Max viu o exato momento em que tudo desmoronou.

Hawkins estava se reconstruindo como podia depois da abertura dos portais para o Mundo Invertido, a cidade estava tomada pelos militares americanos e, agora, a rotina de todos girava em torno daquele grande e inexplicado fenômeno, que causara comoção nacional e havia tornado o lugar quase uma zona de guerra, com toques de recolher, áreas proibidas e racionamento de comidas e suprimentos básicos. Enfim, isso era a América.

Porém, naquele dia tudo isso havia sido deixado de lado. Era Natal, finalmente, e por algumas poucas horas, o mundo parecia estar voltando ao normal e, embora isso não passasse de uma ilusão, gostaria de pensar que podiam se concentrar na música natalina, nos biscoitos de gengibre, no eggnog e na troca de presentes, ainda que modestos.

Estavam todos abrigados na Casa dos Wheeler e, por mais que a situação, geralmente, parecesse… Bem, uma droga, pois estavam indefinidamente refugiados ali e o Sr. Wheeler não disfarçava muito bem o quanto detestava todas aquelas pessoas vivendo sob seu teto sem pagar nada, isso parecia ter sido momentaneamente deixado de lado em nome do espírito natalino.

Para Max, era ainda um pouco mais mágico, pois antes vivia no Parque de Trailers e não tinha sequer uma casa para receber decoração temática ou tantas pessoas quanto os Wheeler naquele dia. Eram apenas o grupo deles, como sempre, exceto por Lucas e Dustin, que estavam com suas famílias, mas gostava de encará-los como uma família, uma que escolheram, fosse há muito tempo — como Mike e Will -, fosse depois, por conta de tudo o que viveram juntos, como Eleven, Steve e ela mesma.

No fundo, podia admitir que nunca trocaria aquele Natal por um Natal com sua família disfuncional, por mais que amasse sua mãe, embora a constatação a envergonhasse ao extremo e nunca fosse dizer em voz alta. Além disso, apesar de odiar a autopiedade, era triste pensar que estava vivendo aquilo, pela primeira vez, com uma família que não era a sua. Mas, no fim das contas, se lembrava que Billy estragava todos os Natais com suas reclamações e seu padrasto, com a quantidade de álcool que bebia antes da ceia. Sua mãe, então, tentava disfarçar seu desapontamento comentando coisas supérfluas à pequena mesa e Max fazia o possível para não deixá-la ainda mais triste. Então, este era o único tipo de Natal que conhecia até aquele momento.

Foi então que aconteceu. Max estava ajudando Holly a ajeitar os dois laços, que usava nos cabelos trançados, quando Jonathan resolveu chamar a atenção de todos e, em seu típico jeito tímido, se declarar para Nancy e pedi-la em casamento, se ajoelhando no meio da sala dos Wheeler e mostrando um anel que Max sabia ter sido adquirido no comércio paralelo mantido por Yuri, mas que era extremamente delicado e muito bonito.

Não era uma surpresa para Max, Mike ou Will, mas, ainda assim, sorriu do sorriso emocionado de Nancy, que aceitou e o abraçou imediatamente. Eles estavam sempre tão sobrecarregados que aquele momento, certamente, era como levitar sobre as nuvens. Enquanto aplaudiam, então, seus olhos captaram um movimento logo à frente: Steve voltava da cozinha segurando uma garrafa de vinho e havia acompanhado toda a cena, o sorriso morrendo lentamente em seus lábios ao processar o que aquilo significava.

Ninguém havia notado, pois Dustin não estava ali para dedicar toda a sua atenção ao amigo ou mesmo Steve havia percebido que Max vira o exato momento em que o brilho em seus olhos costumeiramente despreocupados e bem humorados se tornaram opacos e doloridos, pouco antes de se voltar para a cozinha novamente e fingir que sequer havia estado ali.

Era claro para qualquer um que Steve não havia superado Nancy e, há alguns meses, enquanto Jonathan esteve na Califórnia, alimentava esperanças de voltar com ela, porém, também era claro como o sol que a garota amava Jonathan e que, por mais que estivesse vivendo sentimentos conflituosos quando ficaram distantes, tudo estava no lugar, ao menos em partes, porque estavam juntos e isso tornava as chances de Steve quase nulas.

Deu uma desculpa qualquer para Holly e, se levantou, aproveitando que todos estavam se abraçando e parabenizando o casal, para ir até a cozinha. Contudo, Steve não estava mais lá e, por um momento, chegou a se preocupar, mas notou que o tapume externo da porta estava se mexendo e, pela janela da cozinha e pouca iluminação do quintal dos Wheeler, viu a sombra do rapaz se distanciando. Otário.

Revirou os olhos e pegou o primeiro casaco grosso pendurado na parede mais próxima à porta, assim como um gorro, antes de girar a fechadura e ser atingida no rosto pela temperatura fria de Dezembro. Podia apostar que sua bochecha e seu nariz ficariam corados em segundos. Não nevava naquele momento, mas havia nevado por todo o dia, o que havia feito a alegria de Holly e de todos que amavam um Natal congelado.

Viu que Steve contornava a casa, provavelmente para chegar até seu carro estacionado na rua, carregando ao menos duas garrafas de vinho, que tilintavam em suas mãos, por isso o chamou em um quase sussurro, tentando não escorregar no chão escorregadio enquanto se perguntava como ele conseguia andar tão rápido na neve.

— Steve. — Chamou o mais alto que conseguia para não chamar a atenção de ninguém do lado de dentro. — Steeeve!

Ele hesitou e se virou por um breve instante, franzindo o cenho de forma farta, vendo de quem se tratava e voltando a andar em seguida, deliberadamente a ignorando.

— Steve, o que está fazendo?

— Vou para casa.

Max bufou estressada, porque, apesar de ser Natal, ninguém podia perambular pela cidade depois das 22hrs. A essa altura, ele já alcançava o próprio carro muito antes dela enquanto Max torcia para não escorregar por conta do gelo e da pouca iluminação, além de seus tênis sem proteção alguma.

Notou que passou pela janela iluminada da sala dos Wheeler e torceu para que não tivesse chamado a atenção, porque Steve queria sair também sem chamar a atenção. Era complicado ter acompanhado o pedido e, mais ainda, que tivesse acontecido em público e fosse tão celebrado, pois todos amavam Jonathan.

— O quê?! — Chegou a calçada, no momento em que ele abriu a porta do carro, o semblante pesado dominando o rosto iluminado pelas luzes de Natal da casa e da vizinhança. — Você não pode…

Ele, simplesmente, entrou do lado do motorista e bateu a porta, a cortando, o que a fez revirar os olhos novamente e bater na janela do passageiro, torcendo para que ele não arrancasse com o carro antes que pudesse fazer alguma coisa, como Billy costumava fazer.

Então, ele abriu o vidro elétrico e se inclinou, a encarando contrariado.

— Max, eu não estou no clima agora.

Aproveitou o espaço e abriu a porta pelo lado de dentro, sem se intimidar, praticamente se jogando no banco do passageiro e apertando o botão para fechar o vidro para bloquear parte do frio do lado de fora. Foi apenas, então, que se voltou a ele, notando que ainda a encarava contrariado e pouco surpreso, tanto porque a conhecia, quanto porque parecia apenas… Cansado.

— O quê?

Ele perguntou e apenas quando respirou fundo, Max notou que estava ofegante pela caminhada na neve até ali. Então, pesou as próximas palavras, tentando entender o que o agradaria e o que faria com que a jogasse para fora do carro para sair dali o mais rápido possível — além do noivado de Nancy.

— Não pode ir para a sua casa.

— Bem, surpreendentemente ou não, eu sou adulto, maior de idade, tenho um carro e duas garrafas de vinho para me apagar até amanhã de manhã, então acho que posso. — Ele resumiu rápido, como sempre, e deu de ombros, apertando uma das mãos no volante, mais tenso do que de costume. Max inclinou a cabeça, se sentando de lado no banco.

— Você está soando como uma mãe cansada de meia-idade. — Steve fechou os olhos por um instante e apertou os lábios, decidindo não respondê-la. Max, então, o cutucou levemente, notando que não usava casaco, apenas sua típica jaqueta marrom. — Ei… Você não pode ir, porque é Natal… Ninguém deve ficar sozinho no Natal.

Então, Steve voltou a olhá-la, dessa vez menos tenso, compreendendo o que queria dizer, embora continuasse definitivamente chateado. Assim como Max, ele estava sozinho. Os Harrington tinham boas condições financeiras e decidiram deixar Hawkins de vez, quando o portal se abriu, assim como muitas outras pessoas. Apesar de terem tentado convencer Steve a ir embora, ele sabia que não podia deixar seus amigos na mão depois de tudo e, desde então, vivia sozinho na enorme casa de sua família, o que era… Bem, um pouco deprimente.

Sabia que os pais dele sempre tinham sido ausentes, mas aquele era um novo nível de… Distanciamento, afinal eles não tinham retornando nem para o Natal e não fizeram questão de que Steve estivesse com eles em Chicago.

Ele não falava sobre isso, mas havia um momento ou outro que ambos se pegavam desconfortáveis com os Wheeler, com os Byers ou com os Sinclair, porque eles viviam em família, lutavam uns pelos outros e se sentiam… Intrusos, no mínimo. Imaginava que o sentimento era mais forte para ele, pois um dia havia chegado a pertencer ao lugar, como namorado de Nancy, e agora havia outro ocupando esse espaço — para onde, aparentemente, nunca voltaria.

— Bom… Acho que já estou farto do Natal este ano.

Ele murmurou e Max deixou os ombros caírem, sem saber o que dizer. Steve alcançou no banco de trás, entre eles, uma das garrafas de vinho tinto, que havia surrupiado da cozinha, a qual abriu com facilidade por não ser de rolha, bebendo do próprio gargalo.

A ruiva apenas observou, sob a iluminação natalina e colorida da casa dos Wheeler, que tornava o contraste da cena interessante, uma vez que bonita e melancólica na mesma medida. Tentou não demonstrar reprovação, embora fosse extremamente contra álcool e direção juntas. Então, ela brincou com um fio puxado do casaco preto, os dedos ansiosos porque era isso que ela havia se tornado depois de Vecna.

— Sinto muito por… — Max meneou a cabeça em direção à casa quando ele a olhou. — Você sabe.

Os olhos dele acompanharam os seus e Steve apenas observou todos confraternizarem do lado de dentro, por um instante. Ninguém havia se preocupado em procurá-los.

— Não… Eu apenas… Idealizei o que não deveria. A culpa é toda minha. — Ele tomou mais um gole e desviou os olhos para a rua escura e vazia à frente. — Eles nunca terminaram e eu…

— O quê?

O encarava detidamente sob o gorro escuro, agradecendo a lã grossa, pois Steve não havia ligado o carro para fazer o aquecedor funcionar e aparentemente não estava nem notando a temperatura. Imaginou que ele já deveria estar bebendo há algum tempo, mas não estava prestando atenção antes como estava agora.

— Talvez eu estivesse ultrapassando uma linha. — Apesar da admissão em voz alta, notou a contrariedade da negação. — Porque eles claramente se complementam, Nance é feliz com ele e eu… Eu estava apenas me enganando que não.

Ele voltou a dar um grande gole na garrafa e Max arregalou os olhos, levando a mão para alcançar o vidro e interromper o gesto, tomando para si e quase fazendo com que derramasse sob os protestos imediatos dele.

— Isso é vinho demais. — Declarou, alcançando a tampa dentro do porta-copos para fechá-la. — Você vai acabar derramando no seu precioso carro.

— Max… — Ele levou a mão às suas, agora pacientemente, impedindo que tapasse a garrafa. — Eu não vou voltar lá.

Max o encarou, quase torturada, porque não queria deixá-lo sozinho. Não podia. Todos estavam com suas famílias ou com pessoas quase tão importantes quanto família, não era justo que Steve, logo ele, que sempre estava cuidando de todos, não fosse cuidado por alguém naquele dia em específico.

— Então, eu vou ficar aqui com você e nós iremos vencer essas duas garrafas de vinho no Natal. — Ele abriu a boca para contestá-la e Max afastou as mãos dele da garrafa antes de beber um gole tão longo quanto e limpar os lábios na manga do casaco. — Mas, por favor, liga o carro ou eu vou congelar aqui dentro.

Se encolheu um pouco mais contra o banco, embora Steve a encarasse um pouco incrédulo, antes de bufar e, realmente, dar partida no carro para ligar o aquecedor, deixando o câmbio em ponto morto. Porque era Steve, ele sempre fazia o que eles queriam.

Nesse instante, no entanto, o rádio também ligou e, como esperado, músicas temáticas embalavam a programação daquele dia. Ambos encaram o aparelho, um pouco passados, quando o refrão de Last Christmas, do Wham!, começou a tocar, preenchendo o pequeno espaço entre eles no carro.

Steve e Max se entreolharam, então, por um instante, e ela sorriu sem graça ao notar um novo pico de estresse no rosto dele, por isso se inclinou para o aparelho, mudando a estação.

— Inconveniente…

Cantarolou, notando que a próxima emissora de rádio tocava algo mais tradicional, alguma faixa especial de Elvis, que não demandava uma troca rápida de estação. Então, ele alcançou a garrafa de vinho novamente e tomou um gole, piscando pensativamente enquanto a encarava.

— Pensei que passaria o Natal com os Sinclair… — Max se embolou um pouco mais no banco do passageiro e cruzou os braços, dentro do casaco, constatando que ali estava confortável demais, agora que estava quente, para pensar em voltar para os Wheeler.

— Lucas e eu terminamos há semanas. — Encarou o perfil dele, um pouco indignada — Como pode não ter notado?

— Bem, eu sou um cara! — Ele rebateu com uma careta, dando de ombros, e Max levantou uma sobrancelha. — Porquê terminou com ele? Lucas é super legal.

Ela revirou os olhos.

— E porque você assume que fui eu quem terminou? — Steve a olhou, como se fosse óbvio e soltou um riso pequeno e condescendente.

— Garotos como Lucas não terminam com garotas como você. Vai aprender isso com o tempo. — Os olhos dele novamente se voltaram para a casa, pensativamente. — Na verdade… Os homens geralmente não têm coragem de terminar relacionamentos. É patológico.

Max suspirou e pegou de volta a garrafa, considerando meio sintomático que estivesse se igualando a Steve em autopiedade, embora adorasse como o vinho descia doce por sua garganta, já começando a adormecer seus músculos.

— Ok, eu terminei. — O outro a encarou com um olhar vencedor e prepotente. — É só que… Depois do coma, eu estava cansada, sufocada, de tanto…

— Cuidado? — Ele sugeriu, quando Max apenas gesticulou com as mãos, sem encontrar a palavra correta.

— Tanta superprodução. — A ruiva grunhiu apoiando a cabeça contra o banco. — Quando eu penso a respeito, me sinto meio vadia por… Não apreciar o cuidado ou ter alguém com quem contar. Mas… Era como se tudo fosse demais. Ele estava pronto para me segurar antes mesmo de tropeçar e eu… Odeio isso.

Max sempre foi independente. Havia aprendido assim muito pequena, ao constatar, que não podia contar com Billy, seu padrasto ou até mesmo sua mãe, que sempre fazia o que o marido queria, tanto porque dependia dele quanto porquê sustentava uma visão muito deturpada do que era amor.

— Ei, está tudo bem. — Ele apertou seu joelho por um momento e se voltou para o banco de trás, alcançando a outra garrafa de vinho.

— Mesmo depois de tudo, eu… Eu preciso de espaço, preciso… Ser eu mesma. E era como… Se um pedaço de mim faltasse quando estava com Lucas, apesar de ele ser… Perfeito, basicamente. — Despejou de uma vez. — Sinto muito, eu apenas…

Ela gesticulou de forma vazia e suspirou, desviando o olhar, quando Steve apertou mais uma vez seu joelho, chamando sua atenção e a encarando firmemente.

— Max, não estou aqui para julgar. — Ele deu de ombros. — Acho que, depois de tudo, você ganhou o direito de ser um pouco egoísta. Sou a última pessoa a poder fazer isso, olhe a minha situação.

— Realmente, você é. — Concordou de má vontade, no que ele apenas sorriu, um pouco incrédulo pela sinceridade. No rádio, o tema natalino havia sido deixado de lado e Heaven, de Bryan Adams, havia começado a tocar, o que a fez encarar o aparelho com uma careta renovada, enquanto o relógio digital mudava o horário para às 23h47.

— Ah… Eu amo essa música.

Steve bebeu um gole da garrafa, que havia acabado de abrir, e fechou os olhos com a cabeça apoiada no banco, apenas apreciando o novo som. Max estreitou os olhos, então, e soltou um pequeno sorriso, observando enquanto a constatação se formava em sua mente.

— Você é um romântico incurável, Steve Harrington.

— Um de nós têm que ser, não é? — Ela riu, notando que a tensão do semblante dele havia se dissipado em partes. Pelo menos, a música romântica não havia mudado seu humor de forma abrupta como Last Christmas, que soava incrivelmente acurada para a situação dele. — Você melhorou? Quer dizer… Dos pesadelos? Dustin disse que… Eles tinham continuado depois que você saiu do hospital…

— Não exatamente... — Murmurou baixo, como que para si mesma, mas não queria entrar no assunto. Pelo menos agora eram pesadelos de verdade e não alucinações causadas pelo próprio Vecna, se aproveitando de sua culpa após a morte de Billy. — Acho que, em algum momento, vou ter que trocar minha música favorita, mas… Com isso eu posso lidar.

Voltou a olhar para a casa, onde todos continuavam imersos em suas conversas e brincadeiras. Jonathan e Nancy seguiam abraçados em um sofá, assim como Joyce e Hopper, que, surpreendentemente, tinham topado ficar com os Wheeler para a ceia. Bem, era um ano de união, isso não podia negar, pois tudo o que viviam era algo que os havia atado para sempre, para bem ou para mal.

— Max. — Steve levou a mão ao seu ombro, o que a despertou de seus pensamentos distraídos. Ele a encarava com seriedade, dessa vez, os olhos firmes nos seus. — Você sabe que pode contar comigo sempre que precisar, certo?

Algo no tom mais delicado dele quase fez com que quisesse chorar, pois, desde que tinha terminado com Lucas, não se sentia conectada de verdade a ninguém do grupo. Todos tinham coisas em comum uns com os outros, ligações mais antigas ou mais novas, além de outras preocupações mais urgentes do que seu bem-estar, por isso, apenas alcançou a mão dele e segurou entre as suas, em seu colo, concordando.

— Obrigado, Steve.

Ele ainda a encarou por um momento, como se soubesse que ela não o procuraria imediatamente se precisasse, mas, ainda assim, não era como se pudesse fazer muito. Aquele momento, entre eles, no Natal, já era uma exceção.

— Eu sei que Kate Bush é, praticamente, sua amiga íntima nesse ponto, mas posso te ajudar a encontrar alguém a altura para substituí-la, se precisar. — Max riu e ambos se voltaram para o rádio quando Heaven terminou e Someday At Christmas, na versão de Steve Wonder, começou a tocar. — Bem… De volta ao Natal.

Max sorriu e voltou a olhar ao redor, notando que flocos de neve começavam a cair mais forte, enquanto os vidros do carro se tornavam cada vez mais opacos por seus ocupantes clandestinos e esquecidos.

— E está começando a nevar, nada poderia ser mais clichê que isso.

— Parece que essa noite vai ser infinita. — Ele analisou ao redor e resmungou para si mesmo, mas sabia que Steve tinha essa característica, não estava realmente irritado por conta do Natal, era… Toda a expectativa que tinha criado para si mesmo. Então, o relógio pequeno do painel marcou que faltavam dois minutos para o Natal, o que o fez suspirar e encará-la, resignado, mas pacientemente. — Ei, você pode voltar para comemorar com eles. Eu vou ficar bem… Eu sempre fico.

Só então notou que seus dedos ainda estavam entrelaçados aos dele, o que fez com que quase corasse no pequeno espaço do carro, mas… Bem, era Steve e, de qualquer forma, ela não iria deixá-lo sozinho.

Já conseguia ouvir as músicas aumentando por toda a vizinhança, assim como as conversas e felicitações. Aquela hora, as pessoas já estavam tomadas pelo álcool do vinho, do eggnog, do champanhe ou de qualquer coisa que as deixasse alegre, como os Wheeler estavam com o vinho contrabandeado de Murray.

— Steve… Eu estou bem aqui, ok? É sério. — Ele revirou os olhos e ela levantou a garrafa de vinho para bater naquela que ele segurava, fazendo tilintar no pequeno espaço, agora, aquecido do carro. — E nós temos vinho!

Tiveram apenas um momento para apreciar um novo gole quando a música na estação de rádio mudou, assim como o relógio e, automaticamente, foi como se todo o clima de Natal recaísse sobre os dois relutantes ocupantes do carro, pois Jingle Bell Rock, de Daryl Hall e John Oates, tinha começado a tocar e podia ouvir as comemorações por todo o bairro, assim como na casa dos Wheeler.

— Esta é a minha canção de Natal favorita de todos os tempos. — Levou as mãos ao som e aumentou um pouco, fechando os olhos ao ouvir os primeiros versos. Então, olhou para Steve, que apenas a analisava com um pequeno sorriso, o que a deixou repentinamente tímida. — O quê?

— Nada. — Ele deu de ombros e Max estreitou os olhos o pressionando silenciosamente, o levando a admitir. — Eu… Gosto desta versão também.

— Então você não é o Grinch. — A ruiva zombou, tentando amenizar o motivo para estarem ali, fazendo com que Steve revisasse os olhos. Então, ela bufou levemente e se esticou no banco do passageiro para puxá-lo para um abraço, que claramente o pegou de surpresa. Max não era de demonstrações públicas de afeto, muito menos de toques, e lá estava ela o rodeando pelo pescoço, praticamente ajoelhada no espaço entre os bancos, para puxá-lo para mais perto. — Feliz Natal, Steve.

O sentiu suspirar, pois só podia aceitar o gesto e apoiar o rosto contra seu ombro, após cuidadosamente apoiar a garrafa de vinho no assoalho do carro, a amparando pela cintura.

— Feliz Natal, Max. — Ele murmurou, claramente baixando a guarda. — Obrigada por… Estar aqui.

Sorriu brevemente e afundou o rosto na jaqueta dele, sendo imediatamente invadida pelo perfume masculino e incrivelmente característico de Steve — meio amadeirado, meio fresh, meio apimentado. Só então, quando se sentiu vibrar por dentro com o tom baixo dele, muito próximo de seu ouvido, notou como o momento era… Íntimo, como se carregado por algo mais.

A neve já caía mais forte em Hawkins, fazendo com que os vidros do carro ficassem embaçados do lado de dentro, e nunca tinha se imaginado sozinha com Steve daquela forma, mas lá estavam eles, meio que levados pelo vinho, pela música ou pelo conforto, pois continuaram assim até que a música mudou para algo mais ambiente, ainda mantendo o tema natalino. Frank Sinatra, ótimo.

Então, quando se afastaram levemente para se olhar, ambos já tinham consciência de como a atmosfera havia mudado drasticamente dentro do carro. Alguns centímetros abaixo, Steve percorreu seu rosto com os olhos e Max apenas pôde notar como seus fios ruivos caíam entre eles, formando uma cascata ao seu redor, que ele fez questão de afastar com delicadeza enquanto a olhava seriamente.

Ainda ajoelhada, estava praticamente no colo dele, que não parecia se importar com a falta de espaço ou com o modo como suas respirações já se misturavam tentadoramente. E, apesar de haver música, era como se estivessem em uma bolha de silêncio pesado, o ruído do rádio e da cidade ao longe.

Seus dedos, fechados na jaqueta dele, na altura dos ombros, se apertaram um pouco, ansiosamente, contra o tecido ao descer os olhos para os lábios bem desenhados. Era Steve, ele sempre havia sido… Bem, perfeito. No entanto, sob as luzes natalinas, que iluminavam o carro naquele instante, quase criando o efeito de vitrais de igreja, soava completamente diferente do que conhecia.

Os olhos dele seguiram os seus, descendo para sua boca, e os dedos, antes delicados em sua mandíbula, mal alcançando a pele ali, como se não pudesse tocá-la de verdade, se misturaram aos seus cabelos quando rodearam seu pescoço no momento em que seus lábios se encontraram, ansiosos.

Não soube distinguir quem havia encontrado quem no meio do caminho, mas suspirou longamente quando os dedos dele se firmaram em sua nuca, ainda entrelaçados aos fios ruivos, fazendo com que seus lábios se encaixassem perfeitamente enquanto o outro braço percorria sua cintura com certeza, a puxando cada vez mais sobre ele no banco do motorista.

Max havia beijado incontáveis vezes, mas nunca havia beijado com tanto desejo. Gostava de se sentir um pouco no controle e ali não havia nenhum, nem da sua parte nem da de Steve, que a beijava como se conhecesse cada espaço de sua boca, saboreando o vinho de antes, tomando tempo para explorá-la, o que a deixava… Inquieta.

Levou a mão aos cabelos dele, mal acreditando como eram realmente macios, arrastando os dedos pelos fios castanhos antes de rodear o pescoço com uma das mãos para senti-lo estremecer contra ela, fincando mais firmemente uma das mãos em sua cintura para pressioná-la mais contra ele, ainda que o casaco grosso fosse uma pesada barreira.

Por um momento abstrato, quase etéreo e supernatural, era como se sua mente se concentrasse somente no calor entre eles, a língua dele contra a sua fazendo com que uma onda repentina de arrepios a percorresse dos pés à cabeça, minando todas as suas defesas e fazendo com que amolecesse nos braços dele.

A sensação se prolongou e triplicou quando Steve segurou seus fios ruivos e longos, na altura da nuca, com mais força, sugando seu lábio inferior já inchado de forma decidida e lasciva, a levando a gemer suavemente no espaço entre eles.

Foi nesse momento, no entanto, que se afastaram levemente, ofegantes e quase confusos, se encarando com a realização do que fizeram pesando no pequeno espaço entre suas bocas, suas respirações se misturando tentadoramente, embora, pela forma como o viu arregalar os olhos para os dela, isso não fosse voltar a acontecer tão cedo.

— Ah meu Deus! — Ele sussurrou, os mesmos olhos lascivos de antes, agora chocados, enquanto se afastava progressivamente. — O que estamos fazendo? O que eu estou fazendo?! Estou ficando louco?!

Ele levou as mãos ao rosto e, depois, aos cabelos bagunçados pelos dedos de Max, mal conseguindo encará-la, enquanto ela, lentamente, em choque, parecia retornar ao próprio corpo, levando os dedos aos lábios ao se jogar novamente no banco do passageiro. Seus olhos estavam presos na neve lá fora, tentando processar tudo o que havia acontecido, das sensações que sentira ao fato de ter acabado de beijar Steve Harrington.

Bem, todas as garotas da faixa etária deles o consideravam um gato, Max sabia muito bem disso e, às vezes, chegava a se sentir um pouco especial porque, assim como El, fazia parte do grupo de amigos dele — em que, amigos parecia ser uma palavra forte demais para descrevê-los. Estavam ligados por algo maior do que isso, mas ainda assim… Eram próximos o bastante para ter considerado ir até ali para consolá-lo pelo noivado de Jonathan e Nancy, porque, no fim das contas, Steve não merecia ter o coração partido novamente. E ele estava sozinho. Assim como Max.

Exceto que não estava nos seus planos o vinho, a música, o clima, o beijo. Fechou os olhos e sentiu quando ele levou uma das mãos ao seu ombro, chamando sua atenção.

— Max, eu… Sinto muito, eu não devia… — Ele implorou, juntando as mãos, que ela dispensou na hora.

— Você não fez nada…

— Você é menor de idade e há todo esse vinho… — Steve continuou falando.

— Steve! — Se voltou a ele, segurando suas mãos, tentando fazê-lo focar. — Está tudo bem, eu já deveria ter voltado para dentro… Na verdade, eu já vou. Nada disso… Aconteceu.

Não sabia se tentava convencer a si mesma ou a ele, mas no instante seguinte estava se desvencilhando dele e do olhar confuso e se virando para abrir a porta do carro

— Max. — Ele chamou, no que ela respirou fundo, ainda que tremulamente e, já sentindo o frio do inverno adentrar cada poro seu, se voltou a Steve, que analisava cada ponto de seu rosto para tentar entendê-la ou… Se entender.

— Está tudo bem… — Gaguejou novamente e forçou um sorriso. — Ao menos, não ficou sozinho à meia-noite.

Ele piscou, sem saber o que dizer, e no momento em que se virou para sair de verdade, tropeçou na garrafa de vinho que estava cuidadosamente apoiada contra o câmbio, no assoalho do carro tão bem cuidado dele, derramando e impregnando o carro com o cheiro de uvas e álcool que, naquele momento, já parecia embrulhar seu estômago.

— Merda… Me desculpe… — Murmurou, alcançando o objeto de vidro e colocando de pé novamente, embora o tapete e parte do carpete estivessem arruinados e manchados, talvez para sempre.

Steve não teve tempo de falar mais nada, até porque estava um pouco chocado, pois ela bateu a porta do carro e o bloqueou. Bem, bloqueou o que tinha acontecido também, em tese. No mundo real, as pessoas continuavam comemorando o Natal, a neve continuava a cair e as luzes piscavam coloridas, etéreas e mágicas, suaves como a época deveria ser.

Apesar disso, por dentro, enquanto se equilibrava pelo chão nevado para não escorregar, Max se sentia um turbilhão, pronto para despencar em um abismo de emoções. Beijar alguém não era novidade, mas sentir tudo aquilo enquanto beijava esse alguém era… Demais.

Fechou a porta da cozinha dos Wheeler através de si, quando finalmente alcançou a casa e se encostou contra a superfície, se forçando a respirar fundo, sentindo o coração bater descompassadamente contra as costelas e, se tivesse de apostar, diria que estava corada.

Arregalou os olhos para si mesma com a constatação e se obrigou a tentar agir naturalmente, precisava retornar para a sala, estar apresentável e agir como se nada tivesse acontecido, provavelmente Steve agiria da mesma forma porque ele adorava evitar problemas e comunicação e eles não falariam sobre esse episódio, esse lapso, nunca mais.

Então, ignorando a forma como seu estômago pareceu ter afundado em uma espécie de decepção e conformação antecipada, Max pegou a primeira travessa de biscoitos de gengibres que viu, ajeitando a postura, tentando disfarçar as mãos trêmulas e incertas e seguiu pelo corredor, torcendo que ninguém percebesse que algo havia definitivamente mudado nela.


Notas finais
Ei! Fazia muito tempo que eu queria escrever um fic meio que baseada nessa música, So Much Wine, da Phoebe Bridgers, para o Natal e acho que surgiu o momento. Há uma outra, também temática de Natal, inspirada em The Parting Glass, também na versão do boygenius, que é Winterwitch e, modéstia a parte, vale a pena ser conferida ♥ Eu particularmente não gosto muito do triângulo amoroso envolvendo Nancy, Steve e Jonathan, mas gosto do que vem depois, por isso, Max! Eu acho que Steve e ela tem muito em comum por estarem sozinhos e, por isso, são fáceis de se entrosarem em qualquer ambiente. A fic se passa em 1986 e Max saiu do coma, a quinta temporada ainda não existe. Bem, a quem ler, espero que tenha gostado e não deixe de comentar suas impressões, pois essa é minha primeira vez me aventurando nesse universo de Stranger Things. Até breve ♥