Era possível estar vivo ao mesmo tempo em que se está morto? João e Pedro sempre se perguntavam isso quando eram crianças, em meio a suas acaloradas discussões sobre zumbis e vampiros. Conforme foram crescendo, adicionaram duas pessoas à esse embate: Karina e Vicky.

Enquanto a primeira concordava com João em sua teoria de que esses seres não estavam vivos, a segunda defendia a teoria de Pedro de que eles ainda estavam sim vivos, mesmo depois de terem sido mortos. Esse era um debate comum em jantares entre os casais, e eles juravam que nunca chegariam a uma conclusão.

Porém, agora, João concordava com o amigo e a namorada. Era possível sim estar vivo ao mesmo tempo em que está morto. Ele era prova vivo disso, mesmo não sendo um vampiro ou um zumbi. Ele estava respirando, com o coração batendo, com a pele quente... Mas toda a sua alegria, animação, sua alma, nada mais residia em seu corpo.

Seu mínimo esforço, o único que ele fazia, era pela irmã mais nova. Sempre havia achado estranho e se surpreendido pelo amor que nutria por aquela pessoinha saltitante e falante desde o dia que a vira pela primeira vez, na maternidade. Todo o ciúmes que havia sentido durante a gestação da mãe se foi, e só sobrou aquele amor incondicional por seu ‘grilinho’.

Ele foi alojado em seu antigo quarto no apartamento de Gael, e todo dia as 21h em ponto a pequena entrava no aposento. Junto de si, a criança levava um pacote de bolachas ou de salgadinhos; ela então deitava com o irmão e era aquilo o seu alimento do dia inteiro. Em alguns dias ela dormia com ele; em outros, se ocupava em cuidar de Bianca.

Tão pequena e já com uma responsabilidade tão grande nas suas pequenas costas. Não que alguém dissesse ou delegasse qualquer responsabilidade à ela, mas Renata sentia que deveria cuidar e ajudar seus dois irmãos mais velhos, que sempre haviam lhe dado tanto amor, carinho e dedicação.

Os cuidados, claro, eram divididos com a irmã lutadora. As noites que Renata passava com João, Karina se dedicava à Bianca, e vice-versa. As duas e Pedro se esforçavam o quanto podiam, enquanto Gael e Dandara se desdobravam para manter a casa, a Ribalta e a academia funcionando, além de lidar com todos os tramites legais que envolviam a morte de Duca e o acidente de João e Vicky.

Era possível dizer que todos eles estavam vivendo como zumbis.

“Vamos lá, Johnny... Você precisa reagir, irmão. Levanta dessa cama e toca a vida.” Desabafou Pedro, irritadiço. “Hoje é o 48º dia em que você está nessa cama, daqui a pouco vai criar raiz. O médico já te liberou para começar a fisioterapia, mas ao contrário das consultas que ele gentilmente fazia aqui, agora você vai precisar ir para o hospital.”

“Fisioterapia para que, Pedro? Por mim poderiam ter cortado tudo fora e me deixado morrer. Eu seria mais feliz.”

“Você seria mais feliz? Olha, então eu vou te contar uma verdade: todos seriam mais felizes. Sua mãe e o Gael demorariam mais para ficar com a cabeça cheia de cabelos brancos; o que, aliás, está acontecendo com uma velocidade insana desde esse acidente. A Renata poderia estar brincando e se divertindo, como uma criança da idade dela, ao invés de se preocupar em ficar em casa porque é a única pessoa que faz o imbecil do irmão dela comer alguma porcaria que seja. Eu e a Karina poderíamos estar pensando em um milhão de outras coisas que não fossem tentar tirar você e a Bianca da merda, mas não... Todos nós estamos aqui, porque essa bosta de destino está sacaneando todo mundo.”

Enquanto ele vomitava as verdades, João ficava de olhos fechados, irritado com o que ouvia. Porém, algo despertou sua atenção e curiosidade, e ele teve que ceder a vontade de não falar com o melhor amigo por algumas semanas.

“O que tem a Bianca?”

“Espera... Em um mês e meio você não se tocou que a Bianca estava aqui? Ou que a Renata estava se dividindo entre vocês dois?” O nerd negou, começando a se preocupar. “O Duca sumiu, em um desmoronamento no mesmo dia em que o seu acidente. As autoridades deram as buscas por encerradas não muito depois, o que quer dizer que... Bom, você sabe.”

“Ele também morreu.” O guitarrista assentiu.

“Você e a Bianca estão quase no mesmo barco. Mas acho que ela tem um bônus no quesito desgraça: ela está grávida de três meses do lutador cadáver.”

“Puta merda...” Suspirou João, fechando os olhos com força. “Você acredita em karma?”

“Não acreditava até o Natal do ano passado, mas agora... Digamos que desconfio que algum de nós era um cachorro que urinou na base da cruz de Cristo, e agora todos estamos pagando por isso.” João riu de leve, fazendo o amigo sorrir. “Eu sei que está doendo, irmão, e que vai doer por muito tempo. Mas ficar aqui se remoendo, sozinho e em silêncio, não vai ajudar em nada.”

“Eu não quero ter que viver em um mundo sem a Vicki, Pedro.”

“Eu sei, eu me sentiria da mesma forma se acontecesse algo com a esquentadinha. Mas você faria exatamente o que eu estou fazendo e me tiraria desse quarto.” O rapaz sorriu para o amigo, segurando a mão dele. “Eu marquei sua fisioterapia para hoje à tarde. Nós vamos com o resto da sua família e então eu vou te levar para lá, junto com a Ka e a grilinho. Vamos?”

Bianca não tinha o mesmo direito a definhar que João. Grávida, anêmica, precisando de exames constantes e se cuidar com afinco. Seu pai e irmã cuidavam para que se exercitasse, enquanto Dandara vistoriava sua alimentação e todos acompanhavam o progresso de seus exames.

“Aqui estão as suas vitaminas, suco de laranja natural, salada, carne e legumes. Coma tudo.” Mandou a madrasta, sorrindo bondosamente. “O médico disse que logo poderemos relaxar um pouco, mas que teremos que cuidar da sua alimentação durante toda a gestação.”

“O que não teria acontecido se a madame tivesse nos dado ouvido e mantido a alimentação em ordem durante a fase dos piores enjoos.” Repreendeu Gael com seu tom sarcástico.

“Pai.” As duas filhas mais novas o repreenderam com o olhar.

“Deixa, gente, ele está certo... O mais importante é que eu vou me cuidar direitinho daqui para a frente, está bem?” Sussurrou a grávida, remexendo a comida sem ânimo.

“Pelo menos um dos dois está se levantando.” Agradeceu Dandara, virando-se para voltar para a cozinha e dando de cara com Pedro carregando João. “Meu Deus, hoje é dia de milagres.”

“Joãozinho.” A caçula da família começou a pular no lugar, mal se contendo de animação.

“Olha quem resolveu sair da toca.” Cantarolou Pedro, enquanto Gael o ajudava a apoiar João e o sentar na cadeira. “Por um momento eu tive medo que ele pegasse fogo no sol, porque acho que ele está meio vampírico, mas por sorte não houveram danos permanentes.”

Ocê viou vampio, Joãozinho? Vai moide a gilinho?” A pequena começou a imitar um vampiro malvado e ninguém se aguentou em rir.

“Não, grilinho, eu não vou te morder.” Ele sorriu para ele, segurando sua mãozinha.

“Mas vai morder esse bife delicioso e bem nutritivo que a mamãe fez, certo, filha?”

“Sim. Tá gotosinho. Come, Joãozinho. Você também, Bibi. Neném pecisa ficar fortão.”

Aquela foi a primeira vez que os dois jovens “viúvos” se encararam. Houve um momento de entendimento mútuo instantâneo, no qual engoliram em seco. O silêncio imperou no momento que se seguiu, com todos esperando o que aconteceria. Foi João quem quebrou o silêncio.

“Sinto muito pelo Duca.”

“E eu pela Vicki.” Aquela era a primeira vez que se viam ou conversavam desde a despedida de antes da viagem do rapaz para Londres. “Como está a sua perna?”

“Quase não dói comparado ao resto. E como está o bebê?”

“Crescendo, apesar de tudo. Ele não me deixa desistir, e ninguém me deixa descuidar dele. Nós dois estamos bem, de todo o jeito.” Ela respondeu, acariciando a pequena barriga e sorrindo de lado.

“Mamãe, podemos reza?” Pediu Renata, atraindo a atenção de todos.

“Por que, baixinha?” Questionou Karina.

Pote eu queo agradecer o Papai do Céu... Eu pedi para a Bibi e o Joãozinho ficaem bem, e eles tão bem. Eu queo agadece.”

“Com certeza nós podemos rezar; e todos nós devemos agradecer. Ouviram?” Mandou o mestre, pegando a mão da esposa e da filha do meio. A lutadora pegou a mão da irmãzinha, que segurou a de João. Dandara segurou a mão de Pedro, que segurou a de Bianca. Houve outro momento de constrangimento, até que os dois segurassem a mão.

Não havia vontade de rezar ou agradecer por nada, mas não diriam isso. Apenas ficariam em silêncio, em respeito, afinal, não era porque suas vidas haviam acabado que as dos que amavam deveriam terminar também.

Notas finais
Oi gente Desculpem a demora e o sumiço, eu estou morrendo louca com a faculdade, sem tempo para dormir ou fazer mais nada. Arranjei um rápido respiro e escrevi um pouco de Joanca, porque estou amando essa loucura na novela. See you soon, espero eu.