Sob As Estrelas
1 01; Não há problema algum em ser diferente.
Notas iniciais
Shun de Andrômeda.
Shun suspirou. Ele sentia o cosmo fluindo por todo o seu corpo, como se fosse o seu próprio sangue. Inspira. Expira. A meditação havia sido um hábito que tinha adquirido com o tempo. Ajudava-o a controlar o cosmo e, além disso, servia como uma escapatória do mundo real, longe das guerras e de todo o caos que a vida de cavaleiro proporcionava.
Ele gostava de ser um cavaleiro, da sensação de se sentir imbatível ao lado dos seus amigos, de não estar sozinho, no entanto, ainda assim se sentia solitário. Era estranho. A meditação sempre o proporcionava descobertas novas sobre si mesmo. Shun de Andrômeda sentia-se sozinho, porque sabia que era diferente dos outros. Ao contrário dos amigos, inclusive o próprio irmão, Shun nunca gostou de lutar. Sempre acreditou na utopia de um mundo pacífico, como uma criança inocente. Ah, ele era tão bobo. E não faltaram zombarias sobre isso.
Lembrou-se do seu tempo mais sombrio, quando havia sido possuído por Hades. Um calafrio percorreu todo o seu corpo e, por um único segundo, sentiu o mesmo vazio que o deus costumava sentir quando habitava o seu corpo. Sua áurea era sombria, e o cosmo, que corria como sangue, queimava em suas veias. E como doía. Nunca havia chegado perto de um ser tão maldoso, e lá estava ele, cometendo atrocidades e usando-o como uma marionete, completamente manipulável e vulnerável. O ser humano mais puro. Aquelas lembranças o atordoavam recorrentemente, e sempre o faziam perder o equilíbrio de si mesmo, como um trauma incurável.
Então, ele lembrou-se da utopia na qual sempre acreditara. Aquela que não parecia mais tão impossível depois de terem vencido a Guerra Santa, a que parecia uma real possibilidade, o sonho da criancinha inocente. Ele sorriu aliviado, como se fosse uma lembrança recente, mesmo depois de tantos anos. E quando lembrou-se de estar lado a lado com seus amigos, os grandes cavaleiros de bronze, todo aquele terror que bagunçava os seus pensamentos pareceu passar e, de repente, Shun não se sentia mais sozinho.
Mas o que havia de tão errado em acreditar em um mundo melhor? Nada, absolutamente nada. Ele sabia disso agora, porque havia seguido seu próprio caminho, por meio da sua própria ideologia, e lá estava ele, trajando a sua armadura de ouro de virgem. Shun havia provado para si mesmo, que ter uma crença diferente não era problema, ao menos não enquanto estivesse disposto a batalhar por seus objetivos. E ele estava. A determinação sempre foi uma das suas maiores qualidades. Foi assim que ele venceu o desafio de Andrômeda, e foi assim que se tornou um cavaleiro. Ele, consigo mesmo, aprendeu que a melhor forma de ataque era a defesa.
Ao contrário do que a maioria imaginava, Shun de Andrômeda era forte, e a sua força não vinha unicamente da batalha física, estava além do que os simples olhos podiam ver. Estava no crescer sozinho, longe de seu irmão, em uma ilha; no conseguir a armadura, ainda que todos dissessem que não era capaz, que não ia conseguir; estava no Torneio Galáctico, do qual decidira participar na esperança de reencontrar o seu irmão; estava na sua estratégia de defesa impecável, no seu cosmo. A força de Shun estava além do que os simples olhos humanos conseguiam captar, ela vinha do seu coração e do universo imenso que havia dentro dele.
Não era segredo, Shun era movido por emoções. Sempre foi assim, desde criança, por isso ele sempre foi o mais sensível dos seus amigos. Era justamente aquela pureza e sensibilidade que o tornavam um dos cavaleiros mais fortes, porque aquela era a sua verdadeira essência, e ele nunca escondeu aquilo de ninguém.
Seu coração se aqueceu ao ter aqueles pensamentos e, automaticamente, ele sorriu. Ao longe, ouviu os passos lentos se aproximando, mas nem sequer precisava abrir os olhos, porque sabia bem quem estava se aproximando. Shun sempre reconheceria os passos de Ikki, não importava quantos anos se passassem.
“Senti sua falta, irmão.” Ele proferiu, em um tom de voz calmo e macio, como o de costume. Ikki de Fênix sorriu de lado, parando de caminhar assim que ouviu a voz do irmão.
“Não se pode nem mais fazer uma surpresa para o irmão.” Ele deu de ombros, mas, no fundo, sabia que sentia saudades. “Estava meditando?” Ikki arqueou as sobrancelhas, desconfiado.
“Você deveria tentar, sabia? Tenho certeza de que vai te fazer bem.” Havia certa expectativa no olhar de Shun, mas ele sabia que aquilo não fazia o feitio de Ikki.
“Definitivamente, não.” Nem sequer hesitou em negar o pedido do irmão. Shun riu baixinho, nada surpreso.
“Os outros idiotas estão por aí?”
Shun assentiu positivamente com a cabeça e sorriu, nostálgico. Fazia tempo que o time não se reunia. Ikki estava sumido há meses, e voltar fingido que nada havia acontecido era exatamente o esperado, mas aquela postura de durão não enganava o irmão, Shun sabia que ele havia sentido falta, não só dele, como dos amigos.
“Esse cosmo é realmente inconfundível.” A voz do Shiryu ecoou pela casa de Virgem, ele tinha um sorriso saudoso presente em seus lábios. Era como se tivessem voltado no tempo.
“Ikki de Fênix, que bom te ver, velho amigo.” Foi a vez do Hyoga se pronunciar, tentando manter uma feição neutra.
“Achamos que não fosse voltar nunca!” Seiya brincou, do jeito divertido que só ele tinha.
Foi exatamente naquele momento, vendo todos reunidos como nos velhos tempos, que Shun percebeu que não precisava se sentir culpado por ser diferente. Na realidade, estava grato. Cada um deles era diferente a sua maneira. Era a peculiaridade daquelas diferenças, que tornava cada momento que compartilhavam único, especial e inesquecível. Lembranças que seriam guardadas cautelosamente até o seu último segundo de vida, como relíquias. Então, Shun compreendia agora, não havia problema algum em ser diferente. Na verdade, isso apenas tornava cada detalhe ainda mais inesquecível.
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