TODO MUNDO SEMPRE ERRA

Autobiografia de Patrícia Brown

Patrícia Brown

(Por sugestão de sua terapeuta)



Se não fosse uma época em que os bons modos representavam uma boa referência no futuro, talvez Patrícia estivesse em alguma cidade de estrutura confusa e cheia de informações como vê na tevê. Tinha um corpo largo e sedentário que estava sempre se movimentando no mesmo destino: entre a cozinha, o corredor mal iluminado e seu quarto justamente compartilhado com Wagner Brown. Wagner, que ocupa boa parte da cama, tem um gosto particular por esportes europeus, chá de limão e de arrancar com prazer a pele do contorno de seus dedos. Hoje compartilham suas manias apáticas numa cidadezinha do México onde foram obrigados a se mudar no início do verão no Brasil. Os misteriosos negócios de Wagner deixaram a imagem da família Brown tão suja quanto o ralo da casa da vovó Íris.
Patrícia quando jovem — que gostaria de ser chamada de Pati — foi criada numa cidadezinha no interior do Brasil onde oito horas é o horário perfeito para se estar dormindo. Pati abusava de um moletom cinza e de algumas camisetas muito curtas que causavam uma confusão mental nos garotos veteranos da faculdade. Formou-se numa universidade privada numa cidade próxima e pagava sua mensalidade com serviços exóticos: lavava carros num lava-jato mal administrado por um sujeito roliço chamado Welington. Como nos filmes americanos. Wel, como sempre era chamado, tinha sempre as mãos sujas de graxa. Sabia que poderia lavar, mas achava uma ideia idiota, afinal, teria que mexer na graxa todos os dias — dizia ele. Pati estava de pés às oito, chegava ao trabalho às nove e saía às três. Seria inconveniente demais dizer quanto ela recebia por cada carro lavado. Mas pode-se dizer que os pedido para que a moça viesse a trabalhar seminua para atrair freguês se tornava cada vez mais frequente. Ela ignorava de maneira inocente.
Foi na universidade que conheceu Wagner, um rapaz ruivo, nerd e com uma coleção incontável de espinhas. O primeiro casal da universidade a conquistar um cargo respeitável nas eleições estudantis que dava o direito deles escolherem as atividades extracurriculares e o futuro de todos os outros alunos. Pati exercia seu cargo com tamanha vaidade. Wagner não sabia como usar sua vaidade e raramente aparecia nas reuniões feitas com os diretores do campus. Compraram seu primeiro apartamento próximo ao término de seus cursos. Pati estudava literatura e Wagner relações políticas. Quando não havia reuniões sobre o destino das atividades anuais, Pati representava uma corte perfumada de garotas que aparentavam ser bastante populares. Pati nunca foi tão bonita, mas para conseguir as coisas dentro do campus, era necessário ter o respeito da “chefe estudantil”. Todos a admiravam de uma maneira extremamente artificial. Exceto por Alícia, colega de classe quase inexistente por sua aparência triste e pálida. Alícia morava sozinha num apartamento à três quadras da faculdade. Tinha enormes fones de ouvindo e estava sempre ouvindo Bob Dylan lhe dizer coisas para que seu espírito tomasse diariamente formas distintas — era o que pensava. Escrevia em segredo diários sobre a vida de Pati. Pati era o tipo de garota, aos olhos de Alícia, perfeita e digna de seu respeito e gratidão. Por mais que não houvesse uma razão, Alícia sentia todos os seus demônios distantes sempre que percebia que Pati estava na mesma classe que ela.
Era sempre nas quartas-feiras a aula de Educação Física que reunia aulnos de vários cursos para estimular uma boa nutrição, e o senso de liderança de cada estudante. Segundo o professor Pedro Farias, para vencer é necessário ser melhor do que o seu melhor amigo. Ele estava sempre dizendo isso. Uns levavam a sérios, outros detestavam ter que usar shorts e camisetas, tal como Pati. Pati se distraia com seu grupo antes do início de algum provável jogo dessa vez escolhido pelos garotos. Os alunos se dividiram: meninas para um lado e meninos para o outro. Gargalhadas e muita competitividade faziam uniformes de cores escuras parecerem bastante ensopados. Um dos garotos jogou a bola para longe da quadra e levaria um bom tempo para ir buscar, Pati logo virou-se e sorriu com gentileza para buscar a bola e dar continuidade ao jogo. Faz o percurso de maneira calma, para que pudesse recuperar o fôlego. Logo lhe surpreendeu uma imagem pálida com um sorriso metálico “Tudo bem, posso pegar pra você. Não precisa... não precisa se cansar”. Era Alícia, que correu como nunca para pegar a bola, e mesmo sem olhar para o rosto de Pati, entrega-lhe de maneira delicada. Pati não lhe agradeceu, apenas virou-se deixando mexas grossas de cabelo atingirem o queixo franzino de Alícia.
O reencontro foi bem mais perturbador. O banheiro feminino estava lotado, e o som era tão estridente para os ouvindo de Alícia, que ela não pensou duas vezes antes de posicionar os fones de ouvido e esperar que o Dylan lhe dissesse algo bom depois do que fez naquela aula. Sua gentileza passou despercebida, e Alícia não deu muita importância. Encontrou-a mais uma vez próximo ao espelho do lado esquerdo do banheiro, onde Pati ajustava com paciência o sutiã. Alícia olhava com súplica. Implorava com o olhar por um simples comprimento, olhar, ou qualquer palavra, pergunta. Qualquer coisa tornaria a vida de Alícia tão brilhante que ela teria coragem de fazer várias outras coisas que deixou de fazer.
– Sabe, eu nunca te vi por aí. Você sabe, eu preciso conhecer todo mundo já que dou as ordens por aqui — disse Pati de maneira natural, sem vaidade alguma.
– Falou comigo? — agarrando contra o peito o seu mp3. Dylan agora cantava distante na sua mente.
– É. Você. Parece estranha, sei lá. Eu ainda não sei. Mas se for novata, seja bem vinda.
– Estive na sua festa de quatro anos. Você vestia um vestido amarelo. Você o detestava. Você colou chiclete no meu cabelo e me chamou de esquizitóide. Disse que não era feita pra esse planeta, e que eu usava calça porque na verdade eu tinha pênis.
– … Você... Você é a Alícia?
– Posso te fazer uma pergunta?

Notas finais
Essa adaptaçãozinha sarcástica dá destinos diferentes as pessoas mais maravilhosas criadas por Franzen. It's just a joke. (:
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.