinha eu acho!- Provocou. Era uma mentira. Rapunzel era magra e carismática. Tão bem de olhar quanto a rainha. Elas eram muito parecidas e por isso ela jamais poderia sair da torre. Qualquer pessoa mais próxima da rainha veria a semelhança, mesmo os cabelos loiros não eram suficiente uma vez que eram tão parecidas quanto gêmeos. Sua flor deveria ficar bem longe do palácio e da capital. Qualquer vislumbre da rainha sobre ela seria o suficiente para a verdade aparecer:

–Mãe.- Murmurou e colocou o violão de lado. Gothel conhecia aquele tom e aquele olhar. Foi o mesmo para falar sobre as lanternas e sobre sair. Bufou:

–O que Rapunzel?- Seu tom seco foi proposital:

–Bem. Eu queria saber sobre...Sobre a nossa família.

–O que está dizendo? Nossa família somos eu e você.

–Mas os livros de contos...-Bufou- Sempre há tios e avós e pais. Por que somos só você e eu?

–De novo essa história Rapunzel?

–Por que as pessoas dos livros tem dois nomes? O que é o casamento? O que é um padre e o que é deus?

–Já chega Rapunzel!- Gritou Gothel assustada com todas aquelas perguntas. Sentou no lugar onde a filha estava anteriormente e a encarou irritada- Você fica horrível de verde Rapunzel.- Criticou. Tinha dito a mesma coisa sobre o vestido azul. Odiava quando a jovem usava roupas mostrando os ombros e que delineavam mais seu corpo. Lembrava de que ela não era mais uma criança e sim uma adulta atraente e aquilo lhe tirava o sossego. Se ela não era mais criança poderia sair por aí e aquilo a apavorava- Você lembra a história de João e Maria? Que o pai vendeu seus filhos para a bruxa da casa de doces?- Rapunzel assentiu- E João o irmão horrível quase jogou Maria no forno junto com a bruxa apenas para safar a própria pele? Ele fez isso porque era um menino e se tornaria um homem e a semente do mal está dentro dessas criaturas. Eu nunca lhe disse isso porque era jovem de mais. Mas agora tem idade para saber.- A encarou severamente- Seu avô jogou um feitiço em sua avó, a usou, a rasgou inteira por dentro e quando eu nasci ele a matou.- Rapunzel arfou- Então ele viu que eu não era um menino e me vendeu.- Mentiu dramaticamente- Quando cresci um homem tão horrível quanto ele me forçou a ter você com a coisa horrível que guarda dentro das calças. Eu não lhe joguei fora Rapunzel porque te amo muito minha flor, mas foi difícil olhar para você e não lembrar do que sofri. Mas então eu vejo seu sorriso.- Segurou o queixo dela e sorriu- E isso é o suficiente para esquecer a dor que passei.- Murmurou por fim- Entendeu porque nunca falei sobre família? Família, apenas nós duas. O mundo é cruel e esmagara cada expectativa que tem sobre ele. Então você encontrará homens que querem fazer mal a você! Eles são iguais demônios. Feios, deformados e animais. Homens são assim e o mundo é povoado deles.

–Então porque você sempre saí?- Gothel a encarou surpresa- Se é tudo tão cruel?

–Eu me sacrifico.- Pensou rápido- Vou atrás de alimentos e cubro rastros de nossa localização para que homem algum possa te encontrar minha flor. Entendeu agora?- Ela assentiu e ficou encarando a mãe. Gothel não entendeu aquele olhar. Parecia desconfiança- O que foi agora?

–Obrigada mãe.- Ela murmurou abraçando-a e a mulher ficou aliviada:

–Use rosa e tons pastéis minha querida. Ficam bem melhor em você.

–Mas eu me sinto bonita usando azul e verde.- Respondeu se afastando:

–Hora Rapunzel. Está se ouvindo? Fica ridícula com essas cores e não tem o menor senso de moda.- A menina continuou encarando-a:

–Bem. Eu gosto.- E Gothel nunca a tinha visto desafiá-la daquele jeito:

–Tem algo se passando nessa sua cabecinha que eu não saiba?

–Nada mamãe.- Sorriu abraçando-a novamente. Gothel ficou mais desconfiada ainda e ao invés de fazer sua viajem para Arendelle como pensado ela decidiu ficar por mais alguns dias. No reino vizinho ela tinha um amante rico que lhe proporcionava prazeres mundanos. Não se daria ao luxo de se envolver com alguém de Corona. Ela tinha que ser invisível ali ou poderiam localizar sua torre.

_______Tangled________

Eugene não tinha problemas para dormir no chão ou empoleirado em altas árvores. Ele sabia o que fazer. Principalmente no segundo caso. Se amarrar com uma corda ou cinto e dormir. Certamente não seria problema fazer isso por uma noite, mas três? Já estava cansado de ficar por ali e sua comida estava acabando. Não poderia se arriscar a descer tão próximo estava da passagem de folhas. Se ele se esgueirasse por lá poderia dar de cara com a mãe de Rapunzel e não queria aquilo no momento. Não enquanto não tinha nada a ofertar além de uma associação com o criminoso mais procurado do reino. Depois de tudo que passou por sua cabeça ao longo dos últimos dias ele precisava ver sua Blondie. Não queria despejar toda aquela merda emocional sobre o órfão excluído dos amiguinhos e que foi abandonado pela própria mãe. Ele ainda estava ressentido com aquilo, mas não queria que aquele sentimento o dominasse. Essa era a merda sobre voltar a ser Eugene, lhe despertava lembranças que machucavam. Era bem mais fácil ser um patife egoísta quando o mundo o tratava exatamente assim. Era apenas um tratamento de retorno. Mas tudo mudou e toda a nevoa saiu quando ele a conheceu. E se odiou muito por cair no pior dos clichês. Redenção por amor. Ele queria ter a capacidade de dizer foda-se para o que sentiu por ela, ele tentou com todas as forças, mas era idiota de mais e sempre agia com o que levava no peito.

Ele sabia que seria assim e se conhecia o suficiente para saber que sempre seria assim em sua vida. Impulso e emoção. Cansou de ouvir isso dos padres do orfanato, para ser menos impulsivo e assim se meteria em menos encrenca, mas era impossível. Ele odiava o orfanato e a primeira oportunidade que teve de escapar o fez. Por impulso, sem pensar que poderia trocar o certo pelo duvidoso e voi lá, mais merda caindo em sua vida. E cacete! Ele estava fazendo exatamente a mesma coisa. Deixando as emoções ditarem sua vida. Se conhecia bem o suficiente para saber que por mais que lutasse contra cederia para suas emoções. Se tinha uma coisa que ele jamais seria, sendo Flynn ou Eugene, era racional no que se tratava de suas particularidades. Conseguia traçar planos, afinal era inteligente, eram planos em teoria perfeitos, mas sempre os estragava com sua arrogância e exibicionismo. De que adiantava roubar a coroa se ninguém soubesse que foi ele? O homem queria holofotes em cima si. Ele tinha necessidade de ser visto e agora tinha a necessidade de ser amado. Por isso estava a três dias esperando numa árvore esperando qualquer sinal de que a mãe super protetora deixasse a torre. Como se atendendo as suas preces, o que nunca ocorria, e ele sabia que não merecia ser atendido, mãe Gothel saiu pela passagem de folhas. Estava com uma cesta e uma mochila, aquilo significava que passaria dias fora. Eugene se achatou contra a árvore. Não que ela pudesse enxergá-lo ali. Curioso com o vulto de vestido vermelho ele inclinou levemente a cabeça e franziu o cenho. Aquela mulher era tão parecida com Rapunzel quanto ele. Elas não tinham absolutamente nada em comum, nem mesmo na energia na hora de andar. Elas não se pareciam em nada. Gothel era uma mulher jovem para ser mãe de uma garota de 18 anos e o homem chegou à conclusão de que ela certamente usava o cabelo da filha para aquilo. Arqueou a sobrancelha e tentou se lembrar de onde conhecia aquela figura. Sua mente louca logo ligou os pontos:

–Vagabunda.- Murmurou irritado. Se lembrava muito bem daquela mulher. Arendelle, como poderia esquecer uma das piores fodas de sua vida? Ele estava saindo com a prostituta do bar suspeito na beira da estrada. Essa mulher tinha arranjado briga com o vendedor de gelo local, um tipo solitário que tinha uma rena como amigo. Alguém que Flynn certamente tiraria muito sarro. O acompanhante daquela senhora queria reparar a honra dela. A qual ele não conseguia encontrar numa frequentadora de bordel. O dono do estabelecimento chutou o pobre vendedor para fora por perturbar seus clientes e a filha da mãe largou o homem que estava junto para se jogar nos braços do dono. Eles protagonizaram uma cena de amasso épico que deixou Eugene traumatizado e com nojo. A imagem mental daquele tipinho ficou em sua cabeça e quando ele foi finalizar uma das garotas da casa quase falhou. Seria horrível para sua fama se aquilo acontecesse.

Agora, no entanto, seu coração estava acelerado e cheio de peso. Aquela mulher tinha lhe marcado a memória por uma série de fatores. Ela usava roupas muito diferentes, como se pertencesse a outro século e não tinha compaixão alguma nos gestos e olhares, apenas maldade e superioridade. Além do mais a cena dela se agarrando com o dono do bordel lhe deu náuseas. Aquela criatura não poderia ser responsável por colocar uma pessoa como Rapunzel no mundo. Algo estava muito, muito errado. Esperou por mais um tempo, para ter certeza de que ela não voltaria e resolveu descer. Suas pernas agradeceram quando o fez. Massageou-as rapidamente querendo ajudar na circulação e seguiu. A visão da torre lhe deixou com o coração acelerado. Deu a volta para ver se sua garota não estava no riacho como da última vez. Iniciou sua subida com facilidade e entrou pela janela. O lugar parecia vazio:

–Rapunzel?- Ouviu passos vindos de cima e ela apareceu no parapeito. Usava um vestido verde escuro, muito parecido com o azul que a deixou com aquele ar de menina mulher, trazendo um toque sensual que nunca existiu com o vestido rosa quase infantil. Eugene engoliu em seco e ela o olhou com emoção. Desceu correndo:

–Eugene.- Jogou-se nos braços dele e o abraçou com saudade. Ele fechou os olhos e o agradável cheiro de flores inundou seus sentidos- Pareceu uma eternidade desde sua partida.- Ele sorriu:

–Quanto tempo temos?

–Uma semana inteira!- Respondeu alegre e ele se afastou olhando-a com carinho. Afastou o cabelo do rosto e a beijou. Rapunzel respondeu imediatamente. Os braços circundaram o pescoço e as mãos enterram em seus cabelos. Ele deixou a língua deslizar para encontrar seu sabor. Ela suspirou e respondeu aos seus movimentos. O beijo deixando-o quente. Sem se conter jogou a bolsa e as coisas que tinha amarrado nela para o chão. As mãos correram livremente para o espartilho do vestido e ele a puxou contra si fazendo o corpo pequeno e quente moldar-se ao seu. Seu corpo respondia aos suspiros dela mais rápido do que deveria e logo uma pressão no baixo ventre o fez ofegar:

–Eeep.- Ela guinchou mas não se afastou dele como da última vez. Eugene suspirou buscando controle.- Eu...-Ela estava visivelmente sem jeito:

–Hey Blondie.- Depositou um beijo suave em seu rosto- Está tudo bem ok?- Ela assentiu e fechou os olhos- Trouxe umas coisas para você.- Se afastou dela e abaixou pegando os livros. Entregou primeiro os sobre anatomia e reprodução e o de romance que tinha pego da recepcionista atirada.- Leia-os na ordem em que lhe dei.- Ela olhou atentamente para a capa de cada um e assentiu:

–Anatomia e reprodução.- Murmurou o título e arqueou as sobrancelhas. Olhou-o atentamente- Nunca vi essas palavras.- Deu de ombros- O que mais?

–Esse livro sobre economia e leis.- Ela sorriu carinhosamente por saber que ele tinha ficado atento a um comentário tão despretensioso- Para não se sentir mais estúpida. Coisa que eu acho uma besteira. Você é uma das pessoas mais instruídas que já conheci.

–Vindo de você que já girou o mundo é muito significativo.- Ela sorriu e encarou o livro que ele agarrava ao peito- E esse aí?

–Bem...Er...-Pigarreou- Bem...Eu...

–Flynn Rider gaguejando? Isso é possível?- Ela tirou sarro e ele deu de ombros- Seria essa uma das suas muitas qualidades além da beleza sobre humana?- Ele adorava o espirito descontraído dela:

–Ok Goldie. Muito cuidado com esse. É volume único e foi um presente ganhado há muito tempo. Tem certo... Valor sentimental.- Entregou-lhe o volume de capa verde. Quando abriu a capa de título apagado e viu o nome do livro na primeira página Rapunzel arregalou os olhos. Em seguida um sorriso lindo iluminou suas feições. Eugene sentiu o peito encher de alegria ao ver como ela olhava para a edição velha e puída:

–As aventuras de Flynnigan Rider.- Murmurou contente- Bem!- Abraçou todos os livros contra o peito- Enquanto eu leio você come algo que tal? Mas eu vou começar por esse último!- Ela deu alguns pulinhos de empolgação e ele riu. Envergonhada ela se conteve e limpou a garganta- Bem. Vamos até a cozinha!

–Como você passou esses dias Goldie?- Ela deu de ombros. Colocou os livros em cima do sofá e segurou a mão dele. Eugene gostava do toque dela. Andaram juntos até a cozinha e ela o serviu com frutas, pão de milho e legumes cozidos. Eugene sentou-se à mesa e sentiu o estomago roncar. Ele nunca pensou que pudesse gostar tanto de uma refeição que não envolvesse um belo bife quase sangrando e uma jarra de cerveja:

–Suco de amora?

–Por favor.- Pediu conforme enchia a barriga de pão e legumes- Então? Como passou esses dias?

–Bem. Tive alguns atritos com a minha mãe.- Respondeu e sentou na cadeira ao lado dele. Ficaram quase de frente um para o outro uma vez que o homem estava na ponta da mesa:

–Ela desconfiou de algo?

–Eu não sei.- Deu de ombros- Sinceramente não faço ideia do que se passa na cabeça dela.- Suspirou- Mas ela mentiu para mim. Ao menos...Tenho quase certeza que sim.- A jovem enfiou as mãos no cabelo e baixou a cabeça- Me sinto tão culpada por desconfiar da minha própria mãe.- Então a loira começou a relatar o que a mãe tinha dito sobre o avós e seu pai. Eugene sentiu o coração pesar e não conseguiu disfarçar a carranca que fez. Aquela criatura doce e bondosa a sua frente não podia ser filha de uma mulher nojenta feito aquela dama de vermelho do bordel. Não fazia sentido. Tinha vontade de roubá-la para si e deixá-la longe da podridão que era a suposta mãe dela. Mas fazer aquilo seria quase a mesma coisa que trancá-la numa torre para ficar a salvo do mundo. Eugene não suportaria fazer isso com Rapunzel, mesmo que soubesse como convencê-la a ir. Ela teria que sair por conta própria. Ele queria que a jovem enxergasse o quanto precisava sair e deixar aquela mulher horrível para trás. Rapunzel precisava ser dona do próprio nariz e ele ajudaria na construção da mulher independente que ela tinha potencial para ser. Jamais tomaria decisões por ela.- Mas eu senti... Eu senti mentira na voz dela ao dizer essas coisas. Digo...-Levantou o rosto e soltou um muxoxo- Quando eu te contei sobre porque nunca saí da torre e quando me contou coisas do seu passado... O jeito que nos comportamos foi diferente. Os caras do Snuglly Duckling também. Quando eles contaram algo que mexia com eles...Eu nunca tinha reparado em como era diferente porque eu pensava que eu é que era a problemática por expressar de mais meus sentimentos com mensagens corporais, mas não é verdade. As pessoas quando dizem algo que foi muito importante ou é... Agem diferente do que ela fez e o que ela me contou foi algo muito grave para agir daquele jeito.- Eugene queria dizer que talvez era uma resposta ao trauma que ela sofreu, mas não tinha estomago para defender aquela mulher e cada vez que Rapunzel abria a boca para falar dela mais asco e raiva ele sentia:

–Você sentiu mentira na fala dela?- Rapunzel desviou o olhar- Quando eu concordei em te levar para as lanternas ficou com medo e me soltar e ser apenas um golpe?

–Não.- Ela murmurou- Eu percebi verdade em sua voz. – Ele soltou um som como quem diz “aí está” – Mas... Será que não estou apenas exagerando tudo como ela sempre diz?- E encarou-o. Eugene deu de ombros:

–É uma questão complicada mesmo. Mas se seu coração está gritando essas coisas algo de errado existe nas histórias da sua mãe.- Ela assentiu:

–Eu estou com dificuldade para dormir. Tendo pesadelos com minha mãe. Tem horas que ela é normal e tem horas que ela está tão velha e má que eu não a reconheço mais. Às vezes eu sonho que ela me tranca no armário da dispensa. É tão angustiante. Então ela diz algo, mas é como se o som não saísse. Só os lábios se mexem.- Eugene esticou a mão e tocou o braço dela:

–Hey. É normal ter pesadelos com sua mãe quando sua fonte de estresse é ela. Ou o segredo que esconde dela. Não se sinta mal. As coisas vão melhorar. Mas sua mãe é meio confusa.- Ele queria dizer louca ou perturbada, mas não iria magoar sua garota por nada- É melhor manter nosso relacionamento em segredo. Até ela se estabilizar emocionalmente.

–Então isso é nunca?- Ele sorriu fracamente e se inclinou. Seus rostos estavam quase colados:

–Goldie. As coisas vão melhorar.- Murmurou e finalmente tomou-a num beijo. Rapunzel sorriu contra a boca dele e quando precisaram de ar se afastaram relutantes- Hey. Como é que funciona seu cabelo?- Ela o olhou com um sorriso confuso- Essa coisa de você curar os outros. Não te deixa cansada?

–Um pouquinho. Quando minha mãe me pede ajuda para ficar jovem eu me canso. Mas coisas pequenas como sua mão ou o Pascal quase não sinto.

–Sua mãe pede ajuda para ficar jovem?

–Não é bem ajuda. Eu só estou retribuindo o que ela fez pra mim todos esses anos. Sabe? Quando eu nasci a juventude dela se foi por entre os dedos.- Rapunzel dramatizou do jeito que a mãe fazia e Eugene ergueu a sobrancelha direita até o limite- E a vida dela ficou mais difícil porque tivemos de nos isolar. Ajudá-la a recuperar a juventude é o mínimo que faço.

–Eu não sabia que seu cabelo tinha esse poder.

–Ele recupera as coisas que se perdeu. Minha mãe sentiu muito por perder a juventude.

–Então se eu perder minha bolsa seu cabelo traz de volta com magia?- Rapunzel riu- Ou essa comida que acabei de comer...?

–Não.- Ela riu e levantou. Parou de frente para ele e esticou a mão até a sobrancelha esquerda- Mas ele tira essa cicatriz sua. E se você começar a ficar careca ele faz seus cabelos voltarem e ele não me deixa ficar doente. Eu até hoje não entendi muito bem tudo que ele é capaz. Não sei se pode trazer alguém de volta a vida, mas certamente pode te rejuvenescer.

–Se eu não tiver nenhum ferimento e encostar no seu cabelo quando ele está brilhando eu volto a ser criança?

–Acho que isso pode acontecer.- Rapunzel disse com a óbvia expressão de quem pensava nisso pela primeira vez:

–Então, se você ajuda sua mãe, nunca pensou em cortá-lo certo?- Ela desviou o olhar- Hey.- Ela sorriu sem jeito- Já pensou?

–Sim. Eu pensei, quando queria muito ver as lanternas.- Murmurou triste. Ele a puxou para si e ela caiu sentada em seu colo. A mão do homem deslizou com carinho por seu cabelo e rosto:

–Hey. E qual o problema? Você tinha um sonho e o cabelo parecia à única coisa te separando dele não é?- Ela assentiu-O que sua mãe disse sobre isso?

–Ela...-Suspirou irritada- Ela disse que era um dom do universo para mim e que seria egoísta desperdiçá-lo e que seria muito horrível da minha parte cortar. Ela veio para a torre por causa do meu cabelo, para não me prenderam por causa dele e se eu cortasse seria tudo perdido. Tudo que fez por mim, eu não conseguiria compensá-la de outra forma porque sou boba e não sei fazer nada direito.- Eugene ficou extremamente irritado- Eu sei que não é verdade. Eu sei fazer muitas coisas, mas acho que foi o jeito dela dizer que a única forma de compensá-la por um sacrifício tão grande era assim. Ela só não soube se expressar.

–Rapunzel! Essa relação com sua mãe.- Ele soltou um grunhido irritado- Se é que ela é sua mãe mesmo. Isso está errado!- Rapunzel o olhou espantada- Eu posso não ter tido uma mãe, mas nunca ouvi falar de uma que trate a única filha desse jeito. – A jovem parecia chocada por ouvir aquilo dele- Eu sinto muito se estou te magoando. Mas tem algo muito errado com a sua mãe. Vocês ao menos se parecem! E ela parece ser uma tremenda megera com você!- A jovem levantou do colo dele e levou as mãos as têmporas:

–O que está insinuando?

–Não estou insinuando. Estou alertando. Sua relação com a sua mãe não é normal!

–Você está se ouvindo? – Ela o olhou com rancor- O que sabe sobre a minha mãe?

–O mesmo tanto que você!- Acusou levantando a voz e começando a perder o controle. Estava irritado com tudo que tinha ouvido e queria que ela entendesse- O que pelo visto é ridiculamente pouco!

–Eu a conheço há 18 anos!

–E sabe mais sobre a minha vida do que sobre a dela! Eu sei mais sobre você do que ela!- Ele levantou e se aproximou dela. Estavam quase gritando um com o outro:

–Não se interponha entre nós!

–Nenhuma mãe acharia que a filha é um fardo Rapunzel e mesmo que achasse jamais falaria um absurdo desses!

–Ela não me acha um fardo. Ela me ama!

–Então...Corta esse cabelo! Vai! Corta e vê o que ela acha se ela não puder mais ficar jovem pra sempre!

–Você está se ouvindo?- Ela gritou com raiva e os olhos marejaram- Está ouvindo suas palavras?

–Se ela realmente te ama ela vai entender!

–Eu não vou fazer algo egoísta assim só porque você acha que minha mãe não me ama. Ela pode ter mentido sobre algumas coisas do mundo e estar guardando algum segredo, mas...

–RAPUNZEL!- Ele levantou as mãos para o alto, estava extremamente frustrado- O segredo que ela guarda é você e o seu cabelo! Já parou para pensar que aí fora existe uma família chorando por uma menininha de cabelos dourados? Que tem um pai e uma mãe de verdade chorando porque sua filha foi roubada por uma vadia egoísta e vaidosa?- No segundo seguinte Eugene sentiu um prato acertar sua cabeça. Ele caiu para trás completamente zonzo. Estava irritado, muito furioso e prestes a gritar com ela, mas foi incapaz de reagir quando ouviu o choro sentido:

–Você está insano!- Gritou entre o pranto sentido:

–Rapunzel!- Ele se aproximou e ela o empurrou, correndo para fora da cozinha. Ele foi atrás e ela o encarou enquanto limpava as lágrimas:

–Por que está dizendo essas coisas?- Ela fungou e subiu. Ele achou por bem ficar por ali. Mais tarde tentaria resolver as merdas que sua personalidade impulsiva tinha feito. Mais uma vez para variar.

Notas finais
N/A: E aí? O que acharam? Mereço uma review? A diz que sim vai! Sempre leio fics onde os pais do Flynn morrem e ele acaba no orfanato por algum motivo trágico, mas eu não sei. Inventar uma nova personalidade para si, não se importar com alguém além dele mesmo, fazer roubos estrambólicos, rir na cara do perigo (huahua). Isso tudo me parece necessidade de atenção, de se mostrar no mundo, sabe? Tem uns traços de rejeição bem fortes. E como ele ficou desconfortável ao falar a história dele pra Rapunzel, isso realmente brindou meu lindo ser com a teoria de que ele foi abandonado. O que vocês acham? Bjs até a próxima att.