Sob O Farol E A Lua

3 Operação: Loup-Garou.


Dizer que Stiles tinha um plano era risível. Mesmo ele sabia disso. Mas considerando as opções daquela noite, parecia ser o melhor que eles podiam fazer no momento.

Ele passava e repassava o planejamento na sua cabeça desde que acordou. Atualmente estava na cozinha tomando o café da manhã, clássico americano com ovos, bacon e torradas.

Quando acordou, reparou que seu pai havia retornado em algum momento. Stiles não sabe dizer se foi de madrugada ou se ele havia acabado de chegar. Ele tinha passado no quarto dele para confirmar e, sim, lá estava o xerife, ainda uniformizado, dormindo pesado.

Ele ainda não sabe o que aconteceu para John ser chamado no meio da noite. Eventualmente ele descobriria, mesmo que seu pai não fosse gostar disso.

Não é como se fosse uma opção. Ele tinha que saber se era de natureza sobrenatural. Mesmo que fosse só para deixar sua mente mais tranquila.

Mas, certo, o plano. Foco, Stiles.

Entrar no departamento, ser casual, saber se a atualização das câmeras foi feita na sala de controle e pegar o cartão de acesso. Como seu pai é o xerife, não deve ter um único local naquele departamento que ele não tenha autorização mas possa ser que devido as atualizações recentes ao sistema ele ainda não tenha acesso a sala.

Se for o caso, a efetividade de seu plano cai. Talvez uns 65%? Não, definitivamente 55%.

É, Derek não vai gostar nadinha se ele acabasse não conseguindo informação alguma. Porém, como ele disse, o risco caia somente nele.

E, sim, mesmo que ele mal suportasse Derek num dia bom, o cara parecia pronto para levar um “não”. Mesmo que fosse para ajudar Erica e Boyd. Porque ele entende o lobo.

Porque o que ele disse ao alfa foi sincero. De fato ele queria ajudar. Ele está cansado de ser um inútil e puder fazer algo para ajudar alguém, mesmo essa pessoa sendo o rabugento lobisomem local? Fazia sentido.

Mas tanto faz. Ele já estava decidido.


Operação: Loup-Garou, começar!

Ele finaliza o café da manhã, lava os pratos e talheres. Resolve deixar uma nota na geladeira, avisando ao seu pai que ele saiu de casa e retornaria mais tarde. Ele não ia desperdiçar seu dia fazendo apenas um favor a Derek Hale. Não, e seu amado Jeep? Ela tá precisando de um trato! Roscoe já não roncava que nem antes!

Tentar arranjar um emprego de meio período em uma cidade do interior é difícil. E não é como se ele pudesse continuar pedindo dinheiro a seu pai, a situação em casa já tá apertada.

Ele põe o pé para fora de casa. Stiles... teve um momento de hesitação.

Ele realmente ia fazer isso?

Ele balança a cabeça. Se ele começasse a se questionar saberia que é uma péssima ideia, uma ideia horrível, uma completa burrice.

Não, ele já estava decidido.


Ele vai a um ponto de ônibus perto de casa. Felizmente tinha uma linha que leva direto a delegacia.

O dia será mole-mole.


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Péssima ideia. Uma enorme e horrível ideia.

Stiles vacila.

Estava de frente as portas duplas do departamento. Era uma manhã lenta de sábado, ocasionalmente algumas poucas pessoas entravam e saíam.

Ele repara no letreiro que destacava o nome.

Departamento de Polícia de Beacon Hills.

E, em baixo, em letras menores:

Protegendo, Servindo e Sendo um Farol A Todos Desde 1899.

Nada sutil.

Mas, agora que Stiles analisa, este não era o único local que mencionava um farol como descrição da cidade.

Ele se pergunta se tem algo a mais aí ou se o povo da cidade só queria mexer com trocadilhos. Algo para pesquisar mais tarde.

Sem mais hesitar, Stiles entra no prédio.

É, estava um dia até tranquilo.

Não tinha muitos oficiais, a maioria estavam em suas mesas escrevendo, digitando ou imprimindo. E.. na mesa de recepção Tara Graeme estava organizando alguns papéis. Parecia meio distraída.

Droga.

Stiles se aproxima e engole em seco. Certo, casual...

— E aí, Tara. Bom dia. Como que ‘cê tá mulher? — um sorriso e encostando na bancada.

Talvez casual demais.

Ela o olha. Franze levemente o cenho e solta um risinho.

— Stiles. Bom dia.

Tara Graeme é uma mulher de pele escura, de aparência madura e um tanto maternal.

Ela também foi sua babá quando criança.

Stiles sempre gostou dela. Costumava lhe dar cookies escondidos mesmo quando seus pais proibiam. Apesar de não serem exatamente amigos, o respeito mútuo e anos de muitas conversas interessantes fizeram o dois terem uma relação mais descontraída.

E ele costumava ter um crush nela quando mais novo. Não que isso seja relevante agora.

— Hoje é sábado. Tá fazendo hora extra? — Stiles dá levemente de ombros.

Tara volta a atenção a pilha de papéis. Havia vários deles. Ela estava organizando em pilhas separadas.

— Fazer o que garoto? Quando o dever chama, você atende. — voz sai amigável, descontraída, mas Stiles repara um certo cansaço.

Ele franze o cenho.

— Tem alguma coisa haver com a “emergência” de noite passada?

Stiles joga a isca. De quebra talvez conseguisse alguma informação.

Ela só bufa.

— É por isso que 'cê tá aqui, garoto? — ela pergunta, rindo levemente — Juro que algum dia essa sua curiosidade vai acabar te levando preso.

Stiles ri.

— Ah, para. Como se você também não fosse curiosa.

— A diferença é que eu posso ser curiosa, rapaz. — agora retira um enorme caixa arquivo. Ela começa a organizar as pilhas de papéis lá dentro.

Stiles só dá um sorrisinho.

— O que você tá fazendo aqui?

E, claro, Stiles já tinha a resposta na ponta da língua. A mentira sai fácil e acostumada.

— Meu pai esqueceu o celular dele. Acredita? — apoia-se em um braço no balcão, o outro na cintura — O velho tava tão cansado que acabou esquecendo. Me pediu para procurar no escritório dele, já que “devia aproveitar a viagem já que tava vindo a passeio pela cidade” — imita a voz do xerife.

Tara ri.

— Sim, com certeza isso é ele. Aquele homem, juro, é tão esquecido que se o pessoal não o lembrar ele não almoça.

Não só eles. Stiles é quem cuida da parte da alimentação em casa. Fazer seu pai comer de forma saudável é um desafio, mas no final ele sempre releva.

— Então. Tá com a chave do escritório aí?

Tara para por um momento. Ela o analisa e... oh não. Aquele olhar.

— Stiles.

Abortar. Abortar.

— Eu te conheço desde que você era pequeno. Já troquei suas fraldas.

Sem pressa. Se afastar lentamente com os braços levantados. Quem sabe ele consiga fugir da fera sanguinária.

— É sério. Por que você tá aqui?

Stiles só fica de boca aberta parecendo um peixe fora d’água.

— Uh...

A arte da manipulação não é para qualquer um. Mesmo Stiles estando confiante como ele imaginaria que Tara estaria trabalhando justo num sábado?

Ela só continua o encarando enquanto o garoto pensava no que dizer. Até ela parecer estar satisfeita com o que quer que estivesse procurando, vai até o armário e retira uma chave.

— Aqui.

Lhe entrega. Stiles só encara estupefato. Ele a olha em questionamento.

— Rapaz , como eu disse, eu te conheço desde que você era pequeno. Mesmo você sendo do jeito que é — faz um gesto para todo seu corpo. Stiles faz um som, se sentindo ofendido — eu sei que você não tem más intenções.

Tara só lhe dá um sorriso, cansada.

— Vai logo fazer o que veio fazer. E vá embora antes que alguém repare.

Ela faz gestos como se estivesse o dispensando.

— Se for ilegal eu nem quero saber.

Tarde demais para isso.

— Obrigado. — consegue dizer, já se afastando.

Tara só balança a cabeça e volta a organizar os documentos.


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A maioria das mesas do grande escritório estavam vazias. Alguns oficiais estavam distraídos com o trabalho, alguns com tanta papelada quanto Tara.

Stiles novamente se pergunta se isso tem algo haver com a emergência de ontem. Sua curiosidade estava atiçada mas não era para isso que ele veio aqui.

Ele passa pelas fileiras de mesas. Poucos policiais levantavam a cabeça para ver quem estava passando, os quais o reconheciam. Stiles os cumprimenta, eles respondem e voltam ao trabalho.

Como Tara, a maioria o conhece desde criança. Na maior parte a força policial de Beacon Hills manteve-se a mesma neste últimos anos, com poucas novas adições. Uma delas sendo o oficial Jordan Parrish, sendo o mais novo da força.

Ele estava aqui hoje, igualmente atarefado. Mais afastado, no próprio cubículo, não tendo reparado que o Stilinski mais novo tinha aparecido.

Bom.

Stiles não teve muita interação com Jordan até agora. Ele não saberia dizer qual reação ele teria se visse Stiles, sozinho, em um sábado, entrando no escritório de seu pai.

Melhor evitá-lo por enquanto.

Stiles chega a porta do escritório. A plaquinha com os dizeres “Xerife John Stilinski” parecia mais intimidadora do que nunca.

Certo. Não tem como voltar atrás agora.

Ele dá uma última olhada para ver se alguém estava lhe prestando atenção. Zero. Todos em seus próprios mundinhos.

Stiles destranca a porta e entra silenciosamente.


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O escritório do xerife era bem típico de uma cidade do interior. Mesa, computador, cadeiras e sofás para visitantes. Tudo muito bem organizado, separado e limpo.

Tinha uma prateleira com livros em um canto. Um armário no outro. A grande janela que mostrava todo o perímetro da rua estava coberta com cortinas, fazendo o escritório ter pouca luminosidade.

Stiles não liga a luz. Melhor que os outros não saibam que tem alguém no escritório do xerife.

Ele rapidamente vai até a mesa, puxando gaveta por gaveta.

Onde seu pai guardava documentos importantes?

Uma gaveta revela arquivos de casos antigos. Interessante, mas não era o que ele estava procurando.

Outro... tinha doces? Ele questionaria isso mais tarde.

Um parecia ser apenas para folhas de rascunho.

Onde ele—

Aha. Aqui.

Stiles retira triunfante um cartão branco, com uma das bordas em uma faixa preta. Ele sabe que era esse cartão em específico pois viu seu pai o utilizando para acessar a sala de controle a alguns anos.

Ele só espera que não ainda não estejam atualizando os cadastros dos oficiais, porque senão, ele teria que começar a improvisar. Se for como ocorreu com Tara ele não sairia do departamento tão cedo.

Ele rapidamente deixa tudo organizado como estava, da a volta na mesa e olha por entre as persianas. Ninguém estava prestando atenção.

Certo.

Stiles respira fundo. Abre a porta o mais silenciosamente possível e vai em direção ao corredor que leva a sala de controle.


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Para sua sorte, o cartão de seu pai ainda funciona. Stiles entra rápido, coração disparado.

A sala de controle era pequena, com certa claridade, mas muito obviamente feito para que toda a atenção esteja voltada as telas em frente a mesa centralizada na sala.

Felizmente (ou infelizmente, Stiles não sabe dizer qual era pior) Beacon Hills não tinha muitas pessoas, como uma cidade típica do interior isso também reflete nos cargos.

No caso da vigilância, o Departamento não tem recursos para uma assistência 24 horas, principalmente depois de receberem aval judicial para acesso às câmeras públicas. Como ainda estavam em processos de atualização, ainda não havia alguém específico para ficar de vigia o tempo todo.

A prefeitura prometeu dar completa assistência ao departamento nesse caso. Mas por enquanto ainda se mantém o mesmo.

Stiles paira sobre o computador próximo a mesa. Ele se senta a cadeira e liga o PC. Ele tem um breve momento de pânico.

E a senha?

Espera, calma. Ainda estão atualizando os sistemas, é tudo muito recente. Login e senha devem ser coisas genéricas e de fácil acesso para o TI conseguir navegar sem problemas. As únicas pessoas que deveriam ter acesso ao local são seu pai e alguns poucos polícias.

Stiles olha em volta. Não vê nada imediatamente.

De canto de olho, ele repara em um post-it colado em um dos monitores. Ele pega e lê: “login e senha”.

Ótimo. Por enquanto tudo está indo bem.

Ele digita e desbloqueia o computador.

Agora a parte chata.

Derek de manhã havia mandando uma mensagem. Dizia o endereço do local onde ele e Isaac rastrearam a última localização dos outros betas.

Ele vasculha as pastas. Todas tinham denominações como “BH-Cam 05 – Centro”, “BH-Cam 09 – Rua Alfred Bonvic 295”, “BH-Cam 21 – Rua Principal — Saída de Beacon Hills (Oeste)”.

Stiles tinha que encontrar gravações de 3 dias atrás, durante a noite, na região leste na estrada que levava a saída da cidade.

Ele filtra os resultados para encontrar as pastas que queria. Uma chama sua atenção:

“BH-Cam 25 – Rua Principal – Saída de Beacon Hills (Leste)”

— Bingo.

Ele clica. A pasta continha gravações de períodos de 24 horas. Ele clica no arquivo que mostrava a data que procurava.

Uma janela abre, começando a rodar o período gravado daquele dia. Stiles usa o mouse para avançar até anoitecer e começa a cuidadosamente olhar os detalhes.

Por volta das 20h47 da noite, os arbustos perto da estrada começam a se mexer. Lentamente, duas figuras emergem.

Lá estavam. Erica e Boyd.

Estavam assustados, ofegantes, cautelosos, pareciam estar argumentando alguma coisa. Fugindo de alguém?

— O que aconteceu com vocês?

Estavam meio transformados. Olhos brilhantes, orelhas pontudas e presas no lugar de dentes.

De repente eles param. E ficam momentaneamente alertas. Das árvores, surgem duas figuras. Um homem corpulento e grande e uma mulher de estatura menor (descalça?). Stiles presume que eram outros lobisomens.

Ocorre uma breve briga, Erica e Boyd em desvantagem. Logo são subjugados.

E então, uma caminhonete vermelha aparece no canto da tela, até estar completamente visível. O carro não tinha placa.

Do veículo descem três pessoas: dois caras que eram idênticos em aparência, talvez gêmeos, e um homem de aparência mais velha com óculos escuros e bengala. Cego?

O homem mais velho paira sob os betas subjugados, fala alguma coisa e então faz um gesto. Os lobos que seguravam Erica e Boyd os levantam bruscamente, levando-os até o veículo.

Stiles só encarava todo o ocorrido, incrédulo.

O que diabos estava acontecendo?

O homem cego então vira e olha diretamente para a câmera. Solta um pequeno sorriso, caninos se destacando no rosto e... seus olhos brilham em vermelho.

Vira-se e volta a caminhonete. O carro então da marcha ré e volta de onde veio.

Isso era ruim. A situação estava muito ruim.

Outra alcateia?!

Derek precisava saber disso para já! Scott também! Dane-se o que o alfa pensa de seu melhor amigo, a situação piorou bastante.

Algo como briga de território estava prestes a acontecer e muita gente inocente seria pega no fogo cruzado. Toda ajuda seria necessário.

Stiles retira um cabo USB do bolso, pluga no computador e conecta a seu celular. Ele copia o vídeo e mostraria ao Derek.

Ele para um segundo e pensa. Decide pegar também filmagens da estrada de onde estava a caminhonete, saber em qual direção estava indo.

Ele verifica os arquivos para ter certeza. Sim, tudo correto.

Assim que ele termina a transferência, despluga do computador e levanta da cadeira. Deixa tudo arrumado como se ninguém tivesse mexido aqui.

Destranca a porta e sai.

Certo, tudo está indo bem.

Se ele não estivesse tão preocupado com a gravidade da situação ele estaria se parabenizando pela espionagem bem sucedida. Exceto pela Tara, claro, mas ela foi cúmplice!

Ok, Stiles, respire fundo. Faltava apenas devolver o cartão a sala de seu pai e—

— Stiles?

Merda.

— O que você está fazendo aqui?

Jordan Parrish estava na sua frente. Olhar desconfiado.

Stiles apenas o encara sem reação. Ele espera não parecer muito suspeito.

Fodeu.