Sob a Mesma Lua, Outra Vez
3 Antes Que Tudo Mude
Naruto se sentou, soltando um suspiro profundo de alívio. Hinata o observava atentamente.
— Melhor?
— Sim… arigatou, Hinata.
Ela também suspirou, visivelmente mais tranquila.
— Vou limpar a geladeira e os armários do seu apartamento. Também vou comprar comida e preparar algumas marmitas — declarou com firmeza.
— Matte yo, Hinata! — Naruto a interrompeu rapidamente. — Você não pode fazer isso. Neste momento, todo mundo acha que somos apenas ex-colegas da academia. Se você começar a entrar no meu apartamento e agir assim…
Ele hesitou.
De repente, o sorriso de Hinata mudou.
Ficou mais doce.
Perigosamente doce.
O mesmo sorriso que surgia sempre que Naruto dizia algo particularmente estúpido.
— Nee, Naruto-kun~ — murmurou ela, inclinando levemente a cabeça. — Talvez… por estarmos no passado… você esteja planejando se manter longe de mim?
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Naruto.
Sua boca se fechou imediatamente.
Doze anos de casamento haviam lhe ensinado a ter muito cuidado com o que dizia quando Hinata ficava daquele jeito.
— Hinata…
— Ara~ eu me lembrei… — disse ela, o sorriso gentil demais para ser inofensivo. — Naruto-kun gostava da Sakura-san nessa época, não é?
Ela inclinou levemente a cabeça, os olhos perolados fixos nele.
— Será que você pretende tentar algo com ela… Naruto-kun~?
O pânico tomou conta do rosto de Naruto.
— Isso não é verdade, tebayo! — exclamou, completamente horrorizado. — Hinata, você sabe que eu nunca estive apaixonado pela Sakura-chan! Eu só dizia que gostava dela porque não queria perder pro Sasuke! Você sempre foi… — ele hesitou, a voz falhando — …você sempre foi a única que eu amei!
Hinata permaneceu em silêncio por um instante.
Então, uma risadinha suave escapou de seus lábios.
Ela se inclinou e depositou um beijo delicado na bochecha dele.
— Eu sei.
Naruto soltou um longo suspiro de alívio, os ombros finalmente relaxando ao ver a expressão tranquila dela.
— Mas eu ainda vou limpar, fazer compras e cozinhar para você.
Naruto piscou, então caiu na risada.
— Eu nunca consigo vencer você, Hinata — disse, olhando para ela com um sorriso divertido.
Os dois riram por alguns instantes, até serem interrompidos por um som bem pouco elegante.
Ronc~
Naruto parou de rir e olhou para Hinata.
Ela estava completamente vermelha, os olhos arregalados em choque enquanto levava as mãos ao próprio estômago, como se pudesse silenciá-lo.
Naruto soltou um pequeno bufar divertido.
— Vamos ao Ichiraku? — sugeriu. — Aposto que o missō lamen ainda e o melhor.
Depois de devorarem três tigelas grandes cada um no Ichiraku, os dois voltaram para a academia.
Era hora de encarar a realidade.
E a realidade deles era simples: eram genin outra vez e precisavam “conhecer” seus respectivos sensei.
Naruto cruzou os braços, pensativo.
— Kakashi vai se atrasar como sempre… Talvez eu aproveite esse tempo pra falar com a Kurama e verificar como está o selo.
Hinata o observou com atenção.
— Você pretende liberar o selo?
Naruto balançou a cabeça.
— Difícil. A chave está com os sapos do Monte Myōboku. Se eu mexer sem ela, posso ativar a proteção que meu pai deixou no selo.
Ele hesitou por um instante.
— Além disso… preciso descobrir qual Kurama está lá dentro. A que estava comigo quando eu tinha doze anos… ou a que estava comigo antes de sermos mandados pra cá.
Hinata arregalou levemente os olhos.
— Se for a Kurama de doze anos…
— Então vou ter que lidar com o ódio dela tudo de novo — respondeu Naruto com um suspiro resignado. — Vai ser complicado… mas já consegui uma vez. Posso fazer de novo.
Eles retornaram à academia e seguiram diretamente para a sala de aula.
Alguns alunos já haviam voltado e estavam reunidos em seus novos times, conversando animadamente ao redor das mesas.
Naruto percorreu o ambiente com o olhar.
Na segunda fileira, junto à janela, Sasuke e Sakura estavam sentados lado a lado. Mais ao fundo, na quinta mesa da fileira central, Kiba gesticulava animadamente enquanto Shino o observava em silêncio.
Hinata seguiu até Kiba e Shino, cumprimentando-os com um sorriso suave e educado antes de se sentar.
Naruto caminhou até a mesa do Time 7 e tomou seu lugar ao lado de Sakura.
Sua mente começou a vagar.
Ele não possuía uma memória perfeita, mas lembrava claramente das coisas que realmente importavam — dos eventos que precisava evitar, das decisões que precisava mudar… das pessoas que queria salvar.
Também sabia que teria um longo caminho pela frente para provar seu valor outra vez.
Talvez essa fosse a parte mais frustrante.
Naquele momento, ele ainda era desprezado e odiado pela maior parte da vila. Havia trabalhado duro, derramado sangue e lágrimas para conquistar o reconhecimento de todos.
E agora… teria de fazer tudo novamente.
“Kuso… essa parte vai ser um saco.”
— Ei, Naruto.
Ele virou-se na direção da voz e encontrou Sakura observando-o com uma curiosidade incomum.
— Nani, Sakura-chan?
Os olhos verdes dela desviaram por um instante, como se organizasse os pensamentos, antes de voltar a encará-lo.
— O que aconteceu entre você e a Hinata? Você arrastou ela para fora da sala daquele jeito… e ainda voltaram juntos.
Por um segundo, Naruto quase respondeu com uma meia-verdade.
Na sua mente, Sakura era uma de suas melhores amigas — alguém em quem confiaria a própria vida sem hesitar. Droga, ela literalmente havia mantido seu coração batendo com a mão dentro do peito durante a Quarta Guerra!
Mas aquela era a Sakura adulta… que havia atravessado o inferno ao lado dele.
A garota sentada ali ainda não tinha vivido nada disso.
E, naquela idade, Sakura não conseguiria guardar um segredo nem que sua vida dependesse disso.
— Isso não é da sua conta, Sakura-chan. Não se meta.
A resposta saiu mais dura e fria do que ele pretendia.
— B-BAKA!!! — gritou Sakura, avançando para socá-lo.
Naruto viu o punho vindo em sua direção. Com calma, ergueu a mão e interceptou o golpe.
Era lento. Fraco. Nada comparado ao que seria em alguns anos.
Sakura ficou imóvel, os olhos arregalados de choque.
— Somos companheiros de time, Sakura-chan. Não é legal continuar me acertando assim. — disse, soltando o punho dela.
O burburinho na sala aumentou. Todos estavam acostumados a vê-lo apanhar sem reagir.
Bem… Naruto lamentava decepcioná-los, mas não pretendia continuar sendo o saco de pancadas da equipe.
Ignorando os olhares, cruzou os braços sobre a mesa, apoiou a cabeça e fechou os olhos — fingindo dormir.
Na verdade, sua consciência mergulhava cada vez mais fundo.
Era como afundar em um rio escuro e pesado, onde a água se tornava mais densa a cada metro.
Mais fundo.
Mais fundo.
Até alcançar o lugar que procurava.
O domínio do selo da Kyūbi.
Seus olhos internos se abriram.
Diante dele erguia-se a imensa cela de grades vermelhas.
E, atrás delas…
Dois olhos vermelho-sangue se abriram e o encararam de volta.
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