— Faça sua parte Will... FAÇA SUA PARTE SOLDADO!!!

— Não!

— Acabou Will...

Will acordou subitamente com a mão agarrando a ponta do colar em volta de seu pescoço. Era só um sonho, pensou tentando relaxar.

Na ponta do colar havia um objeto parecido com um pen drive, aquele havia sido um presente que tinha recebido de seu pai na última vez que Will tinha lhe feito uma visita. "Só para emergências" havia dito seu pai com seu tom duro característico.

Will percebeu que o sol já estava nascendo por isso ele escondeu o colar e se arrumou para ir para a escola.

Minutos depois Will saiu de casa sem tomar o café da manhã, poderia não admitir, mas estava ansioso. Em contraste com o dia anterior a manhã estava particularmente fria, por isso Will estava vestindo uma camiseta de manga comprida. A roupa era bem folgada, assim como todas que Will usava, na intenção de esconder seu corpo que era definido demais para uma pessoa da sua idade.

Poucas coisas que eram tabu para Will, falar dos últimos dois anos era um deles. Nem mesmo Levi tinha noção do que havia acontecido com a vida de Will e sua família durante esse período.

Will carregava consigo apenas um par de canetas e um caderno. O caminho até a escola era longo, ir de ônibus era uma opção, mas Will preferiu usar o exercício extra para analisar os arredores.

Quando se deparou diante de sua antiga escola Will foi invadido por uma profusão de nostalgia, as memórias agridoces da infância o acertaram como um trem trazendo um sorriso triste em seu rosto.

A escola Aquilano Maxwell era intimidadora logo à primeira vista, para aqueles que não a conheciam poderia muito bem se passar por um presídio, com suas construções quadradas e cinzentas, arrame farpado cercando os muros e grades de contenção nas janelas. Era o inferno das escolas, contendo milhares de alunos que iam da quinta ao terceiro ano.

A rua de frente para o portão estava abarrotada de estudantes, em algum lugar um Rap estralava fazendo o chão tremer, a letra da música tão pesada que faria até mesmo Easy-E corar. Vários alunos estavam recostados nos muros pichados, indiferentes a presença de Will, um grupo de garotos discutia acaloradamente perto da entrada, algo relacionado com o jogo do dia anterior. Ao passar pelo portão uma baforada de cigarro atingiu Will no rosto, ao encarar a menina que havia feito isso Will recebeu um dar de ombros como resposta.

No centro do saguão de entrada havia uma enorme gaiola e nela habitava a Poderosa, a mascote da escola. A ave era uma harpia, também conhecida como gavião-real, e estava nesse momento escondendo a cabeça dentro de suas asas de forma cabisbaixa, como se estivesse tentando dormir apesar do barulho dos alunos ao redor.

Will avançava com paciência quando foi puxado pelo braço por uma inspetora, da boca dela saia palavrões que fariam o rapper que tocava do lado de fora parecer Shakespeare.

— Onde está o seu uniforme? — disse furiosa sem soltar o braço de Will.

— Eu sou aluno novo. — se explicou Will, torcendo para ser ouvido apesar do barulho ao seu redor.

A inspetora continuou encarando-o por alguns segundos, por fim o largou e desapareceu na multidão provavelmente avistando uma presa mais fácil.

Um tanto desorientado Will se viu em um corredor onde um grupo de rapazes e garotas estavam impedindo sua passagem, distraídos em uma conversa. Um deles falava particularmente mais alto do que os outros:

— ...Ela usava um tipo de calça que não sei se era de couro, látex, ou o raio que o parta, mas só sei que quando ela se mexia fazia o barulho como se fosse um balão de festa, o que não ajudava porque ela já tinha o formato de um.

As meninas ao lado dele deram risada.

Will tentou passar sem chamar a atenção, mas acabou esbarrando em uma das garotas.

— Olha por onde anda babaca. — disse a menina com um olhar felino, os seus amigos encararam Will avaliando se ele seria fácil de extorquir.

Will se afastou sem responder, nem parecia que estava na escola apenas há alguns minutos.

A sirene tocou ecoando acima de tudo. Fazendo os corredores ficarem ainda mais lotados. Will tirou o papel do bolso que mostrava o número da sua sala, mas isso não o ajudou muito. Enquanto se contorcia e desviava dos alunos Will encontrou um rosto conhecido.

— Lipe? — disse Will agradecendo a Deus.

O garoto se virou para ele a princípio confuso, mas logo reconheceu o rosto de Will.

— O’Connor? Você por aqui? — perguntou o rapaz franzino apertando a mão de Will com uma força enorme, um sorriso estampado em seu rosto. — Pensei que você tinha mudado de cidade.

— Eu voltei. — disse Will sorrindo também.

— Essa é a Bruna. — disse Felipe apontando para a garota ao seu lado, ela tinha um sorriso largo e aconchegante que fez Will se sentir quente por dentro. — Esse é o Will, um dos melhores indivíduos que já conheci, modéstia à parte.

Will e Bruna se cumprimentaram.

— Em que sala você está? — perguntou Bruna.

— Segundo C — respondeu Will olhando para o papel em sua mão. — Vocês sabem onde é?

— Fica na última sala no fim deste corredor. — disse Bruna gesticulando.

— Puxa que azar. — disse Felipe chateado. — Nós somos do Segundo A.

Will sentiu seu estômago afundar alguns centímetros.

— Mas não se preocupe, o Mateus, o Eduardo e a Camila também estão no C, e acho que a Manuela se não me engano. — disse Felipe dando uma piscadela.

Will se sentiu aliviado, Mateus, Eduardo e Camila eram seus amigos de infância e a Manuela havia sido sua primeira namorada. Will se despediu do Felipe e da Bruna, quando chegou na sala era sete e dez e o professor ainda não havia chegado.

Não foi difícil encontrar o seu antigo trio de amigos.

— Will você voltou! — disse Camila abraçando o rapaz com gosto mergulhando-o em um mar de cabelos castanhos, e na doce fragrância de condicionador.

— Que legal cara. — disse Mateus trocando com ele um antigo aperto de mão secreto.

A exemplo de Camila, Eduardo também o abraçou.

— Nossa cara, tá comendo chumbo? — disse Eduardo apertando o braço de Will com uma das mãos. — Tá mais bombado que o Arnold.

— Que nada. — disse Will dando risada, tentando disfarçar.

— Você precisa passar lá em casa depois, para bater um papo e jogar vídeo game. — disse Eduardo.

Eduardo sempre havia sido o atirado do grupo, apesar de baixo desde criança tirava o suspiro das garotas por onde passava. Para Will ele parecia quase irreconhecível.

— Senta aí para gente conversar. — disse Mateus.

Mateus era o intelectual do grupo, tinha um protótipo de cavanhaque e usava óculos de armação grande.

Will se largou na cadeira e conversou com seus amigos, contando de forma resumida por onde tinha estado e porque estava de volta. Seus amigos pareciam genuinamente felizes em vê-lo e apesar dessa receptividade Will percebeu com alguns minutos de conversa que eles haviam mudado, pareciam reservados de forma que Will se sentiu um intruso na privacidade deles.

Sete e meia o professor de história chegou, era um homem de aparência cansada, com cerca de sessenta anos, tinha uma barba por fazer e usava óculos de lentes grossas. Trazia uma porção de papelada na mão que ele ajeitou sobre a mesa.

— Pessoal, cada um para o seu lugar. — disse à guisa de bom dia, a conversa na sala foi diminuindo enquanto os alunos se moviam.

— Gente, vamos respeitar o mapa da sala — disse o professor irritado. — O que você está fazendo aqui Isabelle?

— O menino novo está sentado no meu lugar.

— Menino novo? — repetiu o professor procurando até encontrar Will. — Você é o menino novo?

Will balançou a cabeça positivamente, se sentindo levemente constrangido pela atenção.

— Você não pode sentar aí. — disse o professor fazendo sinal para que Will se levantasse. — Venha vou arranjar um lugar para você, qual o seu nome?

— William O’Connor.

A sala parecia cheia, mas o professor conseguiu achar um lugar na fileira ao lado da janela.

— Evite ficar distraído com a vista. — disse o professor.

Will se sentou em silêncio, se sentindo estranho, em parte pelo fato de seus amigos não terem expressado nem um pouco o desejo de o manter

por perto. A aula transcorreu normalmente até seu termino vinte minutos depois. O professor só teve tempo de passar lição de casa.

A aula seguinte foi de matemática, com um professor que apesar de jovem já era careca, quando viu Will disse:

— Bem-vindo! — antes de Will responder ele completou com uma risada. — Ao inferno!

Depois veio a aula de Educação Física, onde uma professora mascando chicletes apresentou aos alunos uma bola para eles brincarem na quadra. Quem não participou da brincadeira ficou espalhado pela arquibancada. Tal evento fez Will se sentir ainda mais frustrado, porque ao se sentar com seus amigos na arquibancada percebeu que os assuntos das conversas não se encaixavam nem um pouco com ele. Até o momento era como se Will estivesse lidando com completos estranhos.

Em seguida veio o recreio, Will vagou com seus amigos pelo grande pátio, alheio a conversa.

Na volta para sala Will conversou um pouco com Manuela e descobriu que ela estava namorando com um outro colega da sala, o nome dele também era Mateus, ele era um rapaz alto cheio de sardas, parecia um rapaz bacana e ela parecia feliz.

A aula que se seguiu foi com um professor substituto e os alunos nem se deram ao luxo de perguntar o nome do professor, passaram o resto da aula conversando entre si. Naquela altura Will percebeu algo estranho dentro de si, que ele logo constatou que era uma pontada de indignação.

A última aula do dia foi de biologia, a professora era uma mulher com cabelos negros preso em um rabo de cavalo, ela tinha uma pele macilenta que lembrava muito alguém só que Will não conseguia se lembrar de quem.

— Abram o livro na página trezentos e noventa e quatro. — disse a professora em um tom severo.

— Dona? — disse Will erguendo a mão.

— Dona é dona de boteco, eu sou professora.

— Professora — disse Will sem graça. — Eu sou novo aqui, não tenho nenhum livro.

Nos minutos seguintes a professora enviou alguns alunos na árdua jornada de encontrarem um exemplar do livro de biologia, mas sem sucesso.

— Vamos ter que encomendar um livro para você — ela apontou para a carteira ao lado. — Por enquanto sente junto com a Emily.

Quando Will encostou a carteira na do lado foi a primeira vez que ele observou quem estava sentada ali. Emily era nada mais nada menos do que a menina do olhar felino. Ela tinha os olhos verdes, a pele bem clara e os seus cabelos negros e encaracolados atingiam sua cintura. O que ela tinha de bonita ela tinha de revoltada, e ela parecia muito revoltada.

— Vejam só o garoto novo mal chegou e a Emily já está marcando território. — disse um menino em uma das carteiras do fundo.

— Cala boca Caio! — retrucou Emily serrilhando os dentes tentando esconder o que parecia um sorriso.

— Vai lá garoto novo, não perde a chance essa daí é fácil!

— Vamos começar a aula. — disse a professora pedindo silêncio.

Emily abriu o livro entre as duas carteiras e colocou seus cabelos negros de lado barrando a visão de Will dela. "Fácil" pensou Will abrindo o caderno "Eu acho que amansar uma leoa é mais fácil do que conversar com essa garota".

Will suspirou sem perceber, se sentindo sozinho como nunca havia se sentido na vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.