Sob a Luz do Luar

1 Sob a Luz do Luar


O táxi partiu depois de deixar um passageiro em frente à residência da família Arima. Kousei retornava para casa depois de uma turnê de duas semanas pela Europa. Sentia-se exausto por causa do voo, mas estava feliz por retornar.

— Cheguei.

Disse depois de abrir a porta, sendo recepcionado por sua filha que veio correndo em sua direção para abraçá-lo.

— Bem-vindo de volta, pai.

— Olá, Kaori. Ei, parece que você cresceu um pouco...

Falou enquanto apoiava-se em um dos joelhos na frente dela.

— Cresci sim. Logo eu faço 10 anos e antes que você perceba eu vou estar mais alta que você.

Falou com toda a confiança característica de uma criança.

— Mas você sempre será minha garotinha.

Riu e fez um afago nos longos cabelos castanhos. Tsubaki apareceu no corredor, vinda do quarto do casal.

— Bem-vindo, querido.

— Olá, Tsubaki. Estou em casa.

Ele levantou-se e deu um rápido beijo nos lábios da esposa antes de continuar.

— Como você está?

— Estou ótima. Você parece cansado.

— Um pouco. Eu vou tomar um banho e conversamos mais durante o jantar.

Depois do banho, a família se reuniu para o jantar. Kousei perguntou para a filha como ela estava se saindo nas aulas de violino. Ela admitiu estar com problemas, mas não desistiria de aprender a tocar o instrumento. Ele reafirmou seu total apoio a ela.

A conversa continuou na sala, depois do jantar. Kousei entregou os presentes que trouxe e contou um pouco sobre a viagem, especialmente os lugares que visitou. Mostrou também algumas fotos que tirou. No momento em que o homem bocejou alto, Tsubaki decidiu que era hora de encerrar.

— Certo, hora de todos irem para a cama.

Falou depois de se levantar, batendo palmas como se os apressasse. Kousei foi até o banheiro e escovou seus dentes antes de tomar a direção do quarto.

No meio do caminho, parou em frente à sala de música. Não resistiu e abriu a porta, acendeu as luzes e sentou em frente ao piano. Sem pressa, abriu a tampa que protegia as teclas e ficou ali, em silêncio. Do corredor, Tsubaki se perguntou o motivo das luzes da sala de música estarem acesas. Olhou dentro e viu o marido sentado em frente ao instrumento.

— Kousei...

Ela chamou o repreendendo.

— Você não está cansado? O piano vai estar aí amanhã. Você deveria ir para a cama.

Para pressioná-lo, apagou as luzes. A lua cheia iluminou o ambiente com sua luz azulada, dando ao ambiente um clima de paz e mistério. Ele virou a cabeça na direção da janela.

— Está uma noite muito bonita...

Disse antes de mover suas mãos. Antes que Tsubaki pudesse dizer algo, sua voz morreu na garganta ao ouvir a melodia. Em silêncio, caminhou até o marido e sentou ao lado dele no mesmo banco, encostando a cabeça no ombro dele.

— Isso não vale...

Ela reclamou baixinho.

— O que?

— Você sabe...

Os dois mantiveram o silêncio até ouvirem um “com licença” quase sussurrado da menina antes dela entrar no quarto e ir direto para o colo da mãe. Ela parecia encantada por aquela peça.

— Que linda... Como se chama?

— Se chama “Clair de Lune”, querida. A Luz do Luar. Aposto que o Debussy compôs essa peça em uma noite assim, não acha?

Depois do pai dizer aquilo, Kaori percebeu o cenário à sua volta e sorriu.

— É verdade.

— É a peça favorita da sua mãe, sabia?

— Kousei...

A mulher falou, envergonhada pela revelação repentina.

— Mesmo?! E por que, mãe?

Tsubaki ficou alguns instantes pensativa, imaginando se deveria contar aquela história para sua filha. Ela poderia ser muito nova para compreender. Mas no final, resolveu contar.

— Eu tive um namorado na época fundamental. Um veterano que eu admirava muito. Mas só depois que começamos a sair eu percebi que eu sentia por ele não era amor verdadeiro. Um dia, ele terminou comigo. Meus sentimentos confusos acabaram o magoando. Naquela noite, eu encontrei seu pai na sala de música da escola. Eu estava muito mal. Eu não o amava, mas era triste ser rejeitada. Seu pai ficou ao meu lado o tempo todo, tocando enquanto eu chorava e desabafava. Naquela noite, eu tive certeza de algo que eu sempre tentei esconder de mim mesma. O quanto eu amava seu pai.

— Nossa. Que história linda mãe. E você, pai? Quando se deu conta de que amava a mamãe?

Aquela pergunta deixou Tsubaki tensa e ansiosa de repente. Estava preocupada com a resposta dele. Ela sempre se viu como a segunda opção de Kousei depois da morte de Kaori, e sempre teve medo de que ele nunca teve sentimentos reais por ela, apenas a usando para não acabar sozinho.

— “Se dar conta” não é o modo certo de falar, querida... Um passarinho me contou sobre os sentimentos da sua mãe enquanto estávamos no fundamental.

— Eh?!... Como... Quem?!

Ela perguntou, não escondendo a surpresa.

— É segredo

Ele riu, lembrando-se da carta que recebeu após perder seu primeiro amor.

— O período logo depois da morte da Kaori foi muito difícil para mim. Eu fiquei de luto por muito tempo, mas sua mãe sempre esteve ao meu lado, como um anjo da guarda. Ela me confortou, me animou, me protegeu... Com o passar do tempo, eu comecei a me sentir “curado”, pronto para amar de novo. No último ano do ensino médio, ela se declarou para mim. Eu aceitei esses sentimentos, e aprendi a amá-la. Uma pequena semente que virou uma bela árvore.

— Entendi.

A menina respondeu com um largo sorriso nos lábios. Não imaginava que seus pais tivessem uma história de amor tão bonita. Ela recostou a cabeça no peito da mãe, mas sentiu algo caindo sobre ela. Olhou para cima e viu a mulher tentando controlar suas lágrimas.

— Mãe?...

Ela perguntou, preocupada.

— Desculpa...

A mulher disse antes de limpar seu rosto. Tsubaki não conseguiu esconder como a “declaração” do marido mexeu com ela. Mas ela deu outra razão para o choro.

— O papai é muito mau, não é? Sempre fazendo a gente chorar quando ele toca...

— Sim, ele é muito mau!

— Não sou não.

O trio riu junto. Não demorou para a peça que Kousei tocava terminar. Fez se um silêncio, que rapidamente foi quebrado pela mulher.

— Eu tenho algo para dizer para vocês. Eu pensei em esperar até amanhã, mas acho que esse é momento perfeito

— O que houve, Tsubaki?

Kousei perguntou um pouco ansioso.

— Querido, Kaori... Nossa família vai ficar maior.

Ambos tiveram que pensar por um instante na frase. Mas quando a menina se deu conta, saltou do colo da mãe e a encarou

— Eu vou ganhar um irmão?!!

— Ou uma irmã...

Tsubaki completou colocando sua mão sobre a própria barriga. A explosão de alegria da garota foi tão grande que a mãe teve que repreendê-la.

— Shhh... Já está tarde, não grite assim.

Imediatamente ela parou e colocou as mãos na boca.

— Desculpa. Mas é que eu estou muito feliz

Ela abraçou a mãe bem apertado.

— Eu sei.

A esposa virou a cabeça na direção de Kousei, que ainda parecia chocado.

— O que foi, Kousei?

— Ah... Nada, eu só estou surpreso.

— Eu também fiquei surpresa quando o médico deu a notícia...

Com a mão ela começou a acariciar os cabelos da filha antes de continuar falando.

—... Mas ele falou que mesmo eu já tendo quase 40 anos, minha saúde é perfeita. Tudo que eu tenho que fazer é ir com calma, visitá-lo todo o mês, e tudo vai ficar bem.

— Certo.

Passado o choque inicial, o homem abriu um grande sorriso e se inclinou para beijar a esposa.

— Eu estou feliz, Tsubaki. Muito... muito feliz.

Com a mão tocou a lateral do rosto dela, e ela inclinou o rosto naquela direção antes de fechar os olhos.

— Eu também. Eu te amo, Kousei.

— Eu também te amo, Tsubaki.

A partir dali toda a conversa girou em torno da criança que iria nascer. Seria um menino? Uma menina... Seria parecia com o pai? Com a mãe?... Uma coisa era certeza, o novo membro da família já era amado por todos, que tinham apenas a luz do luar como testemunha de sua felicidade naquele momento.

FIM

Notas finais
- Depois de tudo o que houve, o Kousei merece ser feliz.

Espero que tenham gostado. Até mais.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!