So You See, You And Me
1 Capítulo 1 - Flagra
Notas iniciais
"Quando você vem ou não?
O que você quer de mim?
Deixo por aí
O que você tem?
De onde você é?
Pode me esquecer
Se você quiser
Ou se deixar chover
Se você vier"
A menina fingia dormir profundamente, apenas para poder espiá-lo. O peito por baixo do uniforme personalizado subia e descia, lentamente. Sua vontade era de abrir os olhos de maneira sutil, só para observar a maneira a qual ele pegava o pincel e tingia a tela. O que ele estaria pintando desta vez?
Receosa, abriu o olhou direito bem pouco, o suficiente para vê-lo embaçado, concentrado como ela raramente o via. Fechou o olho apressadamente, e sentiu as bochechas se avermelharem. O que ela não fazia para ficar perto do rapaz?
Calculou mentalmente quanto tempo estava ali. Deveria ter se passado uma hora, ou duas, desde que a aula de pintura havia terminado. Ela ainda tinha de estudar para a prova do dia seguinte e precisava ir até seu clube, que, em um momento daqueles, deveria estar encerrando a reunião.
Sentiu o coração bater acelerado. Só de pensar nele dava a ela uma sensação de paz e uma ansiedade que ela nunca conheceu. Hatsune Miku sempre se perguntava quando deveria se declarar, se deveria fazê-lo, ou de que maneira. Era comum ter tantas dúvidas, já que o dono dos cabelos azul-marinho mais lindos que Miku já presenciara era o único garoto que ela tinha gostado.
Durante todo este tempo.
Ela se perguntava se deveria contar tudo a ele em alguma aula de pintura, ou melhor, na aula de pintura extra imaginária, que Kaito parecia tomar. Ele não se incomodava com a presença da garota, já que a mesma sempre fingia dormir, ou estar ocupada fazendo alguma outra coisa.
Ele não gostava de ser notado. De todas as características de Shion Kaito, aquela era uma das quais a menina se sentia mais atraída. Tão diferente e notável tentando não ser notado.
— Então, vai fingir até quando? – murmurou o rapaz. A surpresa da pequena foi tamanha, que jogou seu corpo para trás e bateu contra a cadeira desconfortável do colégio. Ela abaixou a cabeça, deixando que seu cabelo, cor verde-água, repartido em dois, pudesse escondê-la o tanto que ela queria.
Porém, no fundo ela sabia que ele não a encarava. Nunca o fazia, na verdade. Outro fato interessante, e para Miku, digno de nota.
Nervosa, a garota tentou esconder o rosto puxando algumas mechas do cabelos e embolando-as na frente do rosto, para tampar suas bochechas coradas. Ela não sabia o que fazer. Nunca conseguia conversar com o rapaz sozinha, apesar de terem amigos em comum, e, por consequência, serem amigos. Apenas o fazia com a ajuda de Len, ou qualquer um dos outros.
“Droga, Miku”, pensou ela, “não posso desperdiçar a chance que eu tanto queria”. Incerta, ela soltou as mechas e tirou os poucos fios que ficaram grudados em seu rosto branquíssimo.
— Ah, hum – Nossa, Miku. Meus parabéns por você conseguir puxar assunto tão bem assim. – Eu, ahn – A voz da garota estava rouca. – B-bem, há quanto tempo v-você – O coração de Miku batia forte. Geralmente ela tinha um planejamento antes de encontrá-lo e dialogar com ele, através de conversas dos outros, e não tinha nada a comentar naquele instante. Se ela pudesse corar mais, certamente o faria. – V-você sabe que estou fingindo?
Miku evitou sua vontade de olhá-lo. Ela soava ainda mais ridícula falando com ele.
— Bem, deixe eu pensar – murmurou ele. Seu tom de voz sempre era baixo. – Algumas semanas, eu acho.
A garota engasgou com a própria saliva ao ouvir que havia sido desmascarada fazia semanas. O que ele estava pensando dela? Será que achava a garota uma stalker? Ou o quê? Ela era uma stalker? Não sabia. Não queria ser. Só queria um tempo perto dele.
— Eu preciso ir. – disse ela, erguendo-se da sua cadeira. Rapidamente, a garota colocou todos os pertences dentro da mochila em forma de gato, e começou a andar rapidamente em direção à saída.
— Você está bem? – perguntou ele. Ela parou em meio à uma fileira de cadeiras. Se ela estava bem após toda a vergonha que sentia ao se expor para o garoto que ela gostava? Se ela estava bem ao ter a certeza de que ele nunca gostaria dela?
Mesmo perguntando em um volume acima do que costumava usar, as palavras de Kaito não reconfortaram a garota, que estava em pânico.
— Não, está tudo bem. – mentiu ela, correndo para longe daquela maldita sala de pintura.
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