Sob O Farol E A Lua

8 Prelúdio ao Caos


O loft estava... em condições rudimentares.

Talvez não fosse o caso, mas era o que Derek sentia. Praticamente o que era importante precisava ser substituído, pintado ou feito algo completamente novo. Fazia quase 3 dias desde que começaram a transformar o lugar e ainda parece que levaria um tempo até chamarem de lar.

Encanamento estava enferrujado, vários tijolos quebrados ou com buracos. A enorme janela, que cobria toda a extensão de uma parede, estava empoeirada — felizmente apenas isso. Dava acesso a varanda, igualmente no mesmo estado.

O pior era o cheiro.

Mofo, umidade, poeira... O bastante para fazer os lobisomens espirrarem.

Claro que estava barato demais para ser verdade. Sempre tem alguma coisa por de trás de todo bom preço.

E, ainda assim, ele comprou todo o prédio.

Ele supõe que podia ser pior.

Sempre tem como ser pior.

Pelo menos as renovações não demorariam muito.

Isto é, se o alfa se focar em seus aposentos. Renovar todo o prédio requer tempo e paciência que ele não tem agora.

O segundo andar, por outro lado, estava em melhor estado. Os quartos (se é que dá para chamar de quartos, considerando que é um loft) precisavam de ambas profunda limpeza e pintura. Tirando isso, estavam em ótimo estado.

Peter não mentiu quando disse que dava para “praticamente” morar, mas ao menos seu tio devia ter avisado que faltava bastante coisa ainda para estar em um estado mais apresentável.

Se apenas sua mãe o visse agora...

Com certeza não aprovaria sua nova escolha de covil.

Todavia, ele repete, podia ser pior.

Isaac já estava no seu novo quarto, tendo lavado e secado no começo do dia. Estava pintando agora.

O garoto nunca pegou num pincel na vida.

Ensiná-lo como pintar uma parede foi, no mínimo, a experiência mais singular e talvez triste que Derek já viu.

O que, considerando o passado de Isaac, faz sentido. Ao menos faz Derek sentir-se menos culpado por tê-lo mordido.

O alfa fazia o mesmo que seu beta, mas no andar de baixo. Ele cuidaria das paredes em piores estados, como as com buracos, em outro dia. Apesar de estar em melhor humor hoje, não estava a fim de fazer nada além de lavar e pintar. Já bastava o estado de sua nova casa, ainda ter que rebocar parede hoje estava fora de questão.

Principalmente desde que Peter não deu sinais de vida o dia todo.

Ele ficou a cargo de continuar sua missão enquanto o lobo e o beta focavam em cuidar de seus novos lares. Tinha dito que tinha uma “pista” que indicasse algo mais concreto dos alfas.

Confiar no Peter sempre será uma faca de dois gumes, mas não é como se Derek tivesse escolha. Por enquanto, ele deixaria seu tio fazer o que quisesse, contanto que ele trouxesse resultados.

Que ele ainda há de contribuir.

E, não, aquela vez com as bruxas não contava. O alfa praticamente resolveu tudo sozinho.

O lobo grunhe, distraído. Finalmente terminou de pintar as paredes.

A enorme janela brilhava.

Claro, ainda falta bastante coisa. Pisos precisam de substituição, paredes de renovação, os quartos extras de polimento. Mas, por enquanto, está habitável.

Ficaria um pouco apertado com todo mundo, mas serviria por hora. Pelo menos, até Derek resolver mexer no resto do prédio.

Do lado de fora, na varanda, ouve seu celular. O som leve do zumbido vibra contra a pequena mesa.

Ele caminha até a área externa. Pega o celular e apoia-se no parapeito, admirando o cenário.

Apesar de afastado da cidade, o bairro era até que bem modesto. Parque estava vazio, mas era possível enxergar de seu ponto. A floresta não era distante, poucos minutos a pé o levariam até ela. As luzes baixas iluminavam o breu das ruas, algumas piscando, outras apagadas.

Estava um silêncio. Quase de forma não natural. O único som possível ser ouvido eram da natureza, ocasionais de pios de corujas e cantos de grilos.

Uma bela imagem de tranquilidade e vidas pacatas.

Uma pena que tudo isso poderá ser afetado por um grupo de lunáticos. E quando acabar — pois Derek tem plena certeza que isso era acabar — ele não tem dúvidas que mais problemas se atrairão pela cidade.

Ele olha de relance ao celular ainda vibrando. Uma imagem de um Peter sorridente o encarava de volta.

Ele atende com um grunhido impaciente.

— E então?

Ora, boa noite, sobrinho.

A voz aveludada e ronrona de Peter se alastra, o deixando desconfortável.

— Vá direto ao ponto. Sem gracinhas.

Sabe, você realmente devia deixar de ser tão rabugento. Eu diria que é falta de sexo.

Derek fecha os olhos. Paciência.

Ouvir dizer que o clube Jungle tem todo tipo de gente que possa te interessar.

— Peter.

Um rosnado. Na outra linha, uma risadinha.

Oho, calma, calma. Não posso brincar um pouquinho?

Seu tio continuava a rir. Dava para praticamente sentir o tom pela outra linha.

Mas que seja. Tenho algo interessante que precisa ver.

Derek abre os olhos.

— O que é?

É melhor você vier pessoalmente. Nunca se sabe quem possa estar... ouvindo. Paredes tem ouvidos, como eles dizem.

O lobo suspira.

— Certo. Me envie o local. Já irei sair.

Ótimo. Estarei aguardando.

A linha fica muda. Derek lentamente guarda o celular no bolso da calça, se desloca do parapeito, ainda admirando o cenário.

De fato, uma paisagem que traz a bela imagem de calmaria. A lua estava alta no céu, minguante.

No loft, Derek para contra um sofá mais afastado da bagunça. Ao pegar a jaqueta de couro encostado, diz:

— Isaac.

Seu tom permanece ameno, sem precisar falar alto. Ele sabe que o beta ouviu, quando o som de algo se arrastando no chão para de forma abrupta.

Sim?

— Precisarei sair. Peter deu um retorno. Fique no loft até eu voltar.

Ok...

Isaac não diz mais nada. Nem questiona. Sabe que o alfa eventualmente falaria tudo assim que tiver toda a informação. De fato, muito diferente de antigamente.

— Se precisar de alguma coisa, me avisa. Não estarei longe.

Ele ouve um aham. Derek bufa, rolando de leve os olhos. Adolescentes.

Com a chave do carro em mãos, vai em direção ao elevador.

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O endereço que Peter enviou levava a um armazém no centro da cidade. Não estava tão tarde, porém havia anoitecido o bastante onde havia pouco movimento nas ruas e poucos comércios abertos. O lugar em específico estava deserto.

Não havia alma alguma por perto. Quase parecia... deliberado.

Proposital.

Completamente suspeito...

Derek certamente não deixaria de associar Peter a coisas esquisitas e suspeitas. É praticamente o modus operandi de seu tio. Ficar de guarda alta sempre que ele estivesse por perto não lhe era uma sensação estranha.

Dito isso, seja lá o que queria, com certeza não era sua vida. Disso o alfa tem plena certeza.

Mas ainda assim, ele sente uma sensação estranha no peito. Como se o próprio ar vibrasse e dançasse de pura energia.

Alerta, entra lentamente pela porta dos fundos do armazém.

O interior estava um breu, mas o lobo conseguia distinguir formas facilmente mesmo com pouca luz.

Caixas aqui e ali, hidráulico manual em um canto, pallets do outro. Nada de anormal em um lugar como esse.

Exceto pela figura no centro, encostado em uma das caixas, levemente cantarolando alguma coisa.

Derek se aproxima.

— Se for começar a ser críptico, Deaton ainda se saí melhor.

Peter sorri.

— Ah, Derek.

Teatralmente, se desloca de onde estava e fica em pé.

— Acredite, isto não é o tipo de coisa para se dizer pelo telefone.

O lobisomem arqueia uma sobrancelha, mantendo um metro de distância. Com mãos no bolso, olha em volta, escaneando.

— O que você queria me mostrar?

Ao invés de respondê-lo, o beta gira de leve o corpo. Com a cabeça virada a direita, diz:

— Pode sair agora, querida.

Das sombras, uma figura emerge. Mulher, pele escura, encapuzada. O ar, que antes parecia carregado de energia, repentinamente parece ficar estático.

E não qualquer estática. Estava carregado de ozônio.

Derek solta um alto rosnado. Fica em posição, seu rosto se transformando, ganhando garras e presas. Olhos vermelhos focados no inimigo em sua frente.

Peter levanta as mãos, ficando entre a figura e o alfa. Apesar da situação tensa, o beta estava perfeitamente tranquilo.

— Sobrinho, isso não é necessário. Ela não está aqui para nos causar mal.

Sua voz saí grossa. Como se um lobo, por entre rosnados, tentasse falar:

Qual o significado disso?

— Oh, acredite em mim, nóstivemos uma longa conversa sobre isso.

Antes que Derek pudesse dizer mais, a figura lentamente retira o capuz.

— Alfa Hale.

Sua voz era calma e aveludada. Ela não demostrava medo, porém, seu cheiro exalava uma certa... incerteza.

— Estou aqui nesta noite não como sua inimiga, nem como aliada. Apenas como uma intermediária do equilíbrio.

Seu rosto... Derek a reconhece.

— Srta. Morell?

Ela sorri.

— Olá, Derek. Faz muito tempo.

Lentamente, ele deixa sua posição de ataque. Ainda se mantém em estado de meia transformação e completamente na defensiva.

Independente de conhecê-la, qualquer movimento errado da Emissária... Ela morre.

Com dentes cerrados, em tom de ordem, exige:

Explique-se.

Ela prontamente diz:

— Não temos muito tempo. Serei direta ao ponto.

O ar, então, fica mais ameno. Como se todo a energia pulsante tivesse se dissipado, sumido. O cheiro de ozônio estava mínimo, quase imperceptível.

Se era uma forma de acalmar os ânimos, como se para dizer que ela não era ameaça, Derek não acredita nem por um segundo. Ainda mantém-se na defensiva.

— Eu procurei Peter diretamente. É um assunto de grande importância. Pedi que ele arranjasse uma reunião pessoal contigo.

Peter bufa, braços cruzados.

— Ah, sim. Pediu... Tava mais para “faça o que eu digo, senão...” — tom sarcástico estava carregado.

Ela solta um sorriso sem humor.

— Não seja tão cético. Não teria outro jeito de estarmos aqui sem que os alfas soubessem.

— O que quer dizer com isso?

Ele já tinha voltado a forma humana a esse ponto. Não exatamente menos em alerta, mas julgou que, se ela quisesse fazer alguma coisa, já o teria feito.

— Não posso divulgar muita informação. Apenas o necessário para equilibrar a balança.

Quê?

— Balança, equilíbrio cósmico, universo e suas ervas... blá, blá, blá — diz Peter, rolando de leve os olhos — Você sabe. Coisa de druida.

— Independente do sarcasmo, é a verdade.

Ela, então, foca-se diretamente no alfa. Seus olhos... tinham um certo brilho violeta.

— Seus lobos ainda vivem.

O alfa sente sua respiração prensar na garganta.

— Presos, contidos em paredes de aço. Feras indomáveis, intocados por muitas luas. Enterrados em concreto, mofo e umidade...

Ela para um momento, como se ponderando o que dizer, antes de continuar.

— Onde a luz não toca, protegido desde sua fundação. Lá, você os encontrará e vínculos antigos serão restaurados.

Seus olhos fitam os do alfa, ainda ardendo em escarlate.

— Os encontre antes que seja tarde demais... Pois a lua não espera, assim como os uivos de um lobo.

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O loft tinha baixa luminosidade. O ar tenso estava carregado. Mesmo alguém sem sentidos aguçados conseguiria sentir. Era angustiante de certa forma, especialmente aos envolvidos desta noite.

Derek encarava a mesa, apoiando-se na madeira, documentos sobre prédios e o mapa da cidade expostos.

A sua direita, Stiles destacava com um marca texto o que ele achava de importante, ocasionalmente colocando o objeto na boca. Scott estava a esquerda do alfa, tentando ajudar revirando alguns papéis mas sem ter muito sucesso.

Isaac estava sentado no sofá, pesquisando algo na internet.

Já o Peter, sempre útil, sentado na escada em espiral. Fazendo nada.

Estavam há algumas horas nessa investigação. Por enquanto, nada de concreto apareceu.

Chamá-los foi fácil. Não foi necessário muita explicação, assim que ambos chegaram Derek informou o necessário e logo começaram o trabalho. Até mesmo trouxeram notebooks e uma impressora.

Stiles parecia meio distraído. Scott apenas disse que tinha algo haver com a professora nova da escola, mas não elaborou mais que isso.

Derek não achou nada demais, ele parecia normal. Stiles é... estranho, para dizer o mínimo. Quando chegaram, olhou o loft, disse “legal” e ficou por isso mesmo.

A pesquisa estava indo num ritmo... ok. A dinâmica do grupo mais consolidada.

O que, parando para pensar, era tão completamente diferente de quando ainda tropeçavam uns nos outros que o alfa sentia-se realizado, de certa forma.

Não era a alcateia perfeita, mas estavam chegando lá.

— Teria sido bem mais útil ela dizer onde exatamente eles estavam...

Murmura Stiles, mordiscando o marca texto.

— Quem diabos diz que quer ajudar e não exatamente ajuda?

— Estou mais preocupado com o fato que a Srta. Morell está ajudando eles, cara. A Srta. Morell! Eu gostava dela... — diz Scott, folheando alguns papéis.

— Sabe, eu sempre achei ela suspeita. Ela sempre teve uma aura estranha, saca? Muito bad vibes.

Peter comenta:

— Pelo contrário, Stiles, ela foi mais do que útil a nós — ele diz, ainda sentado na escada, dedos entrelaçados em cima dos joelhos.

Stiles lança ao lobo um olhar incrédulo.

— O fato de você estar falando já é estranho o bastante. Você devia estar morto.

Peter revira levemente os olhos.

— Quem sabe? Talvez eu seja um lobisomem zumbi.

— Eca...

Volta a mordiscar o marca texto.

— Espera, zumbis existem?

— Isso não é importante — diz Derek, olhando Stiles — Druidas são mesquinhos, dificilmente suas palavras fazem sentido. Todos seguem a mesma cultura de “manter o equilíbrio”.

Ele pausa um momento.

— Mas Peter está certo. O que ela divulgou foi o bastante para termos a melhor pista que já tivemos a meses.

— Ora, um elogio. Que raridade.

Derek ignora o comentário de Peter.

— Será que é por isso que o Deaton é tão simbólico com as palavras?

— Nah. Acho que é só o jeito dele mesmo.

Scott quem comentou, ainda sem ter muita certeza de como pode ajudar.

— Eu queria dizer arrombado, mas acho que é isso mesmo!

O moreno ri do comentário de Stiles.

Derek fecha os olhos. Respira fundo.

— Não podemos perder tempo. Eu não chamei vocês aqui para ficarem jogando conversa fora.

Scott fica envergonhado. Stiles bufa em escárnio, imaturo.

— Como se tivéssemos feito algum progresso. Não temos como trabalhar em achar algum local específico que seja “intocado pela luz”, “contidos por paredes de aço” e “enterrados em concreto, mofo e umidade”.

O garoto impulsivo faz aspas exageradas no ar.

— Literalmente pode ser qualquer lugar em Beacon.

— E o que você acha que estamos fazendo? Qualquer lugar é melhor que lugar nenhum.

— O que ainda não é melhor. É a mesma coisa que dizer “pelo menos temos o palheiro” sendo que a agulha ainda está perdida!

Stiles balança a cabeça, as mãos na cintura. Ele mordisca o lábio inferior, pensativo.

Derek não havia reparado antes, mas Stiles tem muitos trejeitos. Um deles é morder os lábios quando fica nervoso ou pensativo.

... porque ele reparou nisso agora ele não sabe dizer.

— Sugiro reduzirmos os números.

Começa a mexer na mesa, procurando documentos específicos.

Derek observava ao lado, os braços cruzados.

— O que está fazendo?

— Já que pode ser qualquer lugar da cidade, temos que imaginar como uma criatura sanguinária da noite pensaria ao se esconder em plena vista. E é uma possibilidade que passou pela cabeça...

Papéis rearranjados, colocados em pilhas meticulosamente separadas.

— Mesmo que eles tenham uma Emissária do lado deles, mascarar a presença não é totalmente possível.

Derek encara o adolescente. Aonde ele quer chegar?

— Explique.

— É bem simples.

Stiles o fita, o marca texto entre os dedos.

— Eles ainda precisam comer.

Após tudo estar em seu devido lugar, Stiles retira papéis impressos de uma das pilhas e apresenta ao alfa.

Derek aceita o papel. Era uma cópia de um site de notícias. A manchete “Pessoa desaparecida foi encontrada morta pela polícia” se destacava em letras grandes. A data do artigo era de uma semana atrás.

— Isso é sobre um caso de um cara que desapareceu há algumas semanas. Ao que parece, o dia-a-dia dele era normal, não fumava, não bebia. Um homem bem típico de nossa sociedade.

Faz uma pausa, como se para dar dramaticidade.

— Até familiares o reportarem como desaparecido. Dizem que ele saiu para trabalhar mas nunca chegou ao destino.

Stiles coloca outra impressão por cima.

— Encontraram o corpo dele brutalizado, não muito longe daqui. Não muito diferente de... — Stiles engole em seco — bem, você sabe...

Sim. Mesmo Derek acostumado com todo o sangue, entranhas e tripas que vinham com seu mundo, isso não significasse que fosse comum. Aquele dia... com certeza ele lembraria daquela cena pelo resto da vida.

O papel em si tinha a imagem borrada, mas dava para ter uma noção do que aconteceu com ele.

— Particularmente não acho que seja abaixo do que esses loucos fariam.

— Cara, canibalismo? Sério? — diz Scott.

Ele optou por sentar no sofá perto de Isaac — muito para o deleite do loiro, Derek nota.

— Tecnicamente não é canibalismo? — ele olha Derek — ou seria?

O lobo não responde.

— Enfim, temos provas que lobisomens podem... se alimentar de pessoas, então é plausível.

Ele diz as palavras cuidadosamente, principalmente ao dizer “alimentar”. Como se quisesse evitar de usá-la.

— Sim. Mas onde isso nos ajuda? Um cadáver não vai revelar onde Erica e Boyd estão.

— Estou chegando lá, Derek!

Ele se vira para mexer na mesa, para por um momento, e volta a olhar o lobo.

— Sabe, eu propus isso meio que como piada mas já que vocês estão levando a sério imagino que canibalismo seja comum em lobisomens... — olhos meios arregalados — Ok...

Peter rola os olhos.

— Não é comum, seu idiota, mas sempre tem a possibilidade. Lobisomens selvagens se alimentam daqueles que veem como presas. E, às vezes...

Um sorriso cheio de presas.

— Nem selvagens precisam estar.

Stiles encara seu tio, solta um haha sem humor.

Retira mais papéis. Desta vez, a notícia relatava sobre Beacon Hills.

— Pessoas estão começando a sumir daqui também. Ainda não encontraram nada, mas é só questão de tempo.

Derek apenas o fita.

— Talvez possamos começar pelo último lugar que foram vistos.

Peter se intromete.

— Você sabe que pode ser apenas coincidência, não? Fora que, casos de pessoas desaparecidas não é nada incomum. Não necessariamente tem relação com os alfas.

— Sim, titio decrépito, estou bem ciente disso — um revirar de olhos, sarcasmo carregado — mas, primeiro: é Beacon Hills. Desde quando alguma coisa aqui é coincidência?

— Várias coisas na verdade, como em qualquer lugar do mundo. Você só não repara porque prefere focar no que pode ser potencialmente sobrenatural — rebate seu tio, sorriso arrogante no rosto.

É, Derek tinha que concordar.

— Não é esse o ponto! E segundo: o que temos a perder? Já desperdiçamos várias horas. Esqueceram que amanhã é lua cheia?

O loft fica silencioso por um momento. Os membros pensativos, Peter escolheu ficar calado.

— Ele tem um ponto, Derek.

Veio a voz de Isaac no sofá, tendo se inclinado para frente, o celular pendurado entre os dedos.

Derek suspira pelo nariz.

Não estavam chegando a lugar nenhum. Várias horas se passaram e, ao olhar o horário em seu celular, já tinha passado da meia noite.

Se ele pudesse confiar nas palavras de Morell (o que ele ainda não tem plena certeza) significava que ainda tinham tempo.

“Intocados pela lua”, ela disse.

Provavelmente não sentem os efeitos da lua cheia esses meses todos? Se fosse o caso, estariam completamente selvagens e perigosos demais.

Todos estavam cansados, tanto pelos eventos do dia quanto pelo horário tardio.

E Derek sabe muito bem como isso afeta o corpo. Ele quase morreu por negligência.

— Acho melhor descansarmos por hoje.

O alfa devolve os documentos.

— Stiles, cuide disso. Verifique cada informação, rumor, notícias, o que for e reporte depois da escola.

— Ok, chefe.

Ele ignora e se vira ao outros.

— E quanto ao resto de vocês, procurem casos de pessoas desaparecidas da região e rastreiam o cheiro até o último local que estiveram.

Eles se movem, prontos, cada um se preparando. Bem, todos exceto Peter, que ainda estava na escada.

Derek levanta as sobrancelhas, como se perguntasse “Não vai fazer nada?”.

O lobo mais velho dá de ombros.

O mais novo revira os olhos.

— Stiles.

O garoto já estava na porta, pronto para partir, mas para ao ouvir o alfa chamar. Scott e Isaac já tinham sumido.

— Amanhã, na escola, chame o Jackson para vir aqui. Preciso conversar com ele.

Stiles grunhe.

— Não dá para você mesmo fazer isso? Não sei se reparou, mas não sou exatamente amigo dele.

— Ele não está exatamente atendendo o celular. E antes que pergunte...

Interrompe quando vê que ele abriu a boca. Prontamente a fecha.

— Já passei na casa dele. Nunca está. É como se me evitasse.

— Me pergunto o porquê...

Derek finge que não ouviu.

— Só peço que fale com ele.

Stiles o considera por um momento.

— Vou pensar no seu caso.

E fecha a porta. O loft novamente banhado em escuridão, apenas a luz da lua servindo de consolo para essa noite.

Derek coça por entre os olhos, impaciente e um pouco nervoso.

Peter ainda estava aqui.

— Se não vai ser útil é melhor que vá embora.

Peter se levanta, exageradamente se alongando.

— Não se preocupe, sobrinho, já estava de partida. Farei parte da investigação canina como quer.

— Isso por acaso é alguma piada para você?

Como ele ousa? Não apenas não fez absolutamente nada nessas últimas horas, ainda tem o nervo de ficar de piadinhas?

— Mas é claro! — uma risada por entre dentes — Eu acho completamente hilário que dois de seus betas sumiram e a melhor pessoa desta... alcateia, é um humano adolescente que vive a base de café e tem TDAH.

Diz alcateia com desdém.

O alfa sente uma leve irritação.

— É melhor ter cuidado com o que fala, Peter. Lembre-se que você só está vivo porque eu permito.

— É mesmo?

O tom curioso quase parecia ter algo mais. Como um desafio.

Mas Derek sabe que não deve morder a isca.

— Evidentemente.

Isso faz o beta manter-se calado. Olhos azuis encontram vermelhos. Sabe que o alfa falava sério.

Mesmo o mais velho sabe quando é sábio não irritar Derek.

— Independente de você ser meu tio, você ainda é quem matou a Laura. Nunca se esqueça disso.

Peter só levanta as mãos, em um gesto apaziguador, lentamente subindo as escadas.

Antes de desaparecer, ele para no último degrau. Fita o alfa de sua posição e, um tom de voz quase melancólico, diz:

— Você sabe que eu não queria matá-la.

Mas Derek já estava cansado.

— Isso não importa agora, não é?

Seu tio só o olha por mais uns segundos, levemente balança a cabeça como se estivesse aceitando o que disse. Resignado.

Ou a contragosto. Derek não se importa com qual.

Ele desaparece no outro andar.

Volta a mesa, o grande mapa de Beacon Hills com potenciais pontos de interesse marcados por Stiles.

Deus, ele está certo. Realmente pode ser qualquer lugar.

Ele apenas espera que não seja tarde demais. A lua cheia será daqui a algumas horas e Derek esta noite não queria nada mais do que correr pela preserva, sentir a luz noturna banhar sua pele, cantando o louvor dos lobos.

A quanto tempo ele não saí para correr, apenas para desestressar? Muito tempo, ele diria. Tempo demais.

Porém, sabe que não pode. Não no momento. Não enquanto a ameaça iminente da alcateia rival ainda sondar seu território.

Um som de algo arranhando madeira chama sua atenção. Sente um formigamento nos dedos.

Largas marcas de garras adornavam a mesa, rasgando um pouco o mapa da cidade.

Ele range os dentes. Retrai as garras.

Para por um momento para avaliar o que fazer. Até onde a informação de Morell servia.

Intocados pela lua.

Onde a luz não alcança.

O alfa bufa. Cético.

Druidas e sua natureza. Idiotices mágicas.

Derek para um momento.

Ele sente como se uma luz tivesse se acendido em seu cérebro.

Magia.

Huh.

Valia a pena tentar?

Talvez estivesse na hora de fazer uma visita as bruxas locais.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.