Notas iniciais
Quando eu assisti o anime “SK8 The Infinity”, eu me apaixonei completamente. Esse anime realmente conquistou um espaço muito especial no meu coração. Talvez tenha sido algum tipo de hiperfixação, devo confessar. Ao longo de três longos anos, entre algumas pausas no trabalho, eu consegui escrever essa fanfic. Sei que não é grande coisa, apenas uma pequena fanfic escrita por um jovem confuso, apaixonado por um anime meio gay. Mas posso garantir que essa história foi escrita com muito carinho e esforço. Eu espero que vocês gostem de ler essa história, da mesma forma que eu gostei de escrevê-la. Então, boa leitura!

“Qual é a sua felicidade?”


Os pensamentos fluíam pela mente de Langa enquanto ele andava com seu skate. O sol estava se pondo no horizonte, pintando o céu com um tom laranja avermelhado, que se espalhava por tudo o que a luz tocava. O garoto podia sentir o calor do sol em seu rosto, contrastando com o ar frio de novembro.

Mesmo estando no inverno, Okinawa ainda possuía um clima muito mais quente do que o Canadá. Nessas horas, Langa sentia falta da neve. Esse era o primeiro inverno que ele passaria no Japão. Ele se perguntava como seria o seu primeiro Natal ali, já que até mesmo as tradições natalinas eram um pouco diferentes.

Ele ainda não havia se acostumado totalmente com todas as diferenças entre os dois países, tanto em questão de cultura, quanto de clima. Mas, enquanto andava com seu skate pelas ruas iluminadas pelo sol poente, com o vento frio contra os seus cabelos, ele achava aquele calor vindo do sol reconfortante e aconchegante.

Aquela paisagem avermelhada, na qual ele conseguia ver toda a cidade, ficava ainda mais linda quando pensava no que estava indo fazer. Como sempre, ele estava indo ao encontro de Reki. Ele não pôde evitar que um sorriso escapasse ao se lembrar disso.

Tudo na sua vida havia ficado muito melhor desde que conhecera o ruivo. Langa amava cada segundo que passavam juntos. Amava quando andavam de skate, quando se divertiam com os seus amigos, quando saiam para comer alguma coisa, ou mesmo quando estavam trabalhando juntos na Dope Sketch.

O azulado não tinha dúvida alguma que era apaixonado pelo seu melhor amigo. Mas ele não se importava com qualquer rótulo que pudesse ser colocado na relação dos dois. No fundo, ele evitava pensar nisso, pois tinha medo de que algo que fizesse pudesse acabar com a amizade deles. E isso era algo que o canadense não poderia permitir.

Reki era a coisa mais importante que ele tinha na vida, e a simples ideia de estar com ele, de tê-lo como o seu melhor amigo, já era o bastante para Langa manter um sorriso sincero no rosto. Exatamente como neste momento.

Os pensamentos do azulado foram interrompidos quando ele pôde avistar Reki o esperando na frente de sua casa. O ruivo estava vestido como sempre, usando sua bandana e seu moletom vermelho, que combinava com seu cabelo atraentemente bagunçado. Ele estava encostado no muro, olhando fixamente para o horizonte. Seus olhos brilhavam enquanto ele admirava o pôr-do-sol. A luz alaranjada iluminava seu rosto, deixando-o ainda mais lindo.

Durante toda a vida, Langa ouviu dizer que pessoas apaixonadas sentem borboletas no estômago e ficam com os batimentos e a respiração acelerados quando veem quem amam. Mas não era isso que Langa sentia quando via Reki. Na verdade, era exatamente o oposto. Ele se sentia mais calmo, mais leve, relaxado. Era como se estar com Reki fizesse com que todos os problemas e preocupações que já existiram no mundo desaparecessem. Seu coração se enchia de paz apenas por poder olhar para o ruivo. Sua mente se esvaziava, e em meio a toda a calmaria e à paz que sentia, a única coisa que ele pensava era em como o garoto estava deslumbrante naquela paisagem.

O canadense se deu conta de que estava com um enorme sorriso estampado no rosto. Então, ele também se deu conta de que ainda estava se aproximando de Reki em alta velocidade. O azulado parou bruscamente o skate, por pouco não perdendo o equilíbrio. Foi quando o ruivo percebeu sua presença, e se virou em sua direção, com um olhar de surpresa, que logo foi substituído por um sorriso simpático e sincero, no qual Langa pôde sentir toda a alegria e o afeto de Reki. E os seus olhos cor de âmbar ainda brilhavam, agora com ainda mais intensidade, como se tivesse encontrado algo ainda mais lindo do que o pôr-do-sol que estava observando a pouco.

Reki piscou duas vezes, como se estivesse acordando depois de um sonho. O ruivo se aproximou e os dois fizeram seu clássico cumprimento pessoal, finalizando com o símbolo do infinito.

O ruivo encarou o pôr-do-sol mais uma vez. Langa seguiu seu olhar até o horizonte, onde o sol avermelhado desaparecia.

— Fazia tempo que eu não via um pôr-do-sol assim, cara — Reki transmitia admiração na sua voz. — Quase que eu nem vejo você chegar.

— É uma vista linda mesmo — o azulado observava a paisagem, junto de Reki. — Mas ainda é difícil de acreditar que já estamos em novembro.

Reki deu uma risada baixa, que o azulado achou extremamente fofa.

— Você vai se acostumar a ficar sem a neve, cara. Nem é tão ruim assim!

Langa riu.

Reki apontou para o skate do azulado.

— Hora de consertar essa belezinha! Entra aí.


***


Mesmo já estando acostumado a fazer isso com frequência, Langa ainda ficava um pouco constrangido toda vez que visitava a casa de Reki. Por sorte, a casa parecia estar vazia agora, sem as irmãzinhas ruivas correndo de um canto para o outro.

Os dois garotos foram direto para o quarto do ruivo. Como sempre, estava tudo bem bagunçado. Diversas peças de skate, revistas, ferramentas e vários objetos aleatórios estavam espalhados pelo chão, dificultando a passagem.

Reki se sentou em frente à sua escrivaninha e estendeu os braços na direção do canadense. Langa entregou seu skate para ele, que logo começou a desparafusar os trucks e removê-los.

— Olha — o vermelho explicava —, os trucks estavam bem desgastados mesmo. As rodas também. Acho que esse modelo novo deve durar mais tempo. Mas se você não gostar, depois eu posso voltar pro modelo anterior.

À essa altura, Langa também já deveria estar acostumado com Reki desenvolvendo shapes e trucks personalizados especialmente para o canadense. Mas, mesmo assim, ele sentia seu rosto queimar toda vez.

O azulado ficou observando os detalhes do quarto do ruivo. Mesmo não tendo nada de novo, a bagunça estava diferente a cada vez que Langa entrava ali. Às vezes, parecia que o quarto tinha vida própria.

Enquanto esperava o conserto do skate, o canadense se deixou levar pelos pensamentos e lembranças.

Uma vez, Reki havia comentado sobre um herói que ele via na TV, quando era criança. Ele achava o herói assustador, porque ele perguntava “Qual é a sua felicidade?”. No início, Langa não entendia o que tinha de assustador nisso. Mas, depois de um tempo, ele começou a entender.

Durante toda a sua vida, o azulado soube muito bem qual era a sua felicidade: praticar snowboard com o pai. Mas então, ele perdeu isso.

O garoto ainda sentia uma pontada no coração toda vez que se lembrava da sensação de praticar snowboard sozinho. Ele nunca havia se sentido tão vazio. Era como se todas as maravilhosas emoções e memórias que havia criado com o pai, durante todos aqueles anos, tivessem sido apagadas. Então, quando se sentiu indiferente com a sua maior paixão no mundo, ele teve medo de nunca mais poder sentir aquela paixão de novo. E era assustador não saber mais qual era a sua felicidade.

Pouco tempo depois, sua mãe decidiu se mudar para sua terra natal, Okinawa. Ela achou que as coisas seriam mais fáceis assim. Mas, ao mesmo tempo, ela ficou preocupada com Langa, já que, depois de ter passado por tudo o que passou, ele agora também deixaria tudo que conhecia para se mudar para outro país, totalmente diferente do seu. Langa, por outro lado, estava confuso e desolado demais para se importar com qualquer coisa.

Foi então que, no seu primeiro dia de aula, ele conheceu Reki Kyan. O garoto alegre, de cabelos vermelhos, com aquela bandana, sempre empolgado com tudo. Langa nunca imaginou que aquele garoto se tornaria a pessoa mais importante da sua vida.

Daquele momento em diante, tudo na vida de Langa mudou. Ele aprendeu a andar de skate e se tornou extremamente habilidoso, num prazo de tempo mais curto do que qualquer um já havia conseguido. Ele passou a competir no S, um evento secreto onde apenas os skatistas mais habilidosos de Okinawa, e talvez do mundo, praticavam. Ele fez novos amigos incríveis. Competiu contra Adam, o skatista mais radical que já existiu, e saiu vitorioso. Ele pôde viver experiências que marcaram a sua vida e fizeram o seu coração acelerar, exatamente como ele sonhava poder sentir outra vez.

Mas o mais importante de tudo é que ele pôde se aproximar de Reki. Os dois se tornaram inseparáveis. Quando não estavam andando de skate juntos, estavam montando skates juntos, ou conversando sobre skate. Reki havia o ensinado que o skate era divertido e que, diferentemente do snowboard, ele também era infinito.

Mas a ligação especial que os dois garotos desenvolveram ia muito além do skate. Todo dia, o que motivava Langa a levantar da cama era saber que veria Reki e poderia estar com ele. Agora, Langa havia descoberto uma nova felicidade.

O garoto foi tirado de seus pensamentos quando Reki se virou para ele, com um sorriso no rosto, e o entregou o skate.

— Novinho em folha!

O azulado observou os novos trucks, admirado. Pareciam ainda mais flexíveis que os últimos.

— Mal posso esperar pra testar!

Reki se debruçou sobre a cadeira.

— Bom, o pessoal cancelou o S hoje, mas se quiser a gente pode sair pela rua mesmo. O que você acha?

— Com certeza, Reki!

O vermelho pegou seu skate, que estava encostado no canto da parede, e deu um sorriso energético.

— Então tenta me acompanhar!

E logo saiu em disparada.

Langa levou alguns segundos para processar o que estava acontecendo. Então, disparou atrás de Reki.


***


Depois do torneio de Adam, muitas vezes Reki tentava competir contra Langa, como faziam agora. O ruivo sempre parecia inseguro quando se tratava das suas habilidades e queria de todas as formas poder competir contra Langa e provar que era bom o bastante. O canadense só não sabia se o amigo queria provar isso para ele ou para si mesmo.

Mas, no final das contas, o canadense nunca leva isso tão a sério. Ele só queria se divertir com Reki, e era isso que eles acabavam fazendo. Como sempre, tudo o que importava era que os dois se divertissem juntos.

Enquanto andavam de skate, os dois acabaram perdendo a noção do tempo. A lua já estava visível no céu e as luzes noturnas já iluminavam a cidade. Como sempre, o tempo voava quando estavam juntos.

Os dois seguiram por rumos aleatórios, enquanto faziam várias manobras e tentavam ultrapassar um ao outro. Langa sentia seu coração bater mais rápido quando andava de skate com Reki. Era uma sensação incrível, não apenas de adrenalina, mas também de paz e alegria, por poderem estar se divertindo juntos.

No meio da rua, o canadense avistou um tipo de rampa. Ele acelerou em direção a ela e, sem qualquer aviso prévio, saltou dela.

Por um breve instante, foi como se o tempo tivesse parado.

Reki já havia se acostumado a ver Langa todos os dias. Mas naquele momento em especial, enquanto o canadense pairava no ar, ele não pôde deixar de notar como seus cabelos e olhos azulados ficavam ainda mais cristalinos e belos quando eram iluminados pela luz da lua acima dele. Enquanto admirava a visão majestosa, o ruivo sentiu suas bochechas corarem. Mesmo depois de Langa voltar ao chão e continuar avançando à sua frente, ele não pode parar de admirá-lo, maravilhado.

Reki sempre foi um garoto solitário. Bem, ele sempre esteve rodeado de pessoas, principalmente em sua casa, mas nunca teve muitos amigos. Na verdade, ele só teve um único amigo de verdade antes, aquele que o ensinou a andar de skate. Mas desde que aconteceu o acidente e eles pararam de se falar, Reki nunca mais havia se aproximado de ninguém. Ele era sozinho, mas não se importava, pois sempre estava ocupado demais com o skate para se preocupar com isso.

Então, Langa apareceu e tudo na sua vida mudou. Ele nunca seria capaz de imaginar que o estrangeiro esquisito, que nem soube se apresentar no primeiro dia de aula, acabaria se tornando a pessoa mais importante da sua vida. O ruivo nunca havia se dado conta do quão solitário era até os dois se aproximarem. Graças ao azulado, ele também fez novos amigos e se aproximou mais até mesmo das suas irmãs, e começou a ensiná-las a andar de skate também. Agora, tudo tinha muito mais alegria e, por mais inimaginável que fosse, até mesmo o skate conseguiu se tornar ainda mais divertido do que já era.

Ele nunca poderia esquecer da sensação de ver Langa praticamente voando na sua primeira corrida no S, como se flocos de neve e todo o frio invernal do Canadá acompanhassem o azulado como magia, assim como acabara de acontecer. Ele nunca poderia se esquecer de como foi ver Langa dando o seu primeiro ollie e de como ele estava lindo enquanto seus cabelos e seus olhos cristalinos eram iluminados pelo sol poente, junto com o sorriso mais espontâneo e belo que Reki já havia visto. Ele também nunca iria se esquecer da felicidade do canadense ao ver o primeiro skate que Reki fez só para ele, assim como nunca iria se esquecer de como ele o abraçou quando venceu a corrida contra Adam, derrubando os dois no chão. Só de lembrar disso, seu rosto ficava ainda mais vermelho do que os seus próprios cabelos.

Reki não tinha dúvidas de que amava Langa. Ele nunca havia se apaixonado por ninguém antes, nem por garotas e muito menos por garotos. Ele nunca havia se importado com isso na verdade, já que, como sempre, estava ocupado demais com o skate para pensar em qualquer coisa do tipo. Ele ainda não entendia tudo isso muito bem, e sua mente ficava um turbilhão quando tentava pensar a respeito disso. Mas quando estava com o canadense, era como se todas essas preocupações simplesmente desaparecessem e o mundo ficasse em paz absoluta.

Ele nunca havia sentido isso antes e amava esse novo sentimento. Langa era a coisa mais preciosa que já havia passado pela vida de Reki e ele não queria perdê-lo jamais. Por outro lado, Reki tinha medo demais para assumir esses sentimentos. Ele não fazia a menor ideia de como o azulado iria reagir se soubesse e nunca poderia colocar em risco a amizade dos dois.

Muitas coisas aconteceram nos últimos meses. O torneio, toda a preocupação com Adam… Quando se lembrava dessas coisas, ele ainda se sentia desconfortável e inseguro. E, por vezes, ver o quão bom Langa se tornou no skate ainda fazia Reki se sentir mal por ver como eles eram distantes nesse aspecto. Mas, ainda assim, lá estava o canadense, sempre com um sorriso bobo no rosto, estando ao lado do ruivo em todos os momentos. Ele não poderia se sentir mais grato por isso.

Tudo o que Reki sabia é que, por mais que estivesse em uma confusão de sentimentos, o que realmente importava era estar ali com Langa. Eles eram melhores amigos afinal. E para ele, isso já bastava para colocar um sorriso no seu rosto.

O vermelho estava tão distraído com os próprios pensamentos que nem estava prestando atenção na rua por onde andava. Ele foi trazido à realidade repentinamente, quando as rodas do seu skate bateram em alguma coisa e ele se desequilibrou, se esborrachando de cara no chão.

— Mas que merda!

— Reki! — Langa, preocupado, saiu de cima de seu skate e veio correndo em sua direção — O que aconteceu?

O ruivo ficou um pouco envergonhado.

— Eu tava distraído e acabei batendo em alguma coisa… ai! — seu corpo doía enquanto tentava levantar sem sucesso.

— Eu te ajudo — o canadense se prontificou, com um tom de voz extremamente reconfortante.

Ele estendeu sua mão para Reki e o ajudou a ficar em pé. Suas mãos eram confortavelmente quentes, em contraste com o ar frio da noite. O ruivo ainda ficava surpreso, e também constrangido, em ver como o amigo era cuidadoso e atencioso quando essas coisas aconteciam, o que, por sinal, era quase sempre.

— Valeu, mano — Reki colocou sua mão na nuca, como sempre fazia em situações assim.

— Não foi nada… — o azulado fez uma expressão de surpresa, quase pânico — Suas mãos estão sangrando.

O vermelho olhou para as próprias mãos e viu que era verdade. Ele havia levado alguns cortes e arranhões nela. Nada que não estivesse acostumado, porém, ele sabia que para Langa, sangue era algo de outro mundo. O canadense respirou fundo, tentando se controlar, e colocou a mão no bolso, tirando alguns Band-Aids dele.

— Que bom que eu sempre trago isso comigo!

Reki não pôde deixar de rir, ou melhor, gargalhar, com a situação.

— Ai, Langa… — ele tentava falar enquanto tentava parar de rir e recuperar o fôlego — Como você é dramático, cara! Você tem que melhorar isso aí, bebê!

— Eu só me preocupo com você, Reki.

Houve um momento de silêncio. Por mais que isso soasse um tanto constrangedor, era algo do tipo que o azulado dizia o tempo todo. Ainda assim, os dois ficaram corados com aquilo, o que pelo menos para Reki era comum, embora todas as vezes ele se esforçasse para esconder.

O canadense segurou a mão do ruivo e, delicadamente, colocou os curativos sobre seus machucados. Suas mãos eram firmes, mas ao mesmo tempo macias, e seus movimentos eram cuidadosos. Reki se sentia muito bem com isso. Ele amava como Langa se preocupava e fazia questão de demonstrar isso.

Por fim, o azulado terminou. Então, ambos, que estavam olhando atentamente para suas mãos, levantaram os olhares, que se encontraram de repente. Por um instante, foi novamente como se o mundo ao redor deles tivesse parado.

Mais uma vez, o ruivo não pôde deixar de admirar como os olhos de Langa brilhavam como a lua e como seu rosto parecia uma obra de arte belíssima, em que cada mínimo detalhe havia sido criado com muito cuidado.

Naquele momento, Langa ainda estava segurando as mãos de Reki sobre as suas. Eles estavam tão próximos que era possível que um sentisse a respiração do outro. Em meio ao frio da noite, eles eram dois corpos quentes, que estavam próximos o bastante para sentirem o calor um do outro. Eram como dois imãs, atraídos um pelo outro.

Por uma fração de segundo, o olhar do vermelho desceu dos olhos do azulado para seus lábios. Não era a primeira vez que isso acontecia. Mas agora, mais do que das outras vezes, ele não podia evitar de desejar poder sentir aqueles lábios nos seus.

Por esse breve momento, o canadense também acabou olhando para os lábios do ruivo, que pensou que, talvez, o que sentia realmente pudesse ser recíproco.

Infelizmente, depois de intermináveis segundos de um constrangimento silencioso, Reki desviou o olhar, embora não quisesse realmente fazer isso. O azulado demorou um pouco, mas logo se recompôs.

— Valeu por… bom, por cuidar de mim — o ruivo tentava lutar contra o constrangimento.

O azulado fez menção de responder alguma coisa, mas antes que tivesse a chance, o vermelho emendou apressadamente:

— Bom… Já tá bem tarde. É melhor a gente voltar pra casa… né?

O cérebro de Langa demorou um pouco para processar essas palavras e entender que aquele breve momento à sós tinha chegado ao fim.

— Tem razão, Reki. Vamos lá.


***


O caminho de volta para casa estava silencioso. Vez ou outra, os dois garotos ainda realizavam algumas manobras combinadas, sem precisarem falar nada.

Como sempre, um sentimento de alegria e contentamento preenchia os corações dos dois quando estavam juntos.

Langa sempre olhava para Reki e admirava seus olhos e seu sorriso. Ele não pôde deixar de admirar como os olhos cor de âmbar e os cabelos vermelhos de Reki pareciam ainda mais quentes e cheios de vida quando contrastavam com o luar prateado e a escuridão da noite.

Por fim, Langa deixou Reki em sua casa e eles se despediram com o cumprimento de sempre.

O canadense não pôde deixar de perceber como a noite ficava ainda mais silenciosa sem Reki.

Naquele momento em que estava fazendo os curativos no ruivo, o azulado não pôde deixar de pensar em como queria poder ficar ainda mais próximo dele. Ele amava cuidar do vermelho daquele jeito, pois era o mais íntimo que já conseguira chegar dele. Além disso, era bom retribuir o favor, já que o contrário havia acontecido quando ele estava aprendendo a andar de skate.

O garoto ruivo animado mudou sua vida de um modo que Langa nunca teria sido capaz de imaginar. Cada segundo que passavam juntos, cada risada, cada manobra realizada com sucesso e também cada uma que falhou de forma hilária… ele amava tudo isso.

O vermelho deu um novo sentido à sua vida. Ele se tornou sua nova felicidade. E Langa não trocaria isso por nada.


***


Enquanto voltava para a própria casa, o canadense nem prestava atenção nas ruas. Seu corpo – ou talvez seu skate – apenas seguia automaticamente, enquanto sua mente estava distante. Quando se deu conta, já havia chegado em casa.

Como todas as vezes que passava a madrugada fora, Langa abriu a porta fazendo o mínimo de som possível, para não acordar sua mãe. Mas ele logo viu que as luzes da casa estavam acesas. Ela estava acordada.

Ainda segurando o seu skate, ele seguiu até o quarto de sua mãe, onde a encontrou. Havia várias caixas espalhadas pelo quarto, nas quais Nanako estava mexendo.

— Mãe? — ele chamou delicadamente.

Ela se assustou ao vê-lo. Um pouco constrangida, ela usou as costas da mão para secar uma lágrima que escorria pelo rosto

— Desculpe, querido. Eu nem vi você chegar. Achei que não fosse voltar tão cedo.

Langa ficou um pouco constrangido. Por mais que ele se esforçasse para ser discreto, era óbvio que sua mãe sabia sobre suas saídas noturnas. Mas nenhum dos dois falava abertamente sobre isso.

O garoto percebeu que Nanako estava segurando o que parecia ser uma foto. Ele observou mais atentamente as caixas que estavam espalhadas pelo quarto. Não demorou para que ele reconhecesse aquelas coisas. Ele sentiu um leve aperto em seu coração.

— Essas são as coisas do papai, não são?

Sua mãe suspirou, com pesar. Ela voltou seu olhar para a foto que segurava em sua mão e a entregou para o filho. Era uma das clássicas fotos em família no alto de alguma montanha no Canadá.

— Sabe — ela voltou a rever as fotos —, esse vai ser o nosso primeiro Natal sem o Oliver.

Langa encostou seu skate no canto da parede e se juntou à mãe, revendo as coisas do pai. A cada foto que via, se lembrava mais do quanto seu pai fazia falta.

— Esse também vai ser o seu primeiro Natal aqui no Japão — ela observava as fotos, uma por uma, e em seguida as entregava para o filho. — Nem imagino como isso deve estar sendo para você. Sei que a gente não conversa mais tanto sobre isso.

Langa continuava observando as fotos. A maioria delas eram da família reunida, saindo juntos e se divertindo. E muitas outras eram do garoto praticando Snowboard com o pai.

— Eu sinto muita falta do papai — ele moveu seu olhar das fotos para o seu skate. — Mas eu gosto de estar no Japão. Muitas coisas boas aconteceram desde que a gente veio para cá.

Sua mãe sorriu.

— Isso me deixa muito feliz, querido. Eu achei que seria uma boa oportunidade para recomeçar, mas fiquei preocupada de você não se sentir bem aqui, principalmente por você não poder mais praticar snowboard.

— Faz um pouco de falta. Mas agora eu tenho o skate, que eu amo tanto quanto eu amava o snowboard.

Houve um minuto de silêncio, enquanto eles continuavam observando as fotos. Nanako então pegou uma foto de Langa e Oliver, brincando com suas pranchas na neve.

— Sabe, filho, eu senti muita falta da minha terra natal, principalmente depois que o Oliver se foi. Mas, agora, eu sinto um pouco de falta do Canadá também.

Langa segurou as mãos da mãe, que estavam tremendo um pouco. Ela observou os olhos do filho, que ele tinha herdado do pai. Ela pareceu pensativa por alguns segundos.

— Você não gostaria de voltar para o Canadá?

Langa não pensava nisso há meses. No começo, ele ficava pensando como teria sido se eles tivessem continuado lá. Mas depois de tudo, ele sentia como se não pudesse mais estar em outro lugar.

— Eu gosto de estar aqui.

Ela bagunçou afetivamente o cabelo do filho, com um sorriso acolhedor.

— Ah, eu sinto falta do frio! Mas eu não estou falando de nos mudarmos de novo. Eu gostaria de voltar lá algum dia, para visitar, sabe? — sua expressão ficou um pouco melancólica — Acho que assim eu me sentiria mais perto do Oliver de novo.

Langa abraçou sua mãe. Ela sempre se mostrava forte, mas agora ele conseguia ver o quão abalada ela estava.

Ele sabia que ela também sentia falta de seu pai, mas não imaginava que ela quisesse voltar para o Canadá. E, enquanto pensava nisso, ele sentiu uma pontada no coração. Um incômodo, que ele não sabia ao certo explicar.


***


Depois de conseguir confortar sua mãe e de ver mais algumas fotos, Langa foi para o seu quarto.

Ele pegou o celular e começou a rever algumas fotos e vídeos antigos que tinha do Canadá. Na grande maioria, ele estava praticando snowboard com seu pai.

E, conforme continuava trazendo essas memórias à tona, o incômodo estranho persistia.

O Canadá era seu país natal. Ele conhecia aquele lugar melhor do que jamais poderia pensar em conhecer Okinawa. Durante sua infância e adolescência, ele pôde viver coisas incríveis e construir memórias maravilhosas lá. Mas, depois de tudo o que aconteceu, o Canadá e o snowboard pareciam ser apenas uma lembrança distante de outra vida.

Agora, ele havia construído uma nova vida no Japão e descoberto uma nova felicidade com o skate.

Ele se levantou da cama e começou a revirar algumas coisas antigas. Então, ele encontrou uma caixa, onde guardava seus equipamentos de proteção e a sua prancha de snowboard.

Ele ficou observando aquela prancha. Depois de tantos meses, o snowboard parecia tão estranho agora quanto o skate parecia no começo.

Langa abriu novamente a galeria do celular. Mas, dessa vez, ficou observando as fotos e os vídeos de quando estava aprendendo a andar de skate com Reki.

Ali, ele entendeu o que estava o incomodando.

Sua vida não era mais a mesma, desde que seu pai havia morrido. Langa tentou praticar snowboard sozinho, mas foi a pior sensação do mundo. Naquele dia, ele sentiu que havia perdido o snowboard para sempre.

A verdade é que, no fundo, Langa tinha medo de encarar aquilo que deixou para trás. As coisas não eram mais as mesmas. E ele tinha medo de que, se voltasse para o Canadá, acabasse estragando de vez todas as memórias incríveis que tinha construído por todos esses anos.

Ele sabia que aceitar viajar para o Canadá com sua mãe seria um presente para ela. Mas ele não queria fazer isso.

Ao mesmo tempo, ele sabia que esse era um medo do qual ele não poderia fugir para sempre.

O garoto largou o celular e encostou a prancha de snowboard ao lado do seu skate. Ele se jogou de vez na cama. Olhando para o teto, ele deu um suspiro profundo e perguntou para si mesmo:

— O que eu faço agora?

Notas finais
Obrigado por ler! Me conta nos comentários o que você achou!