Chovia torrencialmente enquanto Nana corria desvairada pelas ruas. O pensamento ainda confuso com o que ouvira minutos atrás. Sem querer, esbarra numa mulher que, ao reparar na transparência de sua roupa encharcada, sorri maliciosamente, aumentando nela a sensação de asco. “Ela não podia, não podia ter me dito isso! Era minha melhor amiga...” Raiva e nojo era o que sentia a jovem. Chegando em casa, foi recebida friamente pelo pai -que sempre foi distante. Tirou os sapatos e subiu para o quarto. Lentamente sua respiração voltava ao normal, enquanto trocava de roupa. Deitou-se na cama, respirou fundo várias vezes... E então as lágrimas puderam rolar. Ainda estava confusa, mas a raiva tinha passado. “Estou apaixonada por você, Nana... apaixonada há tanto tempo...” As palavras se repetiam em sua cabeça. A voz de Lílian sempre tão doce estava embargada quando o disse... Apertou os olhos com força, tentando afastar o pensamento, mas não conseguia. Levantou-se para pegar a foto que mantinha sobre o criado-mudo. Nela, estava abraçada com a amiga.

“E agora? Como poderei abraçá-la, sabendo que o que sente por mim é mais que amizade? Nunca mais será a mesma coisa...” O celular tocou. Nana olhou o visor, já imaginando quem era. “O que quer, Lílian?” -Disse num tom seco.

“Me deixa conversar com você... Estou na porta da sua casa”.-Era bem típico da garota anunciar sua chegada. Subiram as escadas em silêncio. Nana fecha a porta do quarto e suspira um pouco apreensiva sobre os rumos que a conversa poderia tomar. Lílian olhava para o lugar com o sorriso de quem encontra boas recordações. Parecendo devanear, andou até a poltrona que ficava perto da janela. Então mirou os olhos azuis na amiga.

- Nana eu...

- Já sei o que você quer me dizer: que compreende o fato de eu não corresponder aos seus sentimentos. Mas isso não apaga o que eu ouvi, Lílian... e eu não esperava isso. Não de você! Só de pensar em quantas vezes você deve ter me abraçado, imaginando que eu era sua... sua namorada! Quantas vezes você beijou meu rosto, querendo talvez beijar minha boca! -a expressão de seu rosto foi de nojo enquanto o disse -Me desculpa, mas é um pouco demais pra mim.

A outra, sentindo-se ferida, olhou para chuva, que teimava em cair e foi desta o único som que ouviu por um longo tempo. Voltou a encarar a menina, que permanecia encostada à porta.

-Lembra de quando íamos à casa da sua avó? De como ficávamos o dia todo brincando no quintal, catando bichinhos na terra? –falava com sua voz doce e expressão suave, como se já não lembrasse das palavras ácidas de Nana.

Ela olhou então para Lílian, buscando no azul-safira de seus olhos a criança com quem viveu aqueles momentos tão maravilhosos...

-...E de como você insistia em subir em árvores, querendo dar uma de corajosa...

-E ganhei essa cicatriz horrível caindo de uma delas – disse levantando um pouco a saia, para mostrar a listra escurecida sobre o joelho direito.

-Você chorou tanto... Mas tentou manter a pose... Ficou com uma cara engraçada... Hahahahahahahaha... –as duas riram.

Um trovão, alto, reprimiu as risadas e as trouxe de volta à realidade.

-Mas o que isso tem a ver com o que você veio me dizer?- Disse, séria.

-Nana... quero que pense bem; só porque, como você mesma disse, não corresponde ao que sinto... será que vale a pena jogar fora nossa amizade? Tudo o que vivemos juntas -alegrias, tristezas, as lembranças lindas da nossa infância- tudo vai perder a importância?- Havia apelo em seu olhar e voz.

Parecia tão frágil... Nana sentiu vontade de acolhê-la, de tentar desfazer toda aquela situação... Mas não conseguia. Sua mente dizia que era errado, que se desse oportunidades a Lílian, alimentaria esperanças, que nunca seriam realizadas. Seus sentimentos se misturavam — o carinho amigo, a surpresa, a repulsa... Não sabia o que fazer.

- Lembra que um dia prometemos nunca nos separarmos? Prometemos ser amigas pra sempre...

-Lílian, pára!

-...Não importando as circunstâncias...

-Mas é diferente dessa vez!

-O modo como está agindo é imbecil e preconceituoso! Tudo bem, eu entendo tudo o que se passa dentro de você. Sei que está confusa... Mas por favor, não seja tão indiferente... Não haja como se eu fosse algo desprezível.

A garota inspirou e soltou o ar devagar. Abaixou a cabeça, tentando evitar as lágrimas. Já não tinha qualquer chance de poder amá-la e sentia medo de perder a amiga tão querida, mas não se arrependia de ter contado o que sentia.

-Bom... de qualquer forma, pense melhor a respeito querida...

-Não me chame de querida! -Gritou, assustando a outra. Nunca a vira gritar antes.

-Me desculpe Nana, eu...

-Chega! Quer saber, não estou interessada nessa conversa, estou me sentindo cansada... Por favor, vá embora.

Abriu totalmente a porta e ficou olhando para o chão, esperando que Lílian saísse do lugar. Levantou-se da poltrona, ajeitou a roupa e saiu. Da janela, Nana a viu abrir o guarda-chuva e ir embora.

A semana passava rápida e em nenhum dos dias vira Lílian no colégio ou, se falaram por telefone. Sentia-se aliviada por não ter de vê-la e ficar numa situação desconfortável, mas todos os lugares faziam-na lembrar da amiga. Sim, amiga. O tempo longe dela a fez perceber que tinha sido dura demais e que era impossível odiá-la. Sentia saudades das conversas animadas, da atenção que ela lhe dava, da doçura, do sorriso daquela menina tão meiga, que nunca havia lhe dado as costas. E então soube que ela estava doente. Preocupou-se, pois a garota morava sozinha. Ao tocar o sinal da última aula de sexta-feira, decidiu ir até a casa dela. Pediria desculpas e reataria a amizade.

Na sala, havia malas no chão, perto do sofá. Surpreendeu-se com o sentimento de perda que fez pesar o coração.

-Lílian... Eu...Vim te pedir desculpas... Desculpas por tudo; por ter sido tão idiota, não devia ter falado daquele jeito... –A voz embargou.

-Pensei que depois daquele dia você me odiasse...

Nana foi até a ela e a abraçou.

-Eu nunca te odiaria, nunca...

Apertou o abraço, enquanto lhe pedia desculpas. E ambas choravam, uma sentindo-se perdoada, a outra querida.

O perfume doce e o calor do abraço de Lílian envolviam Nana... Não queria soltá-la, queria fazer passar toda a tristeza. Queria estar com ela. Lembrou-se das malas que vira ao entrar e novamente lhe veio-lhe o sentimento de perda.

-Lílian... Você vai embora? –Perguntou temerosa.

-Mamãe me ligou há dois dias pedindo que eu passasse essa semana com ela.

-Pensei que você iria embora... Querida.

Lílian sorri-lhe, ao ouvir “querida”. Era como gostava de ser chamada.

-Será só uma semana...

Vendo-a sorrir tão graciosamente, transparecendo felicidade no azul-safira de seus olhos, não soube explicar a sensação que passou pelo seu coração. Aproximou-se timidamente em direção aos lábios de Lílian, tomando-os ternamente num beijo.

-Estarei aqui quando você voltar.

*****
Notas finais
Essa é uma breve fanfic onde o preconceito é vencido, mostrando o quão pequeno ele é diante da magnitude da amizade e do carinho...

Agradecimento especial ao Bardo, que me ajudou com as correções^^

E a você leitor, um grande abraço!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!