Sob A Lua Violeta

1 Estranhos em Naoro


Notas iniciais
Olá, pessoal, como estão? Eu sei, faz MUITO tempo que eu escrevo alguma coisa aqui no Nyah! Abandonei a conta e migrei para o Wattpad por causa do meu projeto (eu sei que dá pra plagiar no Wattpad também, só que só o fato de o povo não copiar e colar fácil me dá um "quê" a mais no âmago q), poréeem o bom filho a casa torna, é.
Essa história que será dividida em quatro ou cinco partes (era pra ser uma one-shot e eu me empolguei de novo) é um presente de aniversário pra Dani porque hoje ela atingiu o nível 20 e eu me sinto em débito, de alguma forma, pois ela é uma das pessoas que eu mais gosto e escreve bem a pacas, num nível que eu espero chegar... Um dia.
(o negócio é ler, ler e ler mesmo, eu sei)
Enfim, espero que gostem, que comentem, que dêem parabéns pra ela, dêem presentes pra gente, mas, do fundo do coração, desejo mesmo que conheçam mais sobre DeM assim como PdG. São projetos de livro que a gente dá o coração e a alma para dar vida aos personagens e todo o resto.
Bem, chega de enrolação.
Só mais uma coisa: essa história tem uma pequena base na música "Under a Violet Moon" de Blackmore's Night. Quem quiser ouvir, é essa aqui: http://www.youtube.com/watch?v=4yZ0tqqLGsA

Ok, boa leitura. xD

Depois de sentir tudo ao seu redor se mover num intenso redemoinho, de repente o silêncio e estabilidade tomaram conta dos sentidos de Julieta. Ela estava debruçada sobre alguma coisa macia e de olhos fechados. Mesmo que soubesse que havia nada a temer, oscilou em abrir os olhos e se deparar com algo aterrorizante.

Até que, estatelada, ela escutou a voz fraca de Júpiter:

–Julieta.

Ainda de olhos cerrados, ela murmurou:

–O que foi?

Ele suspirou e exclamou afobado:

–Saia de cima de mim! Não parece, mas você é pesada!

A “coisa macia” que ela estava em cima era o corpo do irmão. Julieta abriu os olhos e se deparou num campo aberto. De acordo com a posição do sol, provavelmente era mais de meio-dia. Júpiter estava de barriga para cima e a ruiva estava atravessada sobre ela e apoiando todo seu peso.

–Desculpe e... Obrigada por amortecer minha queda. – ela riu ao reparar na situação. Olhou para o lado e avistou Chad, que estava sentado e olhando para os dois com indiferença. Perguntou ao celta: — Tudo bem?

O loiro deu um meio sorriso e respondeu:

–Sim, apesar de sentir que estava em meio a um turbilhão. Mas, acho que o romano não sobreviverá depois de você cair sobre ele. – riu debochado.

A ruiva deu os ombros e retrucou:

–Não caí sobre ele. – disse a parte: — Não que eu tenha reparado.

–Estão todos aqui? – Ansur caminhou na direção dos três jovens e perguntou atencioso. Ele parou num ponto um pouco mais distante e se dirigiu até ali ao ouvir a conversa.

Júpiter sentou-se e demorou um tempo para erguer os olhos para os outros integrantes do grupo. Sentia-se enjoado. De repente, viu a mão da irmã de criação estender-se à sua frente e Julieta rir:

–Você devia ver a sua cara agora.

Júpiter apenas fechou a cara, agarrou a mão dela e se levantou. Ansur disse sem rodeios:

–Muito bem, pessoal, devemos prosseguir com a nossa busca. Minna nos mandou para essa dimensão paralela com um propósito e devemos cumpri-lo até o prazo estipulado, senão terá sido uma viagem em vão.

Julieta caminhava ao redor deles, enquanto Ansur falava, com as mãos para trás e observando o cenário minunciosamente. O propósito que o germânico citou se referia a acharem uma joia que seria muito útil para o ritual de quebra de maldição do Dragão Vermelho: uma Pedra da Lua. O nome soava simples aos ouvidos, entretanto, quem conhecia a utilidade daquela joia mística, sabia o poder que ele representava: a Pedra da Lua tinha a capacidade de “sugar” espíritos negativos para seu interior e aprisiona-los até o fim da Eternidade. Quando uma Pedra daquela se partia, o caos era garantido: o prisioneiro se libertava e poderia se apossar de outra criatura de corpo físico e usá-la para seus propósitos.

Para achar aquela joia, era necessário aguardar o momento certo e ir à dimensão certa. Minna enviou Julieta, Júpiter, Chad e Ansur para um mundo parecido com a Terra chamado Embrere e o momento propício para encontrarem a joia se aproximava: a Lua Violeta, um fenômeno astronômico embreriano que ocorria a cada dois mil anos estava por vir. Sob a luz violácea desse satélite, era possível descobrir onde se encontrava a Pedra da Lua no Vale de Aihst, que era cheio de rochas translúcidas. Algumas eram Pedras da Lua e outras não: as genuínas brilhariam num tom violeta sob a luz da Lua especial. Então, tudo o que os viajantes precisavam era esperar a noite certa, que era dali a duas luas, para levarem uma Pedra daquelas.

–Julieta, você ouviu o que eu disse? – Ansur indagou exasperado.

A ruiva parou de caminhar em círculos e desfocou os olhos do céu, os voltando para o homem:

–Sim, ouvi.

Ansur franziu as sobrancelhas:

–O que foi que eu disse, então?

A garota olhou para Chad e Júpiter, que mantinham expressões céticas sobre a veracidade da afirmação dela. Julieta deu os ombros e respondeu:

–Eu sei que devemos ser atenciosos com o que falamos enquanto estivermos aqui. Não precisa repetir pela centésima vez. A única coisa que me preocupa é onde podemos nos instalar enquanto esse fenômeno não acontece.

O líder aproximou-se dela e advertiu:

–Instalação é o menor dos problemas. Além de termos que tomar cuidado para não nos expormos, também temos que ter consciência de que essas pedras são raras e muitas pessoas estão em busca delas. Olhos bem abertos e movimentos ágeis, meus jovens.

Chad ajeitou a bainha da espada na cintura e murmurou perspicaz:

–Eu já nasci pronto para essas coisas.

Ansur ignorou e declarou:

–Muito bem, vamos em frente. Há um vilarejo aqui por perto. – avançou na frente.

Julieta correu até o lado dele e perguntou curiosa:

–Como você sabe sobre onde estamos? Já veio aqui outras vezes?

Ele voltou a cabeça na direção da jovem e respondeu:

–Vim há muitos anos atrás, entretanto quem sabe para onde nos mandou é Minna e ela me passou as coordenadas.

Júpiter veio atrás e expôs sua perplexidade:

–Achei que ela que viria conosco. Afinal, falou tanto da dimensão paralela e todos os perigos que abriga...

O irmão gêmeo da bruxa parou e virou-se para trás a fim de explicar:

–Ela precisou ficar para cuidar do portal na Terra. Se viesse, alguém poderia mexer nele e então estaríamos com problemas para voltarmos. – virou as costas novamente e apressou outra vez: — Vamos logo.



O gato calculou seu bote com a conhecida frieza felina. Seus olhos espreitavam a presa com astúcia. Ele sabia que ela não conseguiria escapar, pois ele era incrível: um verdadeiro caçador escondido sob aquela pelagem malhada e macia.



Entretanto, quando Takeray saltou sobre a mariposa perdida sobre a cama do quarto, Yahiko abriu a porta repentinamente e o inseto alçou voo para fora através dela. O bardo reparou e pediu desculpas ao gato:


–Desculpe, amigo, eu não sabia que você estava caçando. – riu.

Taky sentiu-se desolado. Apenas sentou-se na cama, olhou para o dono e miou impaciente movendo a cauda de um lado para o outro. Rikko aproximou-se dele e lhe afagou a cabeça. O gatinho ergueu-se, pulou da cama e saiu do quarto também, deixando o dono sozinho.

O bardo moveu-se até o baú onde guardava seus pertences e retirou sua flauta. Aquela tarde após o almoço estava extremamente preguiçosa e ele não queria adormecer – ou melhor, não queria sofrer com mais uma série de sonhos conturbados mais cedo do que o normal. Mesmo que Rikko soubesse que poderia ficar com o resto do grupo de viagem conversando, jogando ou bebendo como de costume, aquele dia ele sentia-se tenso e com vontade de se isolar. Então, nada melhor do que ser acompanhado pela música em momentos com aquele. Logo, ele sentou-se aos pés da cama e se pôs a tocar concentradamente.

No andar de baixo, Mortty, Erick e Samira estavam sentados à mesa e em silêncio. A mulher do trio mantinha os cotovelos sobre a mesa e apoiando o queixo nas mãos estendidas, enquanto Erick deslizava os dedos em sua ampulheta e o necromante olhava para fora através da janela de vidro mal limpo.

Tudo monótono e silencioso, até finalmente o integrante mais reclamão do grupo abrir a boca novamente:

–Vocês têm ideia de alguma coisa que possamos fazer hoje?

Lee deu um meio sorriso sem tirar os olhos da ampulheta e indagou tranquilo:

–Você sempre dá um jeito de reclamar das coisas, não?

Mortty franziu as sobrancelhas:

–Bah. Eu não estou reclamando!

Samira se intrometeu:

–Não ainda.

Mortty ignorou a provocação e voltou-se para Lee:

–Mas, a verdade é que já estamos nessa vila há uma semana e apenas é dinheiro indo embora. Quando que pegaremos a Pedra da Lua e cairemos fora de Naoro?

Samira o encarou friamente e murmurou irritada:

–Você é sem noção mesmo ou está fingindo ser retardado? Não podemos falar sobre a Pedra da Lua abertamente. Por sua causa que Rikko está de mau humor hoje.

Erick interviu pacífico:

–Receio que ele não esteja de mau humor, mas ansioso e com medo. – olhou para o necromante e murmurou: — Sem contar que ele não é o único sentindo-se assim.

Mortty desviou os olhos de Lee e fitou o tampo de mogno da mesa. O elfo continuou em tom baixo:

–Não adianta nos afobarmos. Precisávamos de um local seguro para nos instalar há tempos e essa vila é tão pequena e pacata que caiu como uma luva. Agora faltam apenas mais duas luas para o espetáculo da Lua Violeta.

“Espero que dê certo, não aguento mais viver assim” Mortty desejou no fundo de seu âmago. Samira reparou na expressão tensa dele e suspirou. A morena inclinou-se para trás e disse derradeiramente:

–Pois, bem, então. Vamos evitar as brigas fúteis até finalmente concluirmos nossa missão. Não podemos chamar a atenção. Então, me deem licença, cavalheiros. – meneou a cabeça e se retirou.

Mal Samira se retirou, Mortty resmungou outra vez:

–Bah. Se for para se isolar para evitar brigas, eu mesmo teria feito isso há tempos.

Erick sorriu discretamente e soltou a ampulheta sobre a mesa:

–Às vezes, é necessário ir de encontro à solidão para poder se encontrar.

Mortty lançou um olhar frio para o elfo e retrucou:

–Já me encontrei várias vezes com ela e, a cada encontro, sinto mais repulsa de rever meu “eu”.

–Só mais duas luas, necromante. – Lee fechou os olhos e murmurou.

“Apenas mais duas malditas luas” Mortty meneou a cabeça negativamente e cerrou os punhos sobre a mesa.

No andar superior, Rikko continuava tocando sua flauta. A melodia ecoava por todo o cômodo e se propagou pelo corredor da estalagem, assim como pela janela do aposento que estava aberta. Talvez ele pudesse se encontrar com a solidão naquele momento e também ver seu “eu”, mas a música o acompanhava e o impedia de reparar novamente nas cores mortas que a sombra do passado sempre jogava sobre ele.



Ao chegar à vila, o grupo de viajantes da outra dimensão sentiu-se aliviado por um breve momento e logo depois, agitado: apesar de ser um lugar pacato, era desconhecido e tinham que seguir as instruções de não chamarem a atenção. Após passarem pelos altos portões, Júpiter segurou a mão de Julieta e disse sério:

–Só soltarei quando estivermos na estalagem que ficaremos. E não reclame.


A ruiva fez uma carranca:

–Ei, nós temos a mesma idade!

O irmão de criação retrucou sarcástico:

–Eu sei, mas parece que você não sabe.

Julieta sentiu-se inconformada e, sacudindo sua mão presa, chamou por Ansur:

–Ansur, faça alguma coisa!

O líder do grupo apenas disse:

–Se comportem vocês dois.

Chad gargalhou. A ruiva lançou um olhar estreito para o primo e rosnou:

–Eu não riria muito se fosse você... – moveu a cabeça na direção dele.

Logo, o celta reparou num curioso archote aceso em plena luz do dia, muito próximo a ele. Imediatamente, se calou e tornou-se sério. Julieta sorriu convencida ao reparar que impôs um pouco de temor nele e prosseguiu seus passos de mãos dadas com Júpiter. O grupo caminhou por várias estalagens, mas, curiosamente, todas estavam sem vagas. Aquilo tornou-se agonizante aos poucos.

De repente, após tentarem em mais outra pela décima vez, Chad cruzou os braços e murmurou:

–Já era de se esperar isso.

Júpiter e Julieta o olharam com curiosidade. Ansur compreendeu o que ele quis dizer e meneou a cabeça:

–Sim, já era.

A ruiva indagou:

–O que “já era”?

O gaulês pairou seus olhos azuis nos verdes da garota e respondeu:

–Existem mais interessados nas Pedras da Lua.

Júpiter suspirou e Julieta grunhiu. O garoto de cabelos castanhos soltou a mão dela, sentou-se nas escadas da última hospedaria e perguntou preocupado:

–E agora? O que faremos?

Chad deu os ombros e respondeu sem se abater:

–Oras, podemos montar um acampamento na floresta sem problema nenhum.

Ansur retrucou:

–Sim, podemos, mas talvez seja menos seguro ainda.

Julieta apenas observou a conversa entre os dois louros do grupo. Por fim, a ruiva expôs:

–Ah, não podemos desanimar. Vamos revirar essa vila inteira até acharmos algum local onde podemos ficar.

Júpiter foi mais pessimista:

–Já fomos em dez locais, onde mais podemos ir?

A irmã deu as costas e caminhou em frente:

–Fomos em dez, não em todas as alternativas.

Os rapazes a seguiram bem atrás. Entretanto, no meio do percurso, Julieta se deparou com uma mulher sentada à beira da rua resmungando alguma coisa. A princípio, ela pensou em ignorar, entretanto reparou que a estranha tentava se levantar desajeitadamente e não conseguia. Parecia que havia machucado a perna e seus pertences estavam caídos no meio do caminho, sem contar o gato preto e branco que miava insistentemente para a bela loira.

Ao reparar na garota de cabelos alaranjados, o animal pulou em sua frente e miou mais. A curiosidade de Julieta fez com que o espírito draconiano se agitasse e logo a mestiça compreendeu aqueles miados:

“Ajude” Taky pedia.

–O que houve? – ela murmurou e ergueu os olhos para a loira, que também reparou em sua presença ali.

“Ela tropeçou em alguma coisa. Humanas são tão desajeitadas” Taky deu meia volta e meneou a cauda com seu jeito felino.

Julieta ignorou o gato e inclinou-se para a jovem caída:

–Você quer ajuda?

Valquíria meneou a cabeça e respondeu:

–Sim, por favor. Eu estava andando sem prestar atenção por onde passava e devo ter tropeçado.

Julieta forçou um sorriso amigável e moveu a cabeça:

–Eu te entendo.

Ansur apressou os passos e perguntou:

–O que aconteceu?

A filha de Aline tentou quebrar o gelo:

–O chão se ergueu outra vez para derrubar mais uma vítima. – ao reparar que ninguém riu, tossiu e agachou-se para pegar as compras caídas pelo caminho. Júpiter chegou logo e a ajudou a por as coisas dentro do saco de papel.

Ao erguer a cabeça novamente com todos os objetos reunidos, Julieta reparou que a loira estava corada de extrema vergonha. A menina sentiu-se inútil em não pensar em algo para deixa-la melhor. Chad aproximou-se e perguntou delicadamente:

–Como se chama?

Valquíria inclinou a cabeça de lado e respondeu suprimindo um pequeno espasmo de dor:

–Valquíria. Mas, podem me chamar de Val. Eu estou instalada na estalagem que fica no final da rua.

Chad respondeu:

–Sem problemas, te levamos para lá. Eu sou Chad. Eles são Ansur, Júpiter e Julieta. – apontou para cada um dos integrantes.

Valquíria estava tão desnorteada em como tropeçou e torceu o pé que não prestou muita atenção nas apresentações. Mas, ao ouvir o nome de Julieta, logo pode associá-lo a garota de cabelos alaranjados e sorriu gentil para ela ao reparar como ela estava nervosa segurando o saco de papel. Julieta levou aquilo como um bom sinal e caminhou ao lado dos outros até a estalagem do final da rua.

Quando abriram a porta do estabelecimento, quase que imediatamente os curiosos Lee e Mortty esticaram os pescoços para ver quem era. Ao reconhecerem Val se apoiando em Ansur para andar, levantaram-se imediatamente e perguntaram o que houve.

–Bah, não basta ser bela, tem que ser frágil. Assim você me encanta mais, senhorita. – Mortty provocou.

“Mortty, me poupe...” Val apenas rolou os olhos. Julieta declamou:

–Nem sempre as coisas frágeis são fracas. Vidro é frágil, porém pode cortar quem quebra-lo. – andou alguns passos e estendeu o pacote para os dois. Lee o agarrou.

O necromante sentiu-se incomodado com a petulância da adolescente. A olhou de alto a baixo e perguntou com desdém:

–E quem é você?

Julieta sorriu e respondeu fingindo gentileza:

–Meu nome é Julieta. E vocês?

–Erick Lee e Mortty. – Lee respondeu. – Prazer em conhecê-la assim como o seu grupo, que receio que já nos será apresentado.

Mortty fez uma carranca e retificou:

–“Mortty” o escambau! Meu nome é Mortty Giovanni Vanh’Dark... Para vocês. – olhou mortalmente para Julieta.

Os outros se apresentaram formalmente e logo Ansur acompanhou Valquíria até o início da escada que levava para os quartos. A feiticeira pediu a Lee:

–Por favor, meu pacote. – ao toma-lo em um dos braços, agradeceu antes de subir: — Obrigada pela ajuda e sejam bem-vindos. – sorriu graciosamente e subiu com auxílio do germânico.

Chad e Júpiter enrubesceram e balbuciaram em uníssono:

–Que linda...

Julieta concordou humildemente:

–Sim.

A princípio, trazer Valquíria até a estalagem foi nada de mais, mas a partir do momento que Julieta pôs os olhos em Mortty, sentiu uma espécie de aura negra ao redor do necromante. Talvez fosse impressão, mas ela estaria de olhos abertos naquilo enquanto estivessem por ali.

O Vanh’Dark pensava a mesma coisa a respeito dela, entretanto, a aura que emanava da garota não era escura: era excessivamente clara e quente.

Ansur não tardou em descer a escada e brincou com seus companheiros:

–Bem, já que estamos aqui, podemos tentar a sorte. – virou-se para a mulher corpulenta, que estava atrás do balcão o lustrando e perguntou: — Vocês, por acaso, têm vagas para nós quatro? – moveu a cabeça na direção de seu grupo.

A dona da estalagem olhou para os outros três e voltou sua atenção para o germânico:

–Sim, temos. Sorte a de vocês, afinal, para esse período do ano, já estava previsto que todas as vagas seriam preenchidas. – a mulher virou-se para uma porta que ficava logo atrás dela e gritou: — Francis, leve os novos hóspedes para os quartos de cima!

–Sim, senhora! – de dentro do pequeno cômodo, que era a adega do estabelecimento, saiu uma garota de aparentemente catorze anos, dona de cabelos negros e a pele cheia de sardas causadas pelo sol.

Francis se pôs à frente e conduziu o grupo de Julieta, após Ansur pagar os dois dias de instalação adiantados para a dona do local. Mortty apenas observou o grupo discretamente. Quando eles subiram as escadas, o necromante virou-se para Lee e alertou:

–Isso não é um bom sinal.

O elfo não deu confiança para o homem amaldiçoado:

–Nada é um bom sinal quando se está sob tensão.

O necromante meneou a cabeça:

–Pode se dizer que sim, mas eu confio também na minha intuição. Aquela garota ruiva tem algo...

Finalmente, Erick ergueu os olhos e murmurou sério:

–Sim, ela tem.



Rikko apenas reparou que a noite chegara quando não enxergava mais a flauta em suas mãos. Ele estava imerso na escuridão do quarto, a salvo pela vaga luz que vinha da rua e das estrelas através da janela aberta. O bardo ergueu-se e caminhou até ela para admirar o céu. Reparou também que, embora o dia todo fosse preguiçoso, à noite o povo daquela vila em Naoro saía de suas casas para se divertir. Ainda mais com a Lua Violeta se aproximando: os aldeãos decidiram preparar uma espécie de festival. Aquela Lua mágica não servia apenas para dar poderes e identificar as genuínas Pedras da Lua no Vale de Aihst: ela também servia como base de rituais para melhorar as colheitas, trazer respostas divinas para o povo e, para os usuários de magia arcana, poderia aumentar suas capacidades.



Apesar de essa última utilidade ser bem desejável, o que Rikko mais queria era adquirir uma das Pedras da Lua. Desejava tanto que temia que, outra vez, o azar se voltasse contra ele e tudo desse errado. Porém, ele deveria apostar novamente suas esperanças naquilo e ver o que resultaria.


Alguém bateu suavemente à porta de seu quarto. Ele deixou a flauta sobre a cama e foi atender. Deparou-se com Samira, que perguntou:

–Ei, você não acha que já passou tempo demais nesse quarto? Vamos, o pessoal quer sair para observar os preparativos do festival da Lua Violeta e também para esfriar a cabeça.

Yahiko saiu do quarto, mas sem a intenção de deixar a estalagem:

–Receio que não seja uma boa hora, bela dama. Ultimamente, tenho me sentido cansado demais e com a cabeça fora do lugar. Acho que eu não seria uma boa companhia agora.

Samira rolou os olhos e insistiu:

–Ah, que isso! Mortty está tão insuportável quanto antes e ninguém morreu por causa disso. Se ele causou danos nenhum, quanto mais você, que incomoda ninguém.

Rikko estreitou os olhos:

–Não incomodo?

Samira o fitou inexpressiva e respondeu indiferente:

–Não incomoda. Apenas nos dá alguns sustos quando você se encontra com seu lado negro, mas... Dane-se isso. – o puxou pelo braço. – Vamos, vamos, a noite é uma criança!

O bardo, então, se viu encurralado: se não aceitasse logo o convite, certamente a ladina chamaria por mais “reforços” até arrancá-lo à força daquele quarto.

Em outro aposento, Julieta estava debruçada na janela observando o movimento da rua. Júpiter reparou que ela estava ali há muito tempo e perguntou:

–O que você está vendo, irmã?

A ruiva afastou-se da janela num suspiro e respondeu com ar sonhador:

–Eles estão organizando o Festival da Lua Violeta desde hoje. Acho que será lindo do jeito que vejo tantos arranjos de flores sendo carregados pra cá e pra lá.

O garoto deu um meio sorriso e complementou:

–De fato, afinal é um acontecimento muito raro.

Julieta meneou a cabeça e expôs astuta:

–Exatamente e por ser uma coisa rara, tanto quanto nós cruzarmos as dimensões... – inclinou-se na direção do irmão. – Acho que Ansur perdoará se formos espiar um pouco mais de perto.

O outro arregalou os olhos e perguntou horrorizado:

–Você quer sair da estalagem? Julieta, Ansur disse que...

Ela moveu as mãos na frente do irmão num sinal para ele parar de falar e rebateu:

–Eu sei muito bem o que Ansur disse, porém é óbvio que não ficaremos confinados aqui por dois dias. Não acha que isso ergueria mais suspeitas do que o devido?

Júpiter refletiu um pouco e murmurou:

–Não imaginava que, um dia, fosse concordar plenamente contigo.

Ela rolou os olhos e bufou:

–Então! – voltou para a janela e continuou: — Sem contar que tem nada de mais caminhar pelas ruas. Estão bem movimentadas. Tão seguro quanto de dia.

O romano ergueu-se da cama e cedeu:

–Tudo bem, eu vou com você.

A ruiva apenas o olhou sobre o ombro e sorriu satisfeita.