Notas iniciais
Estou de volta.

Tirei o chapéu e joguei em cima do sofá. Meu luto passara. O imediato, pelo menos. Eu iria sentir falta para sempre, mas minha vida precisava de uma continuidade, e uma mudança como aquela deixaria tudo de cabeça para baixo. Eu poderia fazer as mudanças que quisesse, dinheiro não seria problema com os seguros – que eu preferia não ter se pudesse trocá-los por Tio Matt – e a pensão altíssima de meu ‘’primeiro pai’’. Amarrei os cabelos e peguei uma caixa vazia. Coloquei boa parte das coisas dentro dela e fui buscar outra nos fundos da casa. Só então parei para observar o quão pacífico era o lugar. A cerca de estacas brancas desnecessárias – como as dos filmes -, a grama verde e o cachorro correndo descontroladamente em minha direção.

CA-CACHORRO?

– Bella! Bella, volte aqui. Não pode entrar na casa dos outros assim meni... Bella? HAHAHAHA.

Minha cabeça. Uma merda de um frisbee tinha acertado a minha cabeça. Claro que não tinha sido o motivo de eu estar estirada no chão, já que o motivo me olhava com os olhos chorosos e a cabecinha baixa.

– Tudo bem? – disse ele me estendendo a mão. – Desculpe por Bella. O Zé Canelinha pediu pra eu cuidar dela esta tarde, e eu acho que maconha não serve pra diversão canina.

Respirei fundo. Covarde. Joga a porra do frisbee no quintal dos outros e bota a culpa na pobre cachorra fofa que se obriga a fazer o que ele manda. Aceitei a mão e fui puxada para até a metade do caminho com uma puta gentileza. Metade do caminho, porque ao chegar lá eu só vi ele me largando e indo atrás da cachorra. A sensação de ser jogada no chão por dois animais irracionais em menos de cinco minutos é realmente ótima. Levantei e dei umas batidas na bunda para tirar a grama que estava pendurada. Depois vi o cara saindo da casa com a cachorra gigante no colo.

– Ei, desculpa, mas você não é um tipo de ladra que rouba a casa dos outros enquanto estão trabalhando, não é? Porque eu vi que você fez uma limpa aqui, e o cara é legal sabe? Sugiro que dê o fora, ele era juiz ou algo assim e você pode se foder. Os caras daqui não são legais com ladrões, experiência própria.

É claro que eu entendi desde o começo, ele se vestia como um menor infrator, e um daqueles que riem da cara dos policiais. Ele era cheio de brincadeirinhas e de vozes zombeteiras, na verdade sua própria voz era engraçada, divertida. Aguda e com a fala meia enrolada. Ele nunca parava de sorrir. E esse sorriso era verdadeiro, empolgado como uma criança. Era fácil imaginá-lo pequeno alisando aquele cabelo loiro e aqueles pequenos e profundos olhos azuis que ficariam menores ainda com as maçãs do rosto levantadas marcando um sorriso lindo que por um segundo eu gostaria de motivar.

– E então...?

– Ah, não sou nenhuma ladra, apenas sobrinha do Matt. Ele faleceu, e agora me mudarei pra cá. Nova vida, sabe?

– Entendo. Desculpe por pensar que você era uma ladra. Não se parece com uma, mas nunca se sabe.

– Sem problemas – respondi encarando a grama.

– Ei, você se machucou? Quer dizer, posso me redimir disso de qualquer forma? Uma cerveja, ou sei lá.

– Bom, eu não bebo. Acho que um café ou um frozen seriam o bastante.

– Que tal um café e um frozen?

– Acho que seria legal – sorri, envergonhada.


– Podemos ir depois de eu te ajudar com a casa?

– Acho que sim, mas não vejo necessidade. Você não precisa fazer isso só porque acertou um frisbee na minha testa, ou porque sua cachorra me derrubou.

– Bem, acho que o cara merecia. Ele foi legal com minha avó. Enfim, quer ajuda?

– Se não tiver nada pra fazer...

– Ok, vou deixar Bella com minha irmã e já volto.

– Vou estar lá dentro.

O estranho saiu e entrei na casa com uma caixa vazia em mãos, chegando até o quarto principal, abri as portas do guarda-roupas e fui puxando as peças para dentro da caixa. Tio Matt tinha roupas modernas que iam além do terno e gravata de todos os dias.

– Como é seu nome? Esqueci de perguntar.

– Ester. E o seu?

– James. Jimmy, como queira. O que precisa que eu faça?

Disse a ele para ligar para algum cara que tivesse aqueles caminhões de frete para que todos os móveis fossem levadas para algum orfanato ou abrigo que precisasse. Aproveitei o fogão e o que tinha na geladeira e fiz um almoço para nós. Ele disse que teria o dia todo sem nada para fazer, e se ofereceu para ajudar em tudo. A cada minuto que se passava ficávamos mais íntimos, e isso parecia ser prejudicial. Embora parecesse que nos conhecíamos desde que nos entendíamos por gente, nós não nos conhecíamos. Em filmes, quando isso acontece é sinônimo de uma coisa.

Amor?

– Podemos ir à loja e escolher os móveis. Tenho dinheiro suficiente pra mobiliar oito casas como essa. Escolhemos, e acho que eles têm um prazo de uns três dias para entregar. Pintamos a casa e tomamos banho, depois saímos. Pode ser?

– Claro.

Chegamos à loja e escolhemos a cozinha, a sala, o banheiro, o quarto principal, o de hóspedes. Compramos tudo, inclusive as tintas para começar a pintura. Ao chegarmos em casa, tia Addie ligou pedindo que eu fosse até sua casa ajudar na organização de alguns papeis.

Ao chegar em casa – na antiga casa – avistei Tia Addie mexendo em todos os papeis, empilhando alguns em lugares diferentes de acordo com números e títulos.

– Oi tia. O que você quer?

– Ah. Olá Ess. – Addie direcionou seu olhar a Ester por um instante sorriu. — Eu precisei de sua ajuda para organizar essa papelada. Mas acho que já estou terminando e você aqui poderia me confundir. Como foi lá?

– Hã? Onde?

– Na sua casa. Era para você estar lá, não?

– Ah, sim. Sim, sim eu estava. Já está quase pronta. Amanhã pintaremos.

– Pintaremos? Nós quem?

– Eu e Jimmy. Vizinho do tio Matt, sabe? Conheci ele hoje e não teria conseguido arrumar um terço do que consegui. Bem, ele carregou as caixas mais pesadas, segurava as que eu carregava quando eu não aguentava mais. E eu não aguentava por muito tempo – ri discretamente – então ele praticamente andou ao meu lado o tempo todo, me ajudando em todas as coisas que eu fazia. Ele carregou um sofá sozinho. O maior de todos, sabe? Aquele enooooorme no qual Hans dormia. Aliás, sinto falta do Hans. Conversávamos todos os dias. E não tenho falado muito com ele ultimamente. Sinto sua falta.

Ester só parou de falar quando seus olhos pararam num quadro pendurado na parede. Ele exibia uma foto sua e de Hans em sua última visita a HB.

– Sabe, acho que preciso visitá-lo.

Addie abaixou os óculos e olhou para Ester, que permanecia fixada no quadro.

– Vai o quê?

– Visitar o Hans. Em Berlim.

– Agora? Como?

– Eu sei lá – sorri de canto – Ele arrumou um jeito de vir, posso fazer isso também. E te garanto que não vou sozinha.


Notas finais
so..?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.