Sob a Neve

6 Capítulo 6


Tentei me levantar e vi como estava presa aos aparelhos médicos, e revirei os olhos. Eu não preciso disso. Levantei-me e puxei alguns fios, sentindo minha pele adormecer em alguns locais. E então comecei a andar, tirando o resto dos fios que continuavam em minha pele, olhei para os lados da sala e não vi ninguém, ─nem mesmo uma muda de roupa que eu pudesse usar. Corri para as escadas e as desci com rapidez, me escondendo uma hora ou outra em uma sala qualquer e vazia, quando um médico passava.

─Por favor, senhora, eu gostaria de saber onde estão as minhas roupas. ─Falei ao chegar ao balcão da entrada onde a recepcionista olhou para mim com preocupação.

─Qual o seu nome, senhorita? ─Ela falou com calma.

─Chloe Alicen. ─A enfermeira olhou seus registros e voltou seus olhos a mim.

─Srta Alicen, volte para o seu quarto, você ainda não está bem o suficiente. Precisa se recuperar.

─Eu estou bem, já passei por isso umas 10 vezes e posso passar por essa novamente. ─A recepcionista me olhou com um olhar de desprezo para mim.

─Os rapazes da escola iriam adorar se você usasse essa “roupa” todos os dias. ─Me virei e dei de cara com Eliza que estava com um sorriso no rosto, e embora tivesse um olhar cansado e grandes olheiras, ela parecia animada. ─Belas nádegas, aliás.

─Eliza, finalmente, e espero que você tenha trazido roupas descentes para mim. ─Ela me olhou com duvida e logo depois para a recepcionista.

─Chloe, você não pode ir ainda, só será liberada no final de semana. ─Ela falou seria, e embora fosse mais baixa que eu, ela me fez parecer pequena demais naquele momento.

─Eu... e a escola? Não posso faltar tantos dias! Tenho ensaio das lideres de torcida e... ─Ela me olhou com um olhar severo, fazendo-me calar. ─Sinto muito Eliza.

─Chloe precisa voltar para o seu quarto, tem que fazer alguns exames.

Não! Eu não preciso de nenhum exame, eu já os fiz e como eu já havia dito, já passei por isso, e não é nada demais, apenas um stress pós-traumático.

─Já se passaram 11 anos que o seu grande “trauma” aconteceu!

Olhei-a com raiva e logo depois meus olhos focaram em seus pulsos, cobertos pela manga de sua jaqueta.

─Já se passou tanto tempo e você ainda se corta, parece que não somos tão diferentes assim, não é Eliza.

Ela me olhou e então sua expressão se transformou em raiva e logo depois em tristeza e dor, parecia que eu a havia atingido na boca do estomago.

─A diferença entre mim e você, é que eu machuco apenas a mim mesma, e você... ─Ela me olhou com desprezo. ─Você machuca todos que estão ao seu redor. Tenta se passar por uma garota boa, mas é apenas mais uma daquelas vadias populares.

Ela se virou e se foi, me deixando plantada onde eu estava, sem conseguir dizer qualquer coisa para ela.

“Às vezes pedir perdão não adianta em nada, você já machucou a pessoa o suficiente, uma palavra tão simples não muda em nada, a dor e a desconfiança continuam em um ponto solitário e sombrio da pessoa.” Lembrei-me de meu pai falando para mim, com calma, tentando esconder toda a dor que sentia no momento, quando eu havia pedido se ele era capaz de perdoar sua mãe, depois de tantos pedidos.

Ela sentiu as mãos dos médicos a guiando para o seu quarto a força, e ela nem protestou contra isso. A culpa que invadia seu coração era muito mais forte do que tudo ao seu redor.

••

─Sr. Alicen, por favor, precisamos que sua filha tenha um acompanhamento psicológico a partir de agora, depois de tanto tempo o fato dela continuar remoendo o mesmo fato de seu passado, bem, isso é preocupante. ─Continuei sentada, balançando as pernas enquanto ouvia a conversa do médico com o meu pai. ─Temos muitas sugestões de pessoas especializadas em traumas como esse, se o senhor precisar é só nos comunicar e...

─Minha filha não é nenhuma louca, ou seja lá o que o senhor esteja insinuando, ela irá para a nossa casa e continuará como sempre, ela não precisa de nenhum acompanhamento psicológico, então isso é tudo, obrigada por nada. ─Ele me olhou com um olhar de desprezo e então se virou. ─Vamos logo Chloe, não tenho o dia inteiro.

Abaixei a cabeça e o segui, calada, dizer qualquer coisa era o pior de tudo. Esperava um de seus discursos e logo depois ele falaria para mim: “Eu preferia que sua irmã tivesse ficado viva.” e logo depois eu seguraria as lágrimas e correria para o meu quarto, fazendo o maior esforço possível para ele achar que isso não me afetava.

E foi exatamente isso que aconteceu, as palavras continuavam em minha mente, fazendo com que eu quase apelasse para o mesmo modo que Eliza.

Eliza.

Pensei na garota com os cabelos negros e os olhos quase se assemelhado as de seus cabelos lisos e o simples pensamento nela me fez se levantar e me agasalhar o máximo possível, pronta para encarar a neve.

Peguei meu carro e dirigi rapidamente em direção ao antigo playground da cidade, querendo chegar o quanto antes lá, o local onde eu possivelmente pirei e fui levada ao hospital, possivelmente com um cheiro de cigarro quase nauseante.

Meus pés afundaram na neve assim que pulei do carro, estava começando a nevar cada vez mais, e daqui uns dias as férias de inverno chegariam, para a felicidade de todos.

Corri até o escorregador e meu coração deu um pulo assim que eu a vi, ou pelo menos vi a nuvem de fumaça que se formava logo acima dela e de seu cigarro.

─Eliza, eu sabia que você estava aqui. ─Andei até o escorregador e me sentei ao seu lado.

─Por favor, não venha me pedir desculpas. ─Ela falou com os olhos fechados e logo depois dando uma tragada em seu cigarro.

─Eu não vi pedir desculpas a você. ─Ela me olhou confusa e então eu sorri. ─Só vim agradecer a você. Sabe, eu sei que minhas nádegas são lindas, mas é sempre bom ouvir isso de outras pessoas.

Ela olhou para mim e então sorriu também, com uma expressão divertida no rosto.

─Eu vou ser bem sincera com você: garanto que Kenny morreria de ciúmes se visse as suas nádegas tão expostas assim, se já não sente.

─Mas é claro que você, minha querida Eliza, também deve ter lindas nádegas por baixo dessas calças, nádegas que sambariam na cara, ou melhor, nas nádegas de Kenny e de muitas outras garotas por ai.

E então nós duas começamos a rir novamente, falando uma hora ou outro a palavra nádegas como se fosse uma espécie de piada entre nós.

─Então acho que nós duas teremos que mandar fazer um troféu de As Duas Melhores Nádegas do Colégio. ─Eliza falou entre risos.

─E depois esfregaremos esse troféu na cara de Kenny.

─Com certeza. ─Ela falou respirando fundo e então oferecendo seu cigarro para mim, que sem pensar muito o aceitei.