Sob O Segredo Do Escorpião: A Suspeita do Irmão
1 Capítulo 1
A casa de Scorpio há muito ficou para trás e eles estavam decididos a evitar as cidades mais próximas até chegarem em um local do qual sabiam que o geminiano poderia abrir um rasgo dimensional sem qualquer testemunha lhes causar problemas. Saíram do Santuário sem permissão ou conhecimento de Athena.
Não que fossem duramente punidos se apanhados, porém era bom evitar problemas. Os Cavaleiros de Ouro tinham que manter suas imagens impecáveis e isso implicava em dar algum jeito de mantê-los calmos de alguma forma. E a ligação que os irmãos espartanos possuíam era muito conhecida. Os dois não suportavam passar tanto tempo um longe do outro, como se fossem uma mesma alma, dividida para dois corpos.
— Espero que o encontro com seu irmão o tenha acalmado… — Dizia Ganimedes virando-se para seu companheiro de viagem e notando-o silencioso, com o olhar perdido no nada. — Castor? — E suspirou. — Sei que gostaria de que ele voltasse conosco, mas entenda que…
— Qual o objetivo de criarem uma arma dessas...? — Questionou o mais novo, como se os pensamentos ganhassem voz, mantendo o olhar no vazio.
O mais velho ergueu uma sobrancelha, surpreso com aquela pergunta, mas logo se colocou a refletir. Uma arma como aquela realmente não seria confeccionada sem uma razão.
— Eu me faço a mesma pergunta, mas infelizmente não teremos respostas já que um Juiz do Submundo a levou com ele. — Pontuou o aquariano com pesar.
— Porque era desconhecido até mesmo por eles uma arma forjada com um metal do Submundo. — Disse o espartano, olhando de relance para o outro, ambos continuando a caminhar pela trilha, dando passagem para uma carroça que seguia no caminho oposto. — O que deixa tudo isso muito estranho. Ela não matou o meu irmão…
— A julgar pelo relatório de Theron, sua essência divina o salvou. — O troiano pontuou de maneira óbvia. — Qualquer outro, como você ou eu, teria sucumbido porque não suportaria o ferimento.
— Sim, não discordo de você. — Sorriu Castor de canto. — Talvez seja exatamente por isso que não matou meu irmão.
Ganimedes parou seus passos e se volta para seu companheiro, franzindo o cenho.
— Onde está querendo chegar?
— A arma não estava pronta. — Afirmou o mais novo, parando ao seu lado. — A arma foi forjada com um metal do Submundo, mas Pollux me disse que Nyctimus o chamou de “sacrifício”. Desde o ferimento ele não consegue ascender seu Cosmo, dizendo que sentia como se suas forças tivessem sido drenadas. — Explicava o homem caminhando alguns passos à frente sob o olhar atônito do aquariano. — E se era essa essência divina do meu irmão que precisavam para finalizar essa arma, seja ela qual for?
Ganimedes ficou a observá-lo por longos instantes, desviando o olhar e lembrando do que Scorpio falou do ferimento e do quão debilitado Pollux havia ficado desde então. Por onde a lâmina passou ficou um rastro de danos do qual o Caçador só tinha visto quando Apollo cumpria o seu papel menos conhecido como um Deus da Morte.
Foi preciso uma limpeza intensa, removendo os músculos apodrecidos. Um pulmão foi atingido ainda que de raspão e apresentava uma camada purulenta na área. A febre era altíssima, fazendo com que o escorpiano usasse todos os recursos possíveis para manter sua temperatura aceitável. Não duvidaria dele ter chegado ao ponto de dar ao Semideus uma pequena porção de Ambrosia que mantinha guardada para casos extremos.
A alimentação do ferido foi totalmente baseada em sumo de frutas bem diluídos, caldos e chás. Antares cuidava dessa parte, ministrando doses graduais para mantê-lo nutrido o bastante até despertar.
— E ainda tem outro ponto do qual não estamos discutindo sobre quem poderia forjar uma arma dessas. — Continuou o espartano após perceber que o troiano estava analisando seus pontos. — Nenhum humano é capaz de realizar um feito desses.
— Acha que Hefesto poderia ser quem forjou isso? Por que ele criaria uma arma que poderia ferir semideuses ou mesmo um Deus? — Questionou o troiano de volta. — E qual interesse ele teria com isso?
— Ele não, mas outros sim. O meu irmão não foi uma escolha aleatória. — O geminiano pontuou com firmeza. — Há muitos semideuses nas fileiras de Athena, mas foi meu irmão o escolhido. Essa missão deveria ser investigativa e quem a planejou contava que meu irmão ou eu fôssemos até lá. Foi uma armadilha!
O aquariano apenas suspirou, levando as duas mãos frente ao rosto. Aquela conclusão era perigosa, mas fazia sentido. Qualquer possibilidade de ataque à nação espartana seria o suficiente para fazer com que os irmãos fossem até lá, com ou sem a permissão da Deusa. Além disso, também indicaria a existência de algum espião ou traidor dentro de suas fileiras.
“De novo não...”, pensou o troiano.
— Tudo bem. Se seguirmos essa linha de raciocínio, como poderiam saber que Athena enviaria Pollux e não você?
— Talvez eles não soubessem, mas Athena enviou nós dois para a mesma missão em territórios distintos que tinham as mesmas suspeitas de atividades em templos antigos. — Pontuou o espartano, dando de ombros. — Eram Templos de Ares! Infelizmente naqueles que cheguei já estavam abandonados. Os vilarejos se tornaram fantasmas… Talvez, para eles, qualquer um dos resultados seria bom o bastante...
— Em suma… — Ganimedes buscava concluir aquilo. — … Vocês dois estariam sendo conduzidos a uma emboscada, mas a senhora Athena achou por bem enviá-los a lugares distintos... para que não houvesse outras implicações. Os dois juntos são um grande problema para qualquer adversário. — E bateu um dedo nos lábios, ainda pensativo. — Talvez ela mesma tenha suspeitado de uma armadilha e por isso os mandou para lugares diferentes...
Castor sorriu, apontando para o parceiro de viagem.
— Mas não esperavam que ele estivesse com outro cavaleiro de Ouro… muito menos uma Amazona. — Ele disse abrindo os braços.
— Ainda assim, não entendo porque alguém como Hefesto poderia criar uma arma assim. De todos os deuses, tenha certeza de que ele não faria uma para Ares. Eles se odeiam!
— Há mais alguém que pode criar armas com material de outro mundo. — Dizia o geminiano fitando-o. — Ou se esqueceu quem forjou as Armaduras no séquito de Athena?
O sorriso do troiano desapareceu naquele instante, compreendendo, enfim, onde o outro queria chegar. Não achava que aquilo podia ser possível, mas parecia ser a única explicação plausível.
— Você não acha que os Lemurianos… — Murmurava, vendo o jovem espartano assentir. — Eles lutaram conosco! Por que criariam algo assim?
— Lembre-se que alguns deles culparam Athena pela sua tragédia. Alguns não aceitaram acompanhá-la mesmo quando esta prometeu protegê-los e ajudá-los nas terras distantes para onde foram se abrigar. Essa arma não estava pronta! Pollux foi usado. Drenaram parte de sua essência divina para prepará-la para algo maior e nós devemos nos preparar para o que vai vir.
— A começar por investigar por esses lemurianos errantes. — O aquariano pontuou, tornando a caminhar rápido. — Vamos, não temos mais tempo para perder aqui.
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