So Tired...

1 McDonald's


“Aqui tá cheio de gente que vai trabalhar no McDonald’s” ou “Aquela aluna que gabaritou TODAS as minhas provas, sabe, pra ela eu empresto os meus livros” são as frases que mais perturbavam Amy no momento. A garota quieta de notas medianas não aturava mais Lis Pufwosfic, sua professora de português.

No início do ano letivo, aquela professora rígida que falava a verdade e fazia os alunos pensarem com seus sermões quase litúrgicos lhe parecia a pessoa em quem deveria se inspirar: mas como as aparências enganam, a situação não se mostrou bem assim. Se sentia como alguém que comprou algum produto de propaganda para emagrecer. Se esforçara em ligar no prazo de dez minutos estipulado pela voz mecânica e pagara tudo certinho, então por que não emagreceu?

Lá estava ela em mais uma aula, ouvindo sermões que agora, ao invés de motivá-la à ser melhor, a deixavam com auto estima baixa e se sentindo um lixo incompetente, sem vontade de fazer nada, já que não tinha salvação.

- Vocês não estudam, aí EU que sou obrigada a ler texto de analfabeto, por que, sinceramente não entendo nada do que vocês querem dizer!

Silêncio. Ninguém se atreveria a dizer nada, afinal, ela era superior.

“Desculpa se não fiz faculdade ainda e desculpa também por ter QUINZE anos a menos que você, se bem que, mesmo assim eu deveria saber escrever a lá Camões, não é?” – Pensou. Poxa, Amy fizera seu melhor naquela prova. Não deveria estar ouvindo isso, não é?

- Agora, peguem seus livros por que vocês vão fazer as tarefas que deixaram de fazer, podem começar.

Bufando mentalmente, a garota pegou seu material e abriu no último conteúdo que viram. Começou de onde havia parado, mas logo enjoou.

Olhou para o relógio da sala e constatou que faltavam cerca de 40 minutos para acabar o período. Depois de pensar um palavrão em outra língua, coisa que adorava fazer, tentou se concentrar novamente, porém não importava o quanto pensava, não conseguia fazer aquilo. Estava se sentindo muito burra para tal tarefa e o sentimento piorava ao notar o olhar pesado da professora.

Lembrou de uma professora de literatura de certo livro que lera: baixainha, morena, de óculos = fofa que tentava incentivar seus alunos a gostar e conhecer a matéria de forma mais dinâmica e agradável. Ah, como queria ter uma professora assim!

Suspirou silenciosamente e decidiu ler os textos compreensíveis do livro, por que tinha uns poemas que meu Deus! Quem entendia aquilo?

Leu tudo o que pôde até tocar o sinal e a professora se retirar.

Gostava de português, afinal. Mas por que tinha de apreender tudo com exercícios? Por que eles representavam seu desempenho? Será que não podia se dar ao luxo de ler alguns textos, dar uma lida no conteúdo do livro e procurar professores melhores pelo You Tube? Por quê tinha de ser do jeito dela?

Pensando nisso, lembrou da vez de que a professora quase vomitara na cara dos alunos que morou na Polônia. E da-í? Se era tão estudada assim, por que era uma singela professora brasileira? Fosse dar aula em outro país então, oras! TODOS sairiam ganhando!

Certa vez, quando ouviu a típica frase sobre o McDonald’s pensou em dizer: “E se eu quisesse trabalhar lá? E se fosse o meu sonho? Saiba que eu me sentiria muito ofendida!” É muito possível ser feliz e trabalhar numa lanchonete ao mesmo tampo, não?

Pensando nisso, refletiu sobre a situação da escola como um todo: aquilo era uma grande hierarquia repressiva. Se devia ser um lugar para aprender, então saibam que não deu muito certo, já que só servia pra esfregar na cara de Amy “o quê” e “o quanto” ela não sabia.

Pensou bem, e chegou a uma conclusão: é muito mais divertido procurar o que se gosta de fazer por conta própria, mas infelizmente, deveria saber coisas que não lhe interessam para o vestibular. Ah! Estava tão cansada!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!