So You See, You And Me
3 Capítulo 3 - Declaração
Notas iniciais
“Eu nunca faço o seu tipo
Já bebi xampu
Já nadei no Tietê
Apareço no Datena pra você ficar com pena
Só você que não me vê
Pelo nível do Ibope
Haja blush, photoshop
Cê não quer me conhecer!”
O seu tipo – Filarmônica de Pasárgada
A rosada conferiu os detalhes do figuro outra vez, analisando friamente o tecido de cetim bordô. Seus olhos azuis cintilavam à procura do menor defeito, tudo para que sua amiga pudesse interpretar devidamente, e não a desclassificassem por falha de figurino.
— Luka, não acha que já está bom? – perguntou a amiga, sentindo uma ansiedade tremenda. Ela ajeitou os longos cabelos verde-água, que estavam repartidos em dois, e quis mordê-los. Miku não havia nascido para esse tipo de situação.
— Miku, calada. – Luka ajeitou o laço atrás da saia e assentiu para si mesma. A futura Cinderela, na opinião de Luka, sorria feliz, esquecendo por um segundo de tudo que aconteceu na última semana. Ela continuou em pé, o que estressou a rosada, no entanto não podia deixar que algo amassasse sua roupa.
Luka estava normal, com uma calça jeans um pouco folgada, all-star vermelho um pouco sujo no bico, e uma camisa azul claro. Imediatamente, Miku sentiu as bochechas se avermelharem, e quis desistir da ideia de apresentar uma Cinderela toda produzida. Quem havia sugerido aquilo foi Luka, ela emprestou as roupas, ajudou-a escolher a maquiagem – e não passá-la, pois era horrível nisto – e praticamente a obrigava a continuar ali.
Elas eram melhores amigas há tanto tempo. Miku admitia, não era fácil conviver com Luka na maior parte do tempo. A rosada tinha um temperamento extremamente forte, era violenta, briguenta e não tinha paciência para quase nada. Porém, era a amiga que Miku mais confiava, e apesar de personalidades contrastantes, as duas eram bem parecidas.
Inclusive em esconder quem elas gostavam.
Miku nunca sabia quando Luka gostava de alguém, ou se alguma vez já tinha se apaixonado. Ela morria de vergonha de perguntar algo, e Luka ficava vermelhava e irritada quando o assunto era relacionamento.
Ela se sentia um pouco mal em não revelar a sua pequena queda pelo rapaz de cabelos azul marinho, entretanto, era uma decisão que tinha tomado. Enquanto não tivesse coragem de revelar o que sentia, não falaria nada.
— Estou vendo que você está nervosa – Luka puxou assunto, subitamente. Ela queria interpretar a vilã, só que havia se esquecido de decorar as falas até o dia anterior, onde Miku a lembrou. Então revisava o que deveria ser dito.
— Ah, bem – Miku abaixou a voz. Ela não podia contar que Rin competiria com ela, e que veria Kaito depois de ter praticamente esfregado na cara dele que estava obcecada por ele, a ponto de fingir dormir depois da aula de pintura, apenas para olhá-lo algumas vezes. – Eu não sei se eu consigo o papel. Acho que não sou boa.
Luka fez uma cara de dó, e Miku estranhou.
— Cala a boca – Certo. Isto era típico de Luka. – Você só anda fazendo drama, que saco. – A rosada revirou os olhos azuis. – É claro que você vai bem, só um louco não te escolheria. – Ela prendeu os cabelos longos e cor de rosa em um rabo de cavalo, e voltou a ler as falas. – Agora vai lá e arrebenta aquelas idiotas.
Miku entendia a agressividade de Luka. Ela odiava esperar, e os primeiros testes eram para o papel principal. Todas as outras que competiam contra Miku foram chamadas, a não ser Rin, que não tinha aparecido até então.
Uma mulher baixinha, morena, com um terninho branco apareceu na porta onde as garotas esperavam e chamou o nome de Rin. Miku mordeu os lábios. Ficaria feliz, pois Rin era realmente uma boa atriz, porém queria que sua amiga competisse.
A moça segurou a prancheta com mais força, e seus olhos da cor de cacau pareciam entediados. Miku se perguntou quem era aquela, já que nunca tinha visto alguém como ela.
— Kagamine Rin? – chamou a mulher, pela última vez. A mesma porta pela qual ela entrara foi aberta e Rin surgiu, trajando um lindo vestido de cetim branco, o cabelo arrumado com duas tranças que eram amarradas juntas, deixando o resto dos fios soltos e lisos. Sua boca estava pintada com um brilho labial vermelho suave, e o rosto parecia levemente corado, com a medida exata de blush. Ela parecia um anjo.
Miku soube que havia perdido ali.
— Desculpe a demora, eu não estava conseguindo achar a minha roupa para o teste. – Miku sabia que aquela era uma clara mentira, e pela cara feia que Luka fez enquanto os olhos corriam pelas falas, soube que não era a única.
A mulher bufou, de repente parecendo frustrada por não ter desclassificado a loira, e saiu com a mesma para o palco. Miku esperou um tempo e as seguiu, cuidadosa, e entrou no teatro da escola, olhando de longe. Ela não estava ali para gorar Rin, ou para se torturar. Ela precisava ver a reação de Kaito ao ver a loirinha aparecer.
Como só via as costas do rapaz, e dos jurados, Miku se esgueirou pelo corredor da direita e andou sutilmente até perto do pianista. O seu coração batia tão rápido que ela podia jurar que todos ali ouviam as batidas. Logo a mandariam embora, ela tinha certeza.
Espiando-o, sentou-se na cadeira ao lado do corredor, três fileiras depois das dos jurados. Esqueceu que não podia amassar a roupa. Ela ajeitou a saia e aguardou. Rin estava demorando a se arrumar.
Subitamente, a mesma moça morena e elegante que foi chamar à loira, virou-se e encontrou Miku. A garota apertou as mãos uma com a outra e quis ser capaz de pedir algo.
— Você também está aqui para fazer o teste de Cinderela, não é? Pode esperar aí, já que é a última. – A voz da mulher soou muito mais determinada. Miku sentiu como se tivesse se livrado do peso do mundo. Ela se reencostou na poltrona e aguardou, aliviada, fitando Kaito.
Ela não o entendia na maioria das vezes. Ele não tinha um pingo de curiosidade? Nem havia se virado para ver quem era. Ela suspirou. Talvez fosse melhor assim.
— Kagamine Rin? – chamou a professora de teatro.
A loirinha entrou, e Miku encarou as costas de Kaito. Ele também não olhou para Rin, o que era um alívio.
O teste de Rin foi rápido. A loira representou a cena em que ela ficava com dúvida, e depois cantou uma música à sua escolha. Miku sentiu-se ainda mais ansiosa. Luka havia ajudado-a compondo uma música, mas ela não enviou a partitura a tempo. Esperava que pudessem considerá-la e Kaito conseguisse tocar, apenas lendo as instruções que Luka e ela deixaram.
Apesar de ter parecido rápido, a encenação de Rin foi magnífica. Ela interpretava muito bem, e com aquela caracterização, parecia uma grande atriz. A voz também foi impecável. Miku só não entendeu muito bem como a música Hello, da cantora Adele, se encaixava na atuação.
Enquanto os jurados davam o veredito, Miku teve de agir rápido. Ela voltou correndo até a “sala de espera”, apenas respondeu Luka que estava assistindo a apresentação de Rin, e voltou para o teatro. Os jurados já a aguardavam, um pouco irritados. Ela ficou com vergonha, e correu olhando para o chão até chegar perto de Kaito, estender a partitura, e murmurar um “desculpa”.
— Se você não conseguir tocar, não tem problema. Eu canto sem acompanhamento. – continuou ela, murmurando.
Sem conseguir olhá-lo nos olhos, a garota correu até o palco e respirou fundo três vezes. Ela sabia a fala da sua cena. Também era a principal. Ela lembrava a letra da música, afinal, era a criadora. Respirou fundo de novo. A música era a pior parte. No fundo, Miku queria que Kaito sentisse o que ela queria passar com aquela letra. Poderia ser desclassificada por uma letra daquelas, ou por não ter entregado a partitura a tempo, e, no entanto, ele valia o risco.
Hesitante, a garota caminhou até o centro do palco, com as bochechas vermelhas de tanta vergonha. Ela respirou fundo uma última vez. E começou a encenar.
Ao proferir suas falas, Miku não era mais a garota tímida, que queria se esconder por aí, ela era a Cinderela que deveria ser. Romântica e sonhadora. Sentia uma confiança que nunca havia sentido ao olhar para a bancada de jurados, e quando a parte do roteiro acabou, seu coração estava acelerado e ela queria ficar sorrindo. Era bom ser uma Cinderela.
A jurada que Miku não conhecia assentiu a cabeça para que ela prosseguisse para a parte do canto. Foi a primeira vez desde que Miku pisou no palco que ela olhou para Kaito. Ele a fitava calmo, e pacífico. Assentiu. Ele havia entendido a música, ou melhor, a parte que ela cantaria.
Kaito começou a tocar e um arrepio percorreu o corpo de Miku.
Sim. Ela faria isso.
Não transforme meu amor em uma tragédia como a de Julieta
Me tire deste lugar...
É assim que eu me sinto
Ela começou a balançar com o ritmo da música. Arriscava a dizer que a música era realmente boa, porém não queria ser convencida. Ela voltou a cantar.
Sempre ansiando como uma Cinderela,
Irei fugir apenas usando meu uniforme.
Ó, magia, faça o tempo parar.
Pessoas ruins irão nos atrapalhar.
Uma Julieta que deseja fugir, mas não me chame por esse nome.
Tem razão, temos que nos unir.
Se não for assim, não tem graça.
Ei, você viveria comigo?
Miku ajoelhou-se no palco e prosseguiu
Não gostaria de dar uma leve espiada em meu coração?
A garota se levantou e olhou para os jurados. Eles apenas assentiram. Ela se virou para Kaito, que a olhava um pouco menos sério do que o normal, porém Miku não conseguia decifrar aquele olhar.
Ela agradeceu e saiu do palco, voltando a fugir de Kaito. Se ele não havia entendido que a música era para ele, Miku não sabia de que outra maneira poderia se declarar.
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