So, Here I Go
1 Joseph Joestar
Joseph Joestar não costumava pensar muito na vida, ao menos não na vida que já se foi. Esse foi o legado do turbulento e maluco século XX, além de um mundo virado de cabeça para baixo com duas guerras globais, uma crise mundial, vários outros conflitos imbecis aquele século criara toda uma geração que não pensava em seu próprio passado. Afinal, o que havia para lembrar? Meses de fome, frio e doenças numa trincheira lutando contra a morte eminente? Ou os anos difíceis sem emprego que começaram em 1929 e terminaram numa nova guerra para onde seus filhos iriam? Não, ninguém quer lembrar dessas coisas.
Mas Joseph era diferente. Ele não fora para nenhuma das guerras, e não passou fome durante a depressão. O, já velho, usuário da Onda, só não pensava no que se passou anos atrás por opção. Agora, deitado na cama nessa noite quente de insônia as lembranças iam e vinham em sua mente como frios lembretes que gritavam para ele o quão velho já estava, o quão próxima a morte estava. Sim, a morte, aquela sua amiga de longa data que tomara tantos dos seus amados.
Joseph nunca fez o tipo paciente, ele queria ver o “filme” de sua vida passar diante de seus olhos agora. Não quando já estivesse agonizando num hospital. Mas nessa altura do campeonato as memorias vinham com uma grossa neblina de esquecimento. Os detalhes a muito se perderam, em meio ao violento mar de grandes acontecimentos que rodeia a vida de um Joestar.
Suas memórias só iam até os anos 30, tudo o que veio antes de seus 10 ou 11 anos eram buracos em sua mente, mas Joseph não se importava, porque ao menos ainda lembrava dos anos 30. Ah, os anos 30 na Inglaterra com sua avó Erina. Ele a tinha e sempre a teria como uma das criaturas mais sagradas que já pisara nessa Terra, e apesar das repreensões que sempre sofria por seu temperamento Joseph jamais teve raiva de Erina. Como poderia um mero humano como ele ter raiva de um anjo como ela? Apesar de não admitir o velho tinha esperança de reencontra-la na morte, mas isso seria impossível, Erina não estaria no lugar onde ele, provavelmente, vai passar a eternidade.
Depois vinham os anos 40. Os anos 40... quanta loucura! Hitler, Mussolini, Japão, Inglaterra, França, Rússia, espiões, guerra. Argh! O velho balançou a cabeça em negação. Não, não foi essa loucura que Joseph viveu, apesar de que também havia dois ou três italianos envolvidos em sua versão dos anos de guerra.
“Caesar... ah Caesar. O quão mais enrugado do que eu você estaria hoje se não tivesse sido tão... tão italiano... ”
Havia décadas que o rico empresário não pensava em Caesariano, Havia décadas que não chorava sua morte ou lamentava pelo futuro perdido. Será que ele teria vindo morar na América com Joseph? Ou talvez Joseph ficasse na Itália com seu amigo. Será que aquele Dom Juan loiro teria se casado? Como seriam seus filhos? A mulher certamente seria uma beldade.... Caesar desenvolveria um Stand? Como seria o seu? Algo como o do... do... como era mesmo o nome dele? Rohan! Isso! Seu Stand seria como o do Rohan? Bem, mesmo que não fosse Caesar Zeppeli certamente se daria bem com ele! Seriam amigos e ranzinzas juntos.
Joseph riu consigo mesmo pensando no quão insuportável Caesar seria se estivesse tão velho quanto ele. No entanto sua risada se perdeu no silêncio e foi substituída por uma sensação incômoda em seu estomago a qual logo se espalhou por todo o corpo.
“Se ele estivesse tão velho quanto eu...”
Humanos são criaturas estranhas, mesmo encarando a morte de alguém amado, eles não a aceitam. Mesmo vendo o sangue escorrendo pelo chão ainda acreditam que alguma coisa trouxe todos os seus amados de volta, e que virando a próxima esquina da rua vamos encontra-los passeando por aí. É claro que isso nunca vai acontecer, e é claro que no fundo todos eles sabem disso, mas ninguém luta contra esse pensamento. Porque é deveras reconfortante pensar que os mortos voltaram, que caminham sobre a terra, que estão apenas se escondendo, nos pregando uma peça, e qualquer dia desses não vão conseguir se esconder e vamos encontra-los saudáveis, felizes e com saudades. Ah! Que criaturas estranhas nós somos!
Depois de pensar tanto sobre seu amigo Joseph quis pular da cama e pegar um voo noturno para a Itália naquele mesmo segundo. Mas estava muito velho para pular e não o deixariam viajar de madrugada, do próprio aeroporto, ligaria para Holly, Jotaro, ou Josuke, e ele tomaria uma bronca. Quando se está velho demais todos te tratam como uma criança desvairada. Mas ele queria ir. E iria. Amanhã talvez? É, amanhã ele compraria uma passagem e iria a Itália. Queria ir. Precisava ir.
Queria andar pelas ruas reconstruídas, visitar o restaurante onde comeu aquele macarrão preto, que apesar da aparência ruim, era delicioso. E claro. Ir até o tumulo de Caesar. Uma das primeiras coisas que fez depois de enriquecer foi comprar aquele hotel velho. Pagou uma pequena fortuna por ele, no entanto, ninguém questionou sua decisão, pelo contrário. Suzie Q. e Lisa Lisa apoiaram-no totalmente. O governo queria destruir o prédio para fazer sabe-se lá o que. Joseph jamais deixaria que fizessem isso! Ali de baixo de uma cruz feita de pedra descansava um Zeppeli, seria um sacrilégio demolir o lugar onde Caesar morrera tentando salva-lo! Quem aquele maldito primeiro ministro pensava que era para ter esse direito?
Vez ou outra chegaram aos ouvidos de Joseph boatos sobre o lugar ser mal-assombrado. Ah, que tolos eram os italianos. Assombrado? Nunca! Caesar não permitiria maus espíritos frequentarem o Hotel. O lugar não era assombrado. Era protegido! E seria protegido até o fim dos tempos! Havia uma clausula especifica quanto a isso no testamento de Joseph. Ela falava que parte de seu dinheiro deveria ser utilizado para proteger aquele pedaço de memória estagnado nos loucos anos 40. Ele não conseguiu proteger seu amigo em vida. Mas protegeria seu sono eterno. Enquanto houvessem Joestars no mundo ninguém incomodaria Caesar, nem Dio, nem homens do pilar, por Deus, nem o próprio diabo!
Aquilo o reconfortava, porque sempre haveriam Joestars, disso ele tinha certeza. Essa família era cabeça oca demais, problemática demais, estranha demais e sortuda demais para perecer. Sua mãe e mestra era a prova disso. Sobreviveu a marte de seu pai, à caçada da RAF por sua cabeça, e até as trapaças Cars. Além disso, haviam Jotaro e Josuke. O sangue Joestar estava em boas mãos. Sim. Caesar dormiria em paz para sempre.
“Josuke... ah que bela dor de cabeça eu fui arranjar...”
Ele virou-se sozinho na cama. Suzie viajara ao Japão com Shizuka, que a essa altura não era mais nenhum bebê invisível, para visitar o neto e a filha. Ela provavelmente ainda estava sentida ele por tê-la traído. Suzie não demonstrava raiva, mas a vantagem de se estar casado há tanto tempo é que você sabe quando o outro não está bem. Joseph não era mentiroso, nunca foi, trapaceiro em jogos sim, mas mentiroso nunca! (Erina sempre lhe pegava quando ele tentava mentir), e não o seria agora, a verdade era que na época em que descobriu sobre Josuke a ideia de outro filho lhe fazia latejar a cabeça, o velho não queria um filho que não fosse de Suzie também. Mas o garoto o surpreendeu, era mesmo um Joestar de corpo e alma no final das contas.
—Quem sabe da Itália eu possa ir ao Japão. Estou com saudade daqueles dois. – Ele murmurou para si mesmo sentindo as pálpebras pesarem como nunca. O sono finalmente chegara. – Ou talvez passasse na França primeiro. Como será que anda o Pollunareff? Será que ele gostaria de conhecer Josuke e os outros?
Mais lembranças lhe vieram rápidas como os socos de Star Platinum. Os anos cuidando de Holly, a raiva que sentiu de todo o Japão ao saber que sua única filha iria para lá. Aquela viagem até o Egito. A felicidade de ver Holly viva e bem. O tempo passado no Japão, Shizuka, a bebê invisível. Ter de trocar fraldas depois dos 70. Os beijos que trocara com Suzie na juventude. Ah... tantas coisas...
—Itália. França. Japão, eu vou, eu vou. Caesar, Pollunareff, Jotaro, Josuke. Eu já estou indo. — Ah eram tantas coisas, coisas demais para se lembrar nos segundos precederam o fechar de seus olhos cansados. Ah que boa e longa jornada Joseph tivera. – Esperem... esperem por mim. – A visão embaçada pela falta dos óculos finalmente fora substituída pela escuridão reconfortante do sono.
Joseph Joestar conseguira, por fim, descansar.
[...]
—Jojo.
O velho mal pegara no sono quando a voz cortou como uma faca a quietude do apartamento vazio. Não, deveria ser sua imaginação. Estava sozinho, e a única pessoa viva desse lado do mundo que conhecia seu apelido deveria estar ocupado em alguma reunião política importante, ou dormindo. Será que estava ficando louco?
—Anda, Jojo! Seu americano preguiçoso. — Definitivamente, Joseph estava louco, tinha de estar! Que outra explicação haveria para aquela voz... aquele sotaque... não! Estava louco! É! Ouvindo coisas! Deve ter sido o café que tomou antes de ir para a cama. Definitivamente era o café!
Que estranho. De repente o velho Joseph que há muito tempo não conseguia caminhar sem tremer com sua bengala ou se mexer sem ouvir um ou dois ossos estralarem sentiu-se com força suficiente para derrubar um touro com as próprias mãos.
—Se não levantar daí em dois segundos vou te acertar com minhas bolhas e você sabe que eu faria isso! – Assustado ele abriu os olhos.
—Ca – Caesar? – Jojo chamou enquanto a visão ainda se ajustava a escuridão.
—Ora finalmente! – Exclamou uma silhueta grande no canto do quarto.
Joseph acendeu o abajur que ficava ao lado da cama e da penumbra criada pela luz viu Caesar. Era ele! Era ele! Joseph jogou as cobertas para o lado e ficou de pé. Espera... desde quando ele tinha essa força de volta? E desde quando conseguia ficar de pé sem a bengala?
—Caesar!
Um sorriso cínico tomou conta de seu rosto pálido e Italiano. Os olhos verdes ainda tinham o mesmo brilho juvenil que tiveram no passado. O casaco verde vivo e o cachecol roxo contrastavam gritantemente com a sobriedade do quarto e o faziam parecer o recorte colocado aleatoriamente num lugar e numa época que não lhe pertenciam.
Os cabelos loiros e bem cortados estavam despidos da bandana, é claro que estavam, como poderia ser diferente? Como poderia Caesar usar a bandana que Jojo queimara? Ele se sentiu um pouco mal ao lembrar disso. Apesar de ter derrotado Wham queima-la não lhe parecia certo agora.
—Eu mesmo.
—O que você...?
—O que faço aqui? Venha. Temos de conversar.
Jojo não sabia porque, mas tinha certeza, não era nenhum Stand inimigo, não era alucinação, ou qualquer outra coisa. Era real. Ele não sabia como aquilo era possível, mas era, era verdade. Ele andou na direção de Caesar e ao encontra-lo deu um abraço apertado em seu velho amigo.
—Caesariano!
—Joseph... – Os dois permaneceram imóveis por alguns momentos. Ah, como era bom chamar por seu nome sabendo que ele responderia! Joseph tinha tanto o que lhe contar... tanto que daria para encher três livros inteiros! E ele contaria tudo! Desde como mandara algo para o espaço antes daqueles comunistas idiotas sobre o casamento e o poria a par de tudo. Nada de homens do pilar, stands, ou qualquer uma dessas coisas! Não hoje! Ele estava feliz demais para falar sobre isso, um milagre acontecera, e não se estorva milagres com coisas como os demônios do Cars e do Dio.
Jojo se sentia bem como nunca. Poderia correr uma maratona, escalar uma montanha ou andar casa passo de seu apartamento no centro até o Canadá, e claro, poderia arrastar Caesar com ele.
—Senti sua falta, amigo. – Eles se separaram, mas ainda mantinham as mãos nos ombros um do outro. Jojo riu se sentindo muito feliz. Caesar apenas esboçou um pálido sorriso aparentemente envergonhado com algo.
[...]
O dia amanheceu pesado em Nova York, pesado demais para o sol se atrever a brilhar. Todos os jornais traziam a mesma noticia, alguns na segunda, outros na terceira página, mas todos eles, do New York Times, até o Daily News traziam a mesma reportagem:
Morre Joseph Joestar, rico empresário do ramo imobiliário.
O médico entrevistado dizia que o idoso morrera de causas naturais e que não fora uma morte turbulenta que Joseph simplesmente dormiu e não acordou. “Foi uma morte tranquila” ele afirmou também à Suzie que chorava desconsolada ao telefone.
Do outro lado do mundo toda a família deixada para trás lamentava. Jotaro o odiou por um momento ao saber da notícia. “Como aquele velho se atrevia a morrer?!” Pensou antes de sentir algo cair de seus olhos e molhar seu rosto. Na cabeça de Josuke aquilo não fazia sentido. “Então meu pai está... está... aquele maldito! Mil vezes maldito!!! Ele morreu sem me visitar antes?! Que tipo de pai faz isso?!”.
Suzie e Holly apenas choravam lado a lado sendo consoladas por Josuke e Jotaro que mal conseguiam conter as próprias lágrimas nos olhos. Seus amigos em Morioh também lamentavam. Josuke nunca contou sobre a morte de Joseph a sua mãe. Ela não suportaria. Quando foi a América para o enterro disse que a faculdade tinha lhe dado aquela viajem por ser um aluno tão bom. Ela ficou desconfiada, mas acreditava em Josuke, porque ele não era mentiroso.
Nenhum deles parecia entender. Mas isso era natural, nenhum humano entende até que chegue sua vez. Principalmente os nascidos no século XX. Aqueles que viram o céu desabar sobre suas cabeças e o inferno se abrir bem debaixo de seus pés, era difícil para esses acreditarem em qualquer coisa depois de passarem boa parte da juventude pensando apenas em coisas prática como comer, e sobreviver. Um dia eles descobririam, um dia.… em algum dia bem distante Joseph com sua forma jovem recém adquirida apareceria para eles e lhes diria o que Caesar ao lado de Lisa Lisa e Erina contaram a ele.
“A morte, não é o fim”
Ele lhes diria com um sorriso no rosto.
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