Sob a Neve

9 Capítulo 9


—Hey boneca, você tem que se soltar mais, isso é uma festa, e é isso que as pessoas fazem. Bebem até cair, fazem o que não tem coragem enquanto está sãs. Apenas faça isso. —Ouço Chris gritar atrás de mim, em uma tentativa de soar mais alto que a música.

—Eu sei o que as pessoas fazem em festas, o.k.? Já fui em muitas e também sei que deve existir pelo menos uma pessoa que esteja sóbria o suficiente para cuidar de tudo. —Retruco tentando fazê-lo entender.

—Todos sabemos disso, mas acontece que ninguém se importa. —Ele simplesmente ri e me olha seriamente. —Temos o final de semana inteiro, e diferente das outras festas, ninguém vai para a casa hoje, o que deixa tempo o suficiente para todos recobrarem a consciência. —Reviro os olhos para ele. —Qual é boneca, você sabe que eu estou certo.

—É, eu sei.

Levantei-me e fui até ele, pegando a sua garrafa e bebendo, com rápidos, sentindo o liquido descer pela minha garganta como ácido.

—É disso que eu estou falando.

Dei risada e olhei para o meu lado, Eliza estava me observando com um sorriso no rosto, ao lado dela estava uma garota que eu não conseguia lembrar o nome.

—Hey, quantas garrafas você já bebeu? —Olhei confusa para ela, parecia que uma animação fora do normal tomava conta dela.

—Ela não bebeu tanto assim, boneca, ela fumou. —Antes que eu pudesse perguntar algo, Eliza levantou sua mão, mostrando-me um pequeno cigarro em sua mão, levando-o até a boca e então dando uma tragada, soltando uma grande quantidade de fumaça em minha cara.

—Isso não é um simples cigarro, não é? —As garotas sorriram para mim, até que Eliza ofereceu-o para mim.

—Acho que você acertou, boneca. —Dessa vez foi a voz de Chris que se pronunciou.

—Não me chame de boneca. —Falei uma última vez pegando o cigarro em minha mão e finalmente dando uma tragada nele, colocando a mão na boca quando comecei a tossir. —Como vocês podem gostar disso?

—Está fazendo completamente errado. —Eliza me olhou pegando o cigarro e tentando me explicar como se fumava certo, uma aula completamente esquisita. —Agora é sua vez. —Dessa vez não foi tão ruim, sem tosses e obviamente relaxante.

—Está pronta para se divertir Chloe? —Balancei a cabeça positivamente, dando mais uma tragada antes de passa-lo para Eliza.

Ela continuava com seu sorriso no rosto, a única diferença é que agora o cigarro pendia ao lado da boca, preso pelos seus dentes.

A puxei pelo braço, levando-a para o meio da sala, que agora parecia incrivelmente grande, com todos aqueles adolescentes misturado por diversos cantos, alguns dançado e outros se pegando, outros simplesmente jogados no sofá.

—Que bagulho é esse? —Perguntei sentindo tudo ao redor girar, ou talvez apenas a minha cabeça que estivesse girando, acho que a dúvida continuaria presente.

—Isso realmente importa? Emily me deu no começo da festa e disse que seria bom para eu relaxar um pouco, no fim ela estava certa. —Me segurei nela, envolvendo meus braços em seu pescoço.

—Você quer dançar? —Perguntei, sabendo que a minha voz seria apenas alta o suficiente para que ela pudesse ouvir.

Uhum. —Senti ela balançar a cabeça positivamente em meu ombro, suas mãos indo envergonhadamente para a minha cintura, até finalmente envolve-las com força, me puxando para mais perto dela.

—Posso te contar uma coisa? —Não me importei com a resposta dela, apenas respirei fundo para conseguir falar. —Eu odeio ver você chorando. Quer dizer, eu só vi você chorando umas 3 vezes até agora, e eu simplesmente não suporto isso, sinto vontade de chorar também, e eu fico me perguntando por que chorar quando se fica tão linda sorrindo.

—São muitos problemas Chloe, você não entenderia.

—Eu nunca entendo, não é? —Forcei uma risada. —Sabe o que todos os psicólogos que eu já fui me indicaram? —Ela balançou a cabeça no meu ombro. —Remédios. De todos os tipos, pois eu sou uma garota com grandes problemas traumáticos. Eu perdi a minha mãe, eu perdi a minha irmã e eu sinto que meu pai se foi também. Sabe como é ouvir o seu pai dizer que preferia que você estivesse morta? —Ela se afastou um pouco de mim, olhando-me com pena. —Então foda-se você e qualquer outro probleminha idiota que você possa ter tido. Eu sofri, eu ainda sofro, assim como muitos ao seu redor. E você? Você é fraca demais, acha que só você tem problemas e o resto do mundo vive em um conto de fadas! Acha que eu não penso todas as manhãs que eu devia ter mesmo morrido? Mas eu sei que isso nunca vai ser o suficiente, muitas pessoas querem a simples oportunidade de respirar normalmente, e você... se envolve demais com seus problemas para ver que o resto do mundo está desmoronando. Faz marcas em sua pele tentando se matar sendo que os outros se importariam se você nunca mais abrisse os olhos, Eliza. Mas eu me importo com você. Eu me importo fodidamente com você.

—Chloe...

—Não fale nada. Apenas vamos continuar dançando. —Falei pegando o cigarro de sua boca e o deixando na minha.

Ela voltou a me abraçar, embora estivesse mais desconfortável agora, não demorou muito para eu perceber que as lágrimas escorriam do meu rosto descontroladamente.

—Acho que agora eu vou me deitar. —Me afastei o mais rápido possível dela, jogando-a para longe e indo para o quarto onde estavam as minhas coisas. O meu quarto, o de Eliza, o de Chris e o de Emily. Acho que o fato de misturarem os sexos não importava muito ali.

Me joguei na cama de casal e rolei para o canto, jogando meus tênis para longe e me encolhendo ali, puxando a manta mais para perto de mim, como se isso fosse bloquear todos os meus problemas.

—Chloe precisamos conversar. —Ouvi Eliza falar e então me cobri por inteira.

—Eu não queria dizer nada daquilo, deve ser efeito daquela droga.

—Acho que ela apenas a fez ser sincera. —Me encolhi no local, pressionando minhas pernas contra meus peitos. —Eu sei que o que você falou é verdade, mas a minha vida também é um inferno e eu entendo o que você quis dizer. —Puxei a manta ainda mais contra mim, cobrindo-me por completo. —Eu também me importo com você Chloe, na verdade acho que isso é um grande problema pois dificultara em muito nas minhas futuras decisões.

Eles também se importam com você. —Sussurrei, a voz mais rouca do que eu esperava.

—O quê?

—Eles também se importam com você. —Disse dessa vez me descobrindo, para que ela pudesse ver meu rosto, a desaprovação esculpida nele.

—Eu sei...

—E você não pensa no que eles vão pensar? Você é tão fria...

—Não fale como se eu fosse um monstro, Chloe! Mas é que eles já estão acostumados, pessoas vivem partindo nesse grupo.

—Nunca nos acostumamos com isso, eu achei que você soubesse disso pelo menos. —Ela abaixou a cabeça, e eu podia jurar que vi uma lágrima escorrendo pelo seu rosto. —Venha aqui Eliza! Eu não posso acreditar que destruí a sua noite! Podemos pelo menos nos sentar na cama e falar sobre coisas de meninas como as meninas normais fazem?

—O.k. —Ela revirou os olhos e se jogou na cama. —Ahn... do que as meninas normais falam em ocasiões como essas?

—Sei lá. —Revirei os olhos. —Nossa você viu minhas unhas hoje? Eu as pintei há tipo um mês atrás, elas estão um pouco descascadas, mas dão um estilo mais despojado eu acho. —Ela me olhou confusa, as sobrancelhas arqueadas. —Isso é um belo desastre.

—Você me assustou agindo daquele jeito, achei que havia contraído o vírus da bestice. —Eliza sorriu, fazendo-me retribuí-lo. —Você está sentindo a sua cabeça girar?

—Na verdade sim, mas eu acho que não é bem por causa disso. —Em algum momento ali eu comecei a rir, talvez foi pelo modo que Eliza olhou para mim diante da afirmação, ou porque eu estava me sentindo muito bem apesar de tudo, talvez fosse apenas mais um efeito daquele cigarro, mas eu apenas precisava rir. —Eu me sinto bem, acho que te falar tudo aquilo me fez ficar calma.

—Acho que você precisa dormir, ou talvez nós duas. —Concordei positivamente.

—Eliza...? —Ela se deitou em minha frente, os olhos se fechando lentamente.

—Ahn? —Tudo que saiu de seus lábios foi um murmúrio.

—Você acha que vai se lembrar de algo que aconteceu hoje? —Me levantei um pouco, apoiando-me com o braço.

—Provavelmente não... Por quê?

—Eu acho que vou... talvez... quem sabe? —Percebi que um sorriso estava se formando em meu rosto. —Sabia que eu gosto de novas experiências? —A garota me olhava confusa, sem entender o motivo de tudo.

E então aconteceu.

Só me dei conta disso quando eu me separava de Eliza.

Eu havia a beijado.

Uma mistura de pavor e alegria percorria todo o meu corpo, fazendo-me querer simplesmente pular de alegria e ao mesmo tempo me jogar no chão de confusão.