So Much Wine

3 O Mirante de Hawkins


Steve havia evitado todos os percursos onde sabia que os militares faziam ronda. Aquela altura do ano, eles já conheciam a rotina dos guardas para que pudessem fazer suas próprias investigações sobre a fenda e o Mundo Invertido, além do fato de possuírem um conhecimento muito maior sobre a cidade e a região ao redor.

Ele seguiu pela autoestrada em sentido oposto ao da fenda, o que chamaria muito menos atenção e havia abaixado os faróis, ainda que estivessem em uma estrada vazia no meio da floresta para tentarem passar despercebidos por toda a rígida fiscalização.

Sabia, no entanto, que Steve utilizava sua fama de fanfarrão, mulherengo, playboy da cidade, em razão também da posição privilegiada de seus pais, para conseguir alguns favores fora de horário e, por isso, tinha alguns conhecidos no exército, então estava totalmente tranquila. Além de tudo, confiava nele para sair por aí às três da manhã sem se sentir… Envergonhada, pressionada ou oprimida. Era Steve, no fim das contas, ele sempre havia tratado todos eles bem, apesar de sua ansiedade crônica.

Tinham conversado sobre tudo e nada durante o pequeno trajeto e um silêncio nada desconfortável havia pairado sobre o carro, como se, só então, tivessem estabilizado suas próprias expectativas e se habituado novamente a presença um do outro… Depois do beijo.

— Steve. — Chamou, apoiando a cabeça contra o banco para encará-lo de lado, estendendo o saquinho de biscoitos de gengibre quando ele pediu, pois aparentemente adorava estar mastigando alguma coisa.

— Hum? — Ele não tirou os olhos da estrada e Max recolheu o saquinho para o próprio colo, mordendo os lábios, indecisa.

— Você… — Ele a encarou quando não continuou em sua indecisão.

— O quê? — Notou como ele pareceu preocupado, de repente, e por isso sorriu levemente, desviando os olhos.

— Você me ensinaria a dirigir? — Perguntou lentamente, quase que ensaiando as palavras, pois depois de ter “dirigido” o carro dele após salvá-los dos russos, sabia que tinha sido péssima no volante e aquilo era situação de emergência, pois só conhecia o básico para fazer o carro andar, não o suficiente para realmente tirá-los de um problema grande demais. Havia sido sorte e o carro não tinha saído ileso, no fim das contas. Ele abriu a boca, surpreso, e Max deu de ombros. — Quer dizer, não que você esteja com tempo, eu só pensei que… Qualquer dia desses, você poderia…

— Max, relaxa… — Ele levou as mãos à sua, a tranquilizando. — Eu prefiro ensiná-la a ser pilota de fuga do que precisar de você em uma situação assim sem saber o mínimo de direção.

— Ei, eu sei o mínimo! — Ele a encarou rapidamente, com os olhos estreitos e uma pequena careta.

— Isso é debatível… — Steve deu um um breve aperto em sua mão e voltou a segurar no volante, sua atenção na estrada e o rosto pouco iluminado pelo painel. — Mas não conte para os garotos ou eles vão querer aulas também e… Você sabe…

Max apertou os lábios para impedir um sorriso, praticamente o vendo complementar que ele só daria aulas a ela.

— Ok… — Concordou lentamente, mal podendo conter a excitação, pois adorava a ideia de poder dirigir e, principalmente, poder dirigir o carro de Steve Harrington, o qual todos sabiam que era a bebê dele. Então, se voltou para ele em um impulso. — Quando podemos começar?

Steve soltou uma risada e a encarou.

— Primeiramente, quando não estiver nevando na estrada e não houver risco de o carro deslizar e nos matar. — Max murchou imediatamente.

— Steve… — Ela grunhiu e deixou os ombros caírem. — Isso levará meses!

— É pegar ou largar… — Ela bufou e cruzou os braços, pois ele sabia que ela não teria aulas de direção com mais ninguém e, além de tudo, que era o melhor nesse quesito.

— Você fala como se dirigisse como um idoso.

— Essa é a magia da coisa, posso dirigir como um idoso ou como Niki Lauda e, ainda assim, ser bom nos dois. — Max encarou o perfil dele, confusa.

— Quem é Niki Lauda? — Steve a fitou, entre chocado e indignado.

— Vou te ensinar isso também.

Ela revirou os olhos, mas apenas aceitou, pois era sua única opção, e deixou com que a música preenchesse o carro novamente. Tinham abaixado o volume do toca-fitas para ficarem mais atentos a qualquer ruído suspeito dentro da floresta e Bon Jovi continuava a tocar.

— Você estava certo. — Comentou de repente, enquanto o carro fazia mais uma curva à direita, subindo sem pressa o caminho para o mirante. — É um bom disco, está crescendo em mim, mas acho que prefiro Heart.

— O quê?! É um ótimo disco, eles estão fazendo história aqui!

Os dedos dele batucaram contra o volante por um instante e Max voltou a olhar a estrada, por alguns instantes, até suspirar e se voltar a ele. Aparentemente, não conseguia mais ficar calada ao lado de Steve Harrington.

— Então, eu tenho que perguntar… — Ele murmurou em resposta, distraidamente, e os dedos de Max se fecharam ansiosamente contra o cobertor que mantinha em torno dos ombros, mordendo os lábios em indecisão. Contudo, respirou fundo e criou coragem porque nunca foi de deixar as perguntas de lado e de confrontar o que queria e o que precisava. — Isso não é um encontro, é?

O observou se voltar a ela rapidamente, por conta da estrada, parecendo sem jeito, pois tudo aquilo havia começado… Repentina e estranhamente e, talvez, nenhum dos dois soubesse o que pensar a respeito. E, além de tudo, Max não estava pedindo por um encontro, não sabia se queria um, apesar de Steve ser um cara legal. O mais legal deles. Imaginava que ele mesmo não tinha uma resposta concreta, mas, ainda assim, precisavam estar alinhados porque toda a sua vida não estava e a ruiva não conseguiria lidar com mais incertezas e instabilidades.

— Bem… Eu acho que… — Ele suspirou e elaborou lentamente. — Você saberá quando eu a levar em um encontro.

Max piscou, processando a resposta evasiva de Steve.

— Eu não quero pressionar. — Ela balbuciou, mordendo os lábios. — Mas também não quero evitar o assunto e fingir que nada aconteceu, porque isso não resolveria nada… É que… Foi tudo muito repentino, não é?

— Chegamos!

Max tirou os olhos dele e olhou adiante, notando que haviam chegado a um mirante com vista para um dos vales que circundava a cidade de Hawkins e, ao longe, podia ver alguns picos por um onde os primeiros raios de sol cortavam a escuridão, ainda muito tímidos.

Então, Steve desligou o carro e respirou fundo, antes de se voltar a Max no banco do motorista, um dos braços apoiado no volante. Ele a analisou por um instante, com a cabeça pacientemente encostada contra o banco, enquanto ela sentia que podia derreter sob os olhos calmos dele, que sempre pareceram ter exatamente esse efeito sobre todos que o rodeavam. Apesar dos pesares, Steve era mais velho do que eles e, ao menos, parecia ter mais maturidade para lidar melhor com algumas coisas, reagir melhor sobre outras, etc.

— Ei, ouça… — Ele olhou ao redor, pesando as próprias palavras, antes de encará-la novamente. — Eu não quero que isso soe muito babaca, mas… Podemos não falar sobre o que aconteceu até você ter uma idade aceitável e nós não estivermos cheios de todos esses problemas para resolver?

— Steve… — Max o fitou, estreitando os olhos. — Você sabe que eu tenho 17 anos, certo?

— Sim, mas… Eu tenho 21! — Isso parecia estar fazendo com que ele se encolhesse em si mesmo desde que deixara o carro dele, horas antes. — Isso é meio… Novo e esquisito para mim também, sabe?

— Você é esquisito. — Respondeu rápida e diretamente, com uma careta, fazendo com que ele sorrisse antes que pudesse se conter.

— Max… — Com a mão direita, ele rodeou seu rosto cuidadosamente, o tom baixo e delicado, escolhendo as as palavras certas. — Eu apenas não acho que essa seja uma boa hora para… Mexer com a sua cabeça, considerando tudo pelo o que tem passado.

Desanimada e detestando dar razão a ele, Max deixou os ombros caírem novamente, concordando.

— Eu sei, você está certo.

Concordou baixo, mas ele firmou a mão em seu rosto fazendo com que o olhasse novamente, a tranquilidade gritante agora que parecia ter certeza do que fazer.

— Podemos só… ficar aqui e assistir o amanhecer juntos? Esta é a manhã mais especial do ano. — Os dedos quentes acariciaram sua mandíbula lentamente. — Acho que, dentre todas as pessoas, nós merecemos isso.

Max, então, sorriu pela suavidade dele e meneou a cabeça em concordância, mal conseguindo deixar de se concentrar nos lábios dele tão perto, assim como Steve que somente encarou os dela e se afastou levemente, desviando os olhos e respirando fundo ao se acomodar contra o banco de couro da BMW.

No entanto, o surpreendendo, aproveitando que estava rodeada pelo cobertor macio e que o espaço entre os bancos não era um grande empecilho, se inclinou para se deitar contra ele, sendo recebida com alguma surpresa e hesitação quando apoiou o rosto em seu peitoral, na altura do pescoço.

À distância, o sol já começava a nascer de verdade, tornando a vista do mirante ainda mais bonita, clareando o céu e pintando tudo de um azul muito claro ao ser misturado com o amarelo pálido pelo inverno.

Steve respirou fundo e simplesmente passou um braço ao redor dela, aceitando sua presença — talvez — intoxicante. Sabia que ele não queria ficar sozinho no Natal e, no momento, Max era tudo o que ele tinha. Teria de ser suficiente, pensou, um pouco distraída pelo perfume dele tão próximo.

— Você realmente acha que é a manhã mais especial do ano? É por isso que não queria ficar sozinho? — Ele concordou com um murmúrio.

— Estou feliz que esteja aqui. — Max sorriu, apertando levemente a camiseta dentre os dedos inquietos.

— Este lugar... É perfeito, Steve. Obrigado por me trazer aqui. — Ela se concentrou na paisagem novamente, apreciando a vista daquela manhã, embora já pudesse sentir o sono pesar enquanto ouvia o ritmo calmo do coração dele ao abraçá-lo pela cintura, se ajeitando ainda mais confortavelmente, pois Steve não reclamava de nada, nunca, quando se tratava deles, especialmente nos últimos tempos. — Eu, realmente, sinto muito por ter derramado vinho no seu carro.

— Bem… — O sentiu sorrir brevemente. — Ela já viu coisas piores do que vinho.

— Steve… — Chamou novamente quando o notou ajeitando o cobertor em seus ombros. Ele estava tão cheiroso que o perfume já começava a ser gravado em sua mente, fácil como sorrir para ele em um dia ruim, assim como o toque cuidadoso em seus cabelos ruivos, logo atrás de sua orelha. Max o encarou de baixo, murmurando. — Acho que deve ficar ciente que… Talvez, seja tarde demais para esperar que não mexa com a minha cabeça.

Steve a encarou seriamente por um instante, absorvendo e compreendo o que queria dizer, e, quando o silêncio ficou pesado demais com tantas implicações, ele concordou com seus típicos olhos brilhantes.

— Vamos esperar que o próximo ano seja melhor, ok?

O viu forçar um sorriso pequeno, pois ambos tivessem consciência de que o ano seguinte tinha o potencial gigante para ser uma merda, e Max meneou a cabeça, voltando a afundar o rosto no pescoço dele.

Manteve os olhos na paisagem do mirante até o sol parecer alto o suficiente para iluminar com tranquilidade toda a cidade de Hawkins e além, desejando que todas as manhãs fossem calmas como aquela e, quando a fita de Bon Jovi parou de tocar no aparelho do carro, Max finalmente permitiu que os olhos pesassem realmente e se fechassem enquanto sentia Steve abraçá-la mais firmemente e depositar um beijo em sua cabeça, apoiando-se ali por tempo suficiente para que ambos caíssem em um sono sem pesadelos.

FIM


Notas finais
Então, chegamos ao fim e, enquanto essa versão deles entra o fatídico ano de 1987, nós entramos em 2026. Feliz ano novo a todos que leram até aqui! Espero que tenham gostado dessa pequena aventura de Max e Steve no Natal. Eu, realmente, acho que há muito para explorar sobre eles, mas, para um fic temática e relativamente curta, não acho que eles iriam além de tudo, apesar de toda essa delicadeza. Enfim, me digam se gostaram, pois essa é a melhor parte e já adianto que estou escrevendo outra fic sobre eles, pós-final de ST ♥ Obrigada por chegar aqui, até breve ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!